Última leitura do ano: Os demônios

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Enquanto eu escrevo isso sinto que deveria estar em qualquer lugar, menos aqui, com o computador no colo, o ar quente que sai dele fazendo a pele da minha perna suar. Mas eu tinha um acordo comigo mesma. Na primeira semana de janeiro de 2016 eu escolhi doze livros que estavam encalhados em casa. Para me incentivar a lê-los nos doze meses seguintes, eu me impus uma resenha no blog para cada uma dessas leituras. Por isso, aqui estou eu, na praia, escrevendo o último texto do ano para o blog.

Primeira resolução de ano novo: escolher um livro fino e com uma história leve para a meta de leitura do mês de dezembro de 2017. Eu não sei onde estava com a cabeça quando decidi que seria uma boa ideia ler Os demônios do Dostoiévski em dezembro. Nos últimos dias carreguei este livro para a praia, para a rede, tentando achar qualquer lugar fresquinho. Enquanto eu suava eu lia sobre neve, frio, umidade e lama entrando nas botas – teria ajudado se calor fosse psicológico, e até acabou dando um pouquinho de aflição, mas não foi o suficiente para me tirar do livro. Se eu tivesse pensado melhor não teria deixado Os demônios para essa época, mas falo isso pelo peso do volume, o da Editora 34 com tradução de Paulo Bezerra, e não pela história.

Porque a história é densa e sedutora. Num piscar de olhos eu estava lá com Nikolai Stavroguin e Piotr Stiepánovitch, que são tão complexos quanto qualquer grande personagem clássico e tão enervantes quanto esses vilões a que a gente se acostuma ao ler ficção de gênero.  A intenção de criar uma história com fins assumidamente panfletários poderia ter atrapalhado meu envolvimento com a trama: poderia ser uma coisa agressiva e focada na política, e com chances de ser pobre esteticamente. Isso não aconteceu, embora eu só tenha conseguido entender o panorama e captar mais ou menos o espírito do tempo e do lugar lá pela página 150.

No centro do romance há um assassinato, que foi inspirado em um caso real em que um grupo niilista matou um antigo membro depois de desentendimentos. Dostoiévski teve que parar tudo o que estava fazendo para recontar o evento em Os demônios. Há um grupo de jovens comprometidos com um movimento revolucionário em que todos são iguais, em que todos podem vigiar, punir e matar. Dostoiévski critica a veemência infantil da juventude, suas certezas fundamentadas em não muito mais do que paixão e falta de experiência. Esses jovens, em um primeiro momento, quando Dostoiévski quer elaborar o quadro político e intelectual da Rússia do século XIX, parecem importantes com suas ideias revolucionárias, mas, depois que cada um é exposto numa visão cruel e ridicularizadora, sobra apenas um bando de garotos mimados, enfastiados, entediados e que precisam mais do que nunca ocupar a cabeça com questões menos abstratas, como o trabalho braçal.

Quando li nesse ano Um outro amor, guardei uma passagem em que Knausgård falava sobre como era fácil que adolescentes se encantassem por Dostoiévski. Para ele o que os atraia ao russo era a força das questões existenciais, mas com uma certa “humilhação e aniquilamento de si próprio”, que seria muito particular de Dostoiévski (principalmente se comparado a Tolstoi que  valorizava um texto com longas descrições de paisagens e interiores). Isso é verdade, tem lá um sentimento que não aparece em outro autor. Mas eu não sei. Não vejo muita gente caindo por esses encantos. Acho que os adolescentes da época de Knausgård até poderiam ler Dostoiévski por esses motivos, mas penso que isso mudou, e o niilismo tão discutido nos livros de Dostoiévski não interessa mais aos jovens. Acho que há muito pragmatismo entre quem está crescendo agora, muita ironia, certo medo de parar e olhar com calma as questões que aparecem na vida de todo mundo, do tipo “Por que levantar da cama?”. Claro, há milhões de memes e piadinhas sobre apatia, vontade de morrer, derrota e fracasso, mas será que isso não fica restrito mesmo a uma coisinha irônica e a um pouco de falsa despretensão? Acho, de verdade, que a história que todo mundo quer ler, repetidas vezes, é a do sucesso, do triunfo, da conquista do mundo pela força da individualidade. Para quem está atrás disso, Os demônios é um balde de água fria.

Quando eu comecei a ler livros mais “sérios”, Dostoiévski ganhava muita atenção nessas listas de leituras obrigatórias. Por isso li Crime e Castigo, e mesmo perdendo todas as metáforas e ideias da história, li com paixão o percurso de Raskólnikov, li como se fosse um romance policial. Isso é a melhor coisa de um livro realmente bom, e talvez essa seja mais uma razão do apelo de Dostoiévski entre corações adolescentes. Se você for novo e inexperiente (ou mesmo velho e inexperiente, o que não é crime) e as complexidades políticas, históricas e filosóficas te escaparem, a trama ainda vai te dar algo a que se agarrar.

Agora, mudando muito de assunto: eu tenho aqui no blog uns poucos leitores bem assíduos, que nunca se manifestam mas estão sempre na minha cabeça. Especialmente para vocês, e acidentalmente para quem chegar por acaso, eu desejo um ótimo 2017. Não é nada, não é nada, mas é um novo janeiro. Quando o calor dá uma trégua, ou quando a gente toma um sorvete, os dias ficam muito bonitos.

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Filho das Sombras

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Capa linda, não?

Filho das Sombras é o segundo volume da série Sevenwaters, da autora neozelandesa Juliet Marillier. O livro foi lançado no Brasil em 2013 e, já que ele não é novo, eu me sinto livre pra soltar spoiler atrás de spoiler. Então, se você odeia textos com revelações de passagens importantíssimas de uma história, é melhor parar por aqui. Em Filha da Floresta, o primeiro da série, Sorcha foi a protagonista destemida e forte que fez de tudo para restabelecer uma certa normalidade na vida dos irmãos. Ela se apaixonou por um forasteiro e mesmo com algumas tristezas, o resultado foi um “e viveram felizes para sempre”.

Filho das Sombras chega para arrebentar o “felizes”, o “para sempre” e até o “viveram”. Sorcha está morrendo. A menina forte e destemida que ela era já não existe mais. Mesmo que ainda tenha muita força interior, a doença a destruiu fisicamente. Quem a acompanhou jovem e lutadora no começo da jornada vai encontrá-la definhando por páginas e páginas em Filho das Sombras. Para eu me reconfortar, precisei me lembrar constantemente de que a Sorcha de Filha da Floresta vai continuar intacta naquele primeiro livro, de que é só abri-lo de novo para reviver tudo, e de que aqui, quem interessa é sua filha mais nova, Liadan. Quando uma série usa esse tipo de sequência, não é raro que eu me frustre. Foi o que aconteceu, mas o prejuízo não foi completo.

Diferentemente da mãe, Liadan não precisará fazer uma aventura por florestas, rios, montanhas e lagos para salvar quem ela ama. Sua jornada é mais ou menos pessoal, meio que uma viagem interior. Ela vive como a mãe viveu antes de os problemas aparecerem: é feliz com a família, uma família dona de muitas terras, que acima de tudo respeita as antigas tradições que precedem o cristianismo. A mitologia irlandesa permeia a série Sevenwaters, e é através dela que toda a história cria vida.

Mas uma jornada pessoal continua sendo uma jornada. Ou seja: Liadan não tem a vida fácil. Os problemas surgem: a irmã mais velha se apaixona por quem não pode se apaixonar; assassinos frios matam soldados que são aliados de sua família; a mãe está morrendo; um cara quer casar com ela, enquanto ela só quer continuar vivendo em casa com suas coisinhas; o mal de que os druidas e os antigos falam está chegando, e só o Filho das Sombras poderá impedi-lo.

Ainda no início do livro, Liadan se encontra em apuros. Ela é capturada pelo bando de assassinos frios (sinto uma vontade imensa de completar “frios” com “e calculistas”, mas não acho que eles sejam calculistas) e em pouco tempo descobre que sim, eles podem ser matadores mercenários, mas que eles também têm coração e não são tão terríveis como parecem ser. O líder do bando é Bran, o mocinho que não tem o menor jeito para um mocinho – o que, no fim das contas, é o tipo de mocinho mais popular que há. Bran é mau, ruim com Liadan, e a princípio não facilita para a gente gostar dele. Mas, no breve tempo que a heroína passa com eles, ela descobre que o rapaz é daquele jeito porque sofreu muito na infância. Eles se apaixonam e ela volta para casa grávida e sozinha porque nem tudo são flores: Bran descobriu quem são os pais dela e agora os culpa por uns problemas do passado.

Mas não pense em grandes reviravoltas. Liadan passa a maior parte do tempo confortavelmente dentro de casa. Filho das Sombras é um livro relativamente calmo para um romance de fantasia. Por boa parte do tempo Liadan está com a família, há muita tensão no ar e acontecem umas coisas tristes, mas não há grandes eventos de ação. Por isso a jornada da protagonista – e o livro em si, por consequência – parece ser mais introspectiva. Ela pensa muito, ela sente muito e, principalmente: ela vê o que não quer ver. Liadan consegue prever alguns acontecimentos, ela tem um poder interior forte, um tipo de poder mental que não resolve as coisas a socos, pontapés ou na ponta da espada.  Isso é uma jornada especial.

Filha da Floresta foi um romance surpreendente, porque ao contrário dos outros livros de fantasia que eu li, nele eu senti uma certa austeridade no tom. Para o gênero, isso poderia ser um defeito. Com Marillier, essa é a maior graça numa história tão imaginativa. Por isso, o primeiro volume era como um livro de fantasia para adultos. Em Filho das Sombras, apesar da calmaria e do ensimesmamento, minha maior impressão é de que o tom mudou. Em vários momentos, mesmo que o estilo fosse o mesmo, senti um ar de aventura mais juvenil. Como no primeiro livro, a trama aqui continua sendo das mais instigantes, mas a série perdeu um pouco da originalidade.

Filho das Sombras não é tão bom quanto Filha da Floresta, mas isso quer dizer que ele segue sendo melhor do que a imensa maioria dos livros de fantasia. Eu tenho inveja de quem ainda vai começar a ler essa série.

Como Outlander entrou na minha vida

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Ainda falta muito para completar a série

Se alguém me perguntasse por que eu gosto de ler, uma resposta simples seria pensar em Outlander, de Diana Gabaldon, e na empolgação quase infantil que eu sinto em saber que ainda tenho muitos livros da série pela frente. Fui apresentada a esse universo em 2013, pelo meu marido. Não era o tipo de leitura dele, mas ele percebeu que eu poderia gostar e me chamou a atenção. As capas não eram das mais atraentes, mas quando eu bati o olho eu sabia que era grande a chance de aquela série virar queridinha no meu coração. Na época a Rocco tinha desistido de seguir publicando os livros de Gabaldon, um e outro volume apareciam em sebos, e a escassez fez os preços irem bem além do razoável. Felizmente encontrei no Skoob uma alma caridosa e desapegada querendo se desfazer d‘A viajante do tempo, o primeiro de todos.

No mesmo ano Outlander virou série de tevê. A editora Saída de Emergência (que eu acabei de descobrir que passou todo seu catálogo para a Arqueiro, no que eu imagino que não vá fazer diferença porque as duas fazem parte do grupo Sextante) aproveitou o embalo e começou a publicar edições lindas – em comparação com as antigas – que me irritaram profundamente porque eu tinha acabado de conseguir com muita dificuldade o primeiro livro com a capa da Rocco. O que fazer? Esquecer o velho e começar uma coleção do zero? Não é do meu feitio. Por obra do destino eu consegui o segundo volume da Rocco, A libélula no âmbar, mas depois disso a minha sorte acabou. Eu não tinha como conseguir a sequência inteira nas edições antigas. Deixei para lá e achei O resgate no mar com a capa da Saída de Emergência. E assim decidi ir até o fim, embaralhando as capas das duas edições brasileiras. As da Rocco podem não ser as mais bonitas, mas a edição é caprichada e resistente, coisa que eu não senti com os livros bonitinhos da Saída de Emergência.

Vencida a questão, digamos, logística, em 2014 eu li A viajante do tempo e me apaixonei por Jamie e Claire. Não consegui ler imediatamente A libélula no âmbar, porque Outlander mexe pesadamente nas minhas emoções. Eu precisava de um tempo, mas relaxei e quando eu vi 2015 havia passado sem que eu encostasse no segundo livro. Pois bem. Essa é a história de Outlander aqui em casa. Daí você pode perceber como era importante colocar A libélula no âmbar na minha meta de leitura para 2016. Não era justo que uma série tão especial passasse mais tempo em pausa.

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Outlander meio que preenche uma fresta no meu prazer de leitora. Eu tenho inveja de quem lê, por exemplo, As crônicas de gelo e fogo. Os livros são imensos e eu sei que passar tanto tempo dentro de um universo é uma das melhores sensações que um leitor pode ter. Mas eu já dei uma chance ao George R.R. Martin e não nos entendemos bem. Outlander chegou trazendo aquilo que me faltava: uma história cativante em livros colossais que não acabam nunca. Diana Gabaldon é formada em zoologia com PhD em ecologia, e o envolvimento dela com o meio natural é evidente em cada página de Outlander. Isso empresta raríssima riqueza ao universo. O cenário é a Escócia do século XVIII. A história de uma mulher com a sabedoria do século XX viajando no tempo e vivendo 200 anos antes de sua época poderia se mostrar repleta de inconsistências e improvisos, mas Gabaldon tem as artimanhas. Claire, que era uma enfermeira comum na década de 1940 e havia servido na Segunda Guerra, no século XVIII vira a maior conhecedora de plantas, raízes e remédios antigos. Nunca me senti tão imersa em uma história. Além da construção desse universo, Diana Gabaldon não tenta nos enganar com uma trama inconsistente. Além de muita pesquisa e do panorama histórico da Escócia, e mais do que o cotidiano de pessoas comuns vivendo no século XVIII, ela não deixa de lado a aventura e o relacionamento amoroso. O casal importa, as vidas deles são quase palpáveis, a trama é de angustiar e as muitas páginas correm de um jeito que eu nem sentia o tempo passando.

Em uma passagem d’A libélula no âmbar, Claire e Jamie estão procurando piolhos um no outro depois de muitos dias na estrada. A cena é ao mesmo tempo romântica, realista e ilustrativa da incondicionalidade do amor dos dois. Não consigo imaginá-la em outro livro de fantasia romântica. Esse é um dos poderes de Diana Gabaldon: estabelecer cenas e personagens que fogem do ordinário para esse gênero, e que ainda assim conseguem transmitir todos os sentimentos que não podem faltar.

Terminei o segundo livro agora e fiquei tão embevecida que não me contive. Tive que rodar a internet em busca de spoilers. Quando eu gosto muito de alguma coisa não consigo me segurar. Eu investiguei por cima e agora já sei o que acontece com Claire e Jamie em todos os livros publicados no Brasil. Quem não quiser spoilers da série inteira, fica o aviso: o texto acaba aqui, foi boa a sua companhia, se você ainda não começou Outlander não perca mais tempo.

Para quem ficou eu digo que depois de sofrer com a Claire e com o Jamie, sei que eles vão ficar vinte anos separados, vão se reencontrar e Jamie vai estar casado com outra mulher. Eles vão conseguir se unir depois de muita dificuldade, mas outros problemas surgirão, e dessa vez durante a revolução americana – todo um continente novo para Gabaldon esquadrinhar. Quando penso em tudo que ainda vou ler e viver com esse casal eu sinto um frio na barriga. Parece que tenho novamente catorze anos, e sinto o mesmo afeto que eu sentia pelos livros lidos naquela época, quando tudo era novidade. Vou precisar me organizar para conseguir ler pelo menos o próximo volume nos próximos meses, porque não vou poder ficar mais um ano distante de Jamie, Claire e Diana Gabaldon.

Z, a cidade perdida

 

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O coronel Percy Fawcett é um daqueles personagens míticos que povoam histórias de aventura. Um explorador ousado e corajoso, com muitos feitos no currículo, sua maior proeza foi ter sido, como ele mesmo dizia, “consagrado com um porte físico perfeito”. A melhor parte de tudo isso é que ele não precisou ser inventado: Fawcett nasceu na Inglaterra e viveu no início do século XX, deixando um bom rastro de informações que o jornalista David Grann perseguiu e registrou em seu livro: Z, a cidade perdida.

O livro foi lançado no Brasil em 2009, onze anos depois de, por exemplo, Na natureza selvagem de Jon Krakauer. Os dois livros-reportagem falam de pessoas que atravessam a natureza em uma busca maníaca por algo impalpável, mas diferente do livro de Krakauer, que fez um sucesso tremendo, de Z, a cidade perdida se falou muito pouco. Com uma capa linda e com uma história hipnotizante é difícil entender por que isso aconteceu. Admito que o livro ficou parado aqui em casa por anos, e se não fosse minha meta de leitura eu não teria chegado a ele tão cedo. Mas é para isso que metas de leituras existem, não? Para fazer a fila que está parada há anos finalmente andar e a gente se surpreender com livros ótimos.

A cidade perdida de Z foi nomeada assim por Percy Fawcett depois de algumas aventuras pela Amazônia. Ele acreditava estar nos rastros de uma civilização desaparecida na selva, e a essa busca dedicou sua vida. O que Fawcett quer encontrar em Z se assemelha a um Eldorado, um lugar cheio de riquezas e oportunidades na América do Sul, o oposto da Inglaterra do começo do século XX. Pensando assim não parece tão disparatada  a ideia de  um explorador querer ser o primeiro a encontrar uma cidade perdida, se embrenhando em lugares perigosos e inóspitos, porque a recompensa seria muito grande, e a vida andava difícil.

Em Z David Grann não deixa de contar um lado menos romântico de uma vida de aventuras. Com uma família para sustentar, Percy Fawcett estava sempre na miséria. A pobreza dos Fawcett era desesperadora e começou por causa das expedições. Ao mesmo tempo, a esperança de uma grande descoberta era também a esperança de tirar a família da miséria. Então surgiu Z.

Um dos nomes mais conhecidos em sua época, Fawcett se tornou famoso por ser o explorador que conseguia superar as grandes adversidades das florestas da América do Sul, onde os maiores inimigos dos humanos não eram predadores famintos mas insetos transmissores de graves doenças. A fama surgiu quando muitas expedições não voltavam ou quando seus integrantes retornavam doentes e à beira da morte. No meio deles, Fawcett parecia ter o corpo fechado. Ninguém melhor que ele para encarar os maiores desafios. Pesquisando referências antigas, Fawcett achou as anotações de um bandeirante que encontrara artefatos valiosos e complexos no meio da Amazônia. Assim foi lançada a semente da obsessão de Fawcett. Em 1925, aos 58 anos, com seu filho Jack e o amigo dele, Raleigh Rimmell, o explorador inglês pegou um navio em direção ao Brasil.

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É nessa hora que David Grann conta a história de uma outra obsessão: a do público pelo paradeiro de Fawcett. Afinal, o homem se perdeu enquanto procurava a cidade perdida. Grann retraça diversas teorias e ouve várias fontes a respeito do suposto destino final de Fawcett. Mas os muitos anos não trouxeram respostas concretas. Em 1926 Fawcett foi visto oficialmente pela última vez, já embrenhado na floresta, e o resto virou lenda. Z, a cidade perdida trata também dessa lenda. Até para que Fawcett pudesse arrecadar dinheiro para a expedição, já antes da partida houve furor exacerbado: era uma época em que o “exotismo” das Américas fascinava a imaginação europeia. Quando os três exploradores sumiram na floresta onde muitas tribos sequer tinham contato com o homem branco, especulou-se de tudo: o inglês havia encontrado a cidade perdida e decidira não sair de lá, os índios haviam-no matado, ele havia se apaixonado por uma  índia e construído família brasileira, ele morreu de fome ou de picada de mosquitos.

Um mérito de Grann é jogar um pouco de realismo sobre mais de oitenta anos de incertezas. Fawcett, nas inúmeras viagens que fez pela América do Sul, fez contato com várias tribos indígenas. Para começar qualquer contato, o inglês chegava desarmado e com as mãos para cima. Fawcett acreditava que essa abordagem – suicida para alguns, como relata Grann – era a melhor forma de conseguir a amizade dos índios. Assim ele se virou por anos. A hipótese tratada com mais ênfase em Z, a cidade perdida é a de que, numa terra com leis que Fawcett compreendia de forma rudimentar, uma hora a sorte dele acabou.

A obsessão de Fawcett por Z e a obsessão das pessoas por Fawcett é compreensível. Diante da falta de resposta, somos capazes de imaginar e supor as situações mais fantasiosas. Teóricos da conspiração e caçadores de OVNIS são prova disso. Por que seria diferente com uma cidade perdida? Como não sonhar com uma Machu Picchu no meio da Floresta Amazônica, com tesouros e estruturas que mostram que uma sociedade altamente desenvolvida viveu ali muito antes de os europeus desembarcarem? Mas o grande mérito de David Grann é levar Z a sério. Fawcett pode nunca ter achado seu Eldorado porque se convenceu de que uma sociedade complexa, ali no meio do mato, só poderia surgir de ancestrais europeus e se desenvolver de formas parecidas com aquelas que ele havia estudado e sob as quais havia crescido.

A reviravolta fascinante que Grann oferece em Z, ouvindo especialistas e consultando a literatura científica que trata das sociedades amazônicas, mostra que os índios que ali viveram antes da chegada dos europeus formaram, de fato, uma sociedade desenvolvida e complexa, com pequenas pontes e estradas, diferente do que boa parte das ciências humanas imaginou durante o século XX. Z estava lá, mas Fawcett não conseguiria encontrá-la. Povos amazônicos construíram grandes estruturas no meio da mata, mas o que havia de grandioso nelas era a forma como ajudavam o ser humano a sobreviver num ambiente hostil como o da floresta. Seus materiais não eram o ouro e a prata, que Fawcett esperava encontrar, mas palha, barro e matéria orgânica. O tempo e a mortandade ocasionada pela chegada do europeu levaram quase tudo.

Z existiu, talvez não com a opulência que Fawcett desejava, mas os rastros ainda estão na Amazônia para provar que uma civilização existiu e quase foi extinta, mas ainda sobrevive em um pequeno número de descendentes. David Grnan esteve entre eles quando visitou o Brasil para escrever seu livro. “Havia mil anos que os xinguanos mantinham as tradições artísticas e culturais daquela civilização avançada e altamente estruturada”, ele afirma em uma das passagens finais de Z.

Um filme baseado no livro-reportagem, com produção de Brad Pitt, está para ser lançado e eu torço para que, na esteira do sucesso dele, mais pessoas encontrem esse livro excelente. Mais do que a história de um explorador inglês obcecado por uma cidade perdida, o livro trata de um povo que demorou muito tempo a ser descoberto em seus próprios termos.

Um outro amor

 

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Em Um Outro Amor, Karl Ove Knausgård continua ranzinza, mas aconteceu uma mágica. Não foi amor à primeira vista. Se o primeiro livro eu atravessei me arrastando (e acho que boa parte da culpa foi minha por alguma má vontade e pouco tempo), o segundo foi um verdadeiro encontro. No começo deste ano, vendo Um Outro Amor encostado na estante, eu pensei que só teria a empolgação de lê-lo se o enfiasse na minha meta de leitura, junto com outros livros que estavam aqui em casa pegando pó desde sempre. Foi a melhor decisão de 2016 (pois é, pra você ver como eu tô mal de decisões acertadas). Finalmente, a resmungona dentro de mim se identificou com o Knausgård resmungão.

Como talvez todo mundo saiba, na série Minha Luta Knausgård abriu a vida e contou tudo o que se passa com ele e com a esposa, os filhos, os pais, os amigos, o irmão. Metade daquilo é invenção? Não sei, pode ser que sim. Se ele não se equipou de muitos diários ao longo da vida acho que só restaria apelar para a imaginação. Quem poderia relembrar, de cabeça, diálogos de anos atrás? Só que no fim das contas, pouco importa se ele inventou um pouco, se ele nada inventou ou se ele inventou tudo.

Nesse segundo livro, Knausgård se concentra no princípio de seus trinta anos, em sua chegada a Estocolmo e no começo do relacionamento com Linda, a mulher com quem ele casou. Acho que esse é o outro amor a que o título se refere. Eu não pude me identificar muito com narrador do primeiro livro, com o interesse dele pelo pai e com os  dramas que ele vivia. Aquilo era um romance de formação. Em Um Outro Amor o momento é outro. Knausgård reflete sobre os nascimentos dos filhos, o começo da ideia dos livros autobiográficos, as diferenças entre o que ele quer fazer e o que consegue, e tudo isso me tocou mais de perto. Ele é um sujeito obcecado com as coisinhas mais insignificantes do dia a dia, e até aqui eu tenho a impressão de que ele consegue ver significado naquilo que parece bobagem aos olhos de todo o mundo. Tudo isso já foi dito a respeito de Knausgård, e já dava para notar no primeiro volume. A novidade, para mim, foi que eu não conseguia parar de pensar em três comediantes enquanto lia Um Outro Amor: às vezes Jerry Seinfeld, mas principalmente Larry David e Louis C.K.

É que eu acho que – pelo menos de longe –  a chatice é uma espécie de qualidade subestimada. Assim como os comediantes que eu citei, Karl Ove Knausgård se irrita com muita coisa e detesta as pessoas com a mesma intensidade com que se sente deslocado. Tudo é um parto. Quando ele se recusa a aceitar facilmente pequenas regras não ditas, minha vontade é cumprimentá-lo, tipo “Concordo inteiramente, toca aqui”. Em uma festinha de criança, ele narra a aventura que é interagir com pessoas com quem ele não tem nenhuma ligação ou afinidade, tudo em nome da educação e dos bons modos. É o mesmo percurso tortuoso de um “você já reparou nisso?” ou “vocês já perceberam que tal coisa?” – aquilo que é matéria para stand up comedy. Só que, assim como acontece com Larry David e Louis C.K., o assunto fica mais sombrio e tem horas que viver parece inútil, impossível ou insuportável.

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Linda, a mulher de Knausgård, é a personificação da pessoa limitadora, ou pelo menos é assim que ele a vê. Ele a ama e a odeia com a mesma intensidade, ele se sente emasculado e de mãos atadas. Linda é a presença que transforma o mundo. Se no primeiro livro a infância ao redor de um pai ditatorial é o tema central, no segundo livro a libertação  como adulto está no centro, especialmente quando uma mulher e uma família parecem restringi-lo. Aí Knausgård reclama, desaprova, se irrita; seu bloqueio para escrever parece eterno. As desilusões e incertezas dos trinta anos ganham graça pela voz dele. Imagino que não tenham sido muitas pessoas que riram com as situações contadas por ele, mas como uma verdadeira chata eu me empolguei e ri muito com suas descrições de pessoas e lugares. Depois de falar alguma coisa ou dar uma opinião, é normal que Knausgård descreva a reação de seu interlocutor como um sorriso e nada mais. Apenas um sorriso, como se a pessoa quisesse esganá-lo. É por Knausgård agir nesses vãos do que é socialmente aceitável que eu o cataloguei, na minha cabeça, mais perto daqueles comediantes do que de qualquer outro escritor que eu conheça.

Não é sempre que me deparo com um livro que me faz querer sublinhar trechos inteiros e compartilhá-los com quem estiver perto. Meu exemplar de Um outro amor está todo riscado. Eu me reconheci em muitas coisas ditas por Knausgård. Ele me parece a pessoa mais sincera do mundo. Se ele não fosse sincero não teríamos esses livros, em que ele conta detalhadamente coisas das quais todo mundo quer fugir,  e expõe pessoas queridas – mas nunca tão queridas a ponto de ele decidir poupá-las. É uma galeria que tem a sogra, que parece estar bebendo escondida enquanto cuida da neta; a esposa que surta por ciúme até da própria sogra; e especialmente ele, Karl Ove Knausgård, que nunca é poupado. Não é todo mundo que gosta de se ver nos olhos dos outros, mas ele tem essa coragem. Ele consegue ser cruel, quase nunca condescendente.

Uma sinceridade desse tamanho acaba soando rude, e isso causa um efeito. O jeito de contar é descomplicado e pode parecer sem artifício. Claro que não é, e esse é o grande mérito do norueguês. A impressão de que ele cavou fundo enquanto “papeava” é grande. Eu não sei se ele tem consciência de quão engraçado – ou, digamos, tragicômico – esse mergulho íntimo pode ser.

As sombras de Longbourn

A que uma criada do início do século XIX poderia aspirar, além de uma cama para descansar o corpo e comida para ficar de pé? Sarah, uma das personagens de As sombras de Longbourn, de Jo Baker, resolveu desejar mais.

A edição linda é da Companhia das Letras, com tradução de Donaldson M. Garschagen. Fiquei apaixonada pela capa antes mesmo de saber do que o livro tratava. E a lombada é perfeita: adoro olhar para ela na estante, dá um prazer que só um sério fetichista de livro vai entender.

Depois que eu soube um pouco mais da história foi aquele pensamento de sempre quando o assunto é Jane Austen: preciso desse livro. A trama é bem simples. As sombras de Longbourn se passa durante os eventos de Orgulho e Preconceito, mas aqui os protagonistas são os criados, e os acontecimentos com a família Bennet ficam apenas como pano de fundo. Sarah é criada em Longbourn, na propriedade dos Bennet, e junto com Polly, uma menina de uns doze anos, trabalha pesado para deixar a casa em ordem. Desde engomar as roupas da casa com o ferro que machuca toda a mão, passando por tirar a banha do porco para virar sabão, até lavar as peças íntimas das meninas Bennet quando estão no período menstrual. Isso e muitas outras atividades que parecem punição nos dias de hoje eram as tarefas das duas meninas. Fora Sarah e Polly, a família Bennet contava com os Hill, um casal de velhos criados. A senhora Hill fazia vezes de governanta e cozinheira, e o senhor Hill, de tão velho fazia os serviços mais amenos, como receber as visitas.

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Estamos no mesmo ponto de partida de Orgulho e Preconceito, com a chegada dos riquíssimos Bingley. Para os criados da casa a chegada do Sr. Bingley e do Sr. Darcy não traz mudanças grandes no cotidiano, além de uma ou outra tarefa adicional. Como estamos acompanhando os empregados, é a chegada de James Smith como o quinto criado que muda tudo, principalmente para Sarah.

Ela sempre sonhou com mais do que trabalhar dezoito horas por dia. Órfã desde sempre, trabalhou desde os sete ou nove anos para os Bennet, e nunca viu um mundo mais amplo do que aquele que vai da cozinha ao vilarejo. James Smith é um jovem que parece ter vivido muito. Em Sarah, ele primeiro desperta um ressentimento, depois admiração e, por fim, o amor.

Assim como Elizabeth e o Sr. Darcy, Sarah e James vão precisar passar por cima de alguns desentendimentos para dar corpo a esse amor. É marcante como Jo Baker estabeleceu semelhanças em vários pontos fundamentais da história, só para com outros distanciar inteiramente os destinos dos criados e dos Bennet.

Logo no início, o Sr. Bingley, o bom partido, precisa mandar um recado para Jane, a filha mais bonita dos Bennet. Jane vai recebê-lo e vai enviar uma resposta. Em Orgulho e Preconceito só precisamos saber disso, porque é tudo o que importa. Os bilhetes são enviados, as carruagens são aprontadas, as refeições são elaboradas, a grama é cortada. Mesmo que os Bennet não estejam no topo da hierarquia social, eles vivem bem o bastante para que suas filhas não precisem fazer o que fazem Sarah, Polly, James e os Hill. Já em As sombras de Longbourn, Sarah recebe o lacaio dos Bingley, e enquanto ele espera a resposta de Jane, os dois se conhecem mais e mais, distantes dos olhos dos patrões.

Mas o lacaio dos Bingley é uma distração. Em certo momento, Sarah se encanta por ele, e James Smith é visto como um homem arrogante que conhece mais do mundo do que ela, assim como, em certo momento de Orgulho e Preconceito, Elizabeth se encanta pelo Sr. Wickham e rejeita Darcy. Dessa maneira, Jo Baker vai elaborando esses pontos de contato e de afastamento para delinear uma história conhecida: a de como um lugar diferente na escala social é capaz de afastar completamente pessoas que, a princípio, têm as mesmas angústias, aspirações e sentimentos.

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Admito que no início, me incomodou essa crítica tão mordaz àquele que talvez seja o livro mais conhecido de Jane Austen. Orgulho e Preconceito é um texto extraordinário de uma época difícil, e é até um lugar comum repetir que Austen, mesmo se atendo a um universo de intrigas domésticas e problemas amorosos, investigou de perto, e com ironia e graça, as relações sociais na Inglaterra do começo do século XIX. Suas personagens buscam o amor de forma não conformista, e com frequência procuram se distanciar do aparato social previsto para elas. Tudo, claro, dentro de certos limites: não é que Elizabeth Bennet não queria casar, é que ela quer casar por amor e não por conveniência.

Por isso, eu além de guardar Austen no coração, a tenho como inconformista o bastante para uma época e um lugar muito distantes. Acreditando nisso, fiquei incomodada ao começar As sombras de Longbourn: me perturbou que alguém do século XXI viesse escrever um livro jogando nova luz sobre personagens tão queridos, afinal, é sempre um pouco arbitrário ver os problemas de um autor antigo à luz de pressupostos morais e éticos de agora. Mas quanto mais eu avançava na história de Jo Baker, mais eu entendia que o livro não é tanto uma crítica ao que Jane Austen achava razoável, e sim uma espécie de reparação, de iluminação de todo um elenco de apoio que ficou às sombras.

É um projeto interessante e necessário, mas para apreciá-lo de verdade eu tive que dissociá-lo do Orgulho e Preconceito que eu aprendi a gostar. Para ser mais clara: o livro da Jo Baker toca em um assunto delicado, verdadeiro e de cortar o coração, mas a Elizabeth Bennet daqui não é a Elizabeth Bennet da Jane Austen. Tudo é muito real e verossímil, mas para preservar lá quietinho um livro que é tão especial para mim, eu precisei fazer a opção de não misturar os mundos. Assim consegui aproveitar a leitura de As sombras de Longbourn.

Não é sempre que surge uma história de amor onde o mocinho é pobre e maltratado. Elizabeth Bennet, afinal de contas, teve a sorte de encontrar o amor de sua vida e o homem mais rico da província numa pessoa só, e Darcy é um modelo para vários personagens que vieram depois. Anastasia Steele está aí para comprovar que o dinheiro é, para muitas, um ótimo afrodisíaco. Mas nesse sentido, funcionando como uma espécie de negativo fotográfico de Orgulho e Preconceito, As sombras de Longbourn está aqui para mostrar que o mocinho pode ser estropiado, magro, fraquinho, não ter uma moedinha no bolso e mesmo assim nos fazer torcer e suspirar por ele. Tem lá uma história de amor que se sustenta sozinha. Essa é uma das grandes qualidades do livro de Jo Baker, que não é só um apêndice da obra de Austen.

Nada, porém, supera o apelo da personagem principal, Sarah. A Inglaterra do século XIX podia ter se libertado da servidão, mas ainda sentia os efeitos do trabalho forçado. Sarah era livre para sair do seu trabalho e viver sua vida em qualquer lugar. Mas como fazer isso quando não tinha dinheiro e nem família? Ela estava no nível mais baixo da escala social, e suas possibilidades não eram as mesmas que as de um cavalheiro. As sombras de Longbourn se passa em um tempo em que a efervescência dos direitos do ser humano era novidade, uma época em que mulheres e homens começavam a desejar coisas como liberdade e o direito de não morrer de exaustão aos 30 anos. O fim do livro só firma mais essa ideia, quando Sarah toma uma decisão que conversa muito bem com as coisas que a gente deseja hoje em dia.

Os resíduos do dia

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A história modesta de um homem modesto rendeu um livro apaixonadamente reflexivo e triste. Esse é o meu sentimento com Kazuo Ishiguro e o seu Os resíduos do dia, com tradução de José Rubens Siqueira. Minha edição é a antiga, por isso o nome Resíduos ao invés do mais recente Os vestígios do dia. Traduções de título à parte, acho minha capa muito mais representativa.

Stevens é mordomo em Darlington Hall, uma ilustre mansão inglesa, há mais de trinta anos, e no verão de 1956, já idoso, ele é aconselhado por seu novo patrão, um americano, a fazer uma pequena viagem, para tirar um descanso. O mordomo, que não tem parentes e nenhum lugar para ir, decide visitar uma antiga governanta que trabalhou na mansão em seus tempos áureos. Durante esta curta viagem de cinco dias, Stevens irá rememorar momentos do seu trabalho que vão esclarecer para nós, leitores, como um homem que pareceu levar uma vida trivial e sem grandes sobressaltos pode, mesmo com tão pouco, ter tanto a contar.

No fim da década de 1920 e início da década de 1930, no período entreguerras, a mansão ainda pertencia a um nobre inglês, Stevens estava no auge de sua vida e gostava de seu trabalho. Um mordomo que servia homens importantes enquanto eles tomavam decisões fundamentais para o futuro do Reino Unido e da Europa. Alguém que, como ele mesmo diz, conseguiu chegar “tão perto do eixo das coisas quanto um mordomo poderia desejar”. Por boa parte do livro é possível pensar que só o trabalho interessou a esse homem, e que na vida pessoal dele não aconteceu nada digno de nota, mas, enquanto ele escolhe o que contar e o que omitir, ao sentimento de dever cumprido do narrador se acrescenta um novo-velho entusiasmo – escondido com discrição e elegância – quando ele se lembra de uma antiga governanta, Miss Kenton. Ela foi por muitos anos o braço direito de Stevens e, aos poucos, é fácil perceber que havia paixão ali, mesmo entre todas as formalidades e convenções a que os dois precisavam estar atentos.

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Esta lealdade ao serviço, ao patrão e às normas sociais do país foi o que mais me comoveu no livro. É uma entrega ao mesmo tempo admirável e triste que, se já não encontra razão de ser durante a decadência do mordomo, na década de 1950, hoje em dia parece de outro planeta. Minha impressão de um mordomo britânico, do início do século XX era bem essa: a de um homem sisudo e solene. Para mim um mordomo é a representação perfeita de um britânico. Durante toda a narrativa, senti isso em cada palavra de Stevens, que além de seu jeito formal de falar, tem muito orgulho de ser como é. Um trecho resume bem o que estou tentando dizer:

“O que é exatamente essa ‘grandeza’? Onde, exatamente, ou em que ela reside? Tenho plena consciência de que seria preciso uma cabeça muito mais sábia do que a minha para responder a essa pergunta, mas, se fosse forçado a arriscar uma resposta, diria que é a própria ausência de drama ou espetaculosidade óbvios que distingue a beleza de nossa terra. O que é perfeito é a calma dessa beleza, a sensação de contenção. Como se o país soubesse de sua própria beleza, de sua própria grandeza, e não sentisse nenhuma necessidade de proclamá-la. Comparativamente, o tipo de paisagem com que nos brindam a África e a América, embora sem dúvida mais excitante, por certo pareceria inferior ao observador objetivo, devido a seu indecoroso exibicionismo”.

Para Stevens, demonstrar os sentimentos também é um ato de “indecoroso exibicionismo”, e talvez por isso, seus sentimentos tenham ficado guardados por tanto tempo, rompendo-se em apenas um momento, um pequeno momento em que conseguimos vislumbrar todo o excesso preso dentro dele, tudo aquilo que nunca teve vazão. Talvez por isso o impacto no leitor (pelo menos em mim) seja imenso. Kazuo Ishiguro conseguiu contar a história de um homem contido, com dificuldade em expressar afeição, mas que no fim nos surpreende com o amor, mesmo que esteja para sempre bloqueado emocionalmente. Ao realizar isso, ele conta também a história do fim de uma época de  grandeza.

A fidelidade de Stevens a seu patrão, Lord Darlington, também é o motivo de seu orgulho pelo maior bem que, para ele, uma pessoa pode ter: a dignidade. Stevens acredita que a dignidade não é uma qualidade que aparece em qualquer pessoa, e que não está ligada a opiniões firmes. Ele cultiva aquela modéstia subserviente que faz tão bem ao status quo. Em suas palavras, dignidade se resume “a não tirar a roupa em público”. Por isso, mesmo sabendo que Lord Darlington, no auge da segunda guerra, conviveu com os inimigos, mesmo não concordando com muitas das atitudes do patrão – como, por exemplo, demitir duas empregadas judias – Stevens nunca abandonou sua lealdade, mesmo depois da morte do antigo patrão. Ele é um típico filho das classes baixas inglesas, acostumado com (e afeito a) a ordem vigente, mesmo que isso lhe custe a felicidade pessoal. Quando ele finalmente demonstra alguns de seus sentimentos, não tem como não sentir pena de um homem cujo tempo já passou, alguém que serviu ao que acreditava ser correto.

Os resíduos do dia pode tratar de um homem modesto, mas conta uma história nada simplória. Stevens é um narrador que consegue nos tocar mesmo quando abominamos suas atitudes e decisões. Este é um romance verdadeiramente enternecedor.

Caçando carneiros

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Parece que estou chegando atrasada para uma festa (ou sou a única que não conhece um meme famoso) quando penso que só agora li Caçando carneiros, de Haruki Murakami. O livro é de 1982, e  desde 2001 já existia uma edição brasileira, da Estação Liberdade. Depois de ler Norwegian Wood, lá por 2005, eu procurei Caçando carneiros e não achei – eu era apaixonada por aquela capa. Até aquele momento a culpa de estar em falta com o autor não era minha.  Tudo acabou bem em 2014, quando vi que a Alfaguara iria (re)lançar o primeiro grande sucesso de Murakami, com tradução de Leiko Gotoda. Acho que o comprei no primeiro dia. Yada yada yada… estou há dois anos com o livro na minha estante, e a culpa finalmente me alcançou no início deste ano quando montei minha meta de leitura.

E foi a meta que muito me ajudou a não desistir de Caçando carneiros. O livro não é ruim, mas quando comecei a lê-lo, topei com uma repetição de 1Q84 – sim, eu li na ordem errada e por isso acho que o velho repete o novo – e, com tantos livros no mundo e vida finita, estava para abandonar porque não me sinto na obrigação de ler nada que me faça empacar. Mas a meta e o blog (e os sintomas iniciais de transtorno obsessivo compulsivo? vai saber!) me fizeram ir até o fim. A surpresa foi que depois de umas cem páginas, quando um clima de romance policial tomou conta do livro, foi embora a sensação de que aquilo era mais do mesmo, e eu lembrei que as repetições e a atmosfera eram marca registrada de Murakami. Se elas não fazem deste romance um livro excelente, pelo menos ficaram lá, primeiro sem me atrapalhar e depois como parte fundamental do meu interesse.

Caçando carneiros tem um narrador protagonista sem nome. Ele é publicitário e leva uma vida pacata desprovida de grandes anormalidades. Namorando uma garota também sem nome, mas que possui um belo par de orelhas (um dos trabalhos dela é ser modelo de orelhas), ele se vê numa jornada aparentemente absurda quando fica encarregado de achar um carneiro específico. Ele e a namorada vão viajar o país atrás do tal carneiro, e é aí que o livro melhora.

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Destaco um momento especial. Num trem, o narrador está lendo um livro ruim sobre a história da cidade para onde ele está indo. De forma bem simples, sem nenhuma bizarrice na narração, surge um daqueles momentos que ajudam a desvendar o sentido do que se conta. O trecho fala de como um pedaço de terra virou vilarejo, e então cidade, para no fim – depois do processo intenso de industrialização por que o Japão passou depois da Segunda Guerra – virar uma cidade fantasma. Todos os ciclos de um lugar que nasceu e morreu em muito pouco tempo. Uma cidade moribunda por conta de um novo modo de vida, herdando apenas pessoas que trabalham oito horas por dia e “assistem quatro horas de televisão… uma vida tediosa”. Em momentos como este, senti que toda a história era apenas uma metáfora torta e desmontada da história do Japão no século XX. A idade do protagonista bate com a do autor, nascido no começo do pós-guerra, e a década em que o livro saiu era o apogeu do novo status do povo japonês, cada vez mais desapegado de certas tradições. Eles foram da abnegação e da obediência dos tempos de potência imperialista para o individualismo desconectado da era globalizada, em que a cultura japonesa encontrou de vez o ocidente. Até a bagagem intelectual de Murakami é prova da transição cultural do Japão: ele teve uma casa de jazz, verteu ao japonês Raymond Carver, Raymond Chandler, Truman Capote, J.D. Salinger.

Por isso, em Caçando carneiros, ver tudo o que acontecia com lentes capazes de distorcer a realidade é até uma espécie de obrigação. Deixa eu destacar outro momento:

“Tomei um banho de chuveiro, lavei os cabelos molhados da chuva, enrolei uma toalha nos quadris e assisti a um velho filme norte-americano de submarinos na TV. A trama era deprimente: o comandante e o subcomandante não se entendiam, o submarino era da idade da pedra, e tinha um personagem que sofria de claustrofobia, mas no fim tudo dava certo. O tipo de filme ‘a guerra não pode ser tão ruim, já que no fim tudo dá certo’. Daqui a pouco, vão fazer um filme em que a humanidade se envolve numa guerra nuclear e é exterminada, mas no fim tudo dá certo.”

Em outras passagens a narrativa extravagante (e pós-moderna, como lembra Bernardo Carvalho) de Caçando carneiros nem me fazia lembrar de metáfora. Pela sinopse, dá para ver que o estranho/fantástico faz parte do livro, e acho que isso está longe de deixar o texto maçante ou hermético, mas houve vezes, como eu disse lá em cima, em que incomodou a sensação de já ter visto muito disso. Claro que no fim eu comprei a história, e mesmo não sendo um livro especial nem obrigatório, a sensação não foi de tempo perdido.

Se você assim como eu está chegando atrasado a esse Murakami de 1982, mas conhece momentos mais, digamos, sólidos da carreira dele (como Norwegian Wood, que é mais realista e objetivo embora bastante romântico e melancólico, ou Minha querida Sputnik, que tem mais daquela energia juvenil dos livros que a gente precisa ler enquanto é jovem), vale a pena ler Caçando carneiros para matar saudades do estilo e da imaginação de Murakami, e do Japão que o autor desenha de um jeito tão gostoso. Agora, se você encontrou este texto querendo saber o que deve ler e por onde começar, eu posso dar minha opinião de palpiteira online: Norwegian Wood, sem sombra de dúvidas.