A história secreta

IMG_20160301_142009

A história secreta, lançado em 1992, é o primeiro livro da norte-americana Donna Tartt. De lá para cá ela escreveu mais dois: O amigo de infância – que nunca me interessou muito – e O Pintassilgo, com o qual ela ganhou o prêmio Pulitzer. Por causa do prêmio, no ano retrasado eu vi muita gente lendo Donna Tartt e isso me reavivou a vontade de ler um livro dela, porque fazia uns quatro anos que eu estava paquerando A história secreta. Vi umas três capas diferentes, todas pela Companhia das Letras, com tradução de Celso Nogueira, e cismei que precisava ter o livro com a primeira capa brasileira. Em 2014 achei na Estante Virtual um exemplar da edição que eu queria. “Em bom estado”, o vendedor dizia. Comprei. Sabe, preciso dizer aqui que eu adoro sebos. Antigamente passeava bem mais pelos vários que há em Curitiba e sempre achava alguma coisa pra levar pra casa. Nunca tive problema com livro com cara de usado, mas quando a minha cópia de A história secreta chegou em casa, fiquei petrificada. O livro estava muito mais do que usado: ele parecia ter sido abusado, ter vivido toda uma existência traumática. Estava quase irrecuperável. Coloquei-o num lugar não muito nobre da estante, e lá ele ficou, só porque eu tinha pena de me desfazer. Agora em janeiro, enfiei A historia secreta na minha meta de leitura, e até já tinha planejado comprar uma versão mais nova e limpinha, mas encontrei a velhinha na estante e, pro meu espanto, ela meio que tinha se recuperado das surras da vida, na medida do possível. Arrisquei e, depois de umas cinco páginas, consegui encarar, e posso falar que foi uma experiência muito boa. Acho que todo mundo, uma vez na vida, precisa ler um livro no bagaço.

A história secreta é um romance que parece cheio de reviravoltas, e talvez até tenha mesmo algumas bem envolventes, mas elas não são o aspecto mais importante do livro. Richard, o protagonista, parece um jovem muito sem graça a princípio, e como narrador fica mais sem sal ainda. Mas quando me dei conta, a falta de graça tinha construído um personagem bem interessante. Por algum tempo eu achei que ele era um narrador quase ausente, contando a história de todos e omitindo a própria, mas isso acabou sendo bem proveitoso e deu um efeito original ao romance.

Richard é um garoto da Califórnia, mas não o típico garoto surfista e descolado. Ele nasceu e passou parte da vida na cidade de Plano, com pais desinteressados por tudo o que ele achava importante e, principalmente, sem qualquer interesse por ele. Quando aparece a oportunidade de estudar com bolsa em uma universidade do outro lado do país, ele vai embora só com a roupa do corpo. Na universidade, ele vai travar conhecimento com um grupo de jovens vindos de famílias muito ricas, gente que nem imagina o que é ter pais da classe trabalhadora.

Esse grupo é formado por cinco pessoas, no mínimo, excêntricas. A história secreta é sobre elas. Pessoas que parecem ter sido aperfeiçoadas à exaustão, de tão refinadas que são. São jovens que estudam grego – e esse detalhe é importante – e vivem isolados em um mundo próprio. Desde a vestimenta, passando pelas relações que estabelecem, tudo indica que eles são únicos e exclusivos. Richard precisa fazer parte daquilo porque ele não quer envelhecer condenado a ser como todo o resto do mundo. Saindo de uma cidade pequena e sem perspectivas, entrar num grupo totalmente elitista e especial é tudo o que ele sonha. Sabe quando você chega em um lugar novo e todos se conhecem, menos você? Essa sensação é terrível, e Richard, sem reclamar nem nada parecido, me fez experimentá-la.

No fim, o que mais me interessou não foi quem fez o quê com quem nem o porquê. O que mais me intrigou e me fez ir até o final foi o relacionamento dos seis. Minha dúvida durante todo o livro foi se Richard conseguiria entrar de verdade para o grupo. Henry, Francis, Charles, Camilla e Bunny se conhecem há muito tempo, e acham que são mais do que estudantes dos clássicos, eles acham que são discípulos de algo maior. É fácil notar quando as coisas mudam no relacionamento de Richard com os veteranos do grupo, mas até a última página, a impressão que eu tenho é que ele nunca foi um deles.

IMG_20160301_142319

Não parece, mas esse livro estava estropiado

Isso já é mais importante e tem mais substância do que as reviravoltas dramáticas mas, claro, um crime acontece. E aqui não dou spoiler, a gente fica sabendo disso na primeira página. Um dos integrantes do grupo é assassinado, e, de um jeito ou de outro, Richard está envolvido neste segredo. Mais do que isso: para ser aceito, ele quer se envolver. Nessa leitura, o assassinato consumiu boa parte das minhas energias, mas depois que tudo foi se encaixando, e o crime foi ganhando explicação, meu interesse caiu um pouco. Fiquei com a sensação de que as motivações eram todas muito pueris. Minha dúvida, que ainda persiste, é se Donna Tartt queria fazer uma espécie de crítica ao exclusivismo de gente muito especial, ou se ela realmente acreditava na relevância dos temas de que trata em  A história secreta. Eu entendi que ela exagerou na carga dramática para emular ou parodiar uma tragédia grega, afinal o grego permeia toda a história, mas era só isso?

Minha memória é muito ruim, muito mesmo. Eu poderia dar muitos exemplos aqui de quanto minha memória é ruim, mas não quero me envergonhar, por isso só digo para você acreditar que minha memória é péssima. Minhas lembranças de uma leitura depois de alguns anos são problemáticas. Se o autor é bom, eu consigo me lembrar do principal: as sensações que eu tive enquanto lia. Quando o livro é ruim, eu esqueço rapidamente. Mas alguns livros possuem um ambiente especial, e eu soube, mesmo agora logo depois de terminar a leitura, que esse romance vai ficar na minha memória. A história secreta tem uma atmosfera especial, talvez por conseguir juntar toda a maquinação por parte dos personagens com algo além de fofoca e intriga. Aquele campus em Vermont vai ficar na cabeça por um bom tempo, eu vou me esquecer dos comos e porquês mas a sensação de ter passado por ali vai permanecer. Acho que isso já é suficiente para eu começar a paquerar O Pintassilgo.

Anúncios

2 comentários sobre “A história secreta

  1. oleitorcomum disse:

    Mentira, nem pulei. A sensação aqui é a mesmíssima: aliás, foi a atmosfera singular que me fez gostar da capa que tenho (a segunda, uma paisagem com uma luz dourada). Acho que tem tudo a ver com o livro (mas ainda gosto mais da tua capa). Acho a nova bem nada a ver, parece que quer ser tão legal quando a de Middlesex, sem sucesso.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s