Vida e Destino

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Viktor Chtrum é um cientista judeu que vive na União Soviética. Ele segue trabalhando em plena Segunda Guerra Mundial. Com ele moram a esposa, a filha e a sogra. A vida não está fácil, mas há muitos soviéticos em situação pior. A mãe dele, por exemplo, que nunca se entendeu com a nora e mora em outra cidade, vive na pele a pior época para ser uma senhora judia na Europa. Em outro lugar, no mesmo período, alguns prisioneiros de guerra vivem uma vida tão difícil quanto a dos prisioneiros dos campos de concentração. Há também os presos longe da guerra, aqueles que cometeram crimes políticos ou comuns; para eles a situação também é ruim. Enquanto tudo isso acontece, mais judeus estão dentro de vagões de trem em direção ao extermínio. O clima é de sujeira, fome, frio, aperto e profunda desesperança.

Vida e Destino, de Vassili Grossman, fala sobre essas e outras pessoas, mas trata principalmente de uma era negra na União Soviética. Na altura da Segunda Guerra os líderes soviéticos travavam duas batalhas: uma com os alemães, que eram o inimigo externo, e outra com seu próprio povo. O Estado totalitário fazia com que todos desconfiassem uns dos outros; em busca da própria salvação, não era raro que um camarada denunciasse o outro como traidor da revolução. A suspeita pairava acima da cabeça de todos e frases bobas ou piadas infames acabavam em penas longas e reputações arruinadas. Mas Vida e Destino é mais que um compilado minucioso da vida sob o totalitarismo. O livro consegue analisar profundamente o mal através de vários pontos; o extermínio sem sentido, a paranoia mesmo entre amigos de longa data, a fome e a miséria: tudo é parte de um quadro em que o que se analisa é a humanidade e o que significa estar vivo e fazer o bem.

São 900 páginas de muito sofrimento e de passagens que me deixavam ora com desgosto, ora com desânimo. Eu podia sentir aquela maldade entranhada nas picuinhas políticas, mas inerente às pessoas. Admito que chorei em mais de um momento muito difícil, e acho que é impossível não sair cambaleando da leitura de Vida e Destino. São muitos os livros sobre as brutalidades e a barbárie das guerras, mas eu ainda não havia experimentado esse sentimento de perplexidade diante da tragédia que encontrei no livro de Vassili Grossman.

Vai ver o impacto acontece porque o autor viveu aquilo de perto, como correspondente de guerra. Mas o realismo das descrições da vida em um lugar, em uma determinada época, não foi o que mais me comoveu. O que me deixou espantada foram as intervenções de Grossman, a maneira como seu narrador se debruça sobre os acontecimentos para refletir sobre eles. Meu exemplar está todo rabiscado e minha vontade era transcrever aqui tudo o que me emocionou, como se com isso fosse possível convencer alguém a tirar o livro de uma prateleira e começar a leitura na mesma hora.

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Qualquer livro sobre guerra não seria a minha primeira escolha de leitura. A quantidade de nomes de lugares e personagens deu um nó na minha cabeça. Eu comecei sem ter certeza de que iria até o final, mas aí bati o olho nesse parágrafo:

Os olhos dela, que tinham lido Homero, o jornal Izvéstia, Huckleberry Finn, Mayne Reid, a Lógica de Hegel, que haviam visto gente boa e gente má, os gansos nos prados verdes de Kursk, as estrelas no telescópio de Púlkovo, o brilho do aço cirúrgico, a Gioconda no Louvre, os tomates e nabos nas gôndolas dos mercados, o azul do lago Issik-Kul, agora não lhe eram mais necessários. Se alguém a cegasse naquele instante ela não sentiria a perda.

Foi ali que eu percebi que às vezes o que a gente tem que fazer é abrir o livro que não parece ter muito a ver com o que a gente quer de uma leitura. Eu não conhecia Vassili Grossman. Meu marido comprou o livro em 2015 e, assim que o terminou, começou uma campanha para eu lê-lo logo. Só agora em 2017, acompanhando o canal Lido Lendo, foi que eu soube que Vida e Destino havia sido escolhido para uma leitura compartilhada durante o mês de julho. Achei que era a hora de dar uma chance. Segui o cronograma estabelecido e adorei avançar no livro enquanto acompanhava a opinião dos outros.

Às vezes quando eu leio um livro de gênero eu penso naquela velha história de que sempre precisamos de uma dose de pré-disposição para encarar qualquer ficção. Afinal, é preciso boa vontade para comprar uma história e ler a respeito de monstros, vampiros, zumbis, magnatas de 25 anos solteiros e amorosos, fantasmas e toda a coleção de coisas que não aconteceram e nunca vão acontecer. Não importa o gênero. Se há muita invencionice, é preciso que a gente esteja disposta a encarar a leitura e fazer a tal viagem. Isso é uma das melhores coisas que a literatura proporciona, mas às vezes é bom e importante ler um livro que não demanda esforço da imaginação para que a gente entenda profundamente o que há de melhor e pior no mundo. O melhor e o pior estão ali representados, de um jeito preciso e profundo. Grossman investigou e revelou situações que não eram de conhecimento geral naquela época. Tanto quanto um livro como Doutor Jivago, Vida e Destino mostrou para o resto do mundo o tamanho do desastre que era a União Soviética. Se para encontrar isso um leitor precisa de certa dose de coragem, o que dizer do trabalho de quem escreve?

É impressionante a empreitada de escrever com tanta sinceridade em um momento tão perigoso. Para terminar, eu só queria deixar um trechinho desses que renovam o amor da gente pela literatura (lembrando que a tradução do russo é de Irineu Franco Perpétuo):

A história dos homens não é a batalha do bem tentando vencer o mal. A história do ser humano é a batalha do grande mal para reduzir a pó a semente do humanismo. Mas se nem agora o humano foi morto dentro do homem, então o mal não há de triunfar.

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Z, a cidade perdida

 

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O coronel Percy Fawcett é um daqueles personagens míticos que povoam histórias de aventura. Um explorador ousado e corajoso, com muitos feitos no currículo, sua maior proeza foi ter sido, como ele mesmo dizia, “consagrado com um porte físico perfeito”. A melhor parte de tudo isso é que ele não precisou ser inventado: Fawcett nasceu na Inglaterra e viveu no início do século XX, deixando um bom rastro de informações que o jornalista David Grann perseguiu e registrou em seu livro: Z, a cidade perdida.

O livro foi lançado no Brasil em 2009, onze anos depois de, por exemplo, Na natureza selvagem de Jon Krakauer. Os dois livros-reportagem falam de pessoas que atravessam a natureza em uma busca maníaca por algo impalpável, mas diferente do livro de Krakauer, que fez um sucesso tremendo, de Z, a cidade perdida se falou muito pouco. Com uma capa linda e com uma história hipnotizante é difícil entender por que isso aconteceu. Admito que o livro ficou parado aqui em casa por anos, e se não fosse minha meta de leitura eu não teria chegado a ele tão cedo. Mas é para isso que metas de leituras existem, não? Para fazer a fila que está parada há anos finalmente andar e a gente se surpreender com livros ótimos.

A cidade perdida de Z foi nomeada assim por Percy Fawcett depois de algumas aventuras pela Amazônia. Ele acreditava estar nos rastros de uma civilização desaparecida na selva, e a essa busca dedicou sua vida. O que Fawcett quer encontrar em Z se assemelha a um Eldorado, um lugar cheio de riquezas e oportunidades na América do Sul, o oposto da Inglaterra do começo do século XX. Pensando assim não parece tão disparatada  a ideia de  um explorador querer ser o primeiro a encontrar uma cidade perdida, se embrenhando em lugares perigosos e inóspitos, porque a recompensa seria muito grande, e a vida andava difícil.

Em Z David Grann não deixa de contar um lado menos romântico de uma vida de aventuras. Com uma família para sustentar, Percy Fawcett estava sempre na miséria. A pobreza dos Fawcett era desesperadora e começou por causa das expedições. Ao mesmo tempo, a esperança de uma grande descoberta era também a esperança de tirar a família da miséria. Então surgiu Z.

Um dos nomes mais conhecidos em sua época, Fawcett se tornou famoso por ser o explorador que conseguia superar as grandes adversidades das florestas da América do Sul, onde os maiores inimigos dos humanos não eram predadores famintos mas insetos transmissores de graves doenças. A fama surgiu quando muitas expedições não voltavam ou quando seus integrantes retornavam doentes e à beira da morte. No meio deles, Fawcett parecia ter o corpo fechado. Ninguém melhor que ele para encarar os maiores desafios. Pesquisando referências antigas, Fawcett achou as anotações de um bandeirante que encontrara artefatos valiosos e complexos no meio da Amazônia. Assim foi lançada a semente da obsessão de Fawcett. Em 1925, aos 58 anos, com seu filho Jack e o amigo dele, Raleigh Rimmell, o explorador inglês pegou um navio em direção ao Brasil.

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É nessa hora que David Grann conta a história de uma outra obsessão: a do público pelo paradeiro de Fawcett. Afinal, o homem se perdeu enquanto procurava a cidade perdida. Grann retraça diversas teorias e ouve várias fontes a respeito do suposto destino final de Fawcett. Mas os muitos anos não trouxeram respostas concretas. Em 1926 Fawcett foi visto oficialmente pela última vez, já embrenhado na floresta, e o resto virou lenda. Z, a cidade perdida trata também dessa lenda. Até para que Fawcett pudesse arrecadar dinheiro para a expedição, já antes da partida houve furor exacerbado: era uma época em que o “exotismo” das Américas fascinava a imaginação europeia. Quando os três exploradores sumiram na floresta onde muitas tribos sequer tinham contato com o homem branco, especulou-se de tudo: o inglês havia encontrado a cidade perdida e decidira não sair de lá, os índios haviam-no matado, ele havia se apaixonado por uma  índia e construído família brasileira, ele morreu de fome ou de picada de mosquitos.

Um mérito de Grann é jogar um pouco de realismo sobre mais de oitenta anos de incertezas. Fawcett, nas inúmeras viagens que fez pela América do Sul, fez contato com várias tribos indígenas. Para começar qualquer contato, o inglês chegava desarmado e com as mãos para cima. Fawcett acreditava que essa abordagem – suicida para alguns, como relata Grann – era a melhor forma de conseguir a amizade dos índios. Assim ele se virou por anos. A hipótese tratada com mais ênfase em Z, a cidade perdida é a de que, numa terra com leis que Fawcett compreendia de forma rudimentar, uma hora a sorte dele acabou.

A obsessão de Fawcett por Z e a obsessão das pessoas por Fawcett é compreensível. Diante da falta de resposta, somos capazes de imaginar e supor as situações mais fantasiosas. Teóricos da conspiração e caçadores de OVNIS são prova disso. Por que seria diferente com uma cidade perdida? Como não sonhar com uma Machu Picchu no meio da Floresta Amazônica, com tesouros e estruturas que mostram que uma sociedade altamente desenvolvida viveu ali muito antes de os europeus desembarcarem? Mas o grande mérito de David Grann é levar Z a sério. Fawcett pode nunca ter achado seu Eldorado porque se convenceu de que uma sociedade complexa, ali no meio do mato, só poderia surgir de ancestrais europeus e se desenvolver de formas parecidas com aquelas que ele havia estudado e sob as quais havia crescido.

A reviravolta fascinante que Grann oferece em Z, ouvindo especialistas e consultando a literatura científica que trata das sociedades amazônicas, mostra que os índios que ali viveram antes da chegada dos europeus formaram, de fato, uma sociedade desenvolvida e complexa, com pequenas pontes e estradas, diferente do que boa parte das ciências humanas imaginou durante o século XX. Z estava lá, mas Fawcett não conseguiria encontrá-la. Povos amazônicos construíram grandes estruturas no meio da mata, mas o que havia de grandioso nelas era a forma como ajudavam o ser humano a sobreviver num ambiente hostil como o da floresta. Seus materiais não eram o ouro e a prata, que Fawcett esperava encontrar, mas palha, barro e matéria orgânica. O tempo e a mortandade ocasionada pela chegada do europeu levaram quase tudo.

Z existiu, talvez não com a opulência que Fawcett desejava, mas os rastros ainda estão na Amazônia para provar que uma civilização existiu e quase foi extinta, mas ainda sobrevive em um pequeno número de descendentes. David Grnan esteve entre eles quando visitou o Brasil para escrever seu livro. “Havia mil anos que os xinguanos mantinham as tradições artísticas e culturais daquela civilização avançada e altamente estruturada”, ele afirma em uma das passagens finais de Z.

Um filme baseado no livro-reportagem, com produção de Brad Pitt, está para ser lançado e eu torço para que, na esteira do sucesso dele, mais pessoas encontrem esse livro excelente. Mais do que a história de um explorador inglês obcecado por uma cidade perdida, o livro trata de um povo que demorou muito tempo a ser descoberto em seus próprios termos.

Um outro amor

 

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Em Um Outro Amor, Karl Ove Knausgård continua ranzinza, mas aconteceu uma mágica. Não foi amor à primeira vista. Se o primeiro livro eu atravessei me arrastando (e acho que boa parte da culpa foi minha por alguma má vontade e pouco tempo), o segundo foi um verdadeiro encontro. No começo deste ano, vendo Um Outro Amor encostado na estante, eu pensei que só teria a empolgação de lê-lo se o enfiasse na minha meta de leitura, junto com outros livros que estavam aqui em casa pegando pó desde sempre. Foi a melhor decisão de 2016 (pois é, pra você ver como eu tô mal de decisões acertadas). Finalmente, a resmungona dentro de mim se identificou com o Knausgård resmungão.

Como talvez todo mundo saiba, na série Minha Luta Knausgård abriu a vida e contou tudo o que se passa com ele e com a esposa, os filhos, os pais, os amigos, o irmão. Metade daquilo é invenção? Não sei, pode ser que sim. Se ele não se equipou de muitos diários ao longo da vida acho que só restaria apelar para a imaginação. Quem poderia relembrar, de cabeça, diálogos de anos atrás? Só que no fim das contas, pouco importa se ele inventou um pouco, se ele nada inventou ou se ele inventou tudo.

Nesse segundo livro, Knausgård se concentra no princípio de seus trinta anos, em sua chegada a Estocolmo e no começo do relacionamento com Linda, a mulher com quem ele casou. Acho que esse é o outro amor a que o título se refere. Eu não pude me identificar muito com narrador do primeiro livro, com o interesse dele pelo pai e com os  dramas que ele vivia. Aquilo era um romance de formação. Em Um Outro Amor o momento é outro. Knausgård reflete sobre os nascimentos dos filhos, o começo da ideia dos livros autobiográficos, as diferenças entre o que ele quer fazer e o que consegue, e tudo isso me tocou mais de perto. Ele é um sujeito obcecado com as coisinhas mais insignificantes do dia a dia, e até aqui eu tenho a impressão de que ele consegue ver significado naquilo que parece bobagem aos olhos de todo o mundo. Tudo isso já foi dito a respeito de Knausgård, e já dava para notar no primeiro volume. A novidade, para mim, foi que eu não conseguia parar de pensar em três comediantes enquanto lia Um Outro Amor: às vezes Jerry Seinfeld, mas principalmente Larry David e Louis C.K.

É que eu acho que – pelo menos de longe –  a chatice é uma espécie de qualidade subestimada. Assim como os comediantes que eu citei, Karl Ove Knausgård se irrita com muita coisa e detesta as pessoas com a mesma intensidade com que se sente deslocado. Tudo é um parto. Quando ele se recusa a aceitar facilmente pequenas regras não ditas, minha vontade é cumprimentá-lo, tipo “Concordo inteiramente, toca aqui”. Em uma festinha de criança, ele narra a aventura que é interagir com pessoas com quem ele não tem nenhuma ligação ou afinidade, tudo em nome da educação e dos bons modos. É o mesmo percurso tortuoso de um “você já reparou nisso?” ou “vocês já perceberam que tal coisa?” – aquilo que é matéria para stand up comedy. Só que, assim como acontece com Larry David e Louis C.K., o assunto fica mais sombrio e tem horas que viver parece inútil, impossível ou insuportável.

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Linda, a mulher de Knausgård, é a personificação da pessoa limitadora, ou pelo menos é assim que ele a vê. Ele a ama e a odeia com a mesma intensidade, ele se sente emasculado e de mãos atadas. Linda é a presença que transforma o mundo. Se no primeiro livro a infância ao redor de um pai ditatorial é o tema central, no segundo livro a libertação  como adulto está no centro, especialmente quando uma mulher e uma família parecem restringi-lo. Aí Knausgård reclama, desaprova, se irrita; seu bloqueio para escrever parece eterno. As desilusões e incertezas dos trinta anos ganham graça pela voz dele. Imagino que não tenham sido muitas pessoas que riram com as situações contadas por ele, mas como uma verdadeira chata eu me empolguei e ri muito com suas descrições de pessoas e lugares. Depois de falar alguma coisa ou dar uma opinião, é normal que Knausgård descreva a reação de seu interlocutor como um sorriso e nada mais. Apenas um sorriso, como se a pessoa quisesse esganá-lo. É por Knausgård agir nesses vãos do que é socialmente aceitável que eu o cataloguei, na minha cabeça, mais perto daqueles comediantes do que de qualquer outro escritor que eu conheça.

Não é sempre que me deparo com um livro que me faz querer sublinhar trechos inteiros e compartilhá-los com quem estiver perto. Meu exemplar de Um outro amor está todo riscado. Eu me reconheci em muitas coisas ditas por Knausgård. Ele me parece a pessoa mais sincera do mundo. Se ele não fosse sincero não teríamos esses livros, em que ele conta detalhadamente coisas das quais todo mundo quer fugir,  e expõe pessoas queridas – mas nunca tão queridas a ponto de ele decidir poupá-las. É uma galeria que tem a sogra, que parece estar bebendo escondida enquanto cuida da neta; a esposa que surta por ciúme até da própria sogra; e especialmente ele, Karl Ove Knausgård, que nunca é poupado. Não é todo mundo que gosta de se ver nos olhos dos outros, mas ele tem essa coragem. Ele consegue ser cruel, quase nunca condescendente.

Uma sinceridade desse tamanho acaba soando rude, e isso causa um efeito. O jeito de contar é descomplicado e pode parecer sem artifício. Claro que não é, e esse é o grande mérito do norueguês. A impressão de que ele cavou fundo enquanto “papeava” é grande. Eu não sei se ele tem consciência de quão engraçado – ou, digamos, tragicômico – esse mergulho íntimo pode ser.

Missoula

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Jon Krakauer é o responsável por eu gostar de livro-reportagem. Quando cursei jornalismo, precisei ler alguns livros muito bons, como  A sangue frio, do Truman Capote, mas foi apenas com o estilo de escrever do Jon Krakauer que eu me apeguei ao gênero. Ele sempre apura muito bem os fatos, o que mantém seus livros distantes daquele efeito “romance da vida real”, e toma cuidado ao mesmo tempo para não deixar o texto chato e sem vida. Acho que todo mundo conhece ou leu Na natureza selvagem, seu trabalho mais famoso. Ali, Jon Krakauer conseguiu narrar uma história triste e comovente sem apelar emocionalmente em nenhum momento (coisa que o Sean Penn não conseguiu ao transformar a história em filme), enquanto desvendava uma trama complicada através de investigação e de uma cabeça bastante sóbria para refletir a respeito do que se passou.

Em Missoula, seu mais novo livro, ele conseguiu de novo. Aproveitando como exemplo uma cidade com menos de 70 mil habitantes, Jon Krakauer expôs um grande problema que atinge os Estados Unidos: o estupro, e em particular o estupro nas universidades. Aqui é o momento em que eu digo que o problema também atinge o Brasil e muitos outros países, o que é verdade, mas adianto que prefiro restringir este texto ao livro, que está repleto de dados e informações verificadas.

O cenário que Krakauer escolheu é nosso velho conhecido. Quem nunca assistiu a um filme americano com muitos jovens universitários bebendo naqueles copinhos vermelhos em alguma festa? Todo mundo louco para socializar, hormônios à flor da pele. Missoula tem muitas histórias que parecem saídas de um destes filmes, todas com finais bem mais sombrios. Krakauer descreve detalhadamente algumas histórias que se equivalem nas circunstâncias. Uma jovem universitária que bebeu muito na festa do amigo, confiou nele, resolveu dormir ali para não dirigir bêbada e acordou com as calças abaixadas e um homem de mais de 100kg, o amigo, tentando penetrá-la. Outra universitária levou um cara para o quarto mas desistiu de fazer sexo, e mesmo assim ele achou razoável colocar três dedos nela, depois de ela haver apagado, e agressivamente cutucá-la até sair sangue. São várias relatos de meninas que disseram não e mesmo assim não foram ouvidas. O elemento que une a maioria dos casos retratados em Missoula: o agressor quase sempre era um jogador do time de futebol americano da universidade.

Missoula é uma cidade pequena, e sua economia depende muito da Universidade de Montana. Como é uma cidade universitária, os jovens são boa parte da população. Todos eles, universitários ou não, idolatram o time de futebol americano: os Grizzlies. Krakauer explica detalhadamente o status privilegiado dos rapazes que jogam pelo time da universidade ao perfilar alguns deles. Meninos que ainda são estudantes, mas que carregam o peso do orgulho de uma população. Um peso que é extravasado com muita bebida e sexo. E o sexo nem sempre é consensual.

Por uma combinação de decisões lamentáveis (dos estupradores e das autoridades políticas e policiais), a cidade e a universidade viraram palco de uma onda de estupros. De 2008 a 2012 foram 350 casos de agressões contra mulheres investigados pela promotoria da cidade. Desses casos, graças a uma burocracia disposta a grandes esforços para não perturbar os atletas, apenas um pequeno número foi a julgamento. Depois que as notícias chegaram à imprensa, a cidade virou notícia nacional. Através de depoimentos das vítimas, familiares, alguns agressores e policiais, de muitos dados coletados e de uma pesquisa bibliográfica empenhada em tratar do que há de mais recente e pertinente no tema, Krakauer faz da onda de estupros em Missoula um microcosmo da situação das vítimas de crimes sexuais em todo o país.

Avançando no livro é possível perceber que depois de violentadas, as garotas que venciam a barreira do constrangimento e do medo não conseguiam usufruir de seus direitos. O processo todo era desgastante e inútil. O primeiro passo era ir ao hospital, o segundo passo era falar com os policiais. Se os policiais conseguissem juntar provas suficientes para incriminar o acusado, o caso era passado para a promotoria. Ali, eles precisavam juntar ainda mais provas contra o acusado. Se eles conseguissem, o caso poderia ir a julgamento. Então o acusado poderia ser finalmente julgado, e se ele fosse realmente condenado, ele poderia recorrer e diminuir sua pena, que poderia variar de dois a cem anos de prisão, mas que todos sabiam que no máximo seria o mínimo. Falando assim, todo o processo parece desgastante mas necessário. Todo ser humano deve ter direito à presunção de inocência e isso pouca gente séria questiona. O grande mérito de Krakauer, ao recontar minuciosamente as experiências das vítimas, é ver que cada etapa da burocracia é feita de pequenas contribuições de pessoas que não têm o menor interesse em alterar o estado de coisas, nem qualquer preparo para lidar com as complexidades de um crime tão hediondo como o estupro. Um milhão de concepções erradas – sem falar em clara má-fé – ficam no caminho da pessoa que quer justiça.

Minha maior sensação durante a leitura foi de frustração. Era desapontador ver que muitas meninas tinham testemunhas, evidências coletadas de exames feitos logo após o estupro e mesmo assim seus casos eram barrados na promotoria por “falta de provas”. Os argumentos usados pela promotoria ou pela delegacia eram tão ilógicos que a vontade de jogar o livro longe me acompanhou durante toda a leitura.

Krakauer me fez sentir toda a angústia de pessoas que claramente não foram ouvidas por quem deveria zelar por elas – e não falo só dos agentes da lei, mas da sociedade como um todo. Um exemplo: em um caso específico, o jogador acusado confessou o estupro, por isso ele foi a julgamento não para saber se ele era inocente, mas para que a juíza determinasse qual o tamanho da pena que seria dada a ele. Mesmo com uma confissão e um monte de provas, a maior parte da população da cidade não acreditava que ele fosse um estuprador por ser um “menino bom com a família”. Eles achavam que a menina mentiu para chamar a atenção. Se esse tipo de mentalidade ficasse restrito àqueles que acompanham as notícias de longe já seria ruim o suficiente, mas e quando advogados, policiais e autoridades universitárias partilham das mesmas concepções erradas (que Krakauer faz questão de combater ao comentar estudos recentes) e mal intencionadas? Frustrante ou não?

Depois de terminar Missoula decidi que preciso de um tempo longe de livros com tantas histórias de arbitrariedade e injustiça. Eu venho de uma sequência que teve Um de nós e O acerto de contas de uma mãe. Preciso de um tempo. Missoula é desgastante, mas é impossível não se comover com as histórias. O livro é muito útil por jogar luz sobre um território que geralmente fica nebuloso, todo ele atravessado por tabus e questões morais. Um aviso: se você for um universitário jogador de futebol americano amado pela cidade inteira, não leia o livro, pois você vai achar que existem pessoas por aí querendo denegrir a sua imagem para conseguir cinco minutos de fama. A parte boa é que a polícia e o resto do mundo vão estar ao seu lado.

As sombras de Longbourn

A que uma criada do início do século XIX poderia aspirar, além de uma cama para descansar o corpo e comida para ficar de pé? Sarah, uma das personagens de As sombras de Longbourn, de Jo Baker, resolveu desejar mais.

A edição linda é da Companhia das Letras, com tradução de Donaldson M. Garschagen. Fiquei apaixonada pela capa antes mesmo de saber do que o livro tratava. E a lombada é perfeita: adoro olhar para ela na estante, dá um prazer que só um sério fetichista de livro vai entender.

Depois que eu soube um pouco mais da história foi aquele pensamento de sempre quando o assunto é Jane Austen: preciso desse livro. A trama é bem simples. As sombras de Longbourn se passa durante os eventos de Orgulho e Preconceito, mas aqui os protagonistas são os criados, e os acontecimentos com a família Bennet ficam apenas como pano de fundo. Sarah é criada em Longbourn, na propriedade dos Bennet, e junto com Polly, uma menina de uns doze anos, trabalha pesado para deixar a casa em ordem. Desde engomar as roupas da casa com o ferro que machuca toda a mão, passando por tirar a banha do porco para virar sabão, até lavar as peças íntimas das meninas Bennet quando estão no período menstrual. Isso e muitas outras atividades que parecem punição nos dias de hoje eram as tarefas das duas meninas. Fora Sarah e Polly, a família Bennet contava com os Hill, um casal de velhos criados. A senhora Hill fazia vezes de governanta e cozinheira, e o senhor Hill, de tão velho fazia os serviços mais amenos, como receber as visitas.

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Estamos no mesmo ponto de partida de Orgulho e Preconceito, com a chegada dos riquíssimos Bingley. Para os criados da casa a chegada do Sr. Bingley e do Sr. Darcy não traz mudanças grandes no cotidiano, além de uma ou outra tarefa adicional. Como estamos acompanhando os empregados, é a chegada de James Smith como o quinto criado que muda tudo, principalmente para Sarah.

Ela sempre sonhou com mais do que trabalhar dezoito horas por dia. Órfã desde sempre, trabalhou desde os sete ou nove anos para os Bennet, e nunca viu um mundo mais amplo do que aquele que vai da cozinha ao vilarejo. James Smith é um jovem que parece ter vivido muito. Em Sarah, ele primeiro desperta um ressentimento, depois admiração e, por fim, o amor.

Assim como Elizabeth e o Sr. Darcy, Sarah e James vão precisar passar por cima de alguns desentendimentos para dar corpo a esse amor. É marcante como Jo Baker estabeleceu semelhanças em vários pontos fundamentais da história, só para com outros distanciar inteiramente os destinos dos criados e dos Bennet.

Logo no início, o Sr. Bingley, o bom partido, precisa mandar um recado para Jane, a filha mais bonita dos Bennet. Jane vai recebê-lo e vai enviar uma resposta. Em Orgulho e Preconceito só precisamos saber disso, porque é tudo o que importa. Os bilhetes são enviados, as carruagens são aprontadas, as refeições são elaboradas, a grama é cortada. Mesmo que os Bennet não estejam no topo da hierarquia social, eles vivem bem o bastante para que suas filhas não precisem fazer o que fazem Sarah, Polly, James e os Hill. Já em As sombras de Longbourn, Sarah recebe o lacaio dos Bingley, e enquanto ele espera a resposta de Jane, os dois se conhecem mais e mais, distantes dos olhos dos patrões.

Mas o lacaio dos Bingley é uma distração. Em certo momento, Sarah se encanta por ele, e James Smith é visto como um homem arrogante que conhece mais do mundo do que ela, assim como, em certo momento de Orgulho e Preconceito, Elizabeth se encanta pelo Sr. Wickham e rejeita Darcy. Dessa maneira, Jo Baker vai elaborando esses pontos de contato e de afastamento para delinear uma história conhecida: a de como um lugar diferente na escala social é capaz de afastar completamente pessoas que, a princípio, têm as mesmas angústias, aspirações e sentimentos.

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Admito que no início, me incomodou essa crítica tão mordaz àquele que talvez seja o livro mais conhecido de Jane Austen. Orgulho e Preconceito é um texto extraordinário de uma época difícil, e é até um lugar comum repetir que Austen, mesmo se atendo a um universo de intrigas domésticas e problemas amorosos, investigou de perto, e com ironia e graça, as relações sociais na Inglaterra do começo do século XIX. Suas personagens buscam o amor de forma não conformista, e com frequência procuram se distanciar do aparato social previsto para elas. Tudo, claro, dentro de certos limites: não é que Elizabeth Bennet não queria casar, é que ela quer casar por amor e não por conveniência.

Por isso, eu além de guardar Austen no coração, a tenho como inconformista o bastante para uma época e um lugar muito distantes. Acreditando nisso, fiquei incomodada ao começar As sombras de Longbourn: me perturbou que alguém do século XXI viesse escrever um livro jogando nova luz sobre personagens tão queridos, afinal, é sempre um pouco arbitrário ver os problemas de um autor antigo à luz de pressupostos morais e éticos de agora. Mas quanto mais eu avançava na história de Jo Baker, mais eu entendia que o livro não é tanto uma crítica ao que Jane Austen achava razoável, e sim uma espécie de reparação, de iluminação de todo um elenco de apoio que ficou às sombras.

É um projeto interessante e necessário, mas para apreciá-lo de verdade eu tive que dissociá-lo do Orgulho e Preconceito que eu aprendi a gostar. Para ser mais clara: o livro da Jo Baker toca em um assunto delicado, verdadeiro e de cortar o coração, mas a Elizabeth Bennet daqui não é a Elizabeth Bennet da Jane Austen. Tudo é muito real e verossímil, mas para preservar lá quietinho um livro que é tão especial para mim, eu precisei fazer a opção de não misturar os mundos. Assim consegui aproveitar a leitura de As sombras de Longbourn.

Não é sempre que surge uma história de amor onde o mocinho é pobre e maltratado. Elizabeth Bennet, afinal de contas, teve a sorte de encontrar o amor de sua vida e o homem mais rico da província numa pessoa só, e Darcy é um modelo para vários personagens que vieram depois. Anastasia Steele está aí para comprovar que o dinheiro é, para muitas, um ótimo afrodisíaco. Mas nesse sentido, funcionando como uma espécie de negativo fotográfico de Orgulho e Preconceito, As sombras de Longbourn está aqui para mostrar que o mocinho pode ser estropiado, magro, fraquinho, não ter uma moedinha no bolso e mesmo assim nos fazer torcer e suspirar por ele. Tem lá uma história de amor que se sustenta sozinha. Essa é uma das grandes qualidades do livro de Jo Baker, que não é só um apêndice da obra de Austen.

Nada, porém, supera o apelo da personagem principal, Sarah. A Inglaterra do século XIX podia ter se libertado da servidão, mas ainda sentia os efeitos do trabalho forçado. Sarah era livre para sair do seu trabalho e viver sua vida em qualquer lugar. Mas como fazer isso quando não tinha dinheiro e nem família? Ela estava no nível mais baixo da escala social, e suas possibilidades não eram as mesmas que as de um cavalheiro. As sombras de Longbourn se passa em um tempo em que a efervescência dos direitos do ser humano era novidade, uma época em que mulheres e homens começavam a desejar coisas como liberdade e o direito de não morrer de exaustão aos 30 anos. O fim do livro só firma mais essa ideia, quando Sarah toma uma decisão que conversa muito bem com as coisas que a gente deseja hoje em dia.

Os resíduos do dia

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A história modesta de um homem modesto rendeu um livro apaixonadamente reflexivo e triste. Esse é o meu sentimento com Kazuo Ishiguro e o seu Os resíduos do dia, com tradução de José Rubens Siqueira. Minha edição é a antiga, por isso o nome Resíduos ao invés do mais recente Os vestígios do dia. Traduções de título à parte, acho minha capa muito mais representativa.

Stevens é mordomo em Darlington Hall, uma ilustre mansão inglesa, há mais de trinta anos, e no verão de 1956, já idoso, ele é aconselhado por seu novo patrão, um americano, a fazer uma pequena viagem, para tirar um descanso. O mordomo, que não tem parentes e nenhum lugar para ir, decide visitar uma antiga governanta que trabalhou na mansão em seus tempos áureos. Durante esta curta viagem de cinco dias, Stevens irá rememorar momentos do seu trabalho que vão esclarecer para nós, leitores, como um homem que pareceu levar uma vida trivial e sem grandes sobressaltos pode, mesmo com tão pouco, ter tanto a contar.

No fim da década de 1920 e início da década de 1930, no período entreguerras, a mansão ainda pertencia a um nobre inglês, Stevens estava no auge de sua vida e gostava de seu trabalho. Um mordomo que servia homens importantes enquanto eles tomavam decisões fundamentais para o futuro do Reino Unido e da Europa. Alguém que, como ele mesmo diz, conseguiu chegar “tão perto do eixo das coisas quanto um mordomo poderia desejar”. Por boa parte do livro é possível pensar que só o trabalho interessou a esse homem, e que na vida pessoal dele não aconteceu nada digno de nota, mas, enquanto ele escolhe o que contar e o que omitir, ao sentimento de dever cumprido do narrador se acrescenta um novo-velho entusiasmo – escondido com discrição e elegância – quando ele se lembra de uma antiga governanta, Miss Kenton. Ela foi por muitos anos o braço direito de Stevens e, aos poucos, é fácil perceber que havia paixão ali, mesmo entre todas as formalidades e convenções a que os dois precisavam estar atentos.

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Esta lealdade ao serviço, ao patrão e às normas sociais do país foi o que mais me comoveu no livro. É uma entrega ao mesmo tempo admirável e triste que, se já não encontra razão de ser durante a decadência do mordomo, na década de 1950, hoje em dia parece de outro planeta. Minha impressão de um mordomo britânico, do início do século XX era bem essa: a de um homem sisudo e solene. Para mim um mordomo é a representação perfeita de um britânico. Durante toda a narrativa, senti isso em cada palavra de Stevens, que além de seu jeito formal de falar, tem muito orgulho de ser como é. Um trecho resume bem o que estou tentando dizer:

“O que é exatamente essa ‘grandeza’? Onde, exatamente, ou em que ela reside? Tenho plena consciência de que seria preciso uma cabeça muito mais sábia do que a minha para responder a essa pergunta, mas, se fosse forçado a arriscar uma resposta, diria que é a própria ausência de drama ou espetaculosidade óbvios que distingue a beleza de nossa terra. O que é perfeito é a calma dessa beleza, a sensação de contenção. Como se o país soubesse de sua própria beleza, de sua própria grandeza, e não sentisse nenhuma necessidade de proclamá-la. Comparativamente, o tipo de paisagem com que nos brindam a África e a América, embora sem dúvida mais excitante, por certo pareceria inferior ao observador objetivo, devido a seu indecoroso exibicionismo”.

Para Stevens, demonstrar os sentimentos também é um ato de “indecoroso exibicionismo”, e talvez por isso, seus sentimentos tenham ficado guardados por tanto tempo, rompendo-se em apenas um momento, um pequeno momento em que conseguimos vislumbrar todo o excesso preso dentro dele, tudo aquilo que nunca teve vazão. Talvez por isso o impacto no leitor (pelo menos em mim) seja imenso. Kazuo Ishiguro conseguiu contar a história de um homem contido, com dificuldade em expressar afeição, mas que no fim nos surpreende com o amor, mesmo que esteja para sempre bloqueado emocionalmente. Ao realizar isso, ele conta também a história do fim de uma época de  grandeza.

A fidelidade de Stevens a seu patrão, Lord Darlington, também é o motivo de seu orgulho pelo maior bem que, para ele, uma pessoa pode ter: a dignidade. Stevens acredita que a dignidade não é uma qualidade que aparece em qualquer pessoa, e que não está ligada a opiniões firmes. Ele cultiva aquela modéstia subserviente que faz tão bem ao status quo. Em suas palavras, dignidade se resume “a não tirar a roupa em público”. Por isso, mesmo sabendo que Lord Darlington, no auge da segunda guerra, conviveu com os inimigos, mesmo não concordando com muitas das atitudes do patrão – como, por exemplo, demitir duas empregadas judias – Stevens nunca abandonou sua lealdade, mesmo depois da morte do antigo patrão. Ele é um típico filho das classes baixas inglesas, acostumado com (e afeito a) a ordem vigente, mesmo que isso lhe custe a felicidade pessoal. Quando ele finalmente demonstra alguns de seus sentimentos, não tem como não sentir pena de um homem cujo tempo já passou, alguém que serviu ao que acreditava ser correto.

Os resíduos do dia pode tratar de um homem modesto, mas conta uma história nada simplória. Stevens é um narrador que consegue nos tocar mesmo quando abominamos suas atitudes e decisões. Este é um romance verdadeiramente enternecedor.

A história secreta

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A história secreta, lançado em 1992, é o primeiro livro da norte-americana Donna Tartt. De lá para cá ela escreveu mais dois: O amigo de infância – que nunca me interessou muito – e O Pintassilgo, com o qual ela ganhou o prêmio Pulitzer. Por causa do prêmio, no ano retrasado eu vi muita gente lendo Donna Tartt e isso me reavivou a vontade de ler um livro dela, porque fazia uns quatro anos que eu estava paquerando A história secreta. Vi umas três capas diferentes, todas pela Companhia das Letras, com tradução de Celso Nogueira, e cismei que precisava ter o livro com a primeira capa brasileira. Em 2014 achei na Estante Virtual um exemplar da edição que eu queria. “Em bom estado”, o vendedor dizia. Comprei. Sabe, preciso dizer aqui que eu adoro sebos. Antigamente passeava bem mais pelos vários que há em Curitiba e sempre achava alguma coisa pra levar pra casa. Nunca tive problema com livro com cara de usado, mas quando a minha cópia de A história secreta chegou em casa, fiquei petrificada. O livro estava muito mais do que usado: ele parecia ter sido abusado, ter vivido toda uma existência traumática. Estava quase irrecuperável. Coloquei-o num lugar não muito nobre da estante, e lá ele ficou, só porque eu tinha pena de me desfazer. Agora em janeiro, enfiei A historia secreta na minha meta de leitura, e até já tinha planejado comprar uma versão mais nova e limpinha, mas encontrei a velhinha na estante e, pro meu espanto, ela meio que tinha se recuperado das surras da vida, na medida do possível. Arrisquei e, depois de umas cinco páginas, consegui encarar, e posso falar que foi uma experiência muito boa. Acho que todo mundo, uma vez na vida, precisa ler um livro no bagaço.

A história secreta é um romance que parece cheio de reviravoltas, e talvez até tenha mesmo algumas bem envolventes, mas elas não são o aspecto mais importante do livro. Richard, o protagonista, parece um jovem muito sem graça a princípio, e como narrador fica mais sem sal ainda. Mas quando me dei conta, a falta de graça tinha construído um personagem bem interessante. Por algum tempo eu achei que ele era um narrador quase ausente, contando a história de todos e omitindo a própria, mas isso acabou sendo bem proveitoso e deu um efeito original ao romance.

Richard é um garoto da Califórnia, mas não o típico garoto surfista e descolado. Ele nasceu e passou parte da vida na cidade de Plano, com pais desinteressados por tudo o que ele achava importante e, principalmente, sem qualquer interesse por ele. Quando aparece a oportunidade de estudar com bolsa em uma universidade do outro lado do país, ele vai embora só com a roupa do corpo. Na universidade, ele vai travar conhecimento com um grupo de jovens vindos de famílias muito ricas, gente que nem imagina o que é ter pais da classe trabalhadora.

Esse grupo é formado por cinco pessoas, no mínimo, excêntricas. A história secreta é sobre elas. Pessoas que parecem ter sido aperfeiçoadas à exaustão, de tão refinadas que são. São jovens que estudam grego – e esse detalhe é importante – e vivem isolados em um mundo próprio. Desde a vestimenta, passando pelas relações que estabelecem, tudo indica que eles são únicos e exclusivos. Richard precisa fazer parte daquilo porque ele não quer envelhecer condenado a ser como todo o resto do mundo. Saindo de uma cidade pequena e sem perspectivas, entrar num grupo totalmente elitista e especial é tudo o que ele sonha. Sabe quando você chega em um lugar novo e todos se conhecem, menos você? Essa sensação é terrível, e Richard, sem reclamar nem nada parecido, me fez experimentá-la.

No fim, o que mais me interessou não foi quem fez o quê com quem nem o porquê. O que mais me intrigou e me fez ir até o final foi o relacionamento dos seis. Minha dúvida durante todo o livro foi se Richard conseguiria entrar de verdade para o grupo. Henry, Francis, Charles, Camilla e Bunny se conhecem há muito tempo, e acham que são mais do que estudantes dos clássicos, eles acham que são discípulos de algo maior. É fácil notar quando as coisas mudam no relacionamento de Richard com os veteranos do grupo, mas até a última página, a impressão que eu tenho é que ele nunca foi um deles.

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Não parece, mas esse livro estava estropiado

Isso já é mais importante e tem mais substância do que as reviravoltas dramáticas mas, claro, um crime acontece. E aqui não dou spoiler, a gente fica sabendo disso na primeira página. Um dos integrantes do grupo é assassinado, e, de um jeito ou de outro, Richard está envolvido neste segredo. Mais do que isso: para ser aceito, ele quer se envolver. Nessa leitura, o assassinato consumiu boa parte das minhas energias, mas depois que tudo foi se encaixando, e o crime foi ganhando explicação, meu interesse caiu um pouco. Fiquei com a sensação de que as motivações eram todas muito pueris. Minha dúvida, que ainda persiste, é se Donna Tartt queria fazer uma espécie de crítica ao exclusivismo de gente muito especial, ou se ela realmente acreditava na relevância dos temas de que trata em  A história secreta. Eu entendi que ela exagerou na carga dramática para emular ou parodiar uma tragédia grega, afinal o grego permeia toda a história, mas era só isso?

Minha memória é muito ruim, muito mesmo. Eu poderia dar muitos exemplos aqui de quanto minha memória é ruim, mas não quero me envergonhar, por isso só digo para você acreditar que minha memória é péssima. Minhas lembranças de uma leitura depois de alguns anos são problemáticas. Se o autor é bom, eu consigo me lembrar do principal: as sensações que eu tive enquanto lia. Quando o livro é ruim, eu esqueço rapidamente. Mas alguns livros possuem um ambiente especial, e eu soube, mesmo agora logo depois de terminar a leitura, que esse romance vai ficar na minha memória. A história secreta tem uma atmosfera especial, talvez por conseguir juntar toda a maquinação por parte dos personagens com algo além de fofoca e intriga. Aquele campus em Vermont vai ficar na cabeça por um bom tempo, eu vou me esquecer dos comos e porquês mas a sensação de ter passado por ali vai permanecer. Acho que isso já é suficiente para eu começar a paquerar O Pintassilgo.