Um outro amor

 

um outro amor karl ove

Em Um Outro Amor, Karl Ove Knausgård continua ranzinza, mas aconteceu uma mágica. Não foi amor à primeira vista. Se o primeiro livro eu atravessei me arrastando (e acho que boa parte da culpa foi minha por alguma má vontade e pouco tempo), o segundo foi um verdadeiro encontro. No começo deste ano, vendo Um Outro Amor encostado na estante, eu pensei que só teria a empolgação de lê-lo se o enfiasse na minha meta de leitura, junto com outros livros que estavam aqui em casa pegando pó desde sempre. Foi a melhor decisão de 2016 (pois é, pra você ver como eu tô mal de decisões acertadas). Finalmente, a resmungona dentro de mim se identificou com o Knausgård resmungão.

Como talvez todo mundo saiba, na série Minha Luta Knausgård abriu a vida e contou tudo o que se passa com ele e com a esposa, os filhos, os pais, os amigos, o irmão. Metade daquilo é invenção? Não sei, pode ser que sim. Se ele não se equipou de muitos diários ao longo da vida acho que só restaria apelar para a imaginação. Quem poderia relembrar, de cabeça, diálogos de anos atrás? Só que no fim das contas, pouco importa se ele inventou um pouco, se ele nada inventou ou se ele inventou tudo.

Nesse segundo livro, Knausgård se concentra no princípio de seus trinta anos, em sua chegada a Estocolmo e no começo do relacionamento com Linda, a mulher com quem ele casou. Acho que esse é o outro amor a que o título se refere. Eu não pude me identificar muito com narrador do primeiro livro, com o interesse dele pelo pai e com os  dramas que ele vivia. Aquilo era um romance de formação. Em Um Outro Amor o momento é outro. Knausgård reflete sobre os nascimentos dos filhos, o começo da ideia dos livros autobiográficos, as diferenças entre o que ele quer fazer e o que consegue, e tudo isso me tocou mais de perto. Ele é um sujeito obcecado com as coisinhas mais insignificantes do dia a dia, e até aqui eu tenho a impressão de que ele consegue ver significado naquilo que parece bobagem aos olhos de todo o mundo. Tudo isso já foi dito a respeito de Knausgård, e já dava para notar no primeiro volume. A novidade, para mim, foi que eu não conseguia parar de pensar em três comediantes enquanto lia Um Outro Amor: às vezes Jerry Seinfeld, mas principalmente Larry David e Louis C.K.

É que eu acho que – pelo menos de longe –  a chatice é uma espécie de qualidade subestimada. Assim como os comediantes que eu citei, Karl Ove Knausgård se irrita com muita coisa e detesta as pessoas com a mesma intensidade com que se sente deslocado. Tudo é um parto. Quando ele se recusa a aceitar facilmente pequenas regras não ditas, minha vontade é cumprimentá-lo, tipo “Concordo inteiramente, toca aqui”. Em uma festinha de criança, ele narra a aventura que é interagir com pessoas com quem ele não tem nenhuma ligação ou afinidade, tudo em nome da educação e dos bons modos. É o mesmo percurso tortuoso de um “você já reparou nisso?” ou “vocês já perceberam que tal coisa?” – aquilo que é matéria para stand up comedy. Só que, assim como acontece com Larry David e Louis C.K., o assunto fica mais sombrio e tem horas que viver parece inútil, impossível ou insuportável.

um outro amor

Linda, a mulher de Knausgård, é a personificação da pessoa limitadora, ou pelo menos é assim que ele a vê. Ele a ama e a odeia com a mesma intensidade, ele se sente emasculado e de mãos atadas. Linda é a presença que transforma o mundo. Se no primeiro livro a infância ao redor de um pai ditatorial é o tema central, no segundo livro a libertação  como adulto está no centro, especialmente quando uma mulher e uma família parecem restringi-lo. Aí Knausgård reclama, desaprova, se irrita; seu bloqueio para escrever parece eterno. As desilusões e incertezas dos trinta anos ganham graça pela voz dele. Imagino que não tenham sido muitas pessoas que riram com as situações contadas por ele, mas como uma verdadeira chata eu me empolguei e ri muito com suas descrições de pessoas e lugares. Depois de falar alguma coisa ou dar uma opinião, é normal que Knausgård descreva a reação de seu interlocutor como um sorriso e nada mais. Apenas um sorriso, como se a pessoa quisesse esganá-lo. É por Knausgård agir nesses vãos do que é socialmente aceitável que eu o cataloguei, na minha cabeça, mais perto daqueles comediantes do que de qualquer outro escritor que eu conheça.

Não é sempre que me deparo com um livro que me faz querer sublinhar trechos inteiros e compartilhá-los com quem estiver perto. Meu exemplar de Um outro amor está todo riscado. Eu me reconheci em muitas coisas ditas por Knausgård. Ele me parece a pessoa mais sincera do mundo. Se ele não fosse sincero não teríamos esses livros, em que ele conta detalhadamente coisas das quais todo mundo quer fugir,  e expõe pessoas queridas – mas nunca tão queridas a ponto de ele decidir poupá-las. É uma galeria que tem a sogra, que parece estar bebendo escondida enquanto cuida da neta; a esposa que surta por ciúme até da própria sogra; e especialmente ele, Karl Ove Knausgård, que nunca é poupado. Não é todo mundo que gosta de se ver nos olhos dos outros, mas ele tem essa coragem. Ele consegue ser cruel, quase nunca condescendente.

Uma sinceridade desse tamanho acaba soando rude, e isso causa um efeito. O jeito de contar é descomplicado e pode parecer sem artifício. Claro que não é, e esse é o grande mérito do norueguês. A impressão de que ele cavou fundo enquanto “papeava” é grande. Eu não sei se ele tem consciência de quão engraçado – ou, digamos, tragicômico – esse mergulho íntimo pode ser.

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