Caçando carneiros

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Parece que estou chegando atrasada para uma festa (ou sou a única que não conhece um meme famoso) quando penso que só agora li Caçando carneiros, de Haruki Murakami. O livro é de 1982, e  desde 2001 já existia uma edição brasileira, da Estação Liberdade. Depois de ler Norwegian Wood, lá por 2005, eu procurei Caçando carneiros e não achei – eu era apaixonada por aquela capa. Até aquele momento a culpa de estar em falta com o autor não era minha.  Tudo acabou bem em 2014, quando vi que a Alfaguara iria (re)lançar o primeiro grande sucesso de Murakami, com tradução de Leiko Gotoda. Acho que o comprei no primeiro dia. Yada yada yada… estou há dois anos com o livro na minha estante, e a culpa finalmente me alcançou no início deste ano quando montei minha meta de leitura.

E foi a meta que muito me ajudou a não desistir de Caçando carneiros. O livro não é ruim, mas quando comecei a lê-lo, topei com uma repetição de 1Q84 – sim, eu li na ordem errada e por isso acho que o velho repete o novo – e, com tantos livros no mundo e vida finita, estava para abandonar porque não me sinto na obrigação de ler nada que me faça empacar. Mas a meta e o blog (e os sintomas iniciais de transtorno obsessivo compulsivo? vai saber!) me fizeram ir até o fim. A surpresa foi que depois de umas cem páginas, quando um clima de romance policial tomou conta do livro, foi embora a sensação de que aquilo era mais do mesmo, e eu lembrei que as repetições e a atmosfera eram marca registrada de Murakami. Se elas não fazem deste romance um livro excelente, pelo menos ficaram lá, primeiro sem me atrapalhar e depois como parte fundamental do meu interesse.

Caçando carneiros tem um narrador protagonista sem nome. Ele é publicitário e leva uma vida pacata desprovida de grandes anormalidades. Namorando uma garota também sem nome, mas que possui um belo par de orelhas (um dos trabalhos dela é ser modelo de orelhas), ele se vê numa jornada aparentemente absurda quando fica encarregado de achar um carneiro específico. Ele e a namorada vão viajar o país atrás do tal carneiro, e é aí que o livro melhora.

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Destaco um momento especial. Num trem, o narrador está lendo um livro ruim sobre a história da cidade para onde ele está indo. De forma bem simples, sem nenhuma bizarrice na narração, surge um daqueles momentos que ajudam a desvendar o sentido do que se conta. O trecho fala de como um pedaço de terra virou vilarejo, e então cidade, para no fim – depois do processo intenso de industrialização por que o Japão passou depois da Segunda Guerra – virar uma cidade fantasma. Todos os ciclos de um lugar que nasceu e morreu em muito pouco tempo. Uma cidade moribunda por conta de um novo modo de vida, herdando apenas pessoas que trabalham oito horas por dia e “assistem quatro horas de televisão… uma vida tediosa”. Em momentos como este, senti que toda a história era apenas uma metáfora torta e desmontada da história do Japão no século XX. A idade do protagonista bate com a do autor, nascido no começo do pós-guerra, e a década em que o livro saiu era o apogeu do novo status do povo japonês, cada vez mais desapegado de certas tradições. Eles foram da abnegação e da obediência dos tempos de potência imperialista para o individualismo desconectado da era globalizada, em que a cultura japonesa encontrou de vez o ocidente. Até a bagagem intelectual de Murakami é prova da transição cultural do Japão: ele teve uma casa de jazz, verteu ao japonês Raymond Carver, Raymond Chandler, Truman Capote, J.D. Salinger.

Por isso, em Caçando carneiros, ver tudo o que acontecia com lentes capazes de distorcer a realidade é até uma espécie de obrigação. Deixa eu destacar outro momento:

“Tomei um banho de chuveiro, lavei os cabelos molhados da chuva, enrolei uma toalha nos quadris e assisti a um velho filme norte-americano de submarinos na TV. A trama era deprimente: o comandante e o subcomandante não se entendiam, o submarino era da idade da pedra, e tinha um personagem que sofria de claustrofobia, mas no fim tudo dava certo. O tipo de filme ‘a guerra não pode ser tão ruim, já que no fim tudo dá certo’. Daqui a pouco, vão fazer um filme em que a humanidade se envolve numa guerra nuclear e é exterminada, mas no fim tudo dá certo.”

Em outras passagens a narrativa extravagante (e pós-moderna, como lembra Bernardo Carvalho) de Caçando carneiros nem me fazia lembrar de metáfora. Pela sinopse, dá para ver que o estranho/fantástico faz parte do livro, e acho que isso está longe de deixar o texto maçante ou hermético, mas houve vezes, como eu disse lá em cima, em que incomodou a sensação de já ter visto muito disso. Claro que no fim eu comprei a história, e mesmo não sendo um livro especial nem obrigatório, a sensação não foi de tempo perdido.

Se você assim como eu está chegando atrasado a esse Murakami de 1982, mas conhece momentos mais, digamos, sólidos da carreira dele (como Norwegian Wood, que é mais realista e objetivo embora bastante romântico e melancólico, ou Minha querida Sputnik, que tem mais daquela energia juvenil dos livros que a gente precisa ler enquanto é jovem), vale a pena ler Caçando carneiros para matar saudades do estilo e da imaginação de Murakami, e do Japão que o autor desenha de um jeito tão gostoso. Agora, se você encontrou este texto querendo saber o que deve ler e por onde começar, eu posso dar minha opinião de palpiteira online: Norwegian Wood, sem sombra de dúvidas.

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