Vida e Destino

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Viktor Chtrum é um cientista judeu que vive na União Soviética. Ele segue trabalhando em plena Segunda Guerra Mundial. Com ele moram a esposa, a filha e a sogra. A vida não está fácil, mas há muitos soviéticos em situação pior. A mãe dele, por exemplo, que nunca se entendeu com a nora e mora em outra cidade, vive na pele a pior época para ser uma senhora judia na Europa. Em outro lugar, no mesmo período, alguns prisioneiros de guerra vivem uma vida tão difícil quanto a dos prisioneiros dos campos de concentração. Há também os presos longe da guerra, aqueles que cometeram crimes políticos ou comuns; para eles a situação também é ruim. Enquanto tudo isso acontece, mais judeus estão dentro de vagões de trem em direção ao extermínio. O clima é de sujeira, fome, frio, aperto e profunda desesperança.

Vida e Destino, de Vassili Grossman, fala sobre essas e outras pessoas, mas trata principalmente de uma era negra na União Soviética. Na altura da Segunda Guerra os líderes soviéticos travavam duas batalhas: uma com os alemães, que eram o inimigo externo, e outra com seu próprio povo. O Estado totalitário fazia com que todos desconfiassem uns dos outros; em busca da própria salvação, não era raro que um camarada denunciasse o outro como traidor da revolução. A suspeita pairava acima da cabeça de todos e frases bobas ou piadas infames acabavam em penas longas e reputações arruinadas. Mas Vida e Destino é mais que um compilado minucioso da vida sob o totalitarismo. O livro consegue analisar profundamente o mal através de vários pontos; o extermínio sem sentido, a paranoia mesmo entre amigos de longa data, a fome e a miséria: tudo é parte de um quadro em que o que se analisa é a humanidade e o que significa estar vivo e fazer o bem.

São 900 páginas de muito sofrimento e de passagens que me deixavam ora com desgosto, ora com desânimo. Eu podia sentir aquela maldade entranhada nas picuinhas políticas, mas inerente às pessoas. Admito que chorei em mais de um momento muito difícil, e acho que é impossível não sair cambaleando da leitura de Vida e Destino. São muitos os livros sobre as brutalidades e a barbárie das guerras, mas eu ainda não havia experimentado esse sentimento de perplexidade diante da tragédia que encontrei no livro de Vassili Grossman.

Vai ver o impacto acontece porque o autor viveu aquilo de perto, como correspondente de guerra. Mas o realismo das descrições da vida em um lugar, em uma determinada época, não foi o que mais me comoveu. O que me deixou espantada foram as intervenções de Grossman, a maneira como seu narrador se debruça sobre os acontecimentos para refletir sobre eles. Meu exemplar está todo rabiscado e minha vontade era transcrever aqui tudo o que me emocionou, como se com isso fosse possível convencer alguém a tirar o livro de uma prateleira e começar a leitura na mesma hora.

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Qualquer livro sobre guerra não seria a minha primeira escolha de leitura. A quantidade de nomes de lugares e personagens deu um nó na minha cabeça. Eu comecei sem ter certeza de que iria até o final, mas aí bati o olho nesse parágrafo:

Os olhos dela, que tinham lido Homero, o jornal Izvéstia, Huckleberry Finn, Mayne Reid, a Lógica de Hegel, que haviam visto gente boa e gente má, os gansos nos prados verdes de Kursk, as estrelas no telescópio de Púlkovo, o brilho do aço cirúrgico, a Gioconda no Louvre, os tomates e nabos nas gôndolas dos mercados, o azul do lago Issik-Kul, agora não lhe eram mais necessários. Se alguém a cegasse naquele instante ela não sentiria a perda.

Foi ali que eu percebi que às vezes o que a gente tem que fazer é abrir o livro que não parece ter muito a ver com o que a gente quer de uma leitura. Eu não conhecia Vassili Grossman. Meu marido comprou o livro em 2015 e, assim que o terminou, começou uma campanha para eu lê-lo logo. Só agora em 2017, acompanhando o canal Lido Lendo, foi que eu soube que Vida e Destino havia sido escolhido para uma leitura compartilhada durante o mês de julho. Achei que era a hora de dar uma chance. Segui o cronograma estabelecido e adorei avançar no livro enquanto acompanhava a opinião dos outros.

Às vezes quando eu leio um livro de gênero eu penso naquela velha história de que sempre precisamos de uma dose de pré-disposição para encarar qualquer ficção. Afinal, é preciso boa vontade para comprar uma história e ler a respeito de monstros, vampiros, zumbis, magnatas de 25 anos solteiros e amorosos, fantasmas e toda a coleção de coisas que não aconteceram e nunca vão acontecer. Não importa o gênero. Se há muita invencionice, é preciso que a gente esteja disposta a encarar a leitura e fazer a tal viagem. Isso é uma das melhores coisas que a literatura proporciona, mas às vezes é bom e importante ler um livro que não demanda esforço da imaginação para que a gente entenda profundamente o que há de melhor e pior no mundo. O melhor e o pior estão ali representados, de um jeito preciso e profundo. Grossman investigou e revelou situações que não eram de conhecimento geral naquela época. Tanto quanto um livro como Doutor Jivago, Vida e Destino mostrou para o resto do mundo o tamanho do desastre que era a União Soviética. Se para encontrar isso um leitor precisa de certa dose de coragem, o que dizer do trabalho de quem escreve?

É impressionante a empreitada de escrever com tanta sinceridade em um momento tão perigoso. Para terminar, eu só queria deixar um trechinho desses que renovam o amor da gente pela literatura (lembrando que a tradução do russo é de Irineu Franco Perpétuo):

A história dos homens não é a batalha do bem tentando vencer o mal. A história do ser humano é a batalha do grande mal para reduzir a pó a semente do humanismo. Mas se nem agora o humano foi morto dentro do homem, então o mal não há de triunfar.

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Deixei você ir

Deixei você ir

Uma mulher luta para seguir a vida depois de um acidente terrível. Um detetive com problemas familiares se vê às voltas com o caso de um menino morto. Deixei Você Ir, de Clare Mackintosh, é a história de duas pessoas corroídas pelos fatos de um acidente trágico. Em um dia chuvoso o menino Jacob é atropelado por um carro em alta velocidade. O motorista foge do local, deixando o menino morto na rua. A mãe  presenciou tudo. A equipe do detetive Ray Stevens começa a investigar o ocorrido, mas as provas são poucas e parece impossível descobrir quem faria tamanha crueldade. Jenna precisa recomeçar, mas não tem como superar aquela morte. Ela se muda para uma praia isolada, aluga uma cabana e tenta viver.

A sinopse de Deixei você ir entrega um clima de romance policial, mas depois de poucas páginas já notamos que a investigação e a busca pelo assassino não são o ponto crucial da história. Os capítulos são alternados entre a investigação (com lampejos da vida particular do detetive Ray) e o recomeço mais do que complicado de Jenna. O detetive e sua equipe trabalham no caso do atropelamento, mas ele também está com muitos problemas em casa. O filho mais velho está estranho, com alguns problemas na escola; o relacionamento com a esposa também não parece o mesmo, e sua companheira de trabalho, a jovem Kate, parece ser exatamente aquilo que ele precisa para fugir dos problemas.  Dessa forma, a investigação fica permeada pelos dilemas  de Ray e por causa disso, ainda que este seja um recurso comum em romances policiais, aqui vai uma reclamação: achei tudo o que envolvia o detetive bem desinteressante.

As partes de Jenna, pelo contrário, são o ponto alto do livro.  Os capítulos na praia, em que ela tenta começar de novo, me fizeram continuar a leitura. Mas esqueça qualquer resquício de romance policial enquanto a história se concentra nela. O livro vira um romance reflexivo sobre uma mulher e sua vida estilhaçada, alguém que tem poucos amigos e conhece um homem, por quem se apaixona. A primeira metade de Deixei você ir se dá assim. É na segunda parte que acontece uma reviravolta. O livro deixa de ser morno e nos ajuda a entender melhor a personagem de Jenna. Clare Mackintosh me enganou direitinho com um desses recursos que estão na moda nos thrillers de hoje em dia.

Para mim, Deixei você ir não foi uma das melhores leituras do ano, mas está longe de ser maçante. A reviravolta coloca a história inteira sob outra perspectiva, e por causa disso a segunda metade do livro ganha fôlego. Além disso, Mackintosh me fez torcer por Jenna, e isso sempre requer uma dose de identificação não só com a tristeza gerada pela tragédia, mas com os pensamentos que surgem dela.

Deixei você ir intrinseca

Para quem já leu ou para quem quer spoilers

Como eu não consigo me controlar, preciso contar mais dessa segunda metade do romance. Saber de alguns detalhes não atrapalha, mas tem coisa que anula um livro inteiro. Acho que fica impossível ler Deixei você ir sabendo da reviravolta. Seria outra experiência. Fica o aviso.

Jenna passa todos os capítulos da primeira metade do livro se sentindo culpada. Jacob morreu e ela, claro, não consegue lidar com isso. O leitor sabe que a mãe de Jacob não segurou a mão dele ao atravessar a rua, e que ela se culpa por isso. A autora nos induz a acreditar que Jenna é a mãe de Jacob. Por que ela estaria com culpa e precisaria reaprender a viver se não fosse a mãe? Porque ela é a assassina, a atropeladora! No fim, a polícia descobre que o carro que atropelou o menino é de Jenna e a prende. Ela assume toda a responsabilidade, dando um nó na cabeça do leitor (pelo menos na minha, vai que você é mais inteligente e percebeu rapidamente tudo o que acontecia?).

Jenna é uma boa pessoa que tomou más decisões, mas ela tem um motivo. Na segunda metade do livro um novo personagem é inserido. Ian era marido de Jenna, um sujeito abusivo e violento. Ele narra todo o relacionamento dos dois desde que se conheceram. É incrível ver fatos horríveis pelos olhos de uma pessoa que acha normal fazer a namorada engolir água sanitária. Aos poucos nós vamos entendendo por que Jenna se isolou numa cabana no meio do nada e por que ela tem medo de tudo. Ian é violento e está atrás dela. Só aí o livro fica com cara de thriller, só a essa altura entendemos que o tema central da história é a violência doméstica e não as consequências do assassinato do menino Jacob.

Meu único problema com Deixei você ir? Bom, se você ainda não leu o livro e aguentou todos esses spoilers vai aguentar mais este choque: Ian atropelou Jacob enquanto Jenna estava no banco do passageiro. Foi ele. Foi mais uma das vilezas dele. Mas ela assume a culpa, sozinha, pois acha que alguém precisa pagar pelo sofrimento da mãe de Jacob. Eu entendo que uma vítima de violência doméstica pode não conseguir delatar seu agressor por puro medo, mas simplesmente não me caiu bem que Jenna tenha deixado um abusador assassino escapar impune. Achei que esse foi um grande furo, mas isso não estraga o livro.

Quatro livros de Alessandra Torre

livrosDepois de terminar uma leitura longa, de um romance um pouco complicado, eu gosto de me dedicar a livros que parecem novelas de televisão. Pode parecer estranho terminar O Vermelho e o Negro e já pegar um livro em que não acontece nada, um desses para os quais as pessoas fazem careta, mas foi assim que eu peguei gosto pela leitura: misturando todo tipo de coisa. Eu nunca conseguiria ler apenas clássicos, porque me faltaria aquela sensação de prazer que só um sentimento banal mas genuíno pode nos dar. Ao mesmo tempo, também nunca conseguiria ler apenas romances levíssimos, pois aí o vazio tomaria conta de mim. Foi assim que, depois de terminar O Vermelho e o Negro, eu engatei em um livro atrás do outro de Alessandra Torre. Eu não a conhecia e o o nome me levou a pensar que se tratava de uma brasileira, mas não: ela não só é gringa como também nenhuma editora brasileira se interessou em publicá-la, o que é uma pena porque a popularidade de Torre entre brasileiras só aumenta.

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Rodando pela internet eu encontrei Love, Chloe e adorei tanto a capa quanto o  título. Decidi tentar a sorte. O livro é legalzinho, mas não empolga. Chloe é uma garota rica e mimada que nunca precisou trabalhar na vida. As coisas mudam quando seus pais perdem todo o dinheiro, mas ela acaba mostrando que consegue se virar muito bem. Tem um triângulo amoroso entre ela, o ex-namorado e um cara que ela acabou de conhecer. O livro parece querer ser um chick lit. A protagonista é meio desmiolada, mas não de um jeito muito legal. Talvez por querer dar um ar leve para tudo, a autora erra a mão e todos os personagens parecem destituídos de vida. Mas isso não foi o suficiente para me fazer desistir de Alessandra Torre. No Skoob e no Goodreads eu li opiniões tão positivas sobre seus outros romances que resolvi continuar.

O segundo livro lido foi Tight. Fiquei espantada que a mesma autora tenha escrito Love, Chloe e Tight. Para quem gosta do gênero dark, que aliás eu nem me arrisco a definir, aqui está uma ótima escolha. O que eu mais gosto nesses livros é o tamanho da loucura das autoras: cada história é o roteiro de uma novela mexicana acrescido de pirações pelos submundos do sexo e da psicopatia. Para explicar melhor do que trata Tight, não vou conter os spoilers, então se você se interessou a ponto de querer lê-lo, o texto acaba aqui. Brett é um homem apaixonado que perdeu seu grande amor para o tráfico de mulheres. Como ele é um cara muito rico (isso é pré-requisito para todo mocinho) ele decide dedicar sua vida a resgatar meninas raptadas e vendidas para homens que querem apenas abusá-las de todas as formas imagináveis. Riley é a mocinha que aparece na vida dele. Ela não tem a menor ideia de toda essa história de tráfico de mulheres e não sabe o que acontece na vida de Brett. Um dia os dois se esbarram e se apaixonam. O livro é isso, mas os capítulos são intercalados por Riley e Brett se apaixonando e pela narrativa de uma garota que vive em cativeiro, esperando que um dia Brett a salve.

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Acho que, como todo mundo que leu Tight, eu passei o livro inteiro tendo certeza de que a garota que aparece nos capítulos contando seus dias no cativeiro era o grande amor da vida de Brett, aquela que ele amava antes de conhecer Riley e que sumira para sempre. Como em qualquer outro livro do gênero eu sabia que uma grande reviravolta aconteceria, mas não imaginava sua magnitude. Se você ainda está lendo, vou avisar novamente: vou dar o spoiler que vai destruir Tight para quem ainda pretende começar. Riley parece desconfiar que Brett está envolvido em negócios ilegais e resolve segui-lo. O negócio ilegal é a compra de meninas raptadas, mas ela não sabe que ele é bonzinho e que as compra para libertá-las. Acontece que Riley é raptada, afinal, ela o seguiu de forma imprudente, alguém a viu e a oportunidade falou mais alto. Então quem é a moça no cativeiro, que aparece em capítulos alternados? Ninguém menos que Riley, ela mesma, que ficou nove meses presa em um quartinho, vivendo com seu raptor, até ser finalmente vendida, é claro, para o grande amor de sua vida, aquele que compra escravas para ser humanitário. Mas e o grande amor do passado? O grande amor que Brett perdeu no tráfico de mulheres é sua irmã que foi morta pouco tempo depois de ser sequestrada. Super reviravolta em um livro bem louco.

Empolgada com os delírios de Alessandra Torre, parti para o próximo. Black Lies prometia uma super reviravolta no fim, mas eu entendi o grande mistério da história bem no começo da leitura e isso arruinou tudo. Nessa hora tive certeza de que, sem o mistério da reviravolta, esses livros perdem a razão de ser. Por isso me senti uma guerreira por terminar a leitura. A sinopse conta que há um triângulo amoroso: a protagonista + um cara rico mauricinho + um jardineiro rude. Agora aqui vai o spoiler que destrói a leitura: não há dois caras, há apenas o mesmo maluco com transtorno dissociativo  de identidade. Ele é o cara rico e o jardineiro ao mesmo tempo. Por isso a protagonista, que parecia tão apaixonada por um, consegue se envolver rapidamente com o outro. Eu concordo que esse foi bem fraco, mas tinha potencial. Alguma vez, na vida real, alguém com o raríssimo transtorno de dupla personalidade causou tanto estrago quanto se causa na ficção? Totalmente novela mexicana.

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Por último, resolvi tentar um sem reviravoltas malucas e, olha, foi uma boa ideia, porque encontrei o que talvez seja o melhor livro de Alessandra Torre. Hollywood Dirt é leve, fofo e bem romântico. Summer é uma garota do interior e Cole é um ator de Hollywood, super famoso e badalado. Ele acaba indo filmar na cidadezinha dela. Ela é teimosa e orgulhosa e ele logo se apaixona, mas não admite. Eles vão brigar, vão se estranhar e por fim vão se entregar ao amor. O clima de cidade pequena foi o que mais me empolgou, muito porque é covardia fazer essas coisas comigo já que a minha memória afetiva está ligada a lugares assim. Fui fisgada, adorei ver a autora em um universo ligeiramente menos bizarro, mas não sei: nada como aquela sensação de que a Maria do Bairro acabou indo parar num filme policial dos anos 1990 e agora precisa se livrar de um serial killer por quem vai acabar se apaixonando.

Meta de leitura: adeus ano velho, feliz ano novo

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Olá, 2017. Pessoalmente, 2016 foi um ano bom. Eu fico até me sentindo um pouco fria e desalmada ao dizer isso mas, tirando dois terços de dezembro, quando o meu cachorro teve uma doença neurológica, para mim o ano veio e foi sem as atribulações que chocaram a todos. Foi um período esquisito para o Brasil, em que aconteceram coisas boas e interessantes para quem gosta de ver o circo pegar fogo. Não é o meu caso, mas eu acho que tive relativo sucesso em manter-me longe da solidão, da paranoia e do tesão descontrolado (cortesia de Fausto Fanti) que pairaram como uma nuvem sobre as cidades do mundo inteiro. Para isso eu tive uma ajudinha dos livros.

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Adeus, 2016

2016 foi um ano de leituras muito boas. Não foi o primeiro em que eu fiz uma meta de leituras, mas foi o primeiro em que a meta teve um sentido: eu escolhi 12 livros que estavam parados em casa, daqueles que a gente compra na neurose e joga para o fim da fila por preguiça. O objetivo era combater uma tendência que eu vejo em mim e em muita gente: comprar livros, ter compulsão por comprar livros, fazer coleção deles, tratá-los como coisinhas preciosas – aumentar a pilha. O objetivo da minha meta era diminuir a pilha. Eu li aqueles 12 dos que estavam aqui parados há mais tempo, e li outros 124. Entre estes, alguns ebooks, outros que também estavam na estante, quatro que eu li em voz alta para o meu marido (que não é cego, mas às vezes joga videogame enquanto eu leio em voz alta). Eu também comprei alguns, não vou mentir, mas foram menos de 20. Eu evitei livros físicos e guardei os lançamentos para o Kobo. Fiz um post para cada livro da meta, e ao todo foram 25 os textos sobre livros aqui no blog. Nesse quesito, fui uma boa menina. A pilha diminuiu, portanto?

Sim, mas ainda temos trabalho pela frente. Já em outubro eu começava a planejar uma nova meta para 2017. Minha primeira ideia era ler doze romances históricos brasileiros. Eu havia descoberto uns três ou quatro que me interessavam, e comecei a pensar que esse gênero é muito largadinho. Meu marido botou uma pilha e eu cheguei a esboçar uma lista, mas desisti quando percebi que teria que comprar um ou dois bem caros, e tentar a sorte em outros pela Estante Virtual. Olhei para as estantes e percebi que ainda tenho muita coisa para ler antes de ir às compras. Por isso, resolvi repetir o critério de 2016 em 2017. Catei os que mais me agoniavam da casa e fiz uma lista muito boa, uma que me deixou feliz e que faz sentido. Olha só.

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Olá, 2017

Tem três russos, dois livros da Pedrazul, um livro reportagem brasileiro, O Vermelho e o Negro naquela edição da Abril (que está aqui em casa há milhares de anos, eu acho), o primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido (que eu estou para começar desde que me entendo por leitora), Virginia Woolf, Clarice Lispector, Marguerite Yourcenar, Simone de Beauvoir. São livros que eu leria mais cedo ou mais tarde e que, com a rigidez da meta, eu resolvi ler mais cedo. Do ano passado ficam alguns aprendizados, entre eles o principal: não deixar para dezembro um livro muito longo, porque dezembro geralmente é um mês de pouca rotina, e todo mundo sabe que a rotina é muito amiga da leitura.

O primeiro dia do resto da nossa vida

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Tess e Angus têm dezoito anos e se esbarram na Itália durante uma viagem de férias. Isso parece o começo de uma história de amor, não é? Não é o que a autora Kate Eberlen acha. Tess e Angus apenas topam um com o outro e continuam com suas vidas. Esse é o grande suspense de O primeiro dia do resto da nossa vida. Se você já leu Simplesmente acontece, de Cecelia Ahern, vai entender melhor a ideia desse mistério: acompanhamos dois personagens que têm tudo para formar um casal mas que, por conta do destino, não conseguem se encontrar.

A história começa em 1998 e termina em 2013. São quinze anos com muitos altos e baixos. Tess volta da viagem da Itália pronta para começar sua vida acadêmica, mas sua mãe está muito doente. Como se não bastasse isso, os planos para a universidade são deixados de lado quando ela percebe que é a única pessoa que poderá cuidar da irmãzinha de quatro anos.

Angus também está ansioso pela vida acadêmica, mas por motivos bem diferentes. Recentemente ele perdeu o irmão mais velho, o irmão que era o orgulho da família e que rivalizava com ele em todas as situações. Uma dinâmica meio irmão perfeito contra irmão que só decepciona. Por isso o relacionamento de Angus com os pais não é dos melhores, e tudo o que ele mais precisa é ficar longe das duas pessoas que se sentem tão desapontadas com ele.

Os anos vão passando, e Tess e Angus vão levando uma vida triste e difícil. O sentimento que fica por boa parte da leitura é de tristeza. Mais do que uma história de amor, o livro fala do amor próprio, de conseguir andar com as próprias pernas e superar aqueles momentos em que nada parece dar certo. Tess vê seus planos afundarem quando precisa lidar com problemas que não eram dela, e se vê sozinha. Angus toma decisões erradas porque não consegue lidar com suas próprias questões.

Sabe quando você lê uma história de amor, os protagonistas até se encontram mas eles precisam resolver suas pendências para que possam ficar juntos, e todo um passado mal resolvido é um empecilho que eles precisam (e geralmente conseguem) resolver logo? O primeiro dia do resto da nossa vida é a história desse passado mal resolvido e não do casal já estabelecido. Se você é desses leitores ansiosos por aproveitar os momentos bonitos de um relacionamento, você também vai se angustiar. Tess e Angus vivem histórias distintas, longe um do outro, e ao longo do livro eu cheguei a me perguntar se eles chegariam a se encontrar novamente.

Por isso, acho que eu não torci muito para eles ficarem juntos, o que eu desejei mais do que tudo foi que eles resolvessem seus muitos problemas. Ambos tinham que lidar com um pessoal bem complicado. Os personagens que os rodeiam só me fizeram gostar mais do casal principal. Eram figuras mesquinhas e egoístas, na maior parte do tempo. Se eu torci um pouco por Angus e Tess foi porque os dois eram os únicos que mereciam um final feliz.

E o final feliz é o mistério do livro. Eles ficam juntos ou nunca se encontram? Em vários momentos da história eles quase se esbarram: no casamento da irmã da namorada do Angus, Tess está acompanhando o namorado, que é o DJ da festa; numa fila de compra de natal Angus vê Tess sem saber quem ela é. O que fica claro logo que a leitura começa é que o encontro dos dois só pode acontecer em um momento: no final. O que mais me instigou foi tanto saber se isso vai acontecer, quanto imaginar e elaborar, ao longo da leitura, maneiras de realizar esse encontro.

Se você busca um livro triste, mas que não vai te fazer chorar, acho que O primeiro dia do resto da nossa vida é a escolha perfeita. Emoção na medida certa, com várias pequenas sacadas que impedem que a leitura seja mais do mesmo.

Z, a cidade perdida

 

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O coronel Percy Fawcett é um daqueles personagens míticos que povoam histórias de aventura. Um explorador ousado e corajoso, com muitos feitos no currículo, sua maior proeza foi ter sido, como ele mesmo dizia, “consagrado com um porte físico perfeito”. A melhor parte de tudo isso é que ele não precisou ser inventado: Fawcett nasceu na Inglaterra e viveu no início do século XX, deixando um bom rastro de informações que o jornalista David Grann perseguiu e registrou em seu livro: Z, a cidade perdida.

O livro foi lançado no Brasil em 2009, onze anos depois de, por exemplo, Na natureza selvagem de Jon Krakauer. Os dois livros-reportagem falam de pessoas que atravessam a natureza em uma busca maníaca por algo impalpável, mas diferente do livro de Krakauer, que fez um sucesso tremendo, de Z, a cidade perdida se falou muito pouco. Com uma capa linda e com uma história hipnotizante é difícil entender por que isso aconteceu. Admito que o livro ficou parado aqui em casa por anos, e se não fosse minha meta de leitura eu não teria chegado a ele tão cedo. Mas é para isso que metas de leituras existem, não? Para fazer a fila que está parada há anos finalmente andar e a gente se surpreender com livros ótimos.

A cidade perdida de Z foi nomeada assim por Percy Fawcett depois de algumas aventuras pela Amazônia. Ele acreditava estar nos rastros de uma civilização desaparecida na selva, e a essa busca dedicou sua vida. O que Fawcett quer encontrar em Z se assemelha a um Eldorado, um lugar cheio de riquezas e oportunidades na América do Sul, o oposto da Inglaterra do começo do século XX. Pensando assim não parece tão disparatada  a ideia de  um explorador querer ser o primeiro a encontrar uma cidade perdida, se embrenhando em lugares perigosos e inóspitos, porque a recompensa seria muito grande, e a vida andava difícil.

Em Z David Grann não deixa de contar um lado menos romântico de uma vida de aventuras. Com uma família para sustentar, Percy Fawcett estava sempre na miséria. A pobreza dos Fawcett era desesperadora e começou por causa das expedições. Ao mesmo tempo, a esperança de uma grande descoberta era também a esperança de tirar a família da miséria. Então surgiu Z.

Um dos nomes mais conhecidos em sua época, Fawcett se tornou famoso por ser o explorador que conseguia superar as grandes adversidades das florestas da América do Sul, onde os maiores inimigos dos humanos não eram predadores famintos mas insetos transmissores de graves doenças. A fama surgiu quando muitas expedições não voltavam ou quando seus integrantes retornavam doentes e à beira da morte. No meio deles, Fawcett parecia ter o corpo fechado. Ninguém melhor que ele para encarar os maiores desafios. Pesquisando referências antigas, Fawcett achou as anotações de um bandeirante que encontrara artefatos valiosos e complexos no meio da Amazônia. Assim foi lançada a semente da obsessão de Fawcett. Em 1925, aos 58 anos, com seu filho Jack e o amigo dele, Raleigh Rimmell, o explorador inglês pegou um navio em direção ao Brasil.

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É nessa hora que David Grann conta a história de uma outra obsessão: a do público pelo paradeiro de Fawcett. Afinal, o homem se perdeu enquanto procurava a cidade perdida. Grann retraça diversas teorias e ouve várias fontes a respeito do suposto destino final de Fawcett. Mas os muitos anos não trouxeram respostas concretas. Em 1926 Fawcett foi visto oficialmente pela última vez, já embrenhado na floresta, e o resto virou lenda. Z, a cidade perdida trata também dessa lenda. Até para que Fawcett pudesse arrecadar dinheiro para a expedição, já antes da partida houve furor exacerbado: era uma época em que o “exotismo” das Américas fascinava a imaginação europeia. Quando os três exploradores sumiram na floresta onde muitas tribos sequer tinham contato com o homem branco, especulou-se de tudo: o inglês havia encontrado a cidade perdida e decidira não sair de lá, os índios haviam-no matado, ele havia se apaixonado por uma  índia e construído família brasileira, ele morreu de fome ou de picada de mosquitos.

Um mérito de Grann é jogar um pouco de realismo sobre mais de oitenta anos de incertezas. Fawcett, nas inúmeras viagens que fez pela América do Sul, fez contato com várias tribos indígenas. Para começar qualquer contato, o inglês chegava desarmado e com as mãos para cima. Fawcett acreditava que essa abordagem – suicida para alguns, como relata Grann – era a melhor forma de conseguir a amizade dos índios. Assim ele se virou por anos. A hipótese tratada com mais ênfase em Z, a cidade perdida é a de que, numa terra com leis que Fawcett compreendia de forma rudimentar, uma hora a sorte dele acabou.

A obsessão de Fawcett por Z e a obsessão das pessoas por Fawcett é compreensível. Diante da falta de resposta, somos capazes de imaginar e supor as situações mais fantasiosas. Teóricos da conspiração e caçadores de OVNIS são prova disso. Por que seria diferente com uma cidade perdida? Como não sonhar com uma Machu Picchu no meio da Floresta Amazônica, com tesouros e estruturas que mostram que uma sociedade altamente desenvolvida viveu ali muito antes de os europeus desembarcarem? Mas o grande mérito de David Grann é levar Z a sério. Fawcett pode nunca ter achado seu Eldorado porque se convenceu de que uma sociedade complexa, ali no meio do mato, só poderia surgir de ancestrais europeus e se desenvolver de formas parecidas com aquelas que ele havia estudado e sob as quais havia crescido.

A reviravolta fascinante que Grann oferece em Z, ouvindo especialistas e consultando a literatura científica que trata das sociedades amazônicas, mostra que os índios que ali viveram antes da chegada dos europeus formaram, de fato, uma sociedade desenvolvida e complexa, com pequenas pontes e estradas, diferente do que boa parte das ciências humanas imaginou durante o século XX. Z estava lá, mas Fawcett não conseguiria encontrá-la. Povos amazônicos construíram grandes estruturas no meio da mata, mas o que havia de grandioso nelas era a forma como ajudavam o ser humano a sobreviver num ambiente hostil como o da floresta. Seus materiais não eram o ouro e a prata, que Fawcett esperava encontrar, mas palha, barro e matéria orgânica. O tempo e a mortandade ocasionada pela chegada do europeu levaram quase tudo.

Z existiu, talvez não com a opulência que Fawcett desejava, mas os rastros ainda estão na Amazônia para provar que uma civilização existiu e quase foi extinta, mas ainda sobrevive em um pequeno número de descendentes. David Grnan esteve entre eles quando visitou o Brasil para escrever seu livro. “Havia mil anos que os xinguanos mantinham as tradições artísticas e culturais daquela civilização avançada e altamente estruturada”, ele afirma em uma das passagens finais de Z.

Um filme baseado no livro-reportagem, com produção de Brad Pitt, está para ser lançado e eu torço para que, na esteira do sucesso dele, mais pessoas encontrem esse livro excelente. Mais do que a história de um explorador inglês obcecado por uma cidade perdida, o livro trata de um povo que demorou muito tempo a ser descoberto em seus próprios termos.

Depois da última dança

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Terminada a leitura de Depois da última dança, meu pensamento foi o seguinte: por que eu demoro tanto a começar livros como este? A resposta é simples. Eu gosto muito de romances que se passam nas décadas de 1940 ou 1950. Consigo lembrar de vários que favoritei ou que me marcaram, mas sempre me enrolo para lê-los. É que quando eu penso na quantidade de sofrimento que essas protagonistas terão que suportar eu vou lá e adio mais um pouquinho, sempre com a ideia de que hoje não é um bom dia para sofrer tanto com uma leitura. Para minha sorte, eu comecei Depois da última dança sem saber do que ele tratava. Aliás, eu me contentei em saber que o livro era de Sarra Manning, fechei os olhos e me deixei levar.

Minhas experiências de leitura com os livros de Manning vão de “amei muito, muito mesmo” a “chega, já posso abandonar aqui na página dez”. A parte boa disso é que  ela se aventura em gêneros bem diferentes, então sempre sinto que posso encontrar uma surpresa. A estrutura de Depois da última dança lembra a de alguns livros da Jojo Moyes. Posso dizer que se você gostou, por exemplo, de A garota que você deixou para trás, o novo de Manning foi feito para você.

Já na abertura do livro a autora explica que, desde que ouviu falar do Rainbow Corner, ela sabia que escreveria um livro a respeito desse lugar e de sua importância histórica. Eu dei um google e descobri que o Rainbow Corner foi uma espécie de clube (salão de dança, digamos) que existiu durante a segunda guerra, para os soldados americanos se divertirem em seus dias e noites de folga em Londres. A imagem que  Sarra Manning nos passa é a de um lugar com uma energia vibrante, onde os jovens se divertem, tomam coca-cola e comem donuts. Um lugar que os permite esquecer, ainda que por alguns momentos, que estão vivendo as dificuldades de uma guerra.

Já pensando nas aventuras do Rainbow Corner, Rose chega a Londres em 1942. Depois de fugir de casa tudo o que ela quer é estar ali. Claro que no meio do caminho ela vai passar por maus bocados. Isso fica evidente assim que ela chega na cidade, com apenas dezessete anos, e é recebida na estação de trem por dois soldados americanos que a levam direto para o lugar que ela quer conhecer. Calma, não vou dar nenhum spoiler, mas adianto que o suspense é bem enlouquecedor. Ela se apaixona, faz amizades leais, se diverte muito no Rainbow Corner, sofre algumas desilusões e perdas, amadurece. Os capítulos dela são os melhores. Numa espécie de história interligada, os outros capítulos se concentram em Jane e Leo. Eles se conhecem nos dias atuais (não parece um livro da Jojo Moyes?), e são duas pessoas opostas em tudo. Leo é um cara que gasta seus dias sem se preocupar com nada, cheirando cocaína e bebendo muito. Jane passou por situações muito difíceis quando era jovem, e por isso ela já planejou bem a vida: quer casar com alguém que não a faça mal e que tenha uma boa vida financeira. Depois de três anos namorando ela achou que tinha conseguido tudo o que planejou, mas seus planos vão pelo ralo quando o noivo fica sem dinheiro. Vestida de noiva em um bar de Las Vegas ela conhece Leo, e de repente os dois estão mais ligados do que nunca. Ele precisa de uma pessoa que dê conta de sua fragilidade, e que o tire de uma inércia paralisante, mas Jane parece ser a pessoa mais sem coração do mundo. Será que um vai conseguir ajudar o outro?

Claro que a história dos dois vai ter conexão com a de Rose, mas contar mais do que isso é estragar a surpresa da leitura. Não há grandes reviravoltas, mas mesmo assim a trama me surpreendeu em alguns momentos, e por isso acho que vale a pena chegar ao livro sem saber muita coisa de antemão.

Imagino que nem todos entendam o fascínio exercido por uma história passada na década de 1940 (eu mesma tenho uma implicância com a década de 1920 e aqueles chapéus, laços e cabelinhos à altura da orelha), mas para mim os 1940 têm um magnetismo indescritível. Não importa qual seja o autor, eu sempre vou querer acompanhar a história de uma jovem vivendo em uma cidade grande enquanto tantos acontecimentos cruciais se desenrolam. Nesse sentido, a Rose de Sarra Manning foi uma ótima protagonista, mesmo que o fim não tenha me satisfeito completamente.

Foi por isso que eu não marquei Depois da última dança como favorito. Quando achei que a história se encorparia ainda mais, o livro acabou. Jane e Leo eram importantes, mas eu não me importaria em ver menos deles para ter mais de Rose e seu tempo. O par romântico de Rose, uma das questões mais importantes da trama,  infelizmente não teve o número de páginas que eu esperava. Lendo os agradecimentos vi que a editora de Manning cortou milhares de palavras do rascunho inicial. Eu quero essas páginas! Dona editora da Sarra Manning, a senhora errou muito feio.

Mesmo assim, como não indicar esse Depois da última dança? Chorei e terminei querendo que o livro tivesse o dobro do tamanho. É a mistura perfeita de tristeza e fofura.

Corte de névoa e fúria

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Corte de névoa e fúria, a continuação de Corte de espinhos e rosas, é de tirar o fôlego. Eu estava muito ansiosa por essa sequência, mas como acontece bastante com sequências, sabia que a chance de perder o interesse era grande. É que eu dificilmente continuo lendo uma série depois do segundo ou terceiro livro. Não por preguiça: é que minha memória é péssima. Sempre foi assim, para todas as coisas, menos para datas de aniversário de pessoas que eu conheci apenas superficialmente. Eu lembro do aniversário de pessoas que eu conheci na época da escola e com quem perdi contato (ou com quem nem tinha contato, para falar a verdade). No tal dia eu falo pro meu marido: sabia que hoje é aniversário daquela mulher que trabalhou com sua mãe e que apareceu, do nada, num evento da sua família e comeu vários espetinhos? Sabia que hoje é aniversário do cara que foi o primeiro beijo da minha melhor amiga? E o meu marido, que tem uma ótima memória e sabe que eu geralmente não lembro de nada, fica abismado com isso. Os meus meses são preenchidos com datas de aniversário de estranhos, e é engraçado pois eu sempre imagino como é que estão sendo as comemorações deles.

Pois é, acho que você não veio aqui para ouvir falar disso. Voltando, portanto, ao argumento que eu tentava clarear: eu nunca lembro de quase nada do livro anterior quando começo a sequência. Se o intervalo de leitura for maior que seis meses, seria mais fácil começar tudo de novo. Isso é triste, e me faz desistir de muitas séries de que eu estava gostando. Mesmo depois de uns três livros eu não estou salva da maldição da má memória.

Por isso me alegrou demais eu ter gostado tanto de Corte de névoa e fúria. Eu me entusiasmei de verdade no primeiro livro, e agora, no segundo, a história estava surpreendentemente muito fresca na minha cabeça. O mérito só pode ser de Sarah J. Maas.

O que acontece nessas 600 e poucas páginas? Tudo. Esqueça o livro anterior (ha!, ou melhor: não esqueça literalmente, apenas deixe tudo em segundo plano) e espere muito spoiler aqui, porque me é impossível falar sobre Feyre e Rhys sem soltar spoiler atrás de spoiler. Se você não leu os dois livros é melhor parar por aqui, até porque você não vai entender nada mesmo.

Feyre comeu o pão que o diabo amassou no fim de Corte de espinhos e rosas, e agora, a princípio, parecia que ela finalmente poderia descansar um pouco, depois de ter morrido como humana e ressuscitado como feérica. Mas se fosse assim não teríamos livro. Tamlim, que já parecia superprotetor antes, quando nada tinha acontecido, ficou neurótico com a tarefa de proteger Feyre depois dos eventos de Sob a montanha. Desde a saga Trono de vidro, dá pra perceber que para Sarah J. Maas é importante contar com uma heroína forte e independente. Então, logo fica claro que a superproteção do mocinho, que é um fator importante para muito romances YA, AY, AA, aa, Aa, AYAY, CCAA, YMCA e por aí vai, será um problema para a nossa protagonista feminina. Feyre não quer ser protegida e cuidada, ela quer ser tratatada de igual para igual e aquela coisa. Essa pegada superprotetora de Tamlim continua até o fim , mas não tem problema, porque ele não é o mocinho da história.

Por isso que é importante esquecer do primeiro livro.

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Depois de Corte de espinhos e rosas, um triângulo amoroso se anunciava, mas não foi esse o caminho que Maas escolheu. Rhysland chegou chegando e tomou o coração de 10 entre 10 leitoras (não fiz nenhuma pesquisa, mas tenho certeza de que isso aconteceu) e depois o de Feyre. Ela demorou, mas percebeu que Rhys era o mocinho, coisa que nós leitoras entendemos lá no começo. Tamlim foi jogado para escanteio, e nem foi por mérito de Rhys, mas porque ele exagerou na proteção, ficou meio pegajoso e teve dificuldade em ver Feyre como uma feérica poderosa.

Diferentemente do primeiro, Corte de névoa e fúria tem mais ação, e assim o mundo de Rhys, a tal corte noturna, ganha forma. Junto com seus amigos mais próximos, Rhys vai viver alguns bons momentos com Feyre, e aventuras realmente empolgantes, daquelas que valem a leitura, vão tomar boa parte do livro. Apesar disso, o romance do casal não fica de lado. Maas o elaborou de forma gradativa nas 658 páginas. Feyre vai lentamente se apaixonando por Rhys –  o que foi uma ótima sacada, afinal, deixar de amar um para amar outro não é um ato corriqueiro. É a junção perfeita de todos os elementos que uma entusiasta do gênero pode querer encontrar.

Por isso, Corte de névoa e fúria acabou sendo muito especial para mim. Desde Filha da floresta eu não tinha lido fantasia que conseguisse trazer tudo o que eu mais gosto: uma protagonista destemida, um mocinho galã mas frágil, aventura que poderia ter saído de um filme do Indiana Jones ou de um episódio de Duck Tales (para mim isso é um super elogio, porque é aventura mesmo, sem enrolação), personagens secundários com personalidades e arcos que importam, e palavras pesadas como foder e trepar. Estas palavras deixaram os protagonistas mais verossímeis, e também a história mais espertinha.

Feyre fica com Rhysland? Sim. Tamlim é mal? Não sei, ele parece meio perdido. Eu diria que ele é inescrupuloso, mas pode ser que no terceiro livro isso mude, já que essas escritoras americanas adoram um drama para prender o público. Afinal de contas, Feyre termina o livro novamente ao lado de Tamlim, para espioná-lo, mas quem sabe o que pode acontecer? Acho que depois de todo o trabalho que Sarah J. Maas teve para contar que Rhys foi o único a conseguir ver Feyre como uma pessoa dona de si mesma, alguém que não depende de ninguém além dela, seria dar um tiro no próprio pé fazê-la voltar para Tamlim.

Agora só preciso esperar até o ano que vem e torcer para minha memória não me trair, para que eu possa lembrar quem é quem.