O acerto de contas de uma mãe: a vida após a tragédia de Columbine

Este livro é muito desconfortável. Geralmente a leitura nos dá a oportunidade de entrar em contato direto com outra pessoa, de conversar com ela ou pensar junto dela. Eu havia me esquecido disso quando achei que era uma boa ideia entender o massacre de Columbine pelo viés da mãe de um dos assassinos. Não é. Sue Klebold tenta tirar uma lição da tragédia: a de que saúde mental é um assunto muito mais complexo do que o senso comum consegue aventar. A partir daí, ela elabora uma espécie de inventário das normalidades de seu filho Dylan: ele foi uma criança iluminada, gentil, tímida, inteligente, amorosa e retraída. O que ninguém pôde perceber é que, na adolescência, ele virou um jovem deprimido e de temperamento autodestrutivo. Juntando essas duas facetas da mesma personalidade, a intenção da autora é desmistificar a monstruosidade do assassino que ela tinha em casa, sem negar a monstruosidade dos atos que ele cometeu no fim da vida.

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Só que isso não acontece. Do meu ponto de vista, Sue Klebold tenta angustiadamente fazer o caminho inverso ao de todo o mundo. Ela quer crer que a normalidade da infância e os traços de bondade de Dylan possam emprestar complexidade ao perfil que se faz dele, mas, considerando que estamos falando de alguém que matou ou esteve envolvido na morte de 13 pessoas, o que acontece é bem o contrário: o ato final – um atentado injustificado, raivoso, racista, malvado, cruel – anula tudo o que veio antes. Não importa se o assassino foi um bom filho ou se tinha suas complexidades: atirar à queima roupa no rosto de crianças faz dele um monstro. Acho que, com exceção dos adolescentes que glorificam gente como Dylan Klebold e Eric Harris, todo mundo entende isso. Todo mundo menos Sue Klebold. Como uma mãe que acompanhou por dezessete anos uma criança comum e bondosa vai conseguir anular tudo o que testemunhou em troca da imagem que nós, o público, temos de Dylan? Como é que ela vai conciliar o menino das fotos de família com aquele das imagens da tevê, com aparato paramilitar, cara de mau, arma na mão? Essas duas partes são incombináveis.

Por isso, quando eu terminei o livro decepcionada, fiquei me perguntando o que é que eu esperava da mãe de um dos assassinos. Claro, em praticamente todo capítulo ela qualifica os atos do filho como abomináveis e impossíveis de se relativizar. Só que, mesmo sem querer, ela acaba sempre relativizando-os logo em seguida. Eu entendo a mensagem: toda mãe pode estar criando um monstrenguinho dentro de casa, não há condições especiais para se formar um Vlad – O Empalador em potencial, não houve sinais visíveis, àquela época, que pudessem ajudar a prever o tamanho da atrocidade que aquele menino seria capaz de fazer. Sue Klebold diz que passou a ver o filho morto como um suicida, e ela traz e comenta citações de especialistas corroborando essa visão. O problema é que a mensagem a favor da prevenção ao suicídio e do tratamento de problemas psíquicos esbarra a todo momento no drama das vítimas e de suas famílias.

Deixa eu tentar me explicar melhor: na minha opinião, um livro de conscientização sobre suicídio, querendo tirar lição de uma história pessoal, é válido e importante, mas jamais deveria vir de um evento como o de Columbine. O tiroteio em Columbine é um daqueles momentos decisivos em que a cultura dos Estados Unidos – e isso resvala no Brasil, vide o tiroteio na escola em Realengo – poderia ter aprendido logo uma lição, mas demorou demais para escolher fazer o certo. Columbine foi um circo fetichista. Os atiradores tentaram imprimir ares de ficção à realidade do que iriam fazer. Tudo foi cuidadosamente organizado para deixar vestígio, numa busca por notoriedade póstuma, desde os trajes ridiculamente fílmicos (eram mais para figurino, a bem da verdade) ao vocabulário dos assassinos repleto de termos de filmes violentos ou inspirados em gêneros cinematográficos. Até aí, estamos no território da loucura de gente que perdeu o contato com a realidade, mas a mídia comprou a ideia e foi acrescentando elementos espetaculares. Reproduziu incessantemente, como queriam os assassinos, até as frases de efeito que eles disseram às vítimas, adicionou coisas que jamais haviam sido ditas, colocou o Marilyn Manson na história, Dylan e Eric foram parar na capa da revista Time, os perfis psicológicos foram sendo montados enquanto os fatos ainda não haviam sido esclarecidos, ao gosto de quem estava falando. Dois assassinos viraram celebridades, inspirando fantasias de adolescentes bobos mas inofensivos (procure Dylan Klebold no Tumblr e tente não se estapear de raiva) e de outros malucos com potencial homicida. As vítimas foram despersonalizadas em troca da notoriedade dos assassinos, e mesmo os motivos por trás de Columbine adicionaram certa aura romântica a Dylan e Eric: este é o homicida, psicopata clássico que em seus diários só falava em matar; aquele é o suicida, sem amor à própria vida ou à dos outros, que só falava em amor e só queria ser aceito. Por causa do tamanho da repercussão de Columbine, e da extensão dos erros que foram cometidos no tratamento do caso, eu senti que boa parte deste livro foi na verdade outro golpe nas famílias vitimadas, outra mistificação.

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Se por um lado, a inteligência a respeito do assunto se beneficia de um relato em primeira mão de uma das vítimas da tragédia (pois é, a família de um assassino também é vítima), por outro o livro de Sue Klebold raramente traz insights valiosos. Ela estava muito distante do filho, a ponto de não fazer ideia das coisas que compunham seu universo íntimo, e tudo o que faz é afirmar repetidas vezes que não conseguiu interpretar os sinais de que Dylan não estava mentalmente saudável. Que ela não consiga dizer pontualmente onde errou, tudo bem, já que um dos argumentos do livro é que não há experiência traumática ou criação errada o suficiente para causar uma tragédia do tamanho da que aconteceu; o problema é quando Sue Klebold começa a elencar o que entende por normalidade e adequação familiar. Às vezes ela se trai e começa a fazer julgamentos de outros estilos de vida, às vezes mostra que estava totalmente despreparada para entender o que andava pela cabeça de um adolescente no final da década de 1990. Como só poderia acontecer, 16 anos depois da tragédia ela ainda está perplexa e não tem respostas. Quando, da metade do livro para a frente, ela resolve encarar o que tem sido sua causa desde que começou a refletir sobre o que aconteceu com o filho, o tema da conscientização ao suicídio fica eclipsado pelo que parece ser um exercício de relações públicas. Ela tenta, como é compreensível, advogar em favor de sua família e da criação que deu aos filhos, buscando sair do semianonimato e emergir como figura pública disposta a debater os temas que envolvem sua experiência. Infelizmente, apesar de ter sido pessoalmente afetada, ela está aquém da tarefa.

Partindo de O acerto de contas de uma mãe pode-se imaginar ser impossível que uma pessoa muito próxima de um acontecimento trágico possa interpretá-lo de maneira objetiva. Outra coisa: talvez não exista nada a se deduzir de pessoas como Dylan Klebold, a não ser do ponto de vista da inteligência policial, como argumenta o norueguês Karl Ove Knausgård em texto sobre Anders Breivik. De Columbine, em 1999, para cá, as sociedades criaram mais consciência e mais capacidade para lidar com atentados em massa (apesar de os números serem assustadores nos Estados Unidos), mas as motivações e a complexidade do assassinos simplesmente não importam. O tema é outro e Sue Klebold não pôde encontrá-lo.

É desconfortável estar com ela quando ela vê ambiguidade onde só havia cinismo, quando ela prefere se concentrar no desespero de Dylan enquanto o que mais chama a atenção nele é a premeditação cruel. Não é um livro fácil. Ao mesmo tempo, como um efeito colateral, talvez O acerto de contas de uma mãe seja uma forma de trazer de volta à realidade quem se encantou com o romantismo de um ato extremo. Depois daquilo que Dylan via como uma catarse pelo sangue, sobraram os pais dele perplexos, cheios de dívidas, dores físicas, preocupações com segurança. A mãe dele começou a cuidar obsessivamente do gato velho da família. É triste.

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2 comentários sobre “O acerto de contas de uma mãe: a vida após a tragédia de Columbine

  1. Plinio Telles Cajado disse:

    Baseado nos comentários acima, tudo o que acontece serve para aprendermos algo, é onde vejo valor nesse livro (ainda não li). Certamente a ausência do cuidado espiritual com as pessoas são o fator que pesa nos atos que elas praticam ou venham a praticar. Se faz necessário e também suficiente, alimentarmos nosso espírito com práticas voltadas para o Bem a si mesmo e às pessoas em geral. É a única saída.

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    • Patricia Rodrigues disse:

      Critica é algo bom! pois a partir dela pensamos e elaboramos ideias, considero pontual de fato algumas citações na critica que li logo acima, de fato é um livro pesado que nos remete a muitos questionamentos (li pelo interesse particular da psicologia de pessoas enlutadas! versus o suicidio), como leitora não senti Sue querendo fazer esse paralelo entre normalidade da infância e o que aconteceu, mais sim uma mãe relatando uma infância normal para os padrões socias que temos. e tentando entender (e essa será uma luta que é só dela e que ela levará ao tumulo) o que fez de errado?, ou o que deu errado?
      (Se Sue foi uma mãe “desatenta” aos sinais que o próprio filho apresentou durante anos??? … é possível, entretanto só a ela cabe esse julgamento).
      vivemos, principalmente nós mulheres, que trabalham fora, e que são mães duplamente cobradas a empregar mais zelo em detrimento de nossa ausência física na rotina diária, e muito se atrela, erroneamente diga-se de passagem, uma conduta ou comportamento de um filho (seja algo tão fora do comum ou não) a forma como a “mãe”, principalmente a figura materna conduziu a criação daquele filho.
      a própria psicologia tem inúmeros estudos em relação a posição de importância da figura materna na construção de um individuo, entretanto a psicologia tambem entende que apesar da importância na construção dessa relação, ha de se considerar tambem que todo individuo é único em sua essência e que ha elementos particulares que influem em sua personalidade, algo que pai, ou mãe nenhum, em toda a sua magnitude de presença afeto disposição poderá mudar, por que é do indivduo é de pertencimento exclusivo dele e como isso se configura, se materializa tambem e devido exclusivamente a ele.

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