The Night Manager

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Tom Hiddleston está morando em Cairo, no Egito. Ele está lá, às vezes sendo gringo e imparcial nas manifestações pela retirada do presidente Mubarak em 2011, outras só quieto, cortês e discreto na recepção do hotel de luxo em que trabalha como gerente noturno. Uma mulher linda e misteriosa entra na vida dele. Por causa dela, ele vai tomar parte numa intriga envolvendo o serviço secreto inglês e um bilionário vendedor de armas, vivido por Hugh Laurie.

Se você está aqui ponderando se vale ou não a pena investir seu tempo para entretenimento em The Night Manager, adaptação do romance de John le Carré, eu acho que já no primeiro parágrafo eu citei duas coisas que devem pesar a balança para que você dê um jeito de começar logo: Hugh Laurie e Tom Hiddleston.

Quem dá chance para muitas estreias acaba vendo vários pilotos que não vão a lugar algum. De vez em quando eu me pego até envolvida com uma série nova, mas acontece de ela investir justo naquilo que eu não gosto. Outra coisa que ocorre bastante é ver que a produção tem suas qualidades, mas parece que faltou dinheiro para escalar atores que vão fazer diferença. Não falo só de um rosto conhecido, o que, claro, atrai muito público. Falo de conseguir atores que vão levar a experiência para outro nível. Hiddleston e Laurie, que são os nomes mais conhecidos desta minissérie produzida pela BBC, dão um peso tão determinante a The Night Manager que eu não sei nem imaginar o que seria da trama sem eles.

Laurie, que todo mundo conhece como o Dr. House, rouba a atenção toda vez que aparece. No segundo episódio você já esquece que aquele ali era o Dr. House e compra o personagem novo: poderoso, direto, inescrupuloso – são características que apareciam, às vezes, no personagem que marcou a carreira de Laurie, mas que aqui servem para criar um vilão dos mais carismáticos. Hiddleston é o mocinho forte, silencioso e ambíguo: ele é misterioso, fala pouco, mal revela suas intenções, mas mostra ter, sempre que a situação aperta, tantos recursos quanto um canivete suíço: tudo aquilo que fazia do personagem um bom gerente noturno vai ajudá-lo a se movimentar no mundo de espionagem em que ele se meteu. Sem Hugh Laurie e Tom Hiddleston as características desses dois personagens seriam transmitidas sem os sorrisos, acenos, expressões corporais. Os dois são magnéticos, para falar a verdade, e o elenco ainda conta com os excelentes Olivia Colman, Tom Hollander e Elizabeth Debicki.

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Falando em espionagem, minha intimidade com o gênero é pequena, mas acho que todos os elementos clássicos estão em The Night Manager: tem mulheres fatais, muitas viagens a lugares incríveis, personagens secundários com interesses misteriosos, tensão sexual, tensão por expectativa de violência, várias camadas de intriga, aquelas cenas em que o mocinho invade um cômodo e o espectador fica maluco com a iminência de que ele seja descoberto, tramoias, dinheiro, corrupção, mortes inesperadas.

Mas a minissérie não é perfeita. Algumas reviravoltas podem ser pressentidas com muita antecipação. A direção, a cargo de Susanne Bier, investe pesado em alguns vícios narrativos. Certas motivações não são lá um primor de verossimilhança, nem de complexidade. Só que tudo isso se dá num universo bem estabelecido de espionagem internacional, então eu meio que consegui comprar o pacote completo logo no segundo episódio. É preciso dizer que esse segundo é bem superior ao piloto, e que se a trama e as excelentes atuações não forem suficientes para segurar a sua atenção, as paisagens lindíssimas podem dar conta do serviço.

O que me conquistou, logo de cara, foi a calma com que The Night Manager se apresenta. No meio dos atropelos e protestos da primavera árabe, um hotel de luxo fica parecendo uma ilha de segurança, e na mão de muitos diretores isso poderia ser a desculpa perfeita para ação vertiginosa, explosões e pirotecnia, mas a minissérie parece não ver necessidade de perseguições espetaculares, tiro, porrada, bomba. Claro, aos poucos tudo isso surge, mas The Night Manager parece entender muito cedo que seu maior trunfo foi ter conseguido escalar gente que faz mesmo a diferença quando a câmera começa a rodar.

Só tem uma coisinha que fica martelando a minha cabeça desde o trailer: não é espantoso que Hugh Laurie esteja interpretando um vendedor de armas quando ele escreveu um livro chamado O Vendedor de Armas? Será que ele não fica chateado por não terem adaptado o livro dele?

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Sobre o fim de Guerra e Paz da BBC

Se você ainda não começou a ver Guerra e Paz, da BBC, este texto não é para você. Eu dei as minhas impressões sobre o piloto da minissérie aqui, e parece que foi ontem que me impressionei com a beleza das paisagens e dos cenários dessa produção que acabou agora. Mas, se assim como eu, você também chegou ao último episódio, vem cá e vamos conversar. Ou melhor: vem cá e me abraça.

Em seis episódios, se não dá pra dizer que toda a intensidade do livro de Tolstói foi levada direto à tela, acho que é seguro afirmar que, caramba, foi intensidade suficiente para encher os olhos de lágrimas e deixar todo mundo pensando na vida. Na vida mesmo: do Andrei ferido na cama refletindo sobre amar incondicionalmente uma mosca à jornada iluminadora de Pierre como prisioneiro por uma Rússia gelada e invadida. E aqui estamos falando de dois dos personagens principais. O que pensar da abnegação de Sonya, do fortalecimento de Marya, da solidão de Helene, da tristeza do conde Rostov, da bravura louca do pai de Andrei e Marya, do povo russo que queimava cidades inteiras para não deixar nada para os franceses, da ambição de Napoleão, da fidelidade de uma cachorrinha?

Tudo isso estava na tela, embora nem sempre ganhando a atenção que todos gostaríamos. Duas, três ou oito temporadas provavelmente conseguiriam olhar com calma os detalhes que estão em Guerra e Paz, mas se eu disser que me lembro de muita coisa do livro, vou estar mentindo. Eu me lembro de sensações e de impressões sobre os personagens principais. Falei mais a respeito disso no primeiro texto.

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Foi muito bom poder ver os recursos – tanto financeiros como, sei lá, artísticos – da televisão de hoje em dia sendo aplicados a essa história. A prova de que a adaptação da BBC funcionou é que muita gente que não havia lido o livro conseguiu se conectar aos personagens: sentir raiva, shippar, torcer pela morte, essas coisas que a televisão desperta. Eu pude constatar isso nos comentários à minissérie no Filmow e, principalmente, no Banco de Séries.

O triângulo amoroso Andrei-Natasha-Pierre teve, naturalmente, mais tempo de tela do que todo o resto. Isso gerou uma reclamação, que eu achei meio nada a ver. Disseram (um artigo na The Economist, por exemplo)  que, fazendo as contas, essa versão de Guerra e Paz tinha muita paz. E que, pior que isso, a paz tinha só intriga de gente rica e romance quase teen. Não é verdade. A guerra foi importante para a minissérie. Prova disso é a atitude de Andrei quando encontra Anatole, um desafeto, depois de uma batalha. Na televisão, naquela hora, a guerra vira contraponto à paz e as intrigas e convenções sociais ficam pequenas. E outra coisa: uma adaptação é isso mesmo que a palavra diz, e se houvesse lá muito mais paz do que guerra ou se a guerra fosse de russos contra extraterrestres (vide Orgulho & Preconceito & Zumbis) não faria diferença. O livro ainda estaria lá, escritinho, para quem quiser ler, e as coisas que escreveram a respeito do livro ainda estariam lá, também, para se entender melhor o contexto de tudo.

Eu não acho válida essa reclamação, por isso eu trouxe outras. Elas podem ser tanto sobre a adaptação quanto sobre o que é o material saído do livro, e eu tenho certeza que alguém pode argumentar contra mim e me deixar no chão, mas pelo menos as minhas reclamações são minhas. Dizem que faz mal guardar essas coisas pra gente, então aqui vão elas:

-Sr. Tolstói, quer dizer que só a Helene adúltera que não ganha a redenção?

– Sr. Tosltói e senhor Andrew Davies, roteirista: e a cachorrinha, hein? Poxa! Dava para resolver isso, senhor Davies, nessas horas a gente não liga pra fidelidade ao livro.

– Srta. Lily James, a Natasha, e senhor Andrew Davies, roteirista, será que a Natasha era assim tão enjoadinha no romance? Eu me lembro de uma mocinha mais empenhada em ser uma boa pessoa e ajudar os outros, mas a minha memória é péssima.

-Sr. Paul Dano, o Pierre, e Sr. Andrew Davies, roteirista: eu acho que o arco do Pierre envolvia ele ir deixando, aos poucos, de ser muito bobão. Será que isso aconteceu na tevê? Não sei.

É isso. Não preciso nem dizer que valeu a pena. Tem mais uma coisa: vi no Banco de Séries uma menina perguntar se era só isso ou se teria uma segunda temporada. Cortaram as esperanças dela e contaram a verdade. Amiga, eu te entendo.

War & Peace – Guerra e Paz, da BBC

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A julgar por este episódio piloto, nesse ano vai ser difícil aparecer uma produção mais bonita do que esta de Guerra e PazWar & Peace, adaptação da BBC do romance de Liev Tolstói, com Paul Dano e grande elenco. Tudo estava bonito: as externas, as roupas, as luzes nos interiores, que conseguiam sempre distinguir quem é riquíssimo de quem é rico e quem é rico de quem é remediado. Tudo muito bem filmado, e ao mesmo tempo feito de um jeito bem discreto para que nada interfira na história, que eu acho que é de conhecimento geral, mas não custa: estamos em 1805, na Rússia, e Napoleão está prestes a invadir o país, e aí as transformações que isso causa vão ser vistas através de vários núcleos interligados – os personagens são gente da nobreza russa e seus agregados. 

Pois bem. Faz quase 150 anos que o mundo conhece esses personagens, o que é tempo suficiente para todos os spoilers terem vazado, e eu até, na teoria, teria condições de dar spoilers para todo mundo porque eu li o livro de em 2005 ou 2006 mas…veja bem, como dizia aquela comunidade do orkut “Quem é Alzheimer vive em dobro”. Eu não me lembro de praticamente nada. Só de lugares, sensações, e da simpatia que eu sentia por alguns personagens. Eu me lembro mais do Pierre e do Andrei, acho que os dois eram idealistas, mas cada um pensando de um jeito. E olha: eu acho que na tradução que eu li eles eram Pedro e André.

Portanto, eu não sei exatamente o que vai acontecer com eles e acho que isso é muito bom para quem vai começar uma série, e, como eu acredito que cada um pode ter a experiência de uma série/ou livro/ou filme ou o que seja/ do jeito que quiser (ou do jeito que chegar), eu tenho que dizer que acredito, sim, em spoilers mesmo quando a história é consagrada e todo mundo a conhece.

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Assistindo a esse piloto, eu olhava tudo e pensava: será? será? acho que não, acho que não era assim. Uma entre essas coisas que eu achava que não eram bem assim é o Pierre. Pierre é o mocinho principal, se eu não me engano ele é até um tipo de alter ego do Tolstói. Nessa versão da BBC ele é interpretado pelo Paul Dano. Posso estar errada, ou devo estar errada, mas não lembro de o Pierre ser tão bobo quanto ele parece ser agora na tevê mas, perceba: já que eu esqueci de praticamente todo o livro, eu tenho é agora que me livrar dele e esquecê-lo completamente: se ele não era bobo na versão original, agora ele é. E é muito.

Como filho bastardo de um conde, Pierre herda uma fortuna meio inesperada, e fica também, se eu entendi direito, com o título de conde. E aí, ele que era até estabanado, feio (eu até acho o Paul Dano bonito, mas ele está ali para ser feio) e impopular vira um partido muito bom. Com alguns acenos para outros personagens importantes, essa é a história que o piloto conta. Pierre virou o jogo – sem querer, porque se fosse depender da esperteza dele… – e agora é muito rico. O dinheiro, como era de se esperar, atrai pessoas ruins e aí tem todo um elenco ótimo de personagens secundários ali prontos para fazer o telespectador passar raiva.

Do ponto de vista de quem só viu um episódio, esse parece ser um dos trunfos dessa versão de Guerra e Paz. Se o livro tinha intrigas, gente rica nojenta e sedenta por poder e dinheiro, essa adaptação da BBC só faz amplificar essa impressão. Acompanhando o ingênuo Pierre no meio de um monte de gente esperta, eu tive uma sensação de sufocamento. Acabei o piloto um pouco angustiada e aflita, e acho que esse sentimento indica que a série soube falar com alguém que quer ser entretido pela televisão. Está aí uma notícia muito boa para quem até queria ver a série, mas, de repente, como é muito comum, ficou um pouco intimidado pelas palavras gigantescas que acompanham Guerra e Paz: “épico”, “obra-prima”, “fundamental”, “literatura séria”.

Hoje em dia tem muita produção boa na televisão, mas a coisa mais gostosa disso tudo é que a melhor tevê continua sendo tevê. Nessa versão de Guerra e Pazvocê vai encontrar atuações muito boas, personagens cativantes – por exemplo: eu que sou boba adorei esse Pierre -, interiores e exteriores de cair o queixo e, se eu me lembro um pouquinho do romance, pelo menos um casal muito muito shipável. É prazeroso lembrar que boa parte disso tudo já estava num livro que roda por aí há quase 150 anos.