Mr. Mercedes é legal?

mr mercedes

2017 está sendo um bom ano para o bolso de Stephen King. Tem It e A Torre Negra nos cinemas, tem O Nevoeiro, que saiu para a televisão em junho, além de Mr. Mercedes que estreou em agosto. Tenho certeza de que a conta não para aí. Deve haver alguma coisa perdida lá no primeiro semestre – boa sorte para quem for fazer a lista completa das adaptações de King para todas as mídias. Eu não posso dizer que criei uma relação especial com o autor, nem que conheço tudo o que ele fez de cabo a rabo. Lembro que comecei por It. Muito tempo depois veio Novembro de 63. E agora em 2017 eu li Mr. Mercedes sem saber que uma série de tevê estava a caminho. Acho que fiquei levemente desapontada. Não me encantei, mas terminei a leitura. Sabe o que isso quer dizer? Quer dizer que eu estou apta a ser a pessoa insuportável que viu Mr. Mercedes, a série, e ficou comparando com o que acontecia (e como acontecia) no livro. Só que nesse quesito tudo deu certo. O espírito do romance está todo na tela. O que é que deu errado, se é que algo deu errado?

O tal Sr. Mercedes é um assassino em massa que conseguiu escapar. Ninguém sabe seu verdadeiro nome. Em 2008, no auge da última grande crise econômica americana, ele atropelou mais de uma dezena de pessoas numa fila para conseguir emprego, com um Mercedes Benz roubado. Muita gente morreu. O detetive Bill Hodges ficou obcecado com o caso e perdeu uma parte da sanidade, teve que se aposentar. Nos dias atuais, encontramos Bill em modo autodestrutivo, desgostoso da vida, viúvo, numa casa bagunçada, sem fazer a barba e bebendo a qualquer hora do dia. O que vai tirá-lo desse torpor é a vaidade do Sr. Mercedes. O assassino não se contentou com o anonimato: ele quer fazer joguinhos, quer brincar com a cabeça do velho detetive e começa a se corresponder com ele. A perseguição recomeça, mas o ritmo de Bill não é lá essas coisas.

Há muitas pontos legais nos quatro episódios que eu vi. Qualquer um que tenha assistido a um filme americano lançado nos últimos dez anos vai poder identificar, em Mr. Mercedes, aquela desolação bem característica das obras que retrataram o pior da crise e suas consequências de longa duração. Carros velhos, interiores arruinados, personagens aguentando pequenas e grandes humilhações pela preservação de empregos sufocantes, vizinhanças depauperadas. Esses elementos dispensam diálogos explicativos: está na cara que todo mundo empobreceu, que a vida urbana nessas condições convida à paranoia e à alienação, que o mundo é uma máquina de moer gente.

Esse recado foi dado com a ajuda, ainda por cima, de um elenco muito bom. Do detetive ao assassino, todos mantém Mr. Mercedes naquele nível em que a gente consegue levar o que está acontecendo a sério. Deixa eu dar um exemplo. Harry Treadaway, o ator que faz o assassino, poderia ter ido muito mal – e isso nem é spoiler já que nós, o público, descobrimos sua identidade logo no piloto – pois a tarefa dele era bem complicada. O Sr. Mercedes é um homem, no fim dos 20 ou começo dos 30 (agora eu não me lembro se isso foi especificado, mas não mais de 35), que tem um trabalho chatíssimo e pouco recompensador, uma mãe com muitos probleminhas, e um porão trancado à chave em que ninguém pode entrar. No porão não há uma coleção de cadáveres nem de mulheres sequestradas, mas um monte de computadores, luzinhas piscando, aparelhinhos sobre os quais ninguém explica nada, paredes pintadas de preto. Tudo isso para dizer que o Sr. Mercedes não é só um louco que entrou num carro e teve vontade de passar por cima dos outros – ele também é um competentíssimo hacker. Não há computador ou sistema de segurança que esteja a salvo de um cara como ele. Qual é o problema? Bom, a gente sabe que o cinema (e a televisão, por consequência) tem certa dificuldade com a figura do hacker.

Primeiro porque a habilidade de um hacker, num roteiro que precisa de um hacker habilidoso, sempre acaba se transformando em um elemento mágico. É um recurso excelente porque resolve pontos complicados. Se você pergunta qual é a origem da renda do hacker, a resposta dirá que ele hackeou um banco. Se você pergunta como é que ele conseguiu invadir uma prisão de segurança máxima, a resposta dirá que ele hackeou o sistema de segurança e abriu todas as portas. O hacker descobre os podres dos inimigos sem mover uma palha, apaga arquivos que precisam sumir e todas essas coisas. Pior do que isso: quando os estúdios escalam atores para interpretar hackers, a regra é a afetação e não é difícil que tudo termine em constrangimento. Do ponto de vista de Harry Treadway, então, o personagem já era complicado porque o roteiro incluía todos esses cacoetes identificados com quem mexe com computadores e, ainda para ajudar, o Sr. Mercedes tinha que parecer um psicopata que transa com a própria mãe mas passa abaixo do radar daqueles que não prestam atenção, ou seja: tinha que parecer uma pessoa comum. O resultado final não é ruim. O Sr. Mercedes de Treadway é cínico, raivoso, passivo-agressivo; da aparência normal, com um rosto quase bonitinho, ele vai para uma expressão quase monstruosa e claramente perturbada. Tem cara de hacker, tem cara de funcionário de loja de informática, mas também tem cara de assassino atropelador, stalkeador vingativo, manipulador sem piedade. Não é nada que vá levar o ator a um monte de premiações, mas poderia ter sido bem pior.

mr. mercedes

Só que esses pontos positivos não conseguiram me segurar em Mr. Mercedes. O problema principal é uma insistência em fazer tudo dentro do convencional, com mínima dose de surpresa. Mr. Mercedes usa sem moderação alguns dos recursos mais chatos e velhos da tevê. Para reforçar o ponto de vista do detetive e estabelecer no público uma identificação com ele, qualquer outro personagem precisa subestimá-lo: ninguém acredita no que o velho Bill fala, seu ex-colega nem quer ouvi-lo, os vizinhos são inacessíveis mesmo quando estão do lado dele; quando ele tem razão, os outros dão uma volta imensa para dizer que ele está errado – a ideia é que nos irritemos com a burocracia da polícia e o desinteresse do mundo, mas o descompasso soa forçado e inverossímil porque é mal escrito, todo esquemático. Muitas coisas acontecem porque têm que acontecer, a série tem vícios que parecem ter saído direto dos anos 1980, sem qualquer adaptação. Um exemplo é o romance que o detetive Bill engata com uma mulher bem mais jovem. Pessoas de diferentes idades se apaixonam desde sempre, tudo bem, mas qualquer romance que vá ocupar tempo de tela, desviando o espectador daquilo que é o centro da história, precisa acontecer depois que a gente tenha conseguido entender o que é que leva uma pessoa a se interessar por outra, não é? O que é que levou essa mulher jovem, rica e bonita a se interessar por um senhor autodestrutivo e decadente, desinteressado e bem longe de irrestível? Ela pode ser uma dessas mulheres com uma queda por tipos assim. Pode ser que ela queria consertá-lo (o que é um clichê chatíssimo, mas beleza), sei lá, ela pode ter qualquer razão: Mr. Mercedes não apresentou sequer uma. O que ganhamos, portanto, é um romance que aconteceu porque o roteiro quis que acontecesse e uma personagem sem vida própria: ela dá conselhos, oferece cama, mesa e banho, é bonita (é a Mary-Louise Parker) e só.

Depois da paixão que ninguém conseguiu explicar eu não tive mais paciência para continuar acompanhando, mas, para falar a verdade, acho que a irritação com os defeitos de Mr. Mercedes depende mais das coisas que estão no repertório de quem está assistindo. Eu tive minha cota de detetives angustiados e mulheres mal escritas, geralmente aos sábados no Supercine, e por isso para mim as coisas não funcionaram lá muito bem, mas Mr. Mercedes não é horrível. É uma história de conflito de gerações, de um velho que mal sabe usar o computador contra um jovem que só consegue viver porque tem uma tela entre ele e o resto do mundo, ambos muito deslocados, um a serviço do mal e o outro ali tentando consertar as coisas.

 

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Twin Peaks chega ao auge com 25 anos de atraso

twin peaks 2017

A polícia encontrou a cabeça de uma mulher, logo identificada como Ruth Davenport, num apartamentinho bem organizado, em uma vizinhança pacata da cidade de Buckhorn, na Carolina do Sul. Lá também foi encontrado um corpo, que não era o de Ruth, mas o de um homem não-identificado. Enquanto isso, Dale Cooper, agente do FBI, está preso em outra dimensão desde 1991. Ele tenta voltar para esta dimensão, a nossa, mas parece que seu lugar aqui está sendo ocupado por um doppelganger sinistro, que construiu uma carreira de assassinatos e maldade. Em Nova York, um bilionário anônimo conduz um experimento em que um rapaz precisa vigiar, sem pausa, uma cabine de vidro.

Esse cenário é armado no primeiro episódio da volta de Twin Peaks. Dali em diante acontecem bizarrices numa velocidade que a gente não vê todo dia na televisão. Tem um monte de personagens, pelo menos três cidades, histórias antigas que ganharam argumentos novos e histórias totalmente novas que vão precisar, de algum jeito, encontrar uma ligação com tudo o que quem viu as temporadas velhas conhece. Mark Frost e David Lynch vão amarrar todas essas pontas soltas? Duvido que isso esteja nos planos.

Eu rodei a internet atrás de gente falando de Twin Peaks e vi que as pessoas estão bem divididas. A profusão de personagens e histórias paralelas incomoda uma parte do público. Outra parcela está inquieta com a lentidão com que se desenrolam os plots principais. Há quem deteste Dougie Jones e os que até estavam gostando mas acham que já deu. Outra parcela é a daqueles que estão achando tudo lindo. Nesta eu me incluo.

Acho que a terceira temporada caminha para ser a melhor até agora. Muita gente superestima a dificuldade de acompanhar a série, mas não dá para negar que algumas coisas são confusas. São confusas de propósito, diz o fã mais entusiasmado. E com razão, mas convenhamos que este é um argumento um pouco preguiçoso, se ele for parar aí. Geralmente essa discussão desanda em alguém dizendo que a trama é complexa, picotada, não-linear, que há mensagens subliminares e que o sentido final só será acessível a quem conseguir enxergar todas as camadas e juntar as peças. Disso eu discordo. Eu acho que o que Twin Peaks quer afirmar já foi posto há muito tempo, e é algo do tipo: o mal é um espírito capaz de possuir qualquer pessoa, e assim todo tipo de maldade vem do mesmo lugar mas se manifesta de maneiras diferentes; o bem é como uma plantinha frágil que deve ser cultivada; tanto o bem como o mal têm uma carga de ridículo que às vezes só pode ser encarada na base da piada.

Acho que todas as cenas valiosas de Twin Peaks reforçam uma dessas três afirmações ou alguma combinação delas, mesmo que um detalhe fora de lugar ou uma perspectiva bizarra tente levar a nossa atenção numa direção diferente. Tem uma cena do episódio mais recente (até agora foram 11 nesta terceira temporada) que serve como exemplo.

bobby twin peaks 11

Bobby Briggs era um traste. Foi um dos primeiros suspeitos no caso do assassinato de Laura Palmer porque era um rapazinho metido a bad boy, chato, alguém que não falava coisa com coisa e vivia mascando chiclete. Eles foram namorados e Laura recorria a ele para conseguir cocaína. Quando começa a primeira temporada, Bobby vive no limite da marginalidade apesar de ainda frequentar o high-school e viver com os pais. Na série antiga ele não teve um desenvolvimento para além disso, apesar de algumas pistas lá pelo final da segunda temporada. Mas agora, em sua primeira aparição na temporada três, vinte e cinco anos depois, vemos que ele virou um policial sério e membro respeitável da comunidade de Twin Peaks. Só que são muitos personagens. Bobby surge já policial no episódio quatro, sem qualquer explicação, e depois não se ouve nada (ou quase nada, pode ser que a minha memória me engane) a respeito dele.

Shelly Johnson foi quem teve mais tempo de tela ao lado de Bobby, lá nos anos 1990, quando os dois formavam um casal de pilantras. Ela era uma garçonete meio inocente e meio trambiqueira, vítima de violência doméstica. Shelly também apareceu pouco nessa volta de Twin Peaks, mas dela sabemos mais. Agora ela tem uma filha já adulta e continua trabalhando no mesmo restaurante. O reencontro de Shelly e Bobby era aguardado pois as informações estavam incompletas. A filha dela era filha de Bobby? Os dois não estavam mais juntos? E é aí que entra a cena especial que eu estou tentando usar como exemplo.

Becky, a filha de Shelly, é um pouco instável. Ela vive com o marido num trailer horroroso. Os dois cultivam aquele tipo de relacionamento que só vai dar muito errado porque ninguém se ajuda. A certa altura do episódio onze, a filha mete a mãe no meio de sua confusão conjugal (descontrolada, aos gritos, sem pudor de causar preocupação). Acaba que Becky sai no rastro do marido e, não o encontrando, atira várias vezes contra a porta de um apartamento em que ela pensava que ele se escondia. É no meio da confusão que descobrimos que Bobby (agora policial, agora alguém com quem se pode contar) é, sim, o pai da filha de Shelly.

episodio 11 twin peaks

A cena começa como uma intervenção. Bobby (aquele mesmo Bobby que não era digno de confiança) é o pai aflito. Shelly (aquela que era irresponsável e volúvel) está com lágrimas nos olhos. A filha diz que perdeu o controle, que isso não vai acontecer mais, que odeia o marido, que ama o marido, que não vai pagar pelo prejuízo que causou, que não teria dinheiro para isso; e aí os pais, cada um de um jeito, claramente separados, se dispõem a ajudar com dinheiro. O tom é de bronca, mas não parece ser a primeira vez que uma conversa dessas se faz necessária. Um novo namorado de Shelly surge na janela. Bobby fica claramente arrasado, é óbvio que ele ainda a ama. A filha sabe disso. Toda a sequência tem muito mais informação que diálogo. Ficamos sabendo muito da personalidade de Becky, descobrimos que Bobby ainda ama Shelly, que Shelly já partiu para outra, que Norma (a patroa, aquela velha amiga) não concorda com as decisões de sua funcionária mais antiga. Logo saberemos que Bobby virou quase completamente o oposto daquilo que era. Um tiro atravessa a janela do restaurante e todo mundo entra em desespero. Treinado, Bobby toma a dianteira, empunha a arma e vai para a rua investigar o que aconteceu, com aquela pose de policial em alerta. O costume de quem já viu mais de uma série de tevê me levou a crer que havia alguma conspiração em jogo, que aquele tiro resultaria num tiroteio, que aquilo não terminaria ali e seria mais uma peça a se encaixar no quadro geral.

Mas o que se desenrolou foi um desses momentos bizarros de Twin Peaks em que a tragédia parece uma coisa totalmente besta, mas nem por isso menos horrível. Aconteceu que um menininho disparou sem querer a arma do pai, de dentro de um carro. O carro parou, começou um engarrafamento. A mãe do menino está em pânico, indignada com o marido por ele ter deixado que uma coisa dessas acontecesse. Bobby vai até eles. A câmera o acompanha. A criança que mexeu na arma tem o ar de um monstrinho possuído e encara Bobby com raiva. As buzinas não param, mas um carro, em especial, faz mais barulho que os outros. A sequência é montada para causar tensão: eu achei que Bobby fosse morrer, que alguma coisa iria explodir, que algum tipo de monstro fosse pular na tela. Mas não. O que acontece é que Bobby vai até o carro que buzina sem parar e ouve o sermão de uma mulher descontrolada: ela está atrasada, isso não poderia ter acontecido. A mulher está naquele desespero comum às pessoas que se deixaram levar pela infelicidade cotidiana, mas até ali o desespero é assustador e até que patético. Só que a câmera segue os olhos de Bobby para dentro do carro. Num cantinho escuro tem uma forma a se mexer, a forma é um menino, o menino está tendo um tipo de ataque e começa a soltar uma gosma pela boca. Não é bem vômito. Não tem o impulso do vômito. É mais uma gosma mesmo, como se alguém tivesse aberto um furinho por onde sai um líquido pegajoso.

episódio 11 twin peaks

E aí a sequência acaba. Foi apavorante e, ao mesmo tempo, bem familiar. O mal é horrível, muito comum, ataca sem aviso e não tem, necessariamente, explicação ou conexão com alguma ordem maior. O bem é uma coisa frágil a ser cultivada. É Bobby Briggs – bully, peso-morto, golpista, desgosto da família – quem agora tenta organizar toda a bagunça.

Eu acho que Twin Peaks vem contando a mesma história em todos os seus episódios, mas também acho que vai ser covardia não encaixar pelo menos algumas peças. O que talvez já dê para dizer é o seguinte: a primeira temporada, que foi infinitamente melhor que a segunda, não tinha a regularidade e a imensidão de recursos (os recursos visuais e artísticos, os atores muito bons, a liberdade absoluta) que essa terceira temporada vem mostrando. Para mim, Twin Peaks chegou a seu auge com 25 anos de atraso.

Seis detalhes sem importância de Game of Thrones

carinho no dragão

Maratonei Game of Thrones. Fui do começo ao fim num tempo tão curto que até me envergonha dizer. Tinha visto o piloto na época em que ele saiu, mas nada ali me indicava que a série era para mim. Agora, no começo de junho, me veio à cabeça que seria uma boa hora para começar de novo. O resultado é que me apeguei a uns seis personagens (é que tem muita gente carismática) e não conseguia assistir a outra coisa (é que tem muita cena de ação bem coreografada, tensa, que absorve a gente). Por causa da popularidade tão grande de GoT, até quem não acompanha acaba sabendo de tudo o que acontece porque quando começa ou termina uma temporada a internet enlouquece. Por sorte, quem é Alzheimer vive em dobro – como dizia a comunidade do Orkut – e para mim tudo era novidade.

O que não é novidade é que a série tem fanáticos que já esmiuçaram cada detalhe, leram os livros mais de uma vez, bolaram teorias (tanto as absurdas quanto aquelas que fazem muito sentido) e decuparam cada episódio em busca de um significado oculto. Acho que eu não sou esse tipo de fã. Às vezes eu deixava todo o resto para prestar atenção em uma besteirinha. Uma expressão engraçada na cara de um ator, um detalhe com pouco significado, uma intriga que ficou sem explicação. Não é que eu não entrasse na história, mas é que tem tanta coisa em que reparar que tem hora em que acontece de a gente não se concentrar bem no que é o ponto principal. Será que eu consegui me explicar? Fiz uma lista com seis momentos sem importância que me desviaram do caminho. Que comece o aquecimento para a sétima temporada.

JORAH MORMONT TOTALMENTE “TRIGGERED”

jorah mormont friendzone

Ele é a enciclopédia ambulante da khaleesi. Sabe tudo sobre toda cidade que ela precisa conquistar. Cultura, arquitetura, população, hábitos alimentares, organização política: é só pedir que Jorah Mormont esmiúça aquelas partes exóticas do mundo de GoT para a khaleesi ter uma pequena noção do buraco em que está se metendo. Como nada é fácil, acontece de Mormont ser perdidamente apaixonado por ela. O cavaleiro quase tem um tremelique toda vez que precisa olhar Daenerys nos olhos, num amor que é verdadeira devoção. Muito bonito. Só que tem duas coisas: primeiro que o sentimento não é recíproco – a Mãe dos Dragões só pensa no trono que quer conquistar e, quando tem tempo para escapar um pouquinho, parece ter outro tipo de homem em mente; segundo: agora Mormont está apaixonado e daria a vida por ela, mas ele já foi um traidor, um informante daqueles que queriam vê-la morta. É claro que ela vai descobrir. Vai escorraçar o homem e dizer que ele tem sorte de não ser executado.

E aí, será que ele lida bem com a separação? De jeito nenhum. A gente vai ficar sabendo do nível de sofrência quando, depois, Tyrion Lannister e Varys vão parar num bordel em Volantis. Lá uma prostituta está vestida de khaleesi para agradar os homens que “gostariam de foder uma rainha”. É um verdadeiro cosplay. A cópia não é tão graciosa quanto a original, mas está tudo lá: o cabelo platinado, o babyliss, a vestimenta azul. Num canto do bordel, meio louco, bêbado e decadente, totalmente perturbado pela visão da falsa Quebradora de Correntes sentada no colo de um qualquer, está Jorah Mormont. Só faltou aquela tarja de TRIGGERED. A cena deve durar dois segundos, mas eu fiquei rindo pelo resto do episódio. Para completar, ele sequestra o anão para dar de presente à amada.

MAMILOS

nipple game of thrones

A vida da khaleesi tem dessas. A certa altura ela precisa de um exército, mas o pessoal do ramo de venda de exércitos não parece muito legal. O sujeito que a apresenta aos Imaculados (aqueles soldados castrados na infância, máquinas de matar) é intragável. A gente sabe que ele vai morrer desde a primeira fala que ele dá, a gente sabe que ele vai morrer já por causa da escolha de elenco. Mas ele quer mostrar que os Imaculados não dão um pio diante da dor. O que ele faz? Ele chama um soldado e, sem cerimônia, corta-lhe o mamilo. Corta mesmo, como se estivesse passando a faca na casca de uma fruta. Eu preciso confessar que, fosse o que fosse a história, dali em diante nada mais conseguiu a minha atenção. O senhor cortou o mamilo do soldado, arrancou fora, só para provar que os Imaculados não estão nem aí para a dor. Mas é um mamilo, sabe? É claro que a pessoa que perde o mamilo vai ficar com ardência. Essa cena me deu arrepio. Quando eu lembro é como se alguém passasse as unhas num quadro negro. Ai.

AQUELE SENHOR DESCALÇO

high sparrow

Cersei não é boa estrategista. Ela está sempre maquinando. Na verdade todo mundo está sempre maquinando, mas ela não faz um movimento sequer que não seja voltado a um plano elaborado. Só que vocês podem reparar: ela só dá passo em falso. Quando ela encrenca com os Tyrell, porque Margaery finalmente conseguiu casar com o rei e virar rainha, a solução encontrada não é exatamente parcimoniosa. O que ela faz é dar poder a um grupo de fanáticos religiosos para que eles possam enquadrar os Tyrell. Só que, claro, os fanáticos saem do controle e tudo dá erradíssimo.

Enquanto isso acontecia, todas as minhas energias estavam voltadas para a roupa do líder da seita religiosa, o tal do Alto Pardal. Os monges dele não eram nada que a gente não tenha visto na vida real: apenas uma mistura de monge budista com franciscano com uma corrente amarrada no peito e um símbolo na testa. Mas o traje do Alto Pardal, um verdadeiro saco de batatas imundo e sem corte, me irritou profundamente. Eu entendo que a ideia era fazer um contraste entre ele e os pecadores bem arrumados de Porto Real. Tudo bem. Mas o velho não só era profundamente irritante, todo arrogante e com pose de sábio, como sempre aparecia despenteado, com a cara suja e descalço. Descalço. Eu parei para imaginar o chão de Porto Real. A quantidade de matéria fecal, xixi, resto de comida e sangue que deve ter por lá. Fora que a estrutura da cidade não é grandes coisas. Ruas de pedra não só acumulam mais sujeira como também quebram. Aquele velho andava com os pés descalços e sentia as pedrinhas e grãos de areia nos vãos dos dedos. E o pior: não usar sapatos não era um pré-requisito para entrar na seita porque os monges todos usavam uma botinha aparentemente feita de couro.

O gostoso é que a Cersei deu um bom jeito nele.

LÁ VAI A KHALEESI INDO EMBORA NO DRAGÃO

drogon

O diferencial de Daenerys no pleito pelo Trono de Ferro são os dragões. A série repete isso a todo momento. Faz sentido. Eles não só são uma arma poderosíssima, como também, só na presença, conseguem impressionar os inimigos e incentivar os aliados. Durante o torneio dos escravos, aquele em que Jorah Mormont virou uma espécie de Russel Crowe em Gladiador, os inimigos da khaleesi começaram a matar todo mundo e ela se viu cercada, com poucos homens e pouquíssima esperança. Foi aí que Drogon, que é o dragão principal, apareceu. Ele fez uma demonstração de força, matou um pessoal, deixou Tyrion Lannister de boca aberta e, por fim, pousou no meio da arena. Nisso Daenerys montou nele e saiu voando.

Os companheiros de batalha podem ter ficado um pouco desapontados com a rainha abandonando a luta assim sem cerimônia, mas eu achei tudo muito razoável. Pensei: agora o dragão vai parar no topo da pirâmide, que é a residência oficial, ela vai desembarcar em segurança e o problema foi resolvido. Que nada! Sem controle do dragão, nem Daenerys soube onde foi parar. Ele voou embora e a deixou sozinha no meio do nada. Tiveram que montar uma equipe de resgate para encontrar a rainha. Eu achei engraçadíssimo, ainda mais porque toda a cena da chegada do dragão foi apoteótica. Um daqueles momentos em que um fiapo de esperança vira uma glória gigantesca. Tudo isso para ela ficar perdida no meio de uma terra estranha, cercada de dothrakis que estão apostando para ver quem vai estuprá-la primeiro.

Mas ela é a Não Queimada, a Noiva do Fogo. No final não há quem lhe encoste um dedo.

E VOCÊ. QUEM É VOCÊ MESMO?

cersei qyburn

Eu tenho certeza de que isso deve ser muito bem explicado nos livros, mas para quem só viu a série ficou esquisito. Qyburn é aquele homem que faz experimentos com Gregor “A Montanha” Clegane. Ele aparece primeiro quando Jaime Lannister perde a mão. Dali em diante, numa ascensão impressionante explicada por ninguém, ele vai virar conselheiro de Cersei. Não tem graça nenhuma, eu sei, mas é aquele tipo de coisa que acontece quando o roteirista precisa enxugar personagens. Aqui em casa a gente sempre se lembra de um filme com a Nicole Kidman e o Daniel Craig, Invasores, que é meio que uma releitura de Invasion of the Body Snatchers. Lá, um médico que tinha uma salinha e um cargo desimportante num hospital sem destaque acaba indo parar no centro dos acontecimentos, só porque no roteiro não cabe outro médico. Ele está num helicóptero, ele descobre a cura, ele ajuda os protagonistas: tudo a serviço de uma história enxuta. A função de Qyburn em Game of Thrones é essa, e por isso ele sempre acabava roubando a minha atenção. Eu precisava me lembrar de quem ele era, e começava a pensar que estava perdendo alguma coisa, que alguém tinha explicado e eu tinha perdido. Como esse homem foi parar aí? Nesse mundo de tanta intriga não teve ninguém para barrar uma ascensão tão grande, nem para explicar porque ele é importante?

O fato é que agora o “Time Cersei” está bem peculiar. Tem ela, um cavaleiro sem mão, um cavaleiro zumbi e um médico louco.

MINDINHO FALANDO NO OUVIDINHO

sansa e littlefinger

“Só um tolo confiaria no Mindinho”, diz Sansa Stark no fim da sexta temporada. A função dele na vida é ser um fofoqueiro, intriguento, leva-e-traz, duas caras e fraco de caráter. Não demora nada para a série querer que a gente entenda isso, e uma das primeiras cenas dele é impagável. Ned Stark acabou de chegar a Porto Real com as duas filhas. O rei manda fazer um torneio. Um dos participantes é Gregor “A Montanha” Clegane. O episódio quer nos contar três coisas ao mesmo tempo: 1) Montanha é muito malvado; 2) Mindinho é muito fofoqueiro; 3) a origem da queimadura do Cão de Caça. Qual é a cena? Na arquibancada, Sansa, que àquela altura é toda empolgada com cavaleiros e cortesias e romances e casórios, sentou-se ao lado de Mindinho. O que ele faz? Ele conta a história da vez em que Gregor Clegane, ainda criança, colocou a cara do irmão no fogo só por causa de um brinquedo. Mas ele conta tudo no ouvidinho dela, aos sussurros. Quem já esteve em um lugar barulhento sabe que não se entende nada de um sussurro. Quem vai sussurrar tem que falar frases curtas, tipo “Vamos embora?” ou “Onde é o banheiro?”, mas o Mindinho conta a história inteira, uma frase atrás da outra, sussurrando alto, com cara de safado, para uma Sansa impressionada, em meio a uma arquibancada lotada. Não adiantou nada ele sussurrar, até porque ele falou alto. Todo mundo ouviu. Mania de falar perto da cara dos outros!

The Handmaid’s Tale é desesperadora(mente boa)

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Você já deve ter ouvido falar desta série no último mês. Todos os textos que eu li falavam bem de The Handmaid’s Tale, e por aqui não vai ser diferente. A produção que estreou no Hulu tem sido muito bem cotada por todo mundo e já teve uma segunda temporada confirmada. Inspirada num livro de Margaret Atwood (O conto de Aia, publicado pela Rocco aqui no Brasil), a série conta o que acontece depois que uma nova liderança assume o poder nos Estados Unidos. A história tem todos os elementos de uma distopia: um poder tirânico que não aceita a desobediência, pessoas comuns lutando para fugir, pessoas comuns lutando para mudar a situação, repressão e injustiça.

Offred, vivida por Elisabeth Moss, é a aia a que o título se refere. Antes de o mundo virar de cabeça para baixo, o nome dela era June e ela levava uma vida pacata com marido, filha e trabalho. As coisas começam a se desintegrar quando a taxa de natalidade diminui, mulheres e homens deixam de conseguir conceber bebês e a taxa de aborto espontâneo cresce loucamente. Um poder religioso aproveita a oportunidade de desespero para se infiltrar na vida pública. De repente mulheres perdem seus empregos e deixam de ter acesso a dinheiro. Acontecem protestos, mas não tem jeito, em pouco tempo o que antes eram os Estados Unidos agora é República de Gilead. A principal função das aias nessa distopia é entrar no período fértil e copular com os patrões num bizarríssimo ritual em presença das esposas ricas e inférteis –  um estupro travestido de ritual religioso. As aias, essas poucas mulheres que ainda são férteis, perdem a cidadania e o comando das próprias vidas, perdendo com isso até o nome próprio. Offred vem de “of + Fred” porque June agora pertence a um homem poderoso, figura de destaque na nova nação.

June/Offred tenta com todas as forças não entrar em desespero. Mas é difícil. Levaram sua filha, o marido sumiu, a melhor amiga desapareceu e só há inimigos e estranhos por todos os lados. A repressão é pesada e o clima é de paranoia religiosa. É a força da personagem que faz com que The Handmaid’s Tale não seja só uma enorme lista de desgraças. June é resiliente, esperta, jamais conformada. Quando eu vi Elisabeth Moss em Mad Men pela primeira vez, eu achei que era questão de tempo até que ela entrasse no clubinho seleto das atrizes que são unanimidade. Fazendo June/Offred, Moss consegue imprimir intensidade em cenas emocionalmente pesadas, mas de poucos diálogos. Não é todo elenco que conta com alguém assim. O olhar de desafio da personagem está ali. Vê-se que ela está inconformada e revoltada e que busca uma oportunidade para dar o troco. Na mão de uma atriz pior, o dramalhão poderia ser insuportável. Esses pequenos detalhes que fazem parte da composição de Moss dão um tom distinto para a série. Assim, The Handmaid’s Tale não busca explicações esmiuçadas em longos diálogos porque confia no poder de comunicação de sua atriz principal. E o que ela mais comunica é uma raiva muito grande porque a situação é muito ruim.

the handmaids tale

Eu li alguns textos relacionando a história das aias ao momento atual. O livro foi escrito na década de 1980 e, agora,  a repercussão da série tem dado conta de Margaret Atwood como uma visionária, alguém que previu certas tendências e criou um cenário irreal e assustador. Ela imaginou um mundo distópico em que as mulheres não têm vez. Eu ainda não li o livro, faz muito tempo que estou para ler alguma coisa de Atwood, mas os episódios que eu vi até aqui me fazem pensar em Persépolis, de Marjane Satrapi. É uma coisa que não me sai da cabeça. Persépolis conta a história de uma moça, criada no Irã, que viu o sucesso da revolução islâmica quando ainda era menina. Até aquela altura, 1979, o Irã era um país relativamente aberto. Não havia lei obrigando o uso do hijab. Quem leu Persépolis sabe do que eu estou falando. Satrapi fala do dia-a-dia do aferrenhamento do regime iraniano, das diferenças entre o que a família dela desejava para a sua criação (louvando independência, criatividade, curiosidade) e o que os valores de um Estado mergulhado em religião exigiam para todas as meninas e mulheres. Além de  Persépolis, tem uma foto que ficou grudada na minha memória. É de uma fotógrafa iraniana que documentou a marcha contra a obrigatoriedade do uso do hijab, em março de 1979. Foi um protesto enorme, foi um momento de resistência e acabou sendo, também, o último dia em que se permitiu que uma mulher saísse à rua com a cabeça descoberta. Quer dizer: tanto esse momento histórico quanto uma obra como Persépolis mostram que isso já aconteceu recentemente no mundo, que já houve um dia em que se decretou que todo um grupo de pessoas teria status rebaixado, em que um poder religioso retirou direitos de mulheres. Isso deixa The Handmaid’s Tale mais assustador e sufocante.

Além de incutir desespero, a série consegue contar uma história impactante com ótimas atuações (Elisabeth Moss não está sozinha: o elenco é de primeira) e com um certo cinismo, ainda que na medida certa para não deixar a gente perder a esperança. O último episódio que eu assisti foi revelador e focou em um personagem que tinha aparecido pouco. A história tem aventura, vilania e muito mistério. Esta primeira temporada tem sido daquelas que claramente plantam raízes para uma longa jornada. Posso estar com grandes esperanças e pode ser que alguém que já tenha lido o livro as ache injustificadas, porque as melhores histórias dificilmente têm finais felizes, mas tenho que dizer que não vejo a hora de me sentir vingada. Eu queria que June dissesse que Offred é o cacete e matasse todo mundo a tiros. Mas vamos ver.

O que aconteceu até agora na nona temporada de RuPaul’s Drag Race

rupauls drag race 9 temporada

Já vi oito episódios da nona temporada de RuPaul’s Drag Race e ainda não tenho uma drag preferida. Acho que a Trinity vai ganhar. Eureka saiu num acidente infeliz. Valentina não tem cacife. Alexis Michelle pensa que é melhor do que é de verdade. Sasha Velour precisa dar uma boa arrancada se quiser brilhar desse ponto em diante. O mesmo vale para Peppermint, embora ela tenha feito a melhor coreografia de lipsync da história do programa. Shea Couleé parece uma ótima concorrente, mas só mostrou lapsos  de brilho e não um brilho intenso.

Vimos pouco de todas, mas não acho que o nível das competidoras esteja ruim, tenho uma outra hipótese: a temporada se concentrou, até agora, em quem nunca esteve nem um pouquinho perto de ganhar nada de jeito nenhum. No talento, Jaymes, Kimora Black, Charlie Hides, Cynthia Lee Fountaine, Aja e Farrah Moan, somadas, não dão meia Courtney Act. Só que elas são personagens excelentes e eu tenho certeza de que lá na produção de Drag Race ninguém pôde resistir a contar essas histórias.

A primeira a sair foi a esquisitíssima Jaymes Mansfield. Quem acampanha o reality há muito tempo sabe que os patinhos feios despertam a curiosidade e que o patinho não é feio porque é feio,  mas porque não se encaixa. Na primeira temporada havia Tammie Brown, uma drag que parece ter como missão de vida deixar o público desconfortável. Mas era de propósito que ela fazia assim. Ficou claro que o estilo de Tammie Brown não era bem o do tipo de participante que Drag Race coroava. As temporadas seguintes também tiveram gente excêntrica, até que Sharon Needles conseguiu esculpir a esquisitice e levar o troféu para casa na quarta edição do programa.

Só que o problema de Jaymes Mansfield era outro. Nada do que ela fez deu certo. No Untucked, ela parecia deslocada e desconfortável. Seu ponto de partida era a comédia, mas a parte engraçada não apareceu. Ela estava nervosa, não demonstrava traquejo nem versatilidade. As outras competidoras perceberam e demorou minutos para que, tanto elas como a edição do programa, começassem a tratar Mansfield como café-com-leite. A história dela, como ali não poderia deixar de ser, foi a de alguém que encontrou uma barreira intransponível bem na hora em que precisava se livrar de todos os limites. Essa história é necessariamente verdadeira ou faz justiça à vida  da participante? Não importa. O que importa é que, no universo que se revela em Drag Race, Jaymes Mansfield foi a primeira a sair e virou um símbolo para todas as que já perderam feio.

Kimora Black não é muito interessante. Acho que toda temporada tem aquela drag que só quer ser bonita, e com essas eu implico. No caso de Kimora, era até engraçado ver a diferença entre o que ela pensava de si (em estilo, carisma, essas coisas) e a realidade do que conseguiu demonstrar.  Ela nem teve muito tempo de tela. Charlie Hides, a terceira a sair, não acrescentou muito no que diz respeito ao propósito da competição, mas o arco dela também teve um aceno ao que talvez seja o tema principal de Drag Race desde o começo, a autoestima. Com mais de 50 anos, nem ela nem a edição deixaram de destacar as diferenças que a idade traz.

Para mim, a saída de Charlie foi a mais marcante. Ela foi a que se negou a dublar [lipsyncar?haha] pela própria vida. Quer dizer: Charlie ficou respeitosamente no palco, sem dar um passo para a frente ou para trás e dublou sem nem fingir entusiasmo. No ideário das participantes do programa, que é aquele conjunto feito das ideias que são marteladas por todas elas desde a primeira temporada, o que Charlie fez foi um verdadeiro crime. Todas falam em deixar a vida no palco, dizem que aquela é a oportunidade de uma vida, que se fosse para fazer pela metade seria melhor ficar em casa. Eu acho que essa tem que ser a postura de quem quer competir, é claro, mas também entendo o que Charlie Hides fez. Sempre tem uma certa classe em quem se nega a fazer o que todo mundo faz, principalmente quando isso é garantia de suicídio social. De certa forma, a desistência de Charlie quebra um pouco a história que o programa quer contar e vira um contraponto ao que aconteceu com Jaymes Mansfield na primeira eliminação. Jaymes saiu chorando porque estar fora de Drag Race era uma espécie de morte, enquanto Charlie, do alto de sua experiência, foi embora como quem afirma que vai continuar fazendo o que já fazia antes do reality show. E isso é muito legal porque, sem negar a importância de RPDR, assim como The Voice não é dono da música, Drag Race também não deve ser dono da arte drag. “Eu sei cantar”, Charlie disse, “dublar é uma coisa que eu não faço”.  Ué, mas ela sabia que teria que dublar! Sim, e quando a hora chegou, ela virou as costas e saiu andando. Esse é um orgulho que eu compreendo.

O que eu não entendo é o apelo do drag de Cynthia Lee Fountaine. É verdade que ela parece uma das pessoas mais queridas do planeta, mas pouca gente fez coisas tão sem sentido. Na oitava temporada Cynthia foi eliminada com um shortinho bem abaixo da competição. Teve uma segunda chance e mostrou que não tinha o que mostrar. Pôde fazer a Kim Kardashian, e o resultado foi… triste. Mas vocês a viram no Untucked ou naqueles momentos de descontração (meio ensaiados, mas tudo bem) enquanto as meninas se pintam? Ela não só tem histórias boas para contar, como ainda por cima oferece aquele tipo de companheirismo que é um dos pilares do discurso de Drag Race. Essa participação grande que Cynthia Lee Fountaine teve, mesmo quando não tinha a menor chance de vencer, mostra que o programa parece mais preocupado com personagens do que com competidoras. Por não ser boa no jogo e não ter uma história destacada, alguém como Farrah Moan passa sem deixar rastros.

You look like Linda Evangelista

Para mim, o que esta nona edição teve de melhor, até agora, foi o potencial mêmico de mais uma competidora que não teve a menor chance: Aja. Eu acho que Aja é do nível de Shangela, quando Shangela era recém chegada. Aja não sabe se maquiar, nem se vestir, nem atuar, nem cantar e, pelo que demonstrou no Untucked, não era lá um poço de bondade. Seu melhor momento foi  quando descarregou sua frustração em Valentina, no que até agora é o meme mais engraçado de 2017.

A raiva de Aja foi uma das coisas mais gostosas que eu já vi na vida. É um momento que só RPDR é capaz de produzir. Eu tenho certeza de que aquele diálogo não foi previamente escrito porque ator nenhum poderia fingir toda aquela variedade de sentimentos. Tem inveja? Aham. Tem indignação por injustiça? Sim. Tem tensão sexual? Também tem. Ainda por cima, Aja declama  tudo com uma sinceridade que eu só tinha visto em crianças, especificamente aquelas sem filtro algum e insensíveis ao subtexto que pode aparecer em qualquer frase que uma pessoa fala. Só alguém completamente despreparado para ter um surto assim, para demonstrar tudo o que sente enquanto diz só uma parte do que queria dizer.

Por tudo isso, a nona temporada fica na média. Não vai ser a melhor. Não tem gente brilhante e carismática como Bianca Del Rio, Raja ou Jinx Monsoon, mas também não é um mar de drags pouco interessantes como foi a sétima edição (e eu digo isso em retrospecto, porque na época eu me lembro de ter gostado até de Violet Chachki). O programa vai continuar tendo seu apelo por causa de suas histórias universais e porque, entre outras coisas, RuPaul Charles é a elegância em pessoa.

Família Soprano

familia soprano

A quinta temporada de Mad Men tem uma morte que me levou a abandonar meus sentimentos ambíguos por Don Draper. Dali em diante eu não consegui ver bondade nele. Mas a quinta temporada é bem longe. Antes disso, para cada falha de caráter ou compulsão pela mentira, Don Draper demonstrava uma fragilidade compreensível ou um gesto generoso e nobre. Neste mês de abril eu venci a minha resistência e comecei a ver Família Soprano. Não me enrolei com a primeira temporada, vi dois episódios por noite e até agora venho achando que todos os elogios que a série ganha são merecidos. Mas tem uma coisa que me espanta. Já pela metade da jornada dá para perceber que Tony Soprano não é aquele sujeito com altos e baixos, como são Draper e o Walter White de Breaking Bad. Descontada a complexidade que um personagem bem escrito e vivido por um ótimo ator sempre vai ter, Tony Soprano é ruim de dar medo. Ele é um monstro.

Os Sopranos são uma família complicada. Tony até gosta dos filhos mas, pelo menos nesse começo de série, eles são a penúltima prioridade em sua cabeça. Tudo é um aborrecimento. Carmela, a esposa, é a hipocrisia em forma de dona de casa rica. Livia, a mãe de Tony, é um bom argumento para quem acha que um fruto não cai muito longe da árvore. A velha é tão, mas tão malvada que trama a morte do próprio filho por pouco mais que um capricho. De dar pena são as crianças: uma menina, às vésperas de terminar a high school, e um menino fofinho e confuso, bem naquela fase bizarra da puberdade. À primeira vista eles são secundários, mas com o desenrolar da temporada fica claro que fazem parte de um argumento central da série, que é: insalubridade gera insalubridade, loucura gera loucura, bagunça gera bagunça.

Esse argumento é tão bem costurado que fica difícil discordar daqueles que dizem que Família Soprano fez parte de uma revolução na maneira de contar histórias na tevê. Os treze episódios reforçam todos os mesmos pontos, não há aquelas sobras para testar a opinião do público aqui e ali, nem personagens chatos que inspirem aquela ojeriza que roteirista gosta de alimentar.  Essa primeira temporada não tem falso problema e a produção ainda não precisava se preocupar com ganchos sem sentido que são uma maneira de levantar falatório em redes sociais. Não tem como negar que as séries muito premiadas dos anos 2000 e 2010 aprenderam bastante com Família Soprano. A história tem um centro nítido e indiscutível: aquele monstro de que eu falei no primeiro parágrafo.

Não faz muito tempo que eu comecei a perceber que há atores capazes de tirar sentido de uma produção capenga. No fim de março eu tentei ver Sons of Anarchy e não consegui. Eu ficava frustrada com a história se concentrar em alguém tão desinteressante como Jax, vivido por um ator tão fraco como Charlie Hunnam. Eu queria acompanhar Ron Perlman, ator dez vezes melhor num personagem muito mais complexo, mas a série não me deixava. Claro que tem coisa impossível de salvar, mas tem gente que justifica o salário altíssimo. James Gandolfini era um desses atores, e eu nem sei se ele ganhava assim tão bem. Tony Soprano é assustador. Sem ele a série perderia muito. Numa expressão de Gandolfini, ele pode parecer bonzinho e frágil, mas você já assistiu a O Homem Urso, de Werner Herzog? Tony Soprano parece um daqueles ursos fofões, atabalhoados, com um jeito de personagem de desenho, e aí na sequência seguinte ele está enchendo alguém de socos ou chegando muito perto da cara de um outro enquanto respira pesadamente pela boca e pelo nariz ao mesmo tempo. Esse tipo de violência-surpresa é um clássico dos filmes de máfia, basta lembrar de Joe Pesci em Os Bons Companheiros, mas Família Soprano leva a tensão para fora do ambiente de trabalho: não é só nos negócios que Tony parece prestes a matar um, ele leva a mesma agressividade para casa, ou para a terapia. Os filmes de máfia mais celebrados já investiam na construção desse personagem que não consegue levar a vida  do lado de fora de um ciclo de brutalidade e confusão mental, mas o formato de série faz com que Tony Soprano seja o mafioso que a gente pode ver mais de perto.

família soprano

E isso também tem a ver com o espaço que a terapia ocupa na série. Assim como em A Máfia no Divã, a premissa inicial de Família Soprano é de que o chefe de uma família criminosa italiana está nervoso e deprimido a ponto de explodir. A época não é boa para os negócios, os lucros já não são os mesmos porque há muita concorrência no ofício do crime; a notoriedade dos mafiosos, que nunca foi positiva, agora ganhou um verniz de caricatura e galhofa. Soterrado pelo tamanho das responsabilidades que assumiu e desiludido com o despropósito da vida adulta, Tony começa a ter ataques de pânico. Isso está no piloto. A partir daí, as sessões de terapia viram um recurso para desenvolver os temas da série. Mas é um recurso, não uma muleta. Não é que a terapia vá explicar tudo.

Há ocasiões em que discurso e prática vão para lados diferentes. A certa altura há uma tensão sexual entre Tony Soprano e Jennifer Melfi, a terapeuta, mas ele trata de sepultar  qualquer possibilidade de intimidade com seus apelos à violência e total falta de modos. Apesar disso, ela persevera. É por causa dos insights dela que conseguimos entender a história dos Sopranos de trás para a frente. Cada lembrança ou flashback tem sua importância ressaltada para o momento presente, e assim Melfi funciona também como a consciência do espectador, dizendo educadamente coisas que poderiam se resumir a um “Tony, meu querido, você não tinha como dar certo tendo sido criado por esse bando de malucos”. Isso quer dizer que ele é humano, ou seja, os defeitos não vieram do nada. Mas ele não é menos monstruoso por ser humano. Nessa primeira temporada eu tive a impressão de que Tony Soprano não gosta de ninguém. Não tem um arco para mostrar que ele foi obrigado a agir como age, e a série não se preocupa em fazer malabarismos para relativizar as falhas de seu protagonista.

Família Soprano tem uma aura de infelicidade pairando sobre todo mundo. Às vezes nem o humor negro e a qualidade cinematográfica conseguem dissipar esse sentimento. O resultado é um clima de melancolia e inevitabilidade da desgraça, somado à sensação de que ninguém presta. Até aqui a série tem sido de um pessimismo bem corajoso, mas ficam bem óbvios os motivos do sucesso tão grande e de sua permanência na memória coletiva: tem muito personagem carismático por m², uma história de crimes conduzida gota a gota, tudo do bom e do melhor. Se meus planos derem certo, eu termino a segunda temporada ainda antes de maio chegar.

Para quem vai passar o feriado na Netflix

Serão três feriados em um intervalo bem curto. Não é uma maravilha? Para mim, feriado no outono e no inverno é sinônimo de filme, série e uma mantinha no sofá. Quando faz calor eu só dispenso a mantinha, mas tudo bem. Empolgada para os próximos dias, resolvi fazer uma lista de coisas para assistir na Netflix porque a Netflix é um recanto muito confortável da internet. É para quem tem preguiça de baixar torrent e para quem nem lembra se ainda existe uma locadora aberta na cidade inteira. Então aqui vão as minhas dicas: Stranger Things, Os 13 porquês e as séries da Marvel. Que tal? Aposto que você nunca havia ouvido falar de nada disso. Boa diversão e depois venha me agradecer. MENTIRA: para fugir das coisas que geram mais burburinho, o que eu fiz foi tentar organizar uma lista (bem pequenininha) para ajudar alguém (alguém hipotético e com interesse em trocar figurinhas) a se organizar dentro da Netflix.

Filmes que você pode ter deixado passar

frank

Frank

Aqueles que são meio largadinhos, mas muito bons. Às vezes a gente os deixa passar porque perde o período no cinema (acontece também de um filme jamais estrear perto de casa). É difícil acompanhar tudo que sai, daí um dia, quando a gente já até esqueceu e tá rodando a Netflix para ver o que é que tem, BUM!, lá está o filme. Um assim é Frank, de 2014, com o Michael Fassbender e Maggie Gyllenhaal. A história é sobre um cara (Domhnall Gleeson, de Questão de tempo) que entra numa banda indie, a The Soronprfbs, pensando que aquela é a oportunidade de sua vida. O vocalista é Frank (Michael Fassbender), que usa uma máscara o tempo todo. Ele canta, come, toma banho e dorme com a máscara. Não é pose, é doença: ninguém nunca viu o rosto dele. Frank é quieto e estranho, e me fez pensar no cantor e compositor Daniel Johnston, um artista especial mas de difícil enquadramento. Por causa da excentricidade de Frank a banda faz certo sucesso, mas depois de um tempo tudo começa a degringolar. O fim é delicado de um jeito bizarro e, diferentemente de muitos outros filmes indies, não acontece de o mundo todo se entortar para se enquadrar à visão de mundo do protagonista. É uma boa lição. Também na Netflix está Amantes Eternos, ou Only Lovers Left Alive. Tom Hiddleston e Tilda Swinton formam um casal de vampiros bem dark. A prioridade que eles dão à autenticidade, o espaço que a arte ocupa na vida dos dois, e a maneira como eles vivem apaixonadamente fazem deste um filme meio que tematicamente ligado a Frank. Num caso há um artista indie atormentado e no outro dois vampiros românticos, os únicos amantes que restaram.

Especiais de stand-up cínicos e autodepreciativos

louis ck

Louis C. K.

Eu sei, eu sei, eu sei: o Brasil pegou trauma de comédia stand-up desde o auge do finado CQC. Teve gente reclamando de cerceamento à liberdade de expressão, quando tudo o que rolou foi um pessoal reclamando que a piada não tinha graça e que o comediante era burro. Mas o stand-up foi um produto importado à força por aqui. Nos Estados Unidos a tradição é longa e os melhores comediantes são os que não se agarram àquilo que é consenso. Para a nossa alegria, há alguns deles na Netflix. Louis C. K. é o primeiro nome que me vem à cabeça. Adoro assisti-lo e pensar “é, isso aí mesmo” ou “putz, é verdade, putz, eu também” ou “caramba, cara, você é maluco” enquanto rio sem parar. Ele sempre começa a falar de algum assunto delicado como se ele fosse a pessoa mais rude e desrespeitosa que existe, então de repente ele dá uma volta e você entende que o assunto é só o pano de fundo para ele criticar pessoas mesquinhas, detestáveis e por aí vai. Eu sempre rio. Acho que o catálogo da Netflix tem três ou quatro especiais dele, incluindo um que saiu em 2017. Bill Burr também tem um humor parecido com o de Louis C. K., mas acho que ele consegue ser mais radical e ter mais cara de maluco. A Netflix tem dois dos dele. Por último, gostei muito do show da Chelsea Peretti, que eu só descobri na Netflix recentemente. Ri muito em um dia que eu estava bem gripada e sem forças para fazer o que fosse. Além da cara de maluca e da voz esganiçada, ela tem uma visão particular sobre relacionamentos e tem um jeito neurótico de ver as regrinhas de educação e convivência.

Comédias bizarras para quem quer maratonar

chewing gum

Chewing Gum

Ainda pensando em comédia, mas com um humor mais leve: duas séries curtinhas perfeitas para o feriado. Chewing Gum é uma série inglesa escrita e protagonizada por Michaela Coel. São duas temporadas com seis episódios cada e duração de uns 20 minutos. Eu pretendia assistir a um episódio, mas tudo era tão bizarro que quando notei já tinha acabado com a série. Tracey é a protagonista. Ela vive com a mãe e a irmã, duas fanáticas religiosas. Tracey é virgem e decidiu que já passou da hora de isso mudar. As situações são hilárias e todo o elenco é carismático, não tem como não rir. Uma outra série com uma protagonista descarada é Haters Back Off. Protagonizada e escrita por Colleen Ballinger, a série bebe na fonte de Napoleon Dynamite: gente louca e sem  noção do ridículo, situações embaraçosas, essas coisas que a gente adora. Miranda Sings acha que é a pessoa mais perfeita que já existiu no mundo. Sua aparência, sua voz, sua família, tudo está ali para mostrar que ela é o oposto do que pensa ser. Quanto mais ela pensava que estava sendo plena, mais era desprezível. Tudo é muito absurdo, o elenco todo é excelente.

Séries fofas sem compromisso com a realidade

dramaworld

Dramaworld

Se você não gosta de comédias escrachadas, também há duas séries muito fofas e com um pé (ou os dois) no surreal. Dramaworld é uma minissérie norte-americana e sul-coreana. A protagonista vive em Los Angeles e é obcecada por novelas coreanas. Um dia ela entra no mundo da sua novela preferida e aí está a história: ela vai viver todas as aventuras junto com os protagonistas coreanos. Achei bem fofinha e é legal para quem quer entrar no mundo do K-drama. Ainda pensando em novela: Jane the virgin. Se você gosta de muito drama e cenas incoerentes (e já viu Rubi, Maria do Bairro, Marimar) vai amar Jane the Virgin. Eu falei da primeira temporada bem no início do blog, e posso dizer que a série da CW já está na terceira temporada e continua firme e divertida.

Clássicos para quem não pretende cochilar

o rei da comédia

O rei da comédia

É considerado ofensivo cochilar durante um clássico? Não, né? A Netflix é um convite ao soninho, mas a autoestima dá uma travada se a gente se dispõe a ver um filme que todo mundo considera obrigatório e dorme. Por isso, se você não quer ver nada muito leve e tem dormido oito horas por dia, eu posso te indicar dois filmes que são clássicos do cinema, mas que andam meio esquecidinhos, sem conquistar novos corações. Amadeus, que foi um dos melhores filmes que eu vi em 2016, é longo, lento e primoroso. Fiquei feliz de encontrá-lo no catálogo da Netflix. O outro é o meu preferido do Martin Scorsese: O rei da comédia. Estrelado por Robert De Niro, o filme é divertido e angustiante, com passo de thriller. Quer dizer: se você dormir, vai ficar chato. Robert De Niro é um fã louco de um grande comediante interpretado por Jerry Lewis, e será capaz de tudo para se aproximar de seu ídolo. Eu tenho a impressão de que O rei da comédia não é tão badalado quanto outros sucessos da dupla Scorsese e De Niro, o que me deixa um pouco indignada e confusa.

Minhas melhores séries de 2016

Quantas séries horríveis a gente é obrigada a ver até topar com uma nova Mad Men? Muitas. Nos últimos dois anos, ainda por cima, eu tenho participado do Projeto Fall Season no Banco de Séries, isto é: eu me obrigo a ver o maior número de estreias possível. E no que isso resulta? Não chega a dar úlcera, mas sobe aquele ceticismo toda vez que alguém fala em “era de ouro da televisão”. Pois é, Seinfeld e Mad Men não aparecem todo dia, mas a minha sorte é que eu me contento com pouco. Eu paro e vejo qualquer coisa: se tiver um casalzinho para shippar, se houver um serial killer à solta, se eu gostar de uma atriz ou ator, ou se a produção não tiver nada disso, mas me prender por alguma razão que deve estar soterrada lá no subconsciente.

Ao longo do ano, eu fiz posts sobre várias séries de que eu gostava à época, mas que depois acabaram me decepcionando. Isso não me impediu de conseguir separar uma listinha das coisas que eu vou guardar no coração. Tenho que avisar que algumas delas não vão ter continuação, porque não tinha mesmo o que continuar, e que, claro, as que eu acompanho há bastante tempo, como Grey’s Anatomy e The Affair, embora sejam pontos altos do ano, não vão aparecer aqui porque seria redundante. Se você não assiste a Grey’s Anatomy talvez já seja muito tarde para começar, mas se você ainda não começou The Affair o azar é seu. E ah, quase me esqueço: assim como na lista dos filmes, aqui também não constam só produções deste ano. É o meu 2016, oras.

Olive Kitteridge

É uma pena que tão poucas pessoas tenham visto, porque esta minissérie é incrível. Eu acho que Olive Kitteridge tem o nível daquelas séries que todo mundo gosta de incensar. É da HBO, tem atores fantásticos e, ei, eu já escrevi sobre ela aqui.

Outlander

Depois de começar a ler os livros o próximo passo era a série. Eu já imaginava que iria gostar, mas não tinha ideia de que Outlander viraria favorita. Essa série é injustiçada e, se o mundo fosse um lugar bom, todos seriam obcecados por Claire e Jamie. Não entendo o descaso, principalmente agora que a primeira temporada está disponível na Netflix. Até aqui a produção é bem fiel aos livros, e logo se vê que o orçamento não é dos mais modestos. Por causa disso,  a qualidade de cenários e figurino é de encher os olhos.

O.J. Made in America

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Foi em 2016 que estrou American Crime Story: The People vs. OJ Simpson? Foi. Eu confesso que não tive boa vontade com a série, que depois foi super premiada e tudo. Passou sem que eu desse bola. Mas a minha curiosidade sobre o caso dos assassinatos de O.J. Simpson estava intacta. Foi assim que eu descobri O.J. Made in America. É uma série documental, que eu vi em cinco capítulos, mas que estreou como filme no Festival de Sundance. Especula-se que vá disputar o Oscar de melhor documentário, e tem toda a discussão de “ué, mas é série”, “ué, mas é filme”. O importante é lembrar que O.J. Made in America não trata apenas dos crimes que o ex jogador da NFL cometeu, mas elabora, lá de trás, todo o contexto que fez desse caso um dos mais célebres da história dos Estados Unidos. O seriado consegue esmiuçar o racismo no judiciário americano e intercalar a história do país, na segunda metade do século XX, à ascensão e queda de um sujeito que era um mito, e que continuou sendo um tipo de mito mesmo depois de ter pisado na bola.  (“O.J. Simpson pisou na bola”: este é o maior eufemismo da história do blog).

Pitch

Já começo dizendo que não entendo nada de beisebol. Sempre quis saber um pouco mais, mas sempre desisti sem nem entender o básico. Foi mais ou menos assim que tentei aprender a tocar piano quando era criança: quando vi que para tocar era preciso ler teoria musical, a preguiça falou mais alto. Como tirar da ignorância total alguém que tem certo interesse por um assunto? Com a televisão, é claro, o veículo mais educativo que há.

A boa notícia é que a primeira temporada de Pitch já acabou, ultrapassou e muito as minhas expectativas, trouxe o OTP mais empolgante de 2016, e me deixou aqui ansiosa para saber se a Fox vai dar o sinal verde para uma segunda temporada. A má notícia é que eu ainda não entendo nem quem é a bola numa partida de beisebol. Claro, o esporte é um pano de fundo muito importante em Pitch, mas a série é sobre relacionamentos, superação, amadurecimento, essas coisas com que todo mundo que não tem o menor interesse por beisebol pode se identificar. Ginny Baker é a primeira mulher a conseguir jogar na liga principal, e aí não só a vida dela vira de cabeça para baixo, como  haverá reviravoltas em todas as coisas que envolvem uma mulher num ambiente extremamente masculino.  A série é muito bem feitinha, mesmo que dê uma leve escorregada de vez em quando, e vale muito a pena acompanhar Ginny Baker nos problemas, que não param de surgir quando você é desafiada não só pelas dificuldades de um esporte de alta performance, mas também pelo preconceito e tolice geral do mundo.

Black Mirror

Em 2016 todo mundo viu a terceira temporada de Black Mirror. A série virou meme e tudo, e eu não posso negar que também fui uma adepta tardia. Eu já sabia de Black Mirror, mas tinha sido vencida por minha resistência a qualquer série que não mantenha os mesmos personagens em todos os capítulos. É que eu gosto de me apegar, e se isso não for possível eu nem começo. É claro que eu estava errada, minha implicância foi vencida pelo hype e eu embarquei junto com todo mundo. E  o que isso me rendeu? Não sei. Tristeza? Um estado de torpor em que eu me sentia um robô e percebia que todos à minha volta estão condenados pela tecnologia, que no fim das contas vai nos levar (ou já nos levou) a um estado totalitário? Sim. Bem isso.

Angie Tribeca

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Mas a vida não é só vontade de morrer. Angie Tribeca teve duas temporadas e ainda bem que uma terceira já foi encomendada. É uma comédia de vinte minutos para rir muito. Se você costumava assistir a Corra que a polícia vem aí na Sessão da Tarde, precisa dar uma chance a Angie Tribeca. Criada pelo casal Nancy e Steve Carell , a série parodia todos os vícios de filmes e séries policiais com humor nonsense. Angie (a Rashida Jones) é a policial durona que precisa resolver crimes complicadíssimos ao mesmo tempo em que tenta equilibrar a vida amorosa com seu parceiro/namorado. Depois de passar pelas duas temporadas de Angie Tribeca, não tem como não ver CSI (ou mesmo uma estreia desse ano, como Frequency) e não dar aquela risadinha. Além de tudo, o elenco é muito bom. Tem um cachorro policial, sentadinho em sua mesa e tudo, conferindo umas coisas no computador. Não tinha como ser ruim.

E é isso. Para fechar 2016 só faltam os livros.