The Terror é a melhor história de fim de mundo que já apareceu na TV

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Eu já vi muito seriado na minha vida – um número que até constrangeria pessoas com um pouquinho mais de noção – e posso dizer que sei reconhecer um clássico instantâneo quando esbarro em um. Quem não assistir a The Terror, da AMC, vai perder um dos grandes momentos da televisão nos últimos anos, com algumas das atuações mais comoventes que eu já vi em qualquer mídia.

Desculpa, me empolguei. Eu não sei se a série foi divulgada com alarde ou não, o que sei é que fui pega de surpresa. Baseada no livro de Dan Simmons, temos a história real da expedição de John Franklin, que partiu da Inglaterra vitoriana para encontrar a passagem que liga o oceano Atlântico ao Pacífico acima do Circulo Polar Árctico. Franklin e seus mais de 100 tripulantes partiram em dois navios, em 1845 e… jamais voltaram. Viraram lenda, motivando dezenas de outras viagens em seu encalço. O livro e a série ficcionam a expedição. E quando eu digo ficcionam eu me refiro a um pacote mais que completo. A história não é contada como poderia ter acontecido, nada disso: não demora e um monstro meio urso, meio demônio coloca a vida dos homens em risco, como se não bastassem o frio, a fome e as doenças.

The Terror é perfeita por diversos ângulos. A produção é daquele tipo que recria a época na medida certa, nem a mais nem a menos, sem pretensão de ser um fim em si mesma. Isso inclui os figurinos e cenários. A direção é precisa, nem sempre sutil ou no mesmíssimo tom, mas sem jogadas mirabolantes para fingir profundidade ou passagens arrastadas para duvidar de nossa inteligência. Mas se The Terror tem um aspecto irrepreensível este é o desempenho de todo o elenco. Não consigo me lembrar de uma exceção.

the terror

Os três personagens principais são atores entre aqueles rostos que a gente se acostuma a ver, mas que nem sempre consegue lembrar de onde os conhece. Aqui, eles brilham. Tem Jared Harris, que tinha feito um dos coadjuvantes mais humanos de Mad Men; Tobias Menzies, que tem um papel nanico em Game of Thrones mas chamou a minha atenção pelo que fez em Outlander; e tem o veterano Ciarán Hinds, que é o Mance Ryder, também de Game of Thrones. Além deles, há Adam Nagaitis, que é um vilãozinho do capeta, um ator que me deixou com vontade de levantar do sofá e partir para a agressão física, que nem aquele homem com um capacete que invadiu uma versão teatral da Paixão de Cristo. Apoiados por gente que, pelo que me pareceu, mantém o mesmo nível, esses quatro atores mostram aquela capacidade de manter o olho da gente colado na tela, independentemente do texto.

E olha que o texto é bom pra caramba. Não li o livro, não o conhecia, nem sabia da existência de Dan Simmons, que, fui descobrir depois, é um autor bem badalado quando o assunto é ficcção histórica, mas os roteiros baseados no livro são do tipo que consegue contar várias histórias com o mínimo de pirotecnia, com aquelas sacadas que, ou dão vontade de chorar, ou despertam uma pergunta bem profunda lá no meio da cabeça. Além disso, uma das coisas mais gostosas de se envolver com um filme ou série é a possibilidade ter as expectativas frustradas, de se enganar a respeito do que vai acontecer e como – isso tudo The Terror faz sem render-se completamente ao espírito do tempo, o que é um sinal de originalidade, afinal de contas.

A minha vontade era escrever sobre The Terror na altura do segundo capítulo. Ali eu previ que sairia impressionada, mas segurei o entusiasmo porque aqui, no blog, já caí seguidas vezes no conto do ótimo piloto, ou do começo empolgante que depois revela um abacaxi. Por sorte, não cheguei a me decepcionar. O último episódio tem lá seus defeitos, alguém mais crica que eu seria capaz até de se frustrar, mas eu duvido que os últimos dois ou três anos, na televisão, tenham visto nascer uma história melhor a respeito de amizade, lealdade, integridade, das coisas que tornam as pessoas humanas e daquelas que fazem com que a gente perca de tudo isso de vista.

Essa foi, na minha opinião, a melhor série de fim de mundo que já apareceu na televisão porque ela mostra que não precisa de muito para o mundo desabar. Vou terminar com uma frase profunda: fica a dica.

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Minhas melhores séries de 2017

Chegou o momento dos MEUS MELHORES DO ANO. Ainda não é uma tradição – eu comecei com isso no ano passado – mas o Oscar e o Troféu Imprensa também tiveram que começar de baixo. Ou não? 2017 ainda não acabou, mas eu sei que não vou ver nenhuma série que me empolgue tanto quanto essas cinco que listei aqui. Por que cinco? Não sei. Quase todas as listas do blog acabam em cinco.

Ah, vale lembrar que essas são séries que eu comecei a ver neste ano, mas elas não estrearam necessariamente em 2017. Opa, também vale lembrar que elas não estão organizadas em ordem de preferência ou importância.

Mindhunter

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Taí uma que me pegou desprevenida. Eu estava vindo de umas séries policiais bem decepcionantes, quase todas da Netflix. Eu lia por aí que eram muito boas e quando ia ver achava tudo mais do mesmo ou ainda pior. Já no segundo semestre surgiu Mindhunter. Com um padrão acima da média, Mindhunter analisou os serial killers quando eles ainda nem carregavam esse nome, e também contou uma história bem melhor e mais interessante que a do livro que inspirou a produção. Logo depois do fim de semana de estreia eu fiz um texto falando um pouco sobre o que achei.

The Handmaid’s Tale

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Acho difícil que você não tenha visto ou ouvido falar desta série. Ela ficou famosa por seu teor feminista. Muitas vezes o cinema, a tevê e a publicidade surfam na onda dos ativismos, ganham bastante exposição, mas mal conseguem esconder que têm pouco a dizer ou – pior ainda – que aquilo que defendem é só uma maquiagem muito superficial jogada em cima do mesmo produto bobão e padronizado. The Handmaid’s Tale é o oposto de tudo isso. A série tem o que dizer, não tem medo de ser desconfortável, vai além do discurso comum. É apavorante e ao mesmo tempo tem alto valor de entretenimento. É toda bem feita, da luz às atuações. Eu fiz um texto sobre a série aqui, num dia em que estava bem deslumbrada.

Twin Peaks

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Eu sei que disse que não haveria ordem de preferência, mas vou entregar meu xodó. Se eu tivesse que eleger uma melhor série no ano todo seria Twin Peaks, sem dúvida. Twin Peaks é a minha série favorita da vida, mas em 2017 ela voltou com os dois pés no peito. Eu falei um pouco dela aqui, mas gostaria de falar dela para sempre (vou evitar isso, estou tentando ser sucinta). A Twin Peaks de antigamente tem tudo que posso querer numa série: o clima familiar e acolhedor; diálogos engenhosos mas cheios de simpatia; mistérios que dão um nó na cabeça; personagens cativantes e ação no momento certo (quando a gente menos espera). A nova Twin Peaks fez tudo isso e ao mesmo tempo fez seu exato oposto. Por semanas eu esperava ansiosamente pelo novo episódio, para saber quando Cooper voltaria a ser Cooper, para tentar entender só um pouquinho toda a confusão que David Lynch estava fazendo – e que, é bem evidente, na verdade não tem desenlace. Meu otimismo é grande para que David Lynch receba uma boa oferta para uma nova temporada da melhor série que já fizeram. Vou sentir falta de Dougie Jones.

This is us

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Ano passado eu assisti o piloto desta série na minha fase alucinada de pilotos da fall season. Eu gostei mas achei piegas além da conta (olha que eu sou fã de Grey’s Anatomy) e por isso larguei mão. De repente eu via em todo lugar alguém falando de como This is us era linda e emocionante, e então a série foi concorrendo às premiações e, claro, eu não consegui deixar passar. Sou muito influenciável. Dei uma nova chance e o meu amor ao novelão falou mais forte. Se você gosta de chorar à toa vai amar This is us. Deixando todo o drama de lado, a série consegue se manter em pé com ótimas atuações (com exceção da Mandy Moore, por favor) e histórias impactantes que, mais pela forma com que são contadas do que pelo conteúdo, pouco vemos na televisão: o filho negro que precisa se encontrar dentro de uma família branca e a mulher obesa que precisa encontrar seu amor próprio e vencer preconceitos. Eles não são o apoio dos protagonistas, eles são os protagonistas. Essa série é uma boa prova de que bons atores e boas histórias podem existir em qualquer lugar.

Suits

suits

Acho que Suits entra aqui como um guilty pleasure. Quer dizer: eu para falar a verdade só tenho o pleasure e não me sinto guilty de nada. Tenho algum comentário para tecer? Não. Só estou viciada. Um dia de bobeira na Netflix eu pensei “só vou ver um episódio, vou detestar e nunca mais”. Quando dei por mim já estava no terceiro episódio, viciada no Mike, no Harvey e na Rachel. A atriz que faz a Rachel agora está famosa porque vai se casar com o príncipe Harry, mas minha tristeza é saber que ela abandonou a série que está agora na sétima temporada (eu ainda estou no início da quarta). Nunca tive o sonho de ser advogada, mas adoro essas séries fora da realidade com intriguinhas de firma. Adoro ver esse povo ainda no escritório às 10 da noite, de terno, enquanto eu estou toda aquecida no sofá.

(Alguém faz o favor de avisar os estúdios que eles ganharam o Baby de Ouro 2017?)

Meus 5 personagens preferidos de séries

Sempre que eu vejo ou experimento alguma coisa muito boa eu imediatamente penso em listas, minha cabeça sempre funcionou assim. Por exemplo: comi um bolo delicioso de chocolate – quais são os cinco bolos de chocolate mais deliciosos que eu comi na minha vida?; acabei de ouvir pela centésima vez o mesmo álbum do Angra – quais são minha cinco músicas preferidas do Angra? Quem sofre com isso é o meu marido, porque para cada lista minha eu preciso ouvir a dele, e claro, quase sempre ele não sabe me responder, porque é difícil definir rapidamente as coisas de que você mais gosta.

Um dia vendo a nova temporada de Twin Peaks eu me peguei pensando no agente Dale Cooper, e percebi que ele é o meu personagem preferido de todos os tempos entre todas as séries que eu já vi. Não demorou para surgir a questão “e quais são os meus outros quatro personagens favoritos de séries de todos os tempos?”.

Pois é, falando assim minha cabeça não parece um lugar muito empolgante, mas garanto que pensamentos mais nobres aparecem por aqui de vez em quando.

Meus cinco personagens preferidos são necessariamente aqueles com quem eu gostaria de conviver? Aquela pessoa que você gostaria que saísse da tela e fosse de verdade? Veremos.

Dale Cooper – Twin Peaks

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Twin Peaks é minha série preferida, então nada mais normal do que meu personagem preferido vir dela. Eu vi e revi a primeira temporada, acho que foram quatro vezes, e posso dizer que o agente especial Dale Cooper (Kyle MacLachlan) é uma pessoa que deveria existir. Alguém que melhoraria o mundo. Na história ele precisa resolver o assassinato de Laura Palmer na cidadezinha de Twin Peaks. Ele trabalha para o FBI, mas o perfil de agente metido não combina com ele. Cooper é amistoso, generoso e gentil. Estas características acabam transparecendo no jeito de encarar o trabalho, sem deixar de ser profissional. Seus métodos pouco convencionais impressionam os cidadãos de Twin Peaks na mesma medida em que seu bom coração os conquista. Acho que eu gosto tanto deste personagem porque ele é a síntese de uma pessoa que me atrairia (não romanticamente). Eu prezo muito a honestidade de uma pessoa que se conhece e não usa de subterfúgios para se relacionar, é quase como se a pessoa voltasse a ser criança de tão clara que ela é. Esse é o Dale Cooper, um personagem mais do que especial. Acho que Kyle MacLachlan é responsável por pelo menos metade do apelo que Twin Peaks tem comigo. Lembrando que a terceira temporada, lançada agora em 2017, foi o auge da série até agora.

Elaine Benes – Seinfeld

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Que surpresa! Mais uma que vem de uma das séries favoritas. Seinfeld é uma sitcom da década de 1990 que conta a história (vá lá: contar a história não faz jus ao que acontece porque o objetivo, às vezes, é não contar história nenhuma) de quatro amigos em Nova York (se você pensou em Friends, saiba que Seinfeld chegou antes e que os friends são seis). Jerry Seinfeld, Jason Alexander e Michael Richards são talentosos e engraçadíssimos, e por isso o trabalho de Julia Louis-Dreyfus era difícil. Não é que ela seja menos talentosa e brilhante, mas naquela época, numa série quase inteirinha feita por homens, não seria uma surpresa se a única protagonista mulher fosse colocada de escanteio. E a razão de isso não acontecer não foi a pressão do público ou a boa consciência dos produtores, não: foi porque Julia Louis-Dreyfus é muito, muito, muito boa atriz, muito carismática e muitíssimo engraçada. Mesmo sem humor físico ou caricato ao extremo ela conseguiu, logo no começo, estabelecer uma sintonia que é rara – tão rara que não foram poucas as comparações, ao longo dos anos, entre os quatro de Seinfeld e os quatro Beatles.

Quando Seinfeld começa, Elaine Benes é uma garota comum que convive com três caras bizarros. Em uma época em que poucos levantavam a bandeira das mulheres fortes e decididas na tevê, Elaine era tudo isso, e com a maior naturalidade: ela tinha tantos relacionamentos quantos os homens da série, era cheia de opiniões, nunca deixava um desaforo barato. Aos poucos ela foi se revelando deliciosamente mesquinha e egoísta. Todo mundo é mesquinho em Seinfeld, mas mesmo assim você torce por eles e a identificação acaba acontecendo. Acho que eu me daria muito bem com uma amiga como Elaine Benes. Não sei bem em que posição isso me coloca, mas não tem problema.

Felicity Porter – Felicity

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Para falar em amizade, ninguém melhor do que Felicity Porter. Ela acabou de chegar em Nova York para estudar, totalmente despreparada para viver tudo o que vai precisar viver – inclusive porque, se preparada estivesse, não haveria série. Fiz uma declaraçãozinha de amor ao seriado aqui. Por agora é suficiente dizer que aquelas que não se identificam com Felicity estão mortas por dentro. Ela é desajeitada e erra muito, mas também é confiável, querida. Ela se importa de verdade com os problemas dos amigos. Mesmo que seja a protagonista, não é daquelas que fazem o mundo todo girar em ao redor delas. Quem nunca se irritou com aquela mocinha que tem uma melhor amiga e enche as orelhas dela com seus problemas? A Felicity é o oposto disso. Ela para, senta, ouve, tenta resolver. É ao mesmo tempo frágil e corajosa, daquele tipo que tira a valentia de onde não pensava que haveria. Acho que existem muitos outros personagens assim, mas a atriz (Keri Russell, que todo mundo conhece agora em The Americans) fez de Felicity um retrato de muito do que a gente quer ser, e também de alguém que a gente gostaria de conhecer. Quem não queria uma amiga como a Felicity?

Eric Northman – True Blood

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True Blood é um exemplo de série que desandou e acabou de um jeito bem feio, mas antes de isso acontecer já estava sedimentada a minha paixão pelo Eric, interpretado por Alexander Skarsgård. Eric é um personagem de livro (True Blood foi baseada nos romances de Charlaine Harris) mas foi na tevê que ele virou o que virou. É um personagem irreal? Bom, se você acha que um vampiro bonitão e capaz de tudo pelo seu amor é uma coisa irreal, então ele é. Mas existir apenas na imaginação às vezes é a graça de uma história. E de um bom personagem. No começo a pinta de bad boy convencia, mas depois Eric vira um sujeito (mais ou menos) leal e um herói com sangue quente. Ele entra aqui na lista para representar os galãs, que geralmente são meio chatinhos. Chatinho, inclusive, era o Bill, que era o par romântico inicial da Sookie. Este era insuportável. Torci muito para que Sookie ficasse com o Eric, mas confesso que lá pelas tantas a série estava tão perdida e mal feita que já não fazia diferença.

Cristina Yang – Grey’s Anatomy

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Sim, Cristina Yang também é my person. É muito triste continuar assistindo a uma série sem sua personagem preferida (pelo menos a Meredith continua). Cristina Yang também é aquela pessoa que você quer ser ou ter ao seu lado. Ninguém mete medo nela. Ela é uma personagem incomum. É agressiva e chega a beirar a grosseria, mas sua franqueza não passa de honestidade. É uma pessoa bruta com um coração enorme, interpretada por Sandra Oh, uma atriz que mereceria uma carreira de muito mais destaque. Foi impossível desgostar de uma personagem assim, principalmente porque ela era justo aquilo de que a Meredith precisava. Juntas elas eram imbatíveis naquele hospital. Eu sinceramente achei que não conseguiria continuar acompanhando Grey’s Anatomy quando Sandra Oh deu adeus. Foi um baque muito grande. Maior, sinceramente, do que o de quando certo marido de certa protagonista morreu.

Um dia eu ainda apareço com a lista das minhas pessoas preferidas com quem eu convivo no mundo real. Um spoiler: mamãe está na lista.

Um balanço final da primeira temporada de The Deuce

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Teria sido frustrante se a HBO não houvesse confirmado uma segunda temporada de The Deuce. Isso porque a série teve a ambição de construir um quadro enorme do mercado do sexo na Nova York dos anos 1970, e porque este quadro mal começou a ganhar vida. Ao mesmo tempo, como ninguém é bobo, a primeira temporada acabou sendo uma história completa – pouco ficaria em aberto se mais episódios não fossem encomendados.

The Deuce ganhou elogios de veículos especializados e já saiu com a expectativa lá no alto por causa do renome de seus criadores. David Simon é o sujeito por trás de The Wire. George Pelecanos, além de ter trabalhado em The Wire, é um reconhecido autor de romances policiais. Richard Price, um dos produtores executivos, foi responsável por The Night Of e também é um romancista importante. No elenco estão James Franco e Maggie Gyllenhaal, além de um monte de rostos conhecidos para quem viu qualquer coisa nos últimos quinze anos.

Ainda assim – e como acontece com frequência – o burburinho não durou muito. A série não é daquelas de colocar a internet inteira em colapso quando alguma coisa vai acontecer. Pelo que eu vi a recepção no Brasil foi meio morna. The Deuce não pegou de jeito aquele pessoal que é louco por séries, nem entusiasmou bastante a turma cinéfila. Da minha parte, ah, eu achei que fosse me entusiasmar mais. Acho que houve algumas concessões bobas ao que se pensa ser o gosto do público. Vou tentar explicar.

Um exemplo é o arco de Eileen, interpretada por Maggie Gyllenhaal. Talvez em tempo de tela não dê para perceber o tamanho da centralidade da personagem dela, mas é ela quem conduz tudo. As mulheres de The Deuce estão ou em conflito para perceber que um novo lugar no mundo é possível, ou em luta para construir este novo lugar. Eileen é uma prostituta que não tem cafetão. Os cafetões exploram as meninas, sob a desculpa de protegê-las, mas Eileen não é o perfil comum de uma prostituta. Ao longo dos oito episódios a gente descobre que ela apelou para a prostituição para fugir de um pai repressivo, mas que vem de uma família mais abastada que as das demais. Nas ruas ela corre tanto perigo quanto as outras mas, diferentemente das outras, resolveu administrar sozinha o que ganha e como trabalha. Eileen é bem resolvida com sua sexualidade. É madura, liberada, inteligente, conhece bem o próprio corpo. Acontece que o ambiente de trabalho é muito, muito insalubre. Não é de espantar que algumas meninas queiram proteção. Ela apanha de mais de um cliente, o perigo vem como que em escalada. O fim da década de 1970 é um dos períodos mais violentos da história de Nova York. A polícia não liga se algum maluco enforca, esfaqueia ou estripa uma garota de programa. A situação fica insustentável e Eileen precisa parar de trabalhar. Por sorte os tempos estão mudando e, por competência, ela consegue se envolver num negócio que só vai crescer: o cinema pornográfico.

Não tenho nem como negar que isso é muito legal. Eileen é uma personagem central porque serve como símbolo da mudança dos tempos. Na juventude ela foi reprimida pelas limitações sociais, os tabus sexuais a marginalizaram – com uma revolução nos costumes ela vai encontrar seu lugar. A princípio Eileen fica na frente das câmeras, transando, mas depois ela começa a usar a criatividade e mostrar que é capaz, e aí a oportunidade surge. Quando a temporada termina ela já está dirigindo seu primeiro filme, um pouco por acaso e um pouco por obstinação. Para mim isso é quase um modelo de arco. Ela foi do ponto A ao B e tudo se encaixa com o grande panorama histórico. Onde estão as concessões bobas? Na hora de colocar essa jornada na tela.

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O roteiro traz uma personagem cheia de complexidades, mas ao mesmo tempo quer contar essa história como se estivesse falando com uma criança, como se The Deuce fosse um telefilme edificante. Um exemplo pontual está numa cena do último capítulo. O lugar é um set de filmagens. Maggie Gyllenhaal está usando meias 7/8 e um robe de seda. Eileen está pronta para rodar sua próxima cena. Mas o telefone toca. Uma assistente atende. O diretor não vai conseguir chegar a tempo. O que resta a fazer a não ser ir para casa? Mais do que obstinada, Eileen parece predestinada a assumir aquela posição: já que o diretor não vem, quem dirige sou eu. Faz sentido? Na vida real, eu não tenho dúvida nenhuma de que uma atriz pornô consiga dirigir um filme. Eu sei que isso acontece bastante. Muitas atrizes juntam dinheiro e abrem suas próprias companhias com o objetivo de ter controle sobre tudo o que fazem ou de ganhar dinheiro ao produzir conteúdo num meio que já conhecem. Só que The Deuce tratou esse processo de um jeito simplificador em excesso. O set é grande. Há um assistente de iluminação, uma contra-regra, vários atores, cenário, figurino, dinheiro envolvido: tudo isso para uma pessoa com zero experiência tomar as regras só porque se dispôs a aprender fazendo. O desenrolar da cena não é só inverossímil para qualquer um que já tenha trabalhado com qualquer coisa: ele também é feito com o máximo apego a fórmulas muito conhecidas de quem acompanha, por exemplo, o Supercine. Eileen compreende o trabalho do diretor, dá pitaco na direção de arte, trabalha o lado psicológico das atrizes menos experientes. Maggie Gyllenhaal faz tudo isso com a sutileza de um trator: cara de boazinha, cara de compreensiva, cara de quem está exercitando a criatividade.

Seria legal ver mais novidades em uma série com as pretensões de The Deuce. A sensação de déjà vu também bate forte quando se acompanha alguns dos personagens secundários: a jovem rica que largou a faculdade para virar garçonete, desafiar os pais e viver a “vida real”; a prostituta sonhadora que lê e vê filmes entre um programa e outro; o trabalhador assalariado que se encanta com as possibilidades da vida do crime; o trabalhador honesto que se vê seduzido pela máfia ao reafirmar sua masculinidade; o casal gay em crise porque um tem mais reservas que o outro a respeito de demonstrar intimidade em público e sair do armário. De novo: tenho certeza de que essas pessoas existem na vida real, mas acho que não precisamos vê-las no cinema e na tevê, para sempre, sob as mesmas luzes.

Mas todo esse didatismo não chega a estragar a série, que tem um fio condutor bem interessante. No fim das contas, o antagonista principal em The Deuce é o homem que contrata prostitutas. Ele aparece pouco, mas é a escrotidão em forma de criatura. Mais vil que os cafetões, mais hipócrita que os mafiosos e policiais, muito mais problemático que as prostitutas, o homem que contrata prostitutas é quem as submete à violência, quem solicita o sexo e quem as reprime por terem fornecido aquilo que ele solicitou. Trocando em miúdos: em The Deuce o homem que contrata é o símbolo de uma doença social. Ele vai ferrar todo mundo porque quer sexo, ele vai fazer de tudo para esconder suas preferências, ele vai pagar o que for preciso para ter o que quer. Quando a sociedade e a tecnologia permitem que essa obsessão seja levada adiante sob a proteção da privacidade é que surge a milionária pornografia moderna.

(Eu não sei se essas hipóteses correspondem exatamente à realidade, mas não custa lembrar que o Brasil, por exemplo, é ao mesmo tempo o país que mais mata transexuais e o que mais consome pornografia trans.)

De qualquer forma, em The Deuce os personagens servem para levar uma tese adiante: a de que uma revolução nos costumes e na tecnologia tirou o sexo pago das ruas e o levou para dentro das casas. Às vezes essa tese chega até a gente de um jeito meio simplista e quadradinho, mas o resultado final é bom. O tema fica mais e mais interessante na medida em que a gente conhece mais ângulos, e isso não é um feito que toda série consegue realizar. Pelo jeito a segunda temporada vai querer investigar se essas grandes mudanças na indústria do sexo e na sociedade serão necessariamente boas.

P.S.1: A recriação da época, em cenários e figurinos, está impecável.

P.S.2: Eu não sei julgar se James Franco é bom ator, mas eu adoro a participação dele em The Deuce. Ele faz irmãos gêmeos: um é malandro, o outro é ainda mais malandro. Os dois só se beneficiam do jeito canastrão de Franco.

Você não precisa de um guia para acompanhar Star Trek: Discovery

Si Vis Pacem, Para Bellum

Você estará perdendo uma das estreias mais gostosinhas de 2017 se, por algum motivo, não estiver acompanhando Star Trek: Discovery. Se o seu motivo for preguiça de ter que se inteirar a respeito de mais de 50 anos de conteúdo, preguiça de ter que começar lá de trás e ficar em dia com todas as séries e filmes e ainda ler uns livros, eu tenho uma novidade boa: não precisa, deixa isso pra lá. Foi o que eu fiz e está dando certo até agora.

Sei que há todo um exército de fãs que me desprezariam por dizer que acompanhar uma série de tevê não requer prática nem habilidade, mas também sei que televisão é sempre um produto feito para o máximo possível de consumidores. Acho que esse é o conceito maior por trás da produção de Discovery. Claro que eles precisam justificar a série como um componente da franquia Star Trek, mas eles também precisam fazê-la sobreviver num ambiente muito competitivo que oferece novidades semanalmente em vários segmentos.

Toda vez que eu me lembro disso, fico com muita raiva de sites ou cadernos de cultura que oferecem guias ou verdadeiros cursos para quem quer começar essa ou aquela franquia. Já falei disso aqui no blog quando saiu Star Wars: The Force Awakens. Evidente que ter mais informação é quase sempre melhor do que ter menos, mas há veículos de mídia que precisam que a gente se intimide para que eles possam justificar sua existência e há, também, muitos fãs que tomam para si aquilo que amam e não querem que ninguém encoste naquele objeto precioso que os ajuda a moldar sua identidade. Isso é um porre e eu sei que toda mulher que já se meteu a tratar de cultura pop já se viu na situação de ter que provar que é tão apaixonada por aquilo quanto o nerdão que sentou em cima e não quer levantar de jeito nenhum. Pior que isso: provar sua paixão não deveria ser pré-condição para nada, porque não é sinal de hipocrisia conhecer superficialmente alguma coisa (a não ser que você seja um neurocirurgião falando de cérebro, ou algo assim). Pelo contrário: é sinal de que você conheceu, se engajou ou não, e andou para frente. Nem todo mundo se apaixona perdidamente pelas mesmas coisas.

Discovery tem sido uma surpresa para mim. Como eu disse, achei que não valia o esforço de fazer uma pós-graduação lato sensu para entender o que estava acontecendo na tela, mas me dispus a ver o piloto, vi o segundo e o terceiro episódios com um pé atrás e agora, desde mais ou menos o sétimo, ando achando que a série vai entrar na minha lista de favoritos do ano. Todas as referências à série clássica ou às derivadas são laterais, quer dizer: elas não atrapalham a linha principal e o desenvolvimento da história, nem o entrelaçamento da trama. Dá para começar do zero com Discovery. Mas isso a gente percebe nos primeiros cinco minutos do piloto. O que me fez querer acompanhar para valer foi a evolução episódio a episódio.

Os produtores optaram por um caminho arriscado. O capítulo inicial e o segundo, que foram ao ar no mesmo dia, contaram praticamente uma história de origem da personagem principal. Michael Burnham é vivida por Sonequa Martin-Green – e ela, a atriz, era uma das razões a me deixar com um pé atrás: é que a personagem dela em The Walking Dead era chatíssima, fazendo tudo num tom ridiculamente dramático. Mas já no terceiro capítulo de Discovery Martin-Green me fez esquecer de TWD. Eu mordi minha língua e vi que ela é razão de, sei lá, quase metade do sucesso até agora. Michael Burnham deixou de ser chata, outros personagens rapidamente ganharam importância e o trem andou. Jason Isaacs, que interpreta o capitão Gabriel Lorca, por exemplo, tem sido o grande ator da série. Ele consegue parecer louco, dissimulado, simpático, leal, desleal, inteligente e inconsequente ao mesmo tempo. E nem tudo está nos roteiros, muita coisa vem do trabalho do ator. Saru, o oficial de alta patente que é de uma espécie esquisitíssima, é interpretado por Doug Jones, outro desses atores que se mostram capazes de carregar uma série nas costas. Tilly (Mary Wiseman), a melhor amiga da protagonista, deu muito certo como um complemento bastante humano ao jeito necessariamente frio de Burnham.

Tudo isso me faz pensar que o seriado está muito legal, e legal para quem gosta de televisão, de ver série enquanto come bolacha, não só necessariamente pra quem é fã de longa data de uma marca importante. Quando alguém fizer um daqueles textos do tipo “tudo o que você precisa para começar Tal Franquia” eu quero me lembrar de responder que preciso de um sofá, tempo livre e/ou do dinheiro para o ingresso.

O Exorcista: segunda temporada é muito melhor que a primeira

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A primeira temporada de O Exorcista foi uma confusão tão grande que quase fez o demônio pedir as contas e ir embora. Eu também cheguei a desistir já no episódio piloto, mas alguma coisa, algum poder sobrenatural (ou uma quedinha por entretenimento de baixa qualidade…) enfiou na minha cabeça a disposição para dar uma segunda chance à série e, sei lá quanto tempo depois, aqui estou eu, animada o bastante para falar que a segunda temporada (na altura do quarto episódio quando escrevo) encontrou um caminho promissor, conseguiu se livrar de boa parte do entulho que atrapalhava a primeira e fez valer a minha paciência.

Para quem não acompanhou, O Exorcista não é uma adaptação do filme ou do livro ao formato seriado para televisão. O filme de William Friedkin ficou no passado. A primeira temporada acompanhou uma família afligida pelo mesmo mal que se alojou na menina Regan nos anos 1970, mas a história é atual. Bom, para falar com sinceridade: a história não tem nada a ver com o material original – só que, para a minha surpresa, isso não é um defeito. Ter que voltar à fonte e fazer as conexões com o passado é o que atrapalha a temporada. Por boa parte dos episódios as referências ao filme clássico não passam de uns acenos visuais aqui e ali, até a hora da grande reviravolta, que é quando a gente percebe que, pois é!, a série se seguraria melhor sem precisar costurar, remendar e fazer de tudo para tentar carregar o nome “O Exorcista”.

Mas os dois ou três últimos episódios da primeira temporada já anunciaram o que viria pela frente. A verdade é que O Exorcista é uma antologia que tenta misturar Supernatural com American Horror Story com um tiquinho assim de The Vampire Diaries. Os padres Marcus Keane e Tomas Ortega são personagens que jamais caberiam no universo do filme original. Mas o demônio também mudou. Se antes ele queria a destruição pela destruição, agora o mal faz planos e conspira pelo controle da humanidade. Há uma seita demoníaca dentro da Igreja Católica e não faltam rituais, tramoias e emboscadas. Fiel ao estilo das séries que a inspiraram, O Exorcista coloca os padres no meio da ação. As batalhas não são apenas espirituais e os servos de Deus não raro caem no soco, apontam armas e participam de perseguições automotivas. Vale tudo para salvar uma alma pois o embate entre o bem e o mal é uma guerra declarada.

As intrigas do grupo satanista no seio do Vaticano são o fio condutor entre as duas temporadas. A segunda, que começou no finzinho de setembro, trouxe uma penca de gente nova e uma outra entidade a ser combatida. As novidades só fizeram bem. Em vez de uma tentativa toda atrapalhada de encaixar a série nas rédeas da mitologia original, O Exorcista agora tem uma história própria com um monte de elementos mais ou menos fresquinhos.

Andy Kim – interpretado pelo subestimado John Cho – é um sujeito bacana e sobrecarregado que cuida sozinho de um lar para jovens que perderam a família. Eles vivem numa ilha bonita, isolada e um pouco macabra. A mulher de Andy morreu num incidente mal explicado, um suicídio até que se prove o contrário. No primeiro episódio, coisas estranhas estão acontecendo e as crianças estão inquietas. Enquanto isso, os padres estão em outro lado do país levando a vida normal daqueles que combatem as forças das trevas, isto é: sequestrando uma endemoniada e caindo na porrada com o marido caipira dela e os amigos caipiras dele.

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Acho que vale a pena dar uma chance a essa série, mesmo se você não teve paciência para Geena Davis e companhia na primeira temporada. Algumas surpresas estão dando as caras. Um exemplo: no S02E04, pela primeira vez, eu fiquei até arrepiada de medo. Diminuíram os esforços de conversar visualmente com o filme clássico, mas a ação ininterrupta da temporada inicial deu lugar a um passo mais lento, e por isso mais capaz de assustar. O terror agora se inspira em coisas como Invocação do Mal e Sobrenatural e tem uma trama que, a princípio, lembra um pouco a de Annabelle 2.

Até agora pouca coisa aconteceu. Claro que o vulnerável Andy Kim e suas crianças mais vulneráveis ainda vão cruzar o caminho dos padres, claro que o mal vai encarnar em alguém; mas um ponto positivo, a essa altura, é que não se pode prever muito do que acontecerá daqui em diante. Eu ainda tenho muitas perguntas. Esse demônio isolado na ilha faz parte do grande plano satanista? Como? Os padres vão ter que exorcizar quem? Cadê o interesse amoroso do padre Tomas Ortega, aquela chatinha que se arrastava nele? Será que mais alguém está shippando os dois padres? Será que isso é considerado pecado?

Mindhunter é uma das melhores séries que a Netflix já fez

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As décadas de 1990 e 2000 foram muito boas para quem gosta de filmes de serial killers. O Silêncio dos Inocentes ganhou o Oscar de melhor filme em 1991 e cimentou esse filão do suspense. Depois disso surgiram muitas produções com resultados variados e, ultimamente, a fórmula tem mostrado cansaço. O diretor David Fincher estreou no gênero com Seven, em 1995, depois fez o meu preferido, Zodíaco, em 2007, e agora leva Mindhunter à Netflix.

A televisão americana tem uma quedinha especial por mistério e por quem-matou-fulano-de-tal e, para tentar combinações diferentes, inventou de tudo (inclusive o serial killer condicionado a só matar quem merece morrer). Por isso é muito legal perceber que Mindhunter consegue trazer muito daquilo que a gente conhece, de um ponto de vista ligeiramente diferente (que é o que todo mundo quer fazer), mas sem enfiar os dois pés na jaca.

A história é, como acontece com frequência, a de um agente do FBI. Até aí não há novidade. Acontece que esse agente não quer necessariamente desvendar um caso especial e intrigante. O que ele faz é estudar o crime como um fenômeno maior. É esse ponto de vista que abre todas as sacadas legais de Mindhunter, e o que permite esse ângulo é o material original. A série foi baseada num livro de John E. Douglas e Mark Olshaker. Douglas é um ex-agente do FBI, a carreira e as descobertas dele são as inspirações para o personagem principal. Ele trabalhava no bureau bem na época em que o grande público e as instituições foram obrigados a tentar entender o que significavam os assassinatos em série – uma coisa talvez tão antiga quanto a roda, mas um conceito relativamente novo àquela altura.

O ano é 1977. Os americanos ainda estão perplexos com os crimes do Filho de Sam, um serial killer que dizia agir sob os comandos de um cachorro falante. A reconstrução de época que Mindhunter faz não serve só para que a gente sinta o clima do final da década de 1970. O próprio conceito de serial killer vai sendo apresentado aos poucos, sempre em confronto com a época e com as pessoas que então tentavam entender e combater o crime. O Filho de Sam não era o único, e as pessoas tinham a sensação de que o mundo ia ficando mais e mais difícil de se compreender.

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Essa recriação é fantástica. Para quem acompanha o noticiário em 2017, para quem viu a penca de suspenses lançados desde O Silêncio dos Inocentes, a importância, por exemplo, de perfilar um criminoso pode parecer óbvia. O trabalho de Mindhunter é demonstrar como é que essa obviedade se estabeleceu. Ao mesmo tempo, não há só a questão de dar nome a um crime antigo, ou de entender a mente dos seres humanos capazes de cometer as maiores e mais assassinas maluquices. A série parece dizer que, com a mudança dos tempos, também mudou o tipo de loucura que se precisa enfrentar.

Nesse sentido, Mindhunter é de apavorar. Há um diálogo constante entre o choque representado pela novidade de cada crime, lá em 1977, e a nossa incapacidade, em 2017, de ver qualquer atrocidade como novidade. A escalada dessa loucura coletiva é o principal tema da série. O personagem central, vivido por Jonathan Groff, parece não se abalar com o que vê. A princípio ele entrevista psicopatas e reflete sobre a natureza do que eles fazem em nome de nada além de sua própria ascensão profissional. Só depois ele vai perceber o verdadeiro peso daquilo com que está lidando. Nessa hora o espectador é convidado a se espantar de novo com a violência e a desumanidade, a sair de um certo estado de torpor.

Eu não tenho nem vergonha de dizer que terminei os 10 episódios dessa primeira temporada de Mindhunter no fim de semana de seu lançamento. Acho que David Fincher e companhia entregaram uma das melhores coisas que a Netflix já fez. Vi algumas pessoas reclamando de lentidão ou falta de objetividade, mas acho que essas críticas não valem quando uma série tenta ver em detalhes um panorama tão grande. Além disso, seria difícil pensar em um elenco melhor do que o que Mindhunter tem, com destaque para Anna Torv (aquela de Fringe) e Holt McCallany (que eu não conhecia de nome).

Não sei se uma segunda temporada já está garantida, mas até me empolgo com o que ela tem a apresentar. Na vida real, John E. Douglas entrevistou Ted Bundy, Charles Manson, O Filho de Sam, John Wayne Gacy, Richard Speck, Edmund Kemper e vários outros. Até agora, dessa lista só apareceram Speck e Kemper. E quem chegou até o final sabe o efeito que esses dois tiveram nas vidas dos personagens principais. Agora é esperar.

Dois anos de blog e uma comemoração contida

adorariaNesta semana o blog comemora dois anos de vida (eu acho que é nesta semana, mas é em setembro sem dúvida!), e como o negócio aqui é meio parado, não teremos sorteios, brindes, nem nada dessas coisas que os blogs legais têm. Ano passado, como comemoração, eu expliquei no post de aniversário a origem do nome do blog, mas agora já queimei esse cartucho e não consegui pensar em nada assim tão legal. Por isso resolvi apenas falar das últimas coisas que andei lendo e assistindo. Ok, eu sei que para isso nem precisava avisar do aniversário, mas deixar passar em branco também não é do meu feitio.

Tudo bem. Eu andei lendo alguns livros bem legais, assistindo a muita série ruim (e a outras boazinhas) e poucos filmes que valeram a pena. Não tenho tido tempo de ir ao cinema, por isso tenho vivido na ilegalidade. Sempre acho que um dia o governo vai me pegar e meu azar vai ser tão grande que eles vão querer me fazer de exemplo: cadeia nela!

Minha meta de leitura de 2017 está indo bem graças a um novo método: eu agora calculo antecipadamente quantas páginas preciso ler por dia, durante o mês inteiro, e anoto num papel (que acaba virando marcador) as datas e as páginas a que tenho que chegar a cada dia. No momento estou lendo No caminho de Swann e minha média é de 15 páginas por dia, um número perfeito para ler bem de manhãzinha antes de começar a labuta. Com o mesmo método eu terminei Vida e destino, Doutor Jivago e Todos os Contos da Clarice Lispector. Fico feliz com esse método porque finalmente estou dando conta de ler a meta sem me embananar com tudo o que me aparece fora dela. Parece neurose, mas facilita muito e me ajuda a ter constância.

Só que minhas últimas leituras não foram clássicos. Continuo lendo Outlander e sigo atrasada com a infinidade de livros da série. Terminei Os tambores de outono – Parte 1, mas a segunda parte ainda me espera. Me empolgo só de olhar a pilha de livros aqui de casa e saber que ainda tenho muito a aproveitar na companhia de Claire e Jamie. Também li dois thrillers bem bacanas: O casal que mora ao lado e Por trás dos seus olhos. O primeiro é curtinho e traz o suspense do desaparecimento de um bebê que fica sozinho em casa enquanto os pais jantam na casa ao lado. Dá para ler em uma sentada e, mesmo que não tenha um fim tão surpreendente, nos deixa ligados do começo ao fim. O segundo livro é um pouco mais longo e narra a história de uma mulher que fica amiga da esposa do chefe. Acontece que ela teve um flerte com ele (beijou o sujeito, para falar a verdade). O fim é bem louco, mas bem diferente, e me deixou de queixo caído. No Skoob quase todo mundo que leu ficou da mesma forma.

Animada com esses dois acabei lendo outros thrillers bem ruins: Um pequeno favor e A desconhecida. Os dois contam histórias de mulheres mentalmente perturbadas e desinteressantes. Também li (finalmente!) Agora e para sempre, Lara Jean e Mr. Romance. Ambos foram bem fofos.

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Mike e Harvey lindos

Agosto e início de setembro são sempre meio parados para as séries de televisão, mas mesmo assim encontrei algumas interessantes. Comecei a ver Suits sem acreditar que investiria muito do meu tempo, mas agora estou viciada em Mike e Harvey. Esses dois eu shippo muito (e acabo de descobrir que já existe um nome para o ship deles: Marvey). Falando em shippar, terminei por estes dias a segunda temporada de Animal Kingdom e, se na primeira temporada eu não tinha certeza de que a série iria vingar, a segunda temporada veio para me dizer que sim, os meninos Cody são especiais e merecem ser acompanhados. Pena que são apenas 13 episódios.

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Jessica Biel em The Sinner

Quanto aos suspenses, se eu não gostei de Mr. Mercedes, The Sinner foi bem diferente. Tem a Jessical Biel e o Bill Pulman. O piloto da série me surpreendeu por um evento que pareceu muito aleatório (não dá para ser mais específica sem estragar tudo), mas que foi bem costurado nos outros sete episódios. Strike, aquele da J. K. Rowling, estreou e já acabou (foi tudo muito rápido mesmo) em apenas cinco partes. Uma terceira temporada vai chegar em 2018, mas os capítulos são tão curtos que sinto que, se eu não tivesse lido os livros, não teria entendido coisa nenhuma. Mas a música da abertura é ótima! (só que não vale a pena assistir só por isso, dá para ver a abertura pelo Youtube).

Nas últimas semanas comecei a assistir a The Deuce, que parece bem promissora. É do mesmo criador de The Wire (de que meu marido tentou me fazer gostar, sem sucesso) e tem no elenco James Franco e Maggie Gyllenhaal. A série é lenta e talvez entusiasme mais os fãs de cinema do que os de televisão, mas ainda é cedo para tirar conclusões. Liar e Star Trek: Discovery são outras duas que comecei a assistir por esses dias e ainda não sei aonde vão chegar. Por enquanto foram dois episódios de cada, vale acompanhar mais um pouco.

Ultimamente os filmes estão meio ausentes dos meus dias. Sempre tenho que escolher à noite entre livro, filme e série e os filmes têm levado a pior. Mas eu vi Baby Driver que foi muito bom, cheio de ação e com cenas de carro melhores que as de Velozes e Furiosos (mentira, não posso comparar; nunca vi a franquia do Vin Diesel, que todo mundo ou ama ou odeia). Também vi The Big Sick, uma comédia romântica que tinha tudo para ser boa mas se perdeu na baboseira de tentar dar um final feliz (e chato) para todo mundo.

Bom, o post de comemoração é este. Não parece muito comemorativo, mas estou bem feliz de ter um cantinho há dois anos para falar das minhas paixões mais antigas. Para celebrar um pouquinho mais, segura esse vídeo do Johnny Castle ensinando a Baby a dançar: