Um balanço final da primeira temporada de The Deuce

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Teria sido frustrante se a HBO não houvesse confirmado uma segunda temporada de The Deuce. Isso porque a série teve a ambição de construir um quadro enorme do mercado do sexo na Nova York dos anos 1970, e porque este quadro mal começou a ganhar vida. Ao mesmo tempo, como ninguém é bobo, a primeira temporada acabou sendo uma história completa – pouco ficaria em aberto se mais episódios não fossem encomendados.

The Deuce ganhou elogios de veículos especializados e já saiu com a expectativa lá no alto por causa do renome de seus criadores. David Simon é o sujeito por trás de The Wire. George Pelecanos, além de ter trabalhado em The Wire, é um reconhecido autor de romances policiais. Richard Price, um dos produtores executivos, foi responsável por The Night Of e também é um romancista importante. No elenco estão James Franco e Maggie Gyllenhaal, além de um monte de rostos conhecidos para quem viu qualquer coisa nos últimos quinze anos.

Ainda assim – e como acontece com frequência – o burburinho não durou muito. A série não é daquelas de colocar a internet inteira em colapso quando alguma coisa vai acontecer. Pelo que eu vi a recepção no Brasil foi meio morna. The Deuce não pegou de jeito aquele pessoal que é louco por séries, nem entusiasmou bastante a turma cinéfila. Da minha parte, ah, eu achei que fosse me entusiasmar mais. Acho que houve algumas concessões bobas ao que se pensa ser o gosto do público. Vou tentar explicar.

Um exemplo é o arco de Eileen, interpretada por Maggie Gyllenhaal. Talvez em tempo de tela não dê para perceber o tamanho da centralidade da personagem dela, mas é ela quem conduz tudo. As mulheres de The Deuce estão ou em conflito para perceber que um novo lugar no mundo é possível, ou em luta para construir este novo lugar. Eileen é uma prostituta que não tem cafetão. Os cafetões exploram as meninas, sob a desculpa de protegê-las, mas Eileen não é o perfil comum de uma prostituta. Ao longo dos oito episódios a gente descobre que ela apelou para a prostituição para fugir de um pai repressivo, mas que vem de uma família mais abastada que as das demais. Nas ruas ela corre tanto perigo quanto as outras mas, diferentemente das outras, resolveu administrar sozinha o que ganha e como trabalha. Eileen é bem resolvida com sua sexualidade. É madura, liberada, inteligente, conhece bem o próprio corpo. Acontece que o ambiente de trabalho é muito, muito insalubre. Não é de espantar que algumas meninas queiram proteção. Ela apanha de mais de um cliente, o perigo vem como que em escalada. O fim da década de 1970 é um dos períodos mais violentos da história de Nova York. A polícia não liga se algum maluco enforca, esfaqueia ou estripa uma garota de programa. A situação fica insustentável e Eileen precisa parar de trabalhar. Por sorte os tempos estão mudando e, por competência, ela consegue se envolver num negócio que só vai crescer: o cinema pornográfico.

Não tenho nem como negar que isso é muito legal. Eileen é uma personagem central porque serve como símbolo da mudança dos tempos. Na juventude ela foi reprimida pelas limitações sociais, os tabus sexuais a marginalizaram – com uma revolução nos costumes ela vai encontrar seu lugar. A princípio Eileen fica na frente das câmeras, transando, mas depois ela começa a usar a criatividade e mostrar que é capaz, e aí a oportunidade surge. Quando a temporada termina ela já está dirigindo seu primeiro filme, um pouco por acaso e um pouco por obstinação. Para mim isso é quase um modelo de arco. Ela foi do ponto A ao B e tudo se encaixa com o grande panorama histórico. Onde estão as concessões bobas? Na hora de colocar essa jornada na tela.

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O roteiro traz uma personagem cheia de complexidades, mas ao mesmo tempo quer contar essa história como se estivesse falando com uma criança, como se The Deuce fosse um telefilme edificante. Um exemplo pontual está numa cena do último capítulo. O lugar é um set de filmagens. Maggie Gyllenhaal está usando meias 7/8 e um robe de seda. Eileen está pronta para rodar sua próxima cena. Mas o telefone toca. Uma assistente atende. O diretor não vai conseguir chegar a tempo. O que resta a fazer a não ser ir para casa? Mais do que obstinada, Eileen parece predestinada a assumir aquela posição: já que o diretor não vem, quem dirige sou eu. Faz sentido? Na vida real, eu não tenho dúvida nenhuma de que uma atriz pornô consiga dirigir um filme. Eu sei que isso acontece bastante. Muitas atrizes juntam dinheiro e abrem suas próprias companhias com o objetivo de ter controle sobre tudo o que fazem ou de ganhar dinheiro ao produzir conteúdo num meio que já conhecem. Só que The Deuce tratou esse processo de um jeito simplificador em excesso. O set é grande. Há um assistente de iluminação, uma contra-regra, vários atores, cenário, figurino, dinheiro envolvido: tudo isso para uma pessoa com zero experiência tomar as regras só porque se dispôs a aprender fazendo. O desenrolar da cena não é só inverossímil para qualquer um que já tenha trabalhado com qualquer coisa: ele também é feito com o máximo apego a fórmulas muito conhecidas de quem acompanha, por exemplo, o Supercine. Eileen compreende o trabalho do diretor, dá pitaco na direção de arte, trabalha o lado psicológico das atrizes menos experientes. Maggie Gyllenhaal faz tudo isso com a sutileza de um trator: cara de boazinha, cara de compreensiva, cara de quem está exercitando a criatividade.

Seria legal ver mais novidades em uma série com as pretensões de The Deuce. A sensação de déjà vu também bate forte quando se acompanha alguns dos personagens secundários: a jovem rica que largou a faculdade para virar garçonete, desafiar os pais e viver a “vida real”; a prostituta sonhadora que lê e vê filmes entre um programa e outro; o trabalhador assalariado que se encanta com as possibilidades da vida do crime; o trabalhador honesto que se vê seduzido pela máfia ao reafirmar sua masculinidade; o casal gay em crise porque um tem mais reservas que o outro a respeito de demonstrar intimidade em público e sair do armário. De novo: tenho certeza de que essas pessoas existem na vida real, mas acho que não precisamos vê-las no cinema e na tevê, para sempre, sob as mesmas luzes.

Mas todo esse didatismo não chega a estragar a série, que tem um fio condutor bem interessante. No fim das contas, o antagonista principal em The Deuce é o homem que contrata prostitutas. Ele aparece pouco, mas é a escrotidão em forma de criatura. Mais vil que os cafetões, mais hipócrita que os mafiosos e policiais, muito mais problemático que as prostitutas, o homem que contrata prostitutas é quem as submete à violência, quem solicita o sexo e quem as reprime por terem fornecido aquilo que ele solicitou. Trocando em miúdos: em The Deuce o homem que contrata é o símbolo de uma doença social. Ele vai ferrar todo mundo porque quer sexo, ele vai fazer de tudo para esconder suas preferências, ele vai pagar o que for preciso para ter o que quer. Quando a sociedade e a tecnologia permitem que essa obsessão seja levada adiante sob a proteção da privacidade é que surge a milionária pornografia moderna.

(Eu não sei se essas hipóteses correspondem exatamente à realidade, mas não custa lembrar que o Brasil, por exemplo, é ao mesmo tempo o país que mais mata transexuais e o que mais consome pornografia trans.)

De qualquer forma, em The Deuce os personagens servem para levar uma tese adiante: a de que uma revolução nos costumes e na tecnologia tirou o sexo pago das ruas e o levou para dentro das casas. Às vezes essa tese chega até a gente de um jeito meio simplista e quadradinho, mas o resultado final é bom. O tema fica mais e mais interessante na medida em que a gente conhece mais ângulos, e isso não é um feito que toda série consegue realizar. Pelo jeito a segunda temporada vai querer investigar se essas grandes mudanças na indústria do sexo e na sociedade serão necessariamente boas.

P.S.1: A recriação da época, em cenários e figurinos, está impecável.

P.S.2: Eu não sei julgar se James Franco é bom ator, mas eu adoro a participação dele em The Deuce. Ele faz irmãos gêmeos: um é malandro, o outro é ainda mais malandro. Os dois só se beneficiam do jeito canastrão de Franco.

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Você não precisa de um guia para acompanhar Star Trek: Discovery

Si Vis Pacem, Para Bellum

Você estará perdendo uma das estreias mais gostosinhas de 2017 se, por algum motivo, não estiver acompanhando Star Trek: Discovery. Se o seu motivo for preguiça de ter que se inteirar a respeito de mais de 50 anos de conteúdo, preguiça de ter que começar lá de trás e ficar em dia com todas as séries e filmes e ainda ler uns livros, eu tenho uma novidade boa: não precisa, deixa isso pra lá. Foi o que eu fiz e está dando certo até agora.

Sei que há todo um exército de fãs que me desprezariam por dizer que acompanhar uma série de tevê não requer prática nem habilidade, mas também sei que televisão é sempre um produto feito para o máximo possível de consumidores. Acho que esse é o conceito maior por trás da produção de Discovery. Claro que eles precisam justificar a série como um componente da franquia Star Trek, mas eles também precisam fazê-la sobreviver num ambiente muito competitivo que oferece novidades semanalmente em vários segmentos.

Toda vez que eu me lembro disso, fico com muita raiva de sites ou cadernos de cultura que oferecem guias ou verdadeiros cursos para quem quer começar essa ou aquela franquia. Já falei disso aqui no blog quando saiu Star Wars: The Force Awakens. Evidente que ter mais informação é quase sempre melhor do que ter menos, mas há veículos de mídia que precisam que a gente se intimide para que eles possam justificar sua existência e há, também, muitos fãs que tomam para si aquilo que amam e não querem que ninguém encoste naquele objeto precioso que os ajuda a moldar sua identidade. Isso é um porre e eu sei que toda mulher que já se meteu a tratar de cultura pop já se viu na situação de ter que provar que é tão apaixonada por aquilo quanto o nerdão que sentou em cima e não quer levantar de jeito nenhum. Pior que isso: provar sua paixão não deveria ser pré-condição para nada, porque não é sinal de hipocrisia conhecer superficialmente alguma coisa (a não ser que você seja um neurocirurgião falando de cérebro, ou algo assim). Pelo contrário: é sinal de que você conheceu, se engajou ou não, e andou para frente. Nem todo mundo se apaixona perdidamente pelas mesmas coisas.

Discovery tem sido uma surpresa para mim. Como eu disse, achei que não valia o esforço de fazer uma pós-graduação lato sensu para entender o que estava acontecendo na tela, mas me dispus a ver o piloto, vi o segundo e o terceiro episódios com um pé atrás e agora, desde mais ou menos o sétimo, ando achando que a série vai entrar na minha lista de favoritos do ano. Todas as referências à série clássica ou às derivadas são laterais, quer dizer: elas não atrapalham a linha principal e o desenvolvimento da história, nem o entrelaçamento da trama. Dá para começar do zero com Discovery. Mas isso a gente percebe nos primeiros cinco minutos do piloto. O que me fez querer acompanhar para valer foi a evolução episódio a episódio.

Os produtores optaram por um caminho arriscado. O capítulo inicial e o segundo, que foram ao ar no mesmo dia, contaram praticamente uma história de origem da personagem principal. Michael Burnham é vivida por Sonequa Martin-Green – e ela, a atriz, era uma das razões a me deixar com um pé atrás: é que a personagem dela em The Walking Dead era chatíssima, fazendo tudo num tom ridiculamente dramático. Mas já no terceiro capítulo de Discovery Martin-Green me fez esquecer de TWD. Eu mordi minha língua e vi que ela é razão de, sei lá, quase metade do sucesso até agora. Michael Burnham deixou de ser chata, outros personagens rapidamente ganharam importância e o trem andou. Jason Isaacs, que interpreta o capitão Gabriel Lorca, por exemplo, tem sido o grande ator da série. Ele consegue parecer louco, dissimulado, simpático, leal, desleal, inteligente e inconsequente ao mesmo tempo. E nem tudo está nos roteiros, muita coisa vem do trabalho do ator. Saru, o oficial de alta patente que é de uma espécie esquisitíssima, é interpretado por Doug Jones, outro desses atores que se mostram capazes de carregar uma série nas costas. Tilly (Mary Wiseman), a melhor amiga da protagonista, deu muito certo como um complemento bastante humano ao jeito necessariamente frio de Burnham.

Tudo isso me faz pensar que o seriado está muito legal, e legal para quem gosta de televisão, de ver série enquanto come bolacha, não só necessariamente pra quem é fã de longa data de uma marca importante. Quando alguém fizer um daqueles textos do tipo “tudo o que você precisa para começar Tal Franquia” eu quero me lembrar de responder que preciso de um sofá, tempo livre e/ou do dinheiro para o ingresso.

O Exorcista: segunda temporada é muito melhor que a primeira

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A primeira temporada de O Exorcista foi uma confusão tão grande que quase fez o demônio pedir as contas e ir embora. Eu também cheguei a desistir já no episódio piloto, mas alguma coisa, algum poder sobrenatural (ou uma quedinha por entretenimento de baixa qualidade…) enfiou na minha cabeça a disposição para dar uma segunda chance à série e, sei lá quanto tempo depois, aqui estou eu, animada o bastante para falar que a segunda temporada (na altura do quarto episódio quando escrevo) encontrou um caminho promissor, conseguiu se livrar de boa parte do entulho que atrapalhava a primeira e fez valer a minha paciência.

Para quem não acompanhou, O Exorcista não é uma adaptação do filme ou do livro ao formato seriado para televisão. O filme de William Friedkin ficou no passado. A primeira temporada acompanhou uma família afligida pelo mesmo mal que se alojou na menina Regan nos anos 1970, mas a história é atual. Bom, para falar com sinceridade: a história não tem nada a ver com o material original – só que, para a minha surpresa, isso não é um defeito. Ter que voltar à fonte e fazer as conexões com o passado é o que atrapalha a temporada. Por boa parte dos episódios as referências ao filme clássico não passam de uns acenos visuais aqui e ali, até a hora da grande reviravolta, que é quando a gente percebe que, pois é!, a série se seguraria melhor sem precisar costurar, remendar e fazer de tudo para tentar carregar o nome “O Exorcista”.

Mas os dois ou três últimos episódios da primeira temporada já anunciaram o que viria pela frente. A verdade é que O Exorcista é uma antologia que tenta misturar Supernatural com American Horror Story com um tiquinho assim de The Vampire Diaries. Os padres Marcus Keane e Tomas Ortega são personagens que jamais caberiam no universo do filme original. Mas o demônio também mudou. Se antes ele queria a destruição pela destruição, agora o mal faz planos e conspira pelo controle da humanidade. Há uma seita demoníaca dentro da Igreja Católica e não faltam rituais, tramoias e emboscadas. Fiel ao estilo das séries que a inspiraram, O Exorcista coloca os padres no meio da ação. As batalhas não são apenas espirituais e os servos de Deus não raro caem no soco, apontam armas e participam de perseguições automotivas. Vale tudo para salvar uma alma pois o embate entre o bem e o mal é uma guerra declarada.

As intrigas do grupo satanista no seio do Vaticano são o fio condutor entre as duas temporadas. A segunda, que começou no finzinho de setembro, trouxe uma penca de gente nova e uma outra entidade a ser combatida. As novidades só fizeram bem. Em vez de uma tentativa toda atrapalhada de encaixar a série nas rédeas da mitologia original, O Exorcista agora tem uma história própria com um monte de elementos mais ou menos fresquinhos.

Andy Kim – interpretado pelo subestimado John Cho – é um sujeito bacana e sobrecarregado que cuida sozinho de um lar para jovens que perderam a família. Eles vivem numa ilha bonita, isolada e um pouco macabra. A mulher de Andy morreu num incidente mal explicado, um suicídio até que se prove o contrário. No primeiro episódio, coisas estranhas estão acontecendo e as crianças estão inquietas. Enquanto isso, os padres estão em outro lado do país levando a vida normal daqueles que combatem as forças das trevas, isto é: sequestrando uma endemoniada e caindo na porrada com o marido caipira dela e os amigos caipiras dele.

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Acho que vale a pena dar uma chance a essa série, mesmo se você não teve paciência para Geena Davis e companhia na primeira temporada. Algumas surpresas estão dando as caras. Um exemplo: no S02E04, pela primeira vez, eu fiquei até arrepiada de medo. Diminuíram os esforços de conversar visualmente com o filme clássico, mas a ação ininterrupta da temporada inicial deu lugar a um passo mais lento, e por isso mais capaz de assustar. O terror agora se inspira em coisas como Invocação do Mal e Sobrenatural e tem uma trama que, a princípio, lembra um pouco a de Annabelle 2.

Até agora pouca coisa aconteceu. Claro que o vulnerável Andy Kim e suas crianças mais vulneráveis ainda vão cruzar o caminho dos padres, claro que o mal vai encarnar em alguém; mas um ponto positivo, a essa altura, é que não se pode prever muito do que acontecerá daqui em diante. Eu ainda tenho muitas perguntas. Esse demônio isolado na ilha faz parte do grande plano satanista? Como? Os padres vão ter que exorcizar quem? Cadê o interesse amoroso do padre Tomas Ortega, aquela chatinha que se arrastava nele? Será que mais alguém está shippando os dois padres? Será que isso é considerado pecado?

Mindhunter é uma das melhores séries que a Netflix já fez

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As décadas de 1990 e 2000 foram muito boas para quem gosta de filmes de serial killers. O Silêncio dos Inocentes ganhou o Oscar de melhor filme em 1991 e cimentou esse filão do suspense. Depois disso surgiram muitas produções com resultados variados e, ultimamente, a fórmula tem mostrado cansaço. O diretor David Fincher estreou no gênero com Seven, em 1995, depois fez o meu preferido, Zodíaco, em 2007, e agora leva Mindhunter à Netflix.

A televisão americana tem uma quedinha especial por mistério e por quem-matou-fulano-de-tal e, para tentar combinações diferentes, inventou de tudo (inclusive o serial killer condicionado a só matar quem merece morrer). Por isso é muito legal perceber que Mindhunter consegue trazer muito daquilo que a gente conhece, de um ponto de vista ligeiramente diferente (que é o que todo mundo quer fazer), mas sem enfiar os dois pés na jaca.

A história é, como acontece com frequência, a de um agente do FBI. Até aí não há novidade. Acontece que esse agente não quer necessariamente desvendar um caso especial e intrigante. O que ele faz é estudar o crime como um fenômeno maior. É esse ponto de vista que abre todas as sacadas legais de Mindhunter, e o que permite esse ângulo é o material original. A série foi baseada num livro de John E. Douglas e Mark Olshaker. Douglas é um ex-agente do FBI, a carreira e as descobertas dele são as inspirações para o personagem principal. Ele trabalhava no bureau bem na época em que o grande público e as instituições foram obrigados a tentar entender o que significavam os assassinatos em série – uma coisa talvez tão antiga quanto a roda, mas um conceito relativamente novo àquela altura.

O ano é 1977. Os americanos ainda estão perplexos com os crimes do Filho de Sam, um serial killer que dizia agir sob os comandos de um cachorro falante. A reconstrução de época que Mindhunter faz não serve só para que a gente sinta o clima do final da década de 1970. O próprio conceito de serial killer vai sendo apresentado aos poucos, sempre em confronto com a época e com as pessoas que então tentavam entender e combater o crime. O Filho de Sam não era o único, e as pessoas tinham a sensação de que o mundo ia ficando mais e mais difícil de se compreender.

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Essa recriação é fantástica. Para quem acompanha o noticiário em 2017, para quem viu a penca de suspenses lançados desde O Silêncio dos Inocentes, a importância, por exemplo, de perfilar um criminoso pode parecer óbvia. O trabalho de Mindhunter é demonstrar como é que essa obviedade se estabeleceu. Ao mesmo tempo, não há só a questão de dar nome a um crime antigo, ou de entender a mente dos seres humanos capazes de cometer as maiores e mais assassinas maluquices. A série parece dizer que, com a mudança dos tempos, também mudou o tipo de loucura que se precisa enfrentar.

Nesse sentido, Mindhunter é de apavorar. Há um diálogo constante entre o choque representado pela novidade de cada crime, lá em 1977, e a nossa incapacidade, em 2017, de ver qualquer atrocidade como novidade. A escalada dessa loucura coletiva é o principal tema da série. O personagem central, vivido por Jonathan Groff, parece não se abalar com o que vê. A princípio ele entrevista psicopatas e reflete sobre a natureza do que eles fazem em nome de nada além de sua própria ascensão profissional. Só depois ele vai perceber o verdadeiro peso daquilo com que está lidando. Nessa hora o espectador é convidado a se espantar de novo com a violência e a desumanidade, a sair de um certo estado de torpor.

Eu não tenho nem vergonha de dizer que terminei os 10 episódios dessa primeira temporada de Mindhunter no fim de semana de seu lançamento. Acho que David Fincher e companhia entregaram uma das melhores coisas que a Netflix já fez. Vi algumas pessoas reclamando de lentidão ou falta de objetividade, mas acho que essas críticas não valem quando uma série tenta ver em detalhes um panorama tão grande. Além disso, seria difícil pensar em um elenco melhor do que o que Mindhunter tem, com destaque para Anna Torv (aquela de Fringe) e Holt McCallany (que eu não conhecia de nome).

Não sei se uma segunda temporada já está garantida, mas até me empolgo com o que ela tem a apresentar. Na vida real, John E. Douglas entrevistou Ted Bundy, Charles Manson, O Filho de Sam, John Wayne Gacy, Richard Speck, Edmund Kemper e vários outros. Até agora, dessa lista só apareceram Speck e Kemper. E quem chegou até o final sabe o efeito que esses dois tiveram nas vidas dos personagens principais. Agora é esperar.

Dois anos de blog e uma comemoração contida

adorariaNesta semana o blog comemora dois anos de vida (eu acho que é nesta semana, mas é em setembro sem dúvida!), e como o negócio aqui é meio parado, não teremos sorteios, brindes, nem nada dessas coisas que os blogs legais têm. Ano passado, como comemoração, eu expliquei no post de aniversário a origem do nome do blog, mas agora já queimei esse cartucho e não consegui pensar em nada assim tão legal. Por isso resolvi apenas falar das últimas coisas que andei lendo e assistindo. Ok, eu sei que para isso nem precisava avisar do aniversário, mas deixar passar em branco também não é do meu feitio.

Tudo bem. Eu andei lendo alguns livros bem legais, assistindo a muita série ruim (e a outras boazinhas) e poucos filmes que valeram a pena. Não tenho tido tempo de ir ao cinema, por isso tenho vivido na ilegalidade. Sempre acho que um dia o governo vai me pegar e meu azar vai ser tão grande que eles vão querer me fazer de exemplo: cadeia nela!

Minha meta de leitura de 2017 está indo bem graças a um novo método: eu agora calculo antecipadamente quantas páginas preciso ler por dia, durante o mês inteiro, e anoto num papel (que acaba virando marcador) as datas e as páginas a que tenho que chegar a cada dia. No momento estou lendo No caminho de Swann e minha média é de 15 páginas por dia, um número perfeito para ler bem de manhãzinha antes de começar a labuta. Com o mesmo método eu terminei Vida e destino, Doutor Jivago e Todos os Contos da Clarice Lispector. Fico feliz com esse método porque finalmente estou dando conta de ler a meta sem me embananar com tudo o que me aparece fora dela. Parece neurose, mas facilita muito e me ajuda a ter constância.

Só que minhas últimas leituras não foram clássicos. Continuo lendo Outlander e sigo atrasada com a infinidade de livros da série. Terminei Os tambores de outono – Parte 1, mas a segunda parte ainda me espera. Me empolgo só de olhar a pilha de livros aqui de casa e saber que ainda tenho muito a aproveitar na companhia de Claire e Jamie. Também li dois thrillers bem bacanas: O casal que mora ao lado e Por trás dos seus olhos. O primeiro é curtinho e traz o suspense do desaparecimento de um bebê que fica sozinho em casa enquanto os pais jantam na casa ao lado. Dá para ler em uma sentada e, mesmo que não tenha um fim tão surpreendente, nos deixa ligados do começo ao fim. O segundo livro é um pouco mais longo e narra a história de uma mulher que fica amiga da esposa do chefe. Acontece que ela teve um flerte com ele (beijou o sujeito, para falar a verdade). O fim é bem louco, mas bem diferente, e me deixou de queixo caído. No Skoob quase todo mundo que leu ficou da mesma forma.

Animada com esses dois acabei lendo outros thrillers bem ruins: Um pequeno favor e A desconhecida. Os dois contam histórias de mulheres mentalmente perturbadas e desinteressantes. Também li (finalmente!) Agora e para sempre, Lara Jean e Mr. Romance. Ambos foram bem fofos.

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Mike e Harvey lindos

Agosto e início de setembro são sempre meio parados para as séries de televisão, mas mesmo assim encontrei algumas interessantes. Comecei a ver Suits sem acreditar que investiria muito do meu tempo, mas agora estou viciada em Mike e Harvey. Esses dois eu shippo muito (e acabo de descobrir que já existe um nome para o ship deles: Marvey). Falando em shippar, terminei por estes dias a segunda temporada de Animal Kingdom e, se na primeira temporada eu não tinha certeza de que a série iria vingar, a segunda temporada veio para me dizer que sim, os meninos Cody são especiais e merecem ser acompanhados. Pena que são apenas 13 episódios.

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Jessica Biel em The Sinner

Quanto aos suspenses, se eu não gostei de Mr. Mercedes, The Sinner foi bem diferente. Tem a Jessical Biel e o Bill Pulman. O piloto da série me surpreendeu por um evento que pareceu muito aleatório (não dá para ser mais específica sem estragar tudo), mas que foi bem costurado nos outros sete episódios. Strike, aquele da J. K. Rowling, estreou e já acabou (foi tudo muito rápido mesmo) em apenas cinco partes. Uma terceira temporada vai chegar em 2018, mas os capítulos são tão curtos que sinto que, se eu não tivesse lido os livros, não teria entendido coisa nenhuma. Mas a música da abertura é ótima! (só que não vale a pena assistir só por isso, dá para ver a abertura pelo Youtube).

Nas últimas semanas comecei a assistir a The Deuce, que parece bem promissora. É do mesmo criador de The Wire (de que meu marido tentou me fazer gostar, sem sucesso) e tem no elenco James Franco e Maggie Gyllenhaal. A série é lenta e talvez entusiasme mais os fãs de cinema do que os de televisão, mas ainda é cedo para tirar conclusões. Liar e Star Trek: Discovery são outras duas que comecei a assistir por esses dias e ainda não sei aonde vão chegar. Por enquanto foram dois episódios de cada, vale acompanhar mais um pouco.

Ultimamente os filmes estão meio ausentes dos meus dias. Sempre tenho que escolher à noite entre livro, filme e série e os filmes têm levado a pior. Mas eu vi Baby Driver que foi muito bom, cheio de ação e com cenas de carro melhores que as de Velozes e Furiosos (mentira, não posso comparar; nunca vi a franquia do Vin Diesel, que todo mundo ou ama ou odeia). Também vi The Big Sick, uma comédia romântica que tinha tudo para ser boa mas se perdeu na baboseira de tentar dar um final feliz (e chato) para todo mundo.

Bom, o post de comemoração é este. Não parece muito comemorativo, mas estou bem feliz de ter um cantinho há dois anos para falar das minhas paixões mais antigas. Para celebrar um pouquinho mais, segura esse vídeo do Johnny Castle ensinando a Baby a dançar:

Mr. Mercedes é legal?

mr mercedes

2017 está sendo um bom ano para o bolso de Stephen King. Tem It e A Torre Negra nos cinemas, tem O Nevoeiro, que saiu para a televisão em junho, além de Mr. Mercedes que estreou em agosto. Tenho certeza de que a conta não para aí. Deve haver alguma coisa perdida lá no primeiro semestre – boa sorte para quem for fazer a lista completa das adaptações de King para todas as mídias. Eu não posso dizer que criei uma relação especial com o autor, nem que conheço tudo o que ele fez de cabo a rabo. Lembro que comecei por It. Muito tempo depois veio Novembro de 63. E agora em 2017 eu li Mr. Mercedes sem saber que uma série de tevê estava a caminho. Acho que fiquei levemente desapontada. Não me encantei, mas terminei a leitura. Sabe o que isso quer dizer? Quer dizer que eu estou apta a ser a pessoa insuportável que viu Mr. Mercedes, a série, e ficou comparando com o que acontecia (e como acontecia) no livro. Só que nesse quesito tudo deu certo. O espírito do romance está todo na tela. O que é que deu errado, se é que algo deu errado?

O tal Sr. Mercedes é um assassino em massa que conseguiu escapar. Ninguém sabe seu verdadeiro nome. Em 2008, no auge da última grande crise econômica americana, ele atropelou mais de uma dezena de pessoas numa fila para conseguir emprego, com um Mercedes Benz roubado. Muita gente morreu. O detetive Bill Hodges ficou obcecado com o caso e perdeu uma parte da sanidade, teve que se aposentar. Nos dias atuais, encontramos Bill em modo autodestrutivo, desgostoso da vida, viúvo, numa casa bagunçada, sem fazer a barba e bebendo a qualquer hora do dia. O que vai tirá-lo desse torpor é a vaidade do Sr. Mercedes. O assassino não se contentou com o anonimato: ele quer fazer joguinhos, quer brincar com a cabeça do velho detetive e começa a se corresponder com ele. A perseguição recomeça, mas o ritmo de Bill não é lá essas coisas.

Há muitas pontos legais nos quatro episódios que eu vi. Qualquer um que tenha assistido a um filme americano lançado nos últimos dez anos vai poder identificar, em Mr. Mercedes, aquela desolação bem característica das obras que retrataram o pior da crise e suas consequências de longa duração. Carros velhos, interiores arruinados, personagens aguentando pequenas e grandes humilhações pela preservação de empregos sufocantes, vizinhanças depauperadas. Esses elementos dispensam diálogos explicativos: está na cara que todo mundo empobreceu, que a vida urbana nessas condições convida à paranoia e à alienação, que o mundo é uma máquina de moer gente.

Esse recado foi dado com a ajuda, ainda por cima, de um elenco muito bom. Do detetive ao assassino, todos mantém Mr. Mercedes naquele nível em que a gente consegue levar o que está acontecendo a sério. Deixa eu dar um exemplo. Harry Treadaway, o ator que faz o assassino, poderia ter ido muito mal – e isso nem é spoiler já que nós, o público, descobrimos sua identidade logo no piloto – pois a tarefa dele era bem complicada. O Sr. Mercedes é um homem, no fim dos 20 ou começo dos 30 (agora eu não me lembro se isso foi especificado, mas não mais de 35), que tem um trabalho chatíssimo e pouco recompensador, uma mãe com muitos probleminhas, e um porão trancado à chave em que ninguém pode entrar. No porão não há uma coleção de cadáveres nem de mulheres sequestradas, mas um monte de computadores, luzinhas piscando, aparelhinhos sobre os quais ninguém explica nada, paredes pintadas de preto. Tudo isso para dizer que o Sr. Mercedes não é só um louco que entrou num carro e teve vontade de passar por cima dos outros – ele também é um competentíssimo hacker. Não há computador ou sistema de segurança que esteja a salvo de um cara como ele. Qual é o problema? Bom, a gente sabe que o cinema (e a televisão, por consequência) tem certa dificuldade com a figura do hacker.

Primeiro porque a habilidade de um hacker, num roteiro que precisa de um hacker habilidoso, sempre acaba se transformando em um elemento mágico. É um recurso excelente porque resolve pontos complicados. Se você pergunta qual é a origem da renda do hacker, a resposta dirá que ele hackeou um banco. Se você pergunta como é que ele conseguiu invadir uma prisão de segurança máxima, a resposta dirá que ele hackeou o sistema de segurança e abriu todas as portas. O hacker descobre os podres dos inimigos sem mover uma palha, apaga arquivos que precisam sumir e todas essas coisas. Pior do que isso: quando os estúdios escalam atores para interpretar hackers, a regra é a afetação e não é difícil que tudo termine em constrangimento. Do ponto de vista de Harry Treadway, então, o personagem já era complicado porque o roteiro incluía todos esses cacoetes identificados com quem mexe com computadores e, ainda para ajudar, o Sr. Mercedes tinha que parecer um psicopata que transa com a própria mãe mas passa abaixo do radar daqueles que não prestam atenção, ou seja: tinha que parecer uma pessoa comum. O resultado final não é ruim. O Sr. Mercedes de Treadway é cínico, raivoso, passivo-agressivo; da aparência normal, com um rosto quase bonitinho, ele vai para uma expressão quase monstruosa e claramente perturbada. Tem cara de hacker, tem cara de funcionário de loja de informática, mas também tem cara de assassino atropelador, stalkeador vingativo, manipulador sem piedade. Não é nada que vá levar o ator a um monte de premiações, mas poderia ter sido bem pior.

mr. mercedes

Só que esses pontos positivos não conseguiram me segurar em Mr. Mercedes. O problema principal é uma insistência em fazer tudo dentro do convencional, com mínima dose de surpresa. Mr. Mercedes usa sem moderação alguns dos recursos mais chatos e velhos da tevê. Para reforçar o ponto de vista do detetive e estabelecer no público uma identificação com ele, qualquer outro personagem precisa subestimá-lo: ninguém acredita no que o velho Bill fala, seu ex-colega nem quer ouvi-lo, os vizinhos são inacessíveis mesmo quando estão do lado dele; quando ele tem razão, os outros dão uma volta imensa para dizer que ele está errado – a ideia é que nos irritemos com a burocracia da polícia e o desinteresse do mundo, mas o descompasso soa forçado e inverossímil porque é mal escrito, todo esquemático. Muitas coisas acontecem porque têm que acontecer, a série tem vícios que parecem ter saído direto dos anos 1980, sem qualquer adaptação. Um exemplo é o romance que o detetive Bill engata com uma mulher bem mais jovem. Pessoas de diferentes idades se apaixonam desde sempre, tudo bem, mas qualquer romance que vá ocupar tempo de tela, desviando o espectador daquilo que é o centro da história, precisa acontecer depois que a gente tenha conseguido entender o que é que leva uma pessoa a se interessar por outra, não é? O que é que levou essa mulher jovem, rica e bonita a se interessar por um senhor autodestrutivo e decadente, desinteressado e bem longe de irrestível? Ela pode ser uma dessas mulheres com uma queda por tipos assim. Pode ser que ela queria consertá-lo (o que é um clichê chatíssimo, mas beleza), sei lá, ela pode ter qualquer razão: Mr. Mercedes não apresentou sequer uma. O que ganhamos, portanto, é um romance que aconteceu porque o roteiro quis que acontecesse e uma personagem sem vida própria: ela dá conselhos, oferece cama, mesa e banho, é bonita (é a Mary-Louise Parker) e só.

Depois da paixão que ninguém conseguiu explicar eu não tive mais paciência para continuar acompanhando, mas, para falar a verdade, acho que a irritação com os defeitos de Mr. Mercedes depende mais das coisas que estão no repertório de quem está assistindo. Eu tive minha cota de detetives angustiados e mulheres mal escritas, geralmente aos sábados no Supercine, e por isso para mim as coisas não funcionaram lá muito bem, mas Mr. Mercedes não é horrível. É uma história de conflito de gerações, de um velho que mal sabe usar o computador contra um jovem que só consegue viver porque tem uma tela entre ele e o resto do mundo, ambos muito deslocados, um a serviço do mal e o outro ali tentando consertar as coisas.

 

Twin Peaks chega ao auge com 25 anos de atraso

twin peaks 2017

A polícia encontrou a cabeça de uma mulher, logo identificada como Ruth Davenport, num apartamentinho bem organizado, em uma vizinhança pacata da cidade de Buckhorn, na Carolina do Sul. Lá também foi encontrado um corpo, que não era o de Ruth, mas o de um homem não-identificado. Enquanto isso, Dale Cooper, agente do FBI, está preso em outra dimensão desde 1991. Ele tenta voltar para esta dimensão, a nossa, mas parece que seu lugar aqui está sendo ocupado por um doppelganger sinistro, que construiu uma carreira de assassinatos e maldade. Em Nova York, um bilionário anônimo conduz um experimento em que um rapaz precisa vigiar, sem pausa, uma cabine de vidro.

Esse cenário é armado no primeiro episódio da volta de Twin Peaks. Dali em diante acontecem bizarrices numa velocidade que a gente não vê todo dia na televisão. Tem um monte de personagens, pelo menos três cidades, histórias antigas que ganharam argumentos novos e histórias totalmente novas que vão precisar, de algum jeito, encontrar uma ligação com tudo o que quem viu as temporadas velhas conhece. Mark Frost e David Lynch vão amarrar todas essas pontas soltas? Duvido que isso esteja nos planos.

Eu rodei a internet atrás de gente falando de Twin Peaks e vi que as pessoas estão bem divididas. A profusão de personagens e histórias paralelas incomoda uma parte do público. Outra parcela está inquieta com a lentidão com que se desenrolam os plots principais. Há quem deteste Dougie Jones e os que até estavam gostando mas acham que já deu. Outra parcela é a daqueles que estão achando tudo lindo. Nesta eu me incluo.

Acho que a terceira temporada caminha para ser a melhor até agora. Muita gente superestima a dificuldade de acompanhar a série, mas não dá para negar que algumas coisas são confusas. São confusas de propósito, diz o fã mais entusiasmado. E com razão, mas convenhamos que este é um argumento um pouco preguiçoso, se ele for parar aí. Geralmente essa discussão desanda em alguém dizendo que a trama é complexa, picotada, não-linear, que há mensagens subliminares e que o sentido final só será acessível a quem conseguir enxergar todas as camadas e juntar as peças. Disso eu discordo. Eu acho que o que Twin Peaks quer afirmar já foi posto há muito tempo, e é algo do tipo: o mal é um espírito capaz de possuir qualquer pessoa, e assim todo tipo de maldade vem do mesmo lugar mas se manifesta de maneiras diferentes; o bem é como uma plantinha frágil que deve ser cultivada; tanto o bem como o mal têm uma carga de ridículo que às vezes só pode ser encarada na base da piada.

Acho que todas as cenas valiosas de Twin Peaks reforçam uma dessas três afirmações ou alguma combinação delas, mesmo que um detalhe fora de lugar ou uma perspectiva bizarra tente levar a nossa atenção numa direção diferente. Tem uma cena do episódio mais recente (até agora foram 11 nesta terceira temporada) que serve como exemplo.

bobby twin peaks 11

Bobby Briggs era um traste. Foi um dos primeiros suspeitos no caso do assassinato de Laura Palmer porque era um rapazinho metido a bad boy, chato, alguém que não falava coisa com coisa e vivia mascando chiclete. Eles foram namorados e Laura recorria a ele para conseguir cocaína. Quando começa a primeira temporada, Bobby vive no limite da marginalidade apesar de ainda frequentar o high-school e viver com os pais. Na série antiga ele não teve um desenvolvimento para além disso, apesar de algumas pistas lá pelo final da segunda temporada. Mas agora, em sua primeira aparição na temporada três, vinte e cinco anos depois, vemos que ele virou um policial sério e membro respeitável da comunidade de Twin Peaks. Só que são muitos personagens. Bobby surge já policial no episódio quatro, sem qualquer explicação, e depois não se ouve nada (ou quase nada, pode ser que a minha memória me engane) a respeito dele.

Shelly Johnson foi quem teve mais tempo de tela ao lado de Bobby, lá nos anos 1990, quando os dois formavam um casal de pilantras. Ela era uma garçonete meio inocente e meio trambiqueira, vítima de violência doméstica. Shelly também apareceu pouco nessa volta de Twin Peaks, mas dela sabemos mais. Agora ela tem uma filha já adulta e continua trabalhando no mesmo restaurante. O reencontro de Shelly e Bobby era aguardado pois as informações estavam incompletas. A filha dela era filha de Bobby? Os dois não estavam mais juntos? E é aí que entra a cena especial que eu estou tentando usar como exemplo.

Becky, a filha de Shelly, é um pouco instável. Ela vive com o marido num trailer horroroso. Os dois cultivam aquele tipo de relacionamento que só vai dar muito errado porque ninguém se ajuda. A certa altura do episódio onze, a filha mete a mãe no meio de sua confusão conjugal (descontrolada, aos gritos, sem pudor de causar preocupação). Acaba que Becky sai no rastro do marido e, não o encontrando, atira várias vezes contra a porta de um apartamento em que ela pensava que ele se escondia. É no meio da confusão que descobrimos que Bobby (agora policial, agora alguém com quem se pode contar) é, sim, o pai da filha de Shelly.

episodio 11 twin peaks

A cena começa como uma intervenção. Bobby (aquele mesmo Bobby que não era digno de confiança) é o pai aflito. Shelly (aquela que era irresponsável e volúvel) está com lágrimas nos olhos. A filha diz que perdeu o controle, que isso não vai acontecer mais, que odeia o marido, que ama o marido, que não vai pagar pelo prejuízo que causou, que não teria dinheiro para isso; e aí os pais, cada um de um jeito, claramente separados, se dispõem a ajudar com dinheiro. O tom é de bronca, mas não parece ser a primeira vez que uma conversa dessas se faz necessária. Um novo namorado de Shelly surge na janela. Bobby fica claramente arrasado, é óbvio que ele ainda a ama. A filha sabe disso. Toda a sequência tem muito mais informação que diálogo. Ficamos sabendo muito da personalidade de Becky, descobrimos que Bobby ainda ama Shelly, que Shelly já partiu para outra, que Norma (a patroa, aquela velha amiga) não concorda com as decisões de sua funcionária mais antiga. Logo saberemos que Bobby virou quase completamente o oposto daquilo que era. Um tiro atravessa a janela do restaurante e todo mundo entra em desespero. Treinado, Bobby toma a dianteira, empunha a arma e vai para a rua investigar o que aconteceu, com aquela pose de policial em alerta. O costume de quem já viu mais de uma série de tevê me levou a crer que havia alguma conspiração em jogo, que aquele tiro resultaria num tiroteio, que aquilo não terminaria ali e seria mais uma peça a se encaixar no quadro geral.

Mas o que se desenrolou foi um desses momentos bizarros de Twin Peaks em que a tragédia parece uma coisa totalmente besta, mas nem por isso menos horrível. Aconteceu que um menininho disparou sem querer a arma do pai, de dentro de um carro. O carro parou, começou um engarrafamento. A mãe do menino está em pânico, indignada com o marido por ele ter deixado que uma coisa dessas acontecesse. Bobby vai até eles. A câmera o acompanha. A criança que mexeu na arma tem o ar de um monstrinho possuído e encara Bobby com raiva. As buzinas não param, mas um carro, em especial, faz mais barulho que os outros. A sequência é montada para causar tensão: eu achei que Bobby fosse morrer, que alguma coisa iria explodir, que algum tipo de monstro fosse pular na tela. Mas não. O que acontece é que Bobby vai até o carro que buzina sem parar e ouve o sermão de uma mulher descontrolada: ela está atrasada, isso não poderia ter acontecido. A mulher está naquele desespero comum às pessoas que se deixaram levar pela infelicidade cotidiana, mas até ali o desespero é assustador e até que patético. Só que a câmera segue os olhos de Bobby para dentro do carro. Num cantinho escuro tem uma forma a se mexer, a forma é um menino, o menino está tendo um tipo de ataque e começa a soltar uma gosma pela boca. Não é bem vômito. Não tem o impulso do vômito. É mais uma gosma mesmo, como se alguém tivesse aberto um furinho por onde sai um líquido pegajoso.

episódio 11 twin peaks

E aí a sequência acaba. Foi apavorante e, ao mesmo tempo, bem familiar. O mal é horrível, muito comum, ataca sem aviso e não tem, necessariamente, explicação ou conexão com alguma ordem maior. O bem é uma coisa frágil a ser cultivada. É Bobby Briggs – bully, peso-morto, golpista, desgosto da família – quem agora tenta organizar toda a bagunça.

Eu acho que Twin Peaks vem contando a mesma história em todos os seus episódios, mas também acho que vai ser covardia não encaixar pelo menos algumas peças. O que talvez já dê para dizer é o seguinte: a primeira temporada, que foi infinitamente melhor que a segunda, não tinha a regularidade e a imensidão de recursos (os recursos visuais e artísticos, os atores muito bons, a liberdade absoluta) que essa terceira temporada vem mostrando. Para mim, Twin Peaks chegou a seu auge com 25 anos de atraso.

Seis detalhes sem importância de Game of Thrones

carinho no dragão

Maratonei Game of Thrones. Fui do começo ao fim num tempo tão curto que até me envergonha dizer. Tinha visto o piloto na época em que ele saiu, mas nada ali me indicava que a série era para mim. Agora, no começo de junho, me veio à cabeça que seria uma boa hora para começar de novo. O resultado é que me apeguei a uns seis personagens (é que tem muita gente carismática) e não conseguia assistir a outra coisa (é que tem muita cena de ação bem coreografada, tensa, que absorve a gente). Por causa da popularidade tão grande de GoT, até quem não acompanha acaba sabendo de tudo o que acontece porque quando começa ou termina uma temporada a internet enlouquece. Por sorte, quem é Alzheimer vive em dobro – como dizia a comunidade do Orkut – e para mim tudo era novidade.

O que não é novidade é que a série tem fanáticos que já esmiuçaram cada detalhe, leram os livros mais de uma vez, bolaram teorias (tanto as absurdas quanto aquelas que fazem muito sentido) e decuparam cada episódio em busca de um significado oculto. Acho que eu não sou esse tipo de fã. Às vezes eu deixava todo o resto para prestar atenção em uma besteirinha. Uma expressão engraçada na cara de um ator, um detalhe com pouco significado, uma intriga que ficou sem explicação. Não é que eu não entrasse na história, mas é que tem tanta coisa em que reparar que tem hora em que acontece de a gente não se concentrar bem no que é o ponto principal. Será que eu consegui me explicar? Fiz uma lista com seis momentos sem importância que me desviaram do caminho. Que comece o aquecimento para a sétima temporada.

JORAH MORMONT TOTALMENTE “TRIGGERED”

jorah mormont friendzone

Ele é a enciclopédia ambulante da khaleesi. Sabe tudo sobre toda cidade que ela precisa conquistar. Cultura, arquitetura, população, hábitos alimentares, organização política: é só pedir que Jorah Mormont esmiúça aquelas partes exóticas do mundo de GoT para a khaleesi ter uma pequena noção do buraco em que está se metendo. Como nada é fácil, acontece de Mormont ser perdidamente apaixonado por ela. O cavaleiro quase tem um tremelique toda vez que precisa olhar Daenerys nos olhos, num amor que é verdadeira devoção. Muito bonito. Só que tem duas coisas: primeiro que o sentimento não é recíproco – a Mãe dos Dragões só pensa no trono que quer conquistar e, quando tem tempo para escapar um pouquinho, parece ter outro tipo de homem em mente; segundo: agora Mormont está apaixonado e daria a vida por ela, mas ele já foi um traidor, um informante daqueles que queriam vê-la morta. É claro que ela vai descobrir. Vai escorraçar o homem e dizer que ele tem sorte de não ser executado.

E aí, será que ele lida bem com a separação? De jeito nenhum. A gente vai ficar sabendo do nível de sofrência quando, depois, Tyrion Lannister e Varys vão parar num bordel em Volantis. Lá uma prostituta está vestida de khaleesi para agradar os homens que “gostariam de foder uma rainha”. É um verdadeiro cosplay. A cópia não é tão graciosa quanto a original, mas está tudo lá: o cabelo platinado, o babyliss, a vestimenta azul. Num canto do bordel, meio louco, bêbado e decadente, totalmente perturbado pela visão da falsa Quebradora de Correntes sentada no colo de um qualquer, está Jorah Mormont. Só faltou aquela tarja de TRIGGERED. A cena deve durar dois segundos, mas eu fiquei rindo pelo resto do episódio. Para completar, ele sequestra o anão para dar de presente à amada.

MAMILOS

nipple game of thrones

A vida da khaleesi tem dessas. A certa altura ela precisa de um exército, mas o pessoal do ramo de venda de exércitos não parece muito legal. O sujeito que a apresenta aos Imaculados (aqueles soldados castrados na infância, máquinas de matar) é intragável. A gente sabe que ele vai morrer desde a primeira fala que ele dá, a gente sabe que ele vai morrer já por causa da escolha de elenco. Mas ele quer mostrar que os Imaculados não dão um pio diante da dor. O que ele faz? Ele chama um soldado e, sem cerimônia, corta-lhe o mamilo. Corta mesmo, como se estivesse passando a faca na casca de uma fruta. Eu preciso confessar que, fosse o que fosse a história, dali em diante nada mais conseguiu a minha atenção. O senhor cortou o mamilo do soldado, arrancou fora, só para provar que os Imaculados não estão nem aí para a dor. Mas é um mamilo, sabe? É claro que a pessoa que perde o mamilo vai ficar com ardência. Essa cena me deu arrepio. Quando eu lembro é como se alguém passasse as unhas num quadro negro. Ai.

AQUELE SENHOR DESCALÇO

high sparrow

Cersei não é boa estrategista. Ela está sempre maquinando. Na verdade todo mundo está sempre maquinando, mas ela não faz um movimento sequer que não seja voltado a um plano elaborado. Só que vocês podem reparar: ela só dá passo em falso. Quando ela encrenca com os Tyrell, porque Margaery finalmente conseguiu casar com o rei e virar rainha, a solução encontrada não é exatamente parcimoniosa. O que ela faz é dar poder a um grupo de fanáticos religiosos para que eles possam enquadrar os Tyrell. Só que, claro, os fanáticos saem do controle e tudo dá erradíssimo.

Enquanto isso acontecia, todas as minhas energias estavam voltadas para a roupa do líder da seita religiosa, o tal do Alto Pardal. Os monges dele não eram nada que a gente não tenha visto na vida real: apenas uma mistura de monge budista com franciscano com uma corrente amarrada no peito e um símbolo na testa. Mas o traje do Alto Pardal, um verdadeiro saco de batatas imundo e sem corte, me irritou profundamente. Eu entendo que a ideia era fazer um contraste entre ele e os pecadores bem arrumados de Porto Real. Tudo bem. Mas o velho não só era profundamente irritante, todo arrogante e com pose de sábio, como sempre aparecia despenteado, com a cara suja e descalço. Descalço. Eu parei para imaginar o chão de Porto Real. A quantidade de matéria fecal, xixi, resto de comida e sangue que deve ter por lá. Fora que a estrutura da cidade não é grandes coisas. Ruas de pedra não só acumulam mais sujeira como também quebram. Aquele velho andava com os pés descalços e sentia as pedrinhas e grãos de areia nos vãos dos dedos. E o pior: não usar sapatos não era um pré-requisito para entrar na seita porque os monges todos usavam uma botinha aparentemente feita de couro.

O gostoso é que a Cersei deu um bom jeito nele.

LÁ VAI A KHALEESI INDO EMBORA NO DRAGÃO

drogon

O diferencial de Daenerys no pleito pelo Trono de Ferro são os dragões. A série repete isso a todo momento. Faz sentido. Eles não só são uma arma poderosíssima, como também, só na presença, conseguem impressionar os inimigos e incentivar os aliados. Durante o torneio dos escravos, aquele em que Jorah Mormont virou uma espécie de Russel Crowe em Gladiador, os inimigos da khaleesi começaram a matar todo mundo e ela se viu cercada, com poucos homens e pouquíssima esperança. Foi aí que Drogon, que é o dragão principal, apareceu. Ele fez uma demonstração de força, matou um pessoal, deixou Tyrion Lannister de boca aberta e, por fim, pousou no meio da arena. Nisso Daenerys montou nele e saiu voando.

Os companheiros de batalha podem ter ficado um pouco desapontados com a rainha abandonando a luta assim sem cerimônia, mas eu achei tudo muito razoável. Pensei: agora o dragão vai parar no topo da pirâmide, que é a residência oficial, ela vai desembarcar em segurança e o problema foi resolvido. Que nada! Sem controle do dragão, nem Daenerys soube onde foi parar. Ele voou embora e a deixou sozinha no meio do nada. Tiveram que montar uma equipe de resgate para encontrar a rainha. Eu achei engraçadíssimo, ainda mais porque toda a cena da chegada do dragão foi apoteótica. Um daqueles momentos em que um fiapo de esperança vira uma glória gigantesca. Tudo isso para ela ficar perdida no meio de uma terra estranha, cercada de dothrakis que estão apostando para ver quem vai estuprá-la primeiro.

Mas ela é a Não Queimada, a Noiva do Fogo. No final não há quem lhe encoste um dedo.

E VOCÊ. QUEM É VOCÊ MESMO?

cersei qyburn

Eu tenho certeza de que isso deve ser muito bem explicado nos livros, mas para quem só viu a série ficou esquisito. Qyburn é aquele homem que faz experimentos com Gregor “A Montanha” Clegane. Ele aparece primeiro quando Jaime Lannister perde a mão. Dali em diante, numa ascensão impressionante explicada por ninguém, ele vai virar conselheiro de Cersei. Não tem graça nenhuma, eu sei, mas é aquele tipo de coisa que acontece quando o roteirista precisa enxugar personagens. Aqui em casa a gente sempre se lembra de um filme com a Nicole Kidman e o Daniel Craig, Invasores, que é meio que uma releitura de Invasion of the Body Snatchers. Lá, um médico que tinha uma salinha e um cargo desimportante num hospital sem destaque acaba indo parar no centro dos acontecimentos, só porque no roteiro não cabe outro médico. Ele está num helicóptero, ele descobre a cura, ele ajuda os protagonistas: tudo a serviço de uma história enxuta. A função de Qyburn em Game of Thrones é essa, e por isso ele sempre acabava roubando a minha atenção. Eu precisava me lembrar de quem ele era, e começava a pensar que estava perdendo alguma coisa, que alguém tinha explicado e eu tinha perdido. Como esse homem foi parar aí? Nesse mundo de tanta intriga não teve ninguém para barrar uma ascensão tão grande, nem para explicar porque ele é importante?

O fato é que agora o “Time Cersei” está bem peculiar. Tem ela, um cavaleiro sem mão, um cavaleiro zumbi e um médico louco.

MINDINHO FALANDO NO OUVIDINHO

sansa e littlefinger

“Só um tolo confiaria no Mindinho”, diz Sansa Stark no fim da sexta temporada. A função dele na vida é ser um fofoqueiro, intriguento, leva-e-traz, duas caras e fraco de caráter. Não demora nada para a série querer que a gente entenda isso, e uma das primeiras cenas dele é impagável. Ned Stark acabou de chegar a Porto Real com as duas filhas. O rei manda fazer um torneio. Um dos participantes é Gregor “A Montanha” Clegane. O episódio quer nos contar três coisas ao mesmo tempo: 1) Montanha é muito malvado; 2) Mindinho é muito fofoqueiro; 3) a origem da queimadura do Cão de Caça. Qual é a cena? Na arquibancada, Sansa, que àquela altura é toda empolgada com cavaleiros e cortesias e romances e casórios, sentou-se ao lado de Mindinho. O que ele faz? Ele conta a história da vez em que Gregor Clegane, ainda criança, colocou a cara do irmão no fogo só por causa de um brinquedo. Mas ele conta tudo no ouvidinho dela, aos sussurros. Quem já esteve em um lugar barulhento sabe que não se entende nada de um sussurro. Quem vai sussurrar tem que falar frases curtas, tipo “Vamos embora?” ou “Onde é o banheiro?”, mas o Mindinho conta a história inteira, uma frase atrás da outra, sussurrando alto, com cara de safado, para uma Sansa impressionada, em meio a uma arquibancada lotada. Não adiantou nada ele sussurrar, até porque ele falou alto. Todo mundo ouviu. Mania de falar perto da cara dos outros!