Sciuscià é um filme de cortar o coração

vitimas da tormenta

Os meninos Giuseppe Filippucci e Pasquale Maggi engraxam sapatos. A situação econômica não é fácil. Giuseppe ajuda no sustento de casa, diz que o dinheiro não dá para nada. Pasquale já não tem família. Ele costumava dormir no elevador de um prédio, até que o zelador o descobriu e mandou embora. Os dois estão juntando dinheiro para comprar um cavalo. Só conseguem falar disso. Num lance de azar, injustamente, eles são presos e mandados a um reformatório.

Sciuscià, de Vittorio de Sica, é uma história de amadurecimento em meio ao caos do fim da Segunda Guerra na Itália. Na lista dos filmes mais tristes que eu já vi, três são de Vittorio de Sica. Umberto D.apareceu aqui no blog, e, falando com bastante sinceridade, eu nem tenho coragem de rever Ladrões de Bicicleta. Dá para imaginar, então, que o amadurecimento em Sciuscià não se constrói como aquela história feliz de final edificante. O título brasileiro (Vítimas da Tormenta) já entrega tudo. Se o mundo é horrível, amadurecer é ser apresentado a esse horror.

Mas o filme é muito lindo. Sem grandes introduções a gente se vê testemunhando o cotidiano dos meninos. Soltos em Roma, são eles que fazem as próprias regras. Ser criança e pobre nessa cidade não é muito mais que ser pequeno e frágil. Ninguém olha pelos dois. Nos primeiros minutos a vida na cidade acontece ao redor dos meninos. Os adultos andam de um lado a outro. Automóveis passam. Cada um cuida de seus afazeres. Nesse universo, Giuseppe e Pasquale parecem à vontade. A gente chega a pensar que eles sabem se proteger, que andam com desenvoltura entre tanta coisa que pode dar errado. Mas não é verdade: um pouco por inocência, um pouco por não terem nem chance num mundo em que todas as coisas são mais fortes que eles, os meninos vão parar no reformatório. E o reformatório tem toda a hostilidade das ruas de Roma, sem ter nada da liberdade.

Eu tenho que confessar que fui inocente e tive esperança. A coisa mais bonita da primeira metade de Sciuscià é que os meninos se gostam. Eles têm uma amizade verdadeira. Quando Giuseppe recebe um pacote com comida, enviado pela família, tudo o que ele quer é dividi-lo com o amigo que não tem ninguém. Mas o reformatório parece ter regras especialmente moldadas para que cada um cuide de si. A minha esperança de um final minimamente feliz foi embora quando eu percebi que o laço que unia Pasquale e Giuseppe estava ali para ser cortado, e que a principal ideia do filme era que nenhuma pureza vai sobreviver ao mundo. Não tem lugar para a amizade na hora em que é preciso pensar em si, não tem como manter a bondade quando todo o cenário (as instituições, todas essas coisas) está montado numa direção contrária. Em quase uma dezena de cenas de cortar o coração, os meninos vão se afastando até aquele carinho se transformar em inimizade.

O fim é mais trágico e mais cruel do que eu imaginava. Eu tinha me esquecido da desilusão com o ser humano, da revolta diante da pobreza, da falta de sentido da guerra, de todas essas coisas que definem o neo-realismo italiano quando alguém tenta defini-lo. Quando o menino Pasquale, depois de ter sido preso e conseguido fugir, de terem-lhe raspado a cabeça e metido num uniforme, chorou copiosamente e se desesperou, gritando “O que foi que eu fiz, meu Deus? O que foi que eu fiz?”, eu me perguntei se ele havia conseguido, afinal, ver de um ângulo privilegiado o tamanho da miséria em que se encontrava ou se a tristeza era só resignação diante da dor.

Sciuscià não é um filme para rever todo dia.

Z: uma oportunidade perdida

z a cidade perdida

A pessoa chata que leu o livro e não gostou do filme já é uma figura desprezada por todos. Eu detesto ser chata e não gosto que me desprezem, mas tenho que dizer que saí mais triste que confusa da sala de cinema em que vi Z: a cidade perdida, dirigido por James Gray. O livro eu resenhei aqui, no ano passado, quando não tive do que reclamar. Mas li tarde. A edição brasileira é de 2009. Se, mesmo com o meu atraso, eu consegui chegar a tempo de pegar o filme no cinema foi porque a produção demorou muito para dar vida à história do coronel Percy Fawcett.

Ao longo de alguns anos quem estava de olho ia recebendo notícias do andamento das coisas. Não é um bom sinal quando as novidades somem e ninguém faz questão de perguntar o que aconteceu com aquele filme prometido, mas Z saiu. E não é uma bomba. Nada do que me incomodou parece ser fruto de correria, improviso ou de intervenção de estúdio – essas coisas que em geral acontecem com produções problemáticas, como foi o caso de Esquadrão Suicida no ano passado. O meu problema é que eu e James Gray lemos livros muito diferentes.

O jornalista David Grann queria resolver um dos casos midiáticos mais célebres do começo do século XX. Na partida de Percy Fawcett para sua última expedição amazônica qualquer palavra que ele dissesse virava notícia. Quando, pelo passar dos anos e por falta de contato, ficou evidente que o explorador não mais voltaria, ventilou-se todo tipo de hipótese. Numa hora dessas o jornalismo e o público mandam o comedimento embora. O objetivo do livro de Grann era tirar o entulho que a imaginação popular colocou sobre a trajetória de Fawcett. Para isso ele foi até a floresta, investigou hipóteses, duvidou de testemunhos e chegou a um resultado seguro, embora modesto.

Quer dizer: que Fawcett morreu àquela altura não restam dúvidas, mesmo que as circunstâncias exatas da morte sejam desconhecidas. A última expedição entrou num território hostil e de lá não conseguiu sair. Muito bem. O bom é que Z, o livro, não tem só isso. Grann também faz uma boa investigação sobre a hipótese em que Fawcett apostava. Quanto à existência de uma civilização avançada na floresta amazônica, o livro é fascinante: para Grann, a cidade estava lá mas o explorador não tinha condições de encontrá-la porque estava procurando os sinais errados. Z não era toda de ouro, nem tinha edificações como as pirâmides do Egito, e assim o jornalista nos mostra que a antropologia do século XX conseguiu redescobrir a verdadeira grandeza da civilização amazônica, toda voltada para a adaptação ao ambiente hostil da selva. O misterioso desaparecimento do aventureiro vira um fio condutor. No lugar das infinitas possibilidades da imaginação (chegaram mesmo a dizer que o velho militar inglês havia encontrado Z e lá se transformado em líder espiritual), algumas probabilidades muito interessantes mas muito pouco místicas. Uma morte violenta. Um caminho errado. Exaustão. Fome.

z cidade perdida

Lindo até quando tenta ser feio

Já a história que James Gray conta poderia ser um reboot de Indiana Jones ou o começo de uma franquia nova, mas é muito difícil vê-la se passar por uma adaptação do livro-reportagem. O diretor busca mistério onde já não há, reposiciona gente de carne e osso, transforma um militar inglês famoso pela severidade em pai amoroso e marido compreensivo; e faz tudo isso a ponto de ameaçar a imersão no filme: aquela gente se parece muito com gente contemporânea que ocupa empregos liberais e pensa como progressista nos costumes – o que não é um defeito, de jeito nenhum, a não ser que o seu filme pretenda contar a história de gente que cresceu na Inglaterra imperial quando a Inglaterra imperial se gabava de ter controle sobre o mundo inteiro. Mas isso nem é o mais irritante. A atuação constrangedora de Charlie Hunnam também não é o que mais irrita, nem quando ele caminha com o mesmo remelexo malandro de seu personagem em Sons of Anarchy.

O que me tirou completamente do filme dirigido por James Gray foi o fato de ele ter andado tão na contramão do livro. O que Gray faz (lembrando que o roteiro também é dele) é uma espécie de mistificação bem ao estilo daquelas que motivaram o projeto de David Grann e a busca pelos fatos. O Fawcett deste filme termina sua jornada como uma espécie de peregrinador budista que encontrou a paz de espírito e resolveu compartilhá-la com o filho. Quando não agrada a resposta na história verdadeira, o diretor resolve ele mesmo encontrar a verdade ao abraçar uma espiritualidade banal. Não há nenhuma curiosidade pelo cenário, nenhum confronto entre o interior, que são as coisas que atravessariam a cabeça de um explorador inglês, e o exterior, que é a floresta. Eu fiquei mais atônita do que irritada, ainda, quando percebi que o diretor tinha pouquíssimo interesse pelos indígenas, que são a espinha dorsal do livro-reportagem. No cinema eles são absolutamente tudo o que o aventureiro gringo quiser. Tacape no meio do crânio não é uma opção, então, já que matar Fawcett pode ser uma reação raivosa à invasão de um território (o que provavelmente aconteceu, de acordo com Grann), James Gray tem uma ideia melhor: que tal se os índios forem assistentes em uma espécie de suicídio programado, o fim catártico de uma jornada de autoconhecimento?

Não bastasse o final bobo, o epílogo é inacreditável. Mas só para não terminar o texto num tom de muita raiva e frustração, eu preciso falar de Robert Pattinson. Ele interpreta o principal companheiro de Fawcett, num trabalho tão bom que deve ter feito, com certeza fez, o diretor pensar que escolheu o ator errado para fazer o protagonista. Diretor pateta. Charlie Hunnam como Percy Fawcett? Ah, vá.

Alien: Covenant é um filme da Marvel

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Eu tenho uma opinião impopular a respeito de Alien: Covenant: eu achei bom, gostei, me diverti. Ou seja, não só me diverti (o que pode acontecer mesmo que eu não goste do filme) como ainda por cima gostei (não saí ofendida nem destratada ou querendo o meu dinheiro de volta). Pra ser sincera, eu acho que mais gente se divertiria se essa não fosse uma franquia estabelecida, que tem um filme (Alien, o 8º passageiro, de Ridley Scott) considerado um dos maiores suspenses de todos os tempos, e outro (Aliens, o do James Cameron) em alta conta pelos fãs por ter sido um dos grandes blockbusters dos anos 1980.

Covenant quer realizar duas tarefas bem distintas. Por um lado, Ridley Scott tenta um resgate da importância da franquia. Por outro, ele quer fazer com que ela não fique restrita ao universo meio pequeno e sem grandes explicações dos dois primeiros filmes. Esses objetivos se contradizem porque o segredo do sucesso inicial de Alien era o bicho ser alienígena. Alienígena mesmo: não só uma coisa horrorosa vinda do espaço, mas um ser letal que era desconhecido em todos os aspectos, alheio, forasteiro, um corpo estranho. A princípio ele não era nem um vilão porque não tinha necessariamente vontade de matar, de fazer o mal, de montar uma tramoia. O monstro do primeiro filme era puro instinto de sobrevivência, a indiferença da natureza. Era necessário, sempre, que alguém morresse para que o bicho sobrevivesse e esse era o maior terror.

Claro que as sequências não mantiveram esse princípio. A primeira, dirigida por James Cameron, virou a história de uma operação de guerra. Soldadinhos contra o Alien, o Alien vence. Ainda não se falava muito a respeito de sua origem, mas o universo já se ampliara. Havia a corporação, dessa vez com mais sede de dinheiro; também a vida pessoal da tenente Ripley ganhou contornos mais pesados. Mas, tirando o instinto maternal da protagonista, as motivações eram todas bem vagas e James Cameron não perdeu tempo com elas. O que ele fez foi nos mostrar a tecnologia necessária para combater o bicho. A câmera presta atenção em naves, tanques, sistemas computadorizados, armas de mão, explosivos, robustas armas pesadas. Nada disso foi suficiente para parar o monstro, e por isso ele vai ficando mais poderoso. No primeiro filme, ele pegou todo mundo desprevenido. Agora, ele é uma ameaça séria e a força bruta chega a ser inútil. Ainda assim, ninguém liga para o lugar de onde ele veio.

alien covenant

As próximas sequências pouco acrescentaram à mitologia. Alien 3, o de David Fincher, tentou começar do zero e não teve graça;  Alien: Resurrection, o de Jean-Pierre Jeunet com Winona Ryder, foi uma perdição tão grande que conseguiu enterrar a franquia. Isso foi em 1997. Vivemos a década de 2010 e sabemos que hoje em dia ninguém pode deixar uma marca morrer. Em 2012 o próprio Ridley Scott trouxe ao mundo o quase interessante e bem decepcionante Prometheus. Foi nessa hora que as duas tarefas distintas começaram a entrar em contradição. O espírito do filme original requer mistério, mas o espírito das produções atuais requer elaboradas explicações, mitologias, teorias, assunto para as redes sociais. Talvez essas duas pontas não sejam necessariamente opostas, mas vê-se que Ridley Scott está tendo dificuldades em conciliá-las.

A Covenant é uma nave que leva mais de duas mil pessoas a outra vizinhança do universo para colonizar lá um planeta. Não tem nem o período de calmaria antes de o problema aparecer: a tripulação já acorda de um hiper-sono com um mau funcionamento no sistema. Tem uma urgência, tem morte, luto e o passo seguinte, como só cientista de blockbuster consegue fazer, é mudar absolutamente todos os planos, ignorar qualquer resquício do protocolo e partir para a improvisação total.  O que pode dar errado quando se pousa em um planeta desconhecido que nem estava nos planos? O esqueminha começa a funcionar e aquelas pessoas bem treinadas e de boas intenções morrem pelo bem do nosso entretenimento. Essa era uma das graças da franquia, e nesse sentido Covenant não decepciona. As mortes são horríveis, uma delas memorável, mesmo que a burrice geral e a falta de sentido nas reações de personagens tire uma parte da graça e coloque indignação no lugar. Ainda quando estão aparecendo os primeiros resultados do contato com o organismo destruidor (que, se eu entendi bem, é uma versão beta do monstro original) o filme toma outro rumo. Dali em diante não vamos só aproveitar a matança, vamos em busca de respostas.

E se a gente se concentrar nas respostas, o filme fica bem bobo. Estou acostumada a produções que tratam o espectador como idiota, mas nesse caso a falta de respeito chegou a um nível a que não se chega todo dia. É verdade que sem decisões irrazoáveis a gente não tem história. Se tudo funcionasse bem, não haveria filme e os tripulantes estariam em casa tomando um golinho de chá e olhando a chuva. Mas Covenant abusa da gente porque tudo o que acontece depende muito de burrice de todas as partes. Os personagens têm que ser burros, e aí quando o filme quer defendê-los acaba ficando burro junto. Quem está assistindo também precisa ser burro para engolir com uma cara séria as ladainhas filosóficas que saem da boca do ótimo Michael Fassbender, mas a certa altura eu tive a impressão de que quem estava errada era eu.

Antes de sair de casa eu li duas críticas, ouvi uns comentários e fiquei preparada para assistir a uma bomba. Essa parte da repercussão de Covenant que eu pude ver se resume a uma indignação por Ridley Scott não deixar intacto o espírito do primeiro filme. E isso é verdade: foi-se embora aquela aura de suspense, embora o diretor tenha tentado engatar umas referências visuais e trazer parte da atmosfera em cenas específicas. O que eu percebi já na sala de cinema foi que ninguém estava errado em dizer que o filme é besta, mas todo mundo (todo mundo que eu li) estava preso na expectativa de ver uma produção da franquia Alien, quando na verdade aquilo ali era uma espécie de filme da Marvel. E eu percebi isso quando Michael Fassbender tocou a flautinha pela primeira vez.

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Eu juro que não estou sendo irônica quando digo que, se Alien: Covenant fosse anunciado como a história de origem de algum super-herói (ou super-vilão, o que seria mais adequado), a gente se concentraria melhor no que interessa (o visual, as cenas de ação, as mortes, a construção do universo) e nem pararia para considerar a falsa profundidade daquilo que o filme diz querer investigar. Por causa disso, eu acho que está muito bem realizado o resgate da franquia. Penso que, ao expandir este universo, a produção consegue apontar na direção em que está todo mundo apontando, que é aquela que segue a cartilha da Marvel ou de Star Wars. Mais do que nunca, agora o mundo de Alien está novamente pronto para sequências, derivados, crossovers e mais uma década de filmes de ação. Quem se deu mal foi o monstro, que já não é mais a grande ameaça desse universo, não é mistério para ninguém, e é quase secundário – serve aos planos de uma cabeça maquiavélica. Estamos abrindo as portas de uma galáxia cheia de perigos e etc.

Nesse sentido, eu também não estou sendo irônica quando digo que gostei de Covenant. Eu concordo que a mitologia é um apanhado de baixa ficção científica requentada, mas a construção do mundo compensa. O planeta, o design dos novos bichos, de naves, de sistemas tecnológicos, tudo isso é de encher os olhos. Michael Fassbender interpreta dois personagens, um é bonzinho e o outro é o malvadão. Rola um kung-fu entre os dois. Ambos conseguem falar os diálogos mais bobos do cinema com expressões críveis, e por causa disso eu louvo esse truque hollywoodiano de pagar ator excelente (e caro) para ser o centro de uma franquia duvidosa.

Aguardo as continuações.

Kimi no Na wa.

kimi no na wa

Eu estou apaixonada pelo Japão. Acho que isso ia acabar acontecendo. Sem muito alarde, e já faz tempo, o Japão é o segundo maior polo exportador de cultura pop do mundo. Nos últimos tempos coincidiu de eu assistir a vários bons filmes japoneses e ouvir uma banda japonesa, a Galneryus, e pronto: kawaii pra tudo que é lado. Eu vi Kimi no Na wa. no último fim de semana, logo depois de uma overdose de uma música só: “Destiny”. Foi a gota que faltava.

Kimi no Na wa. – que também tem um título mais fácil: Your name. – é um filme perfeito. Tem aventura, romance e é visualmente lindo. É difícil falar do anime sem esbarrar em spoilers. Mitsuba vive no interior do Japão. Ela tem uma rotina simples: vai para a escola, vive com a avó e a irmãzinha e sonha em morar em Tóquio. Taki é o jovem que parece ter a vida que Mitsuba quer: ele mora na capital, é universitário e trabalha como garçom em um restaurante. Os dois não se conhecem, mas por conta do destino suas vidas acabam entrelaçadas. De um jeito inexplicado, eles acordam um no corpo do outro pelos menos duas vezes por semana. Daí um passa pelo que o outro passaria, só para acordar como se nada tivesse acontecido no dia seguinte. Isso dura alguns meses, até que, do nada, para de acontecer e Taki decide ir atrás de Mitsuba para investigar o que houve, e também para conhecer a garota que faz parte dos seus pensamentos.

O ponto de partida é meio juvenil, mas isso não quer dizer nada. Os japoneses são especialistas em conseguir transformar temas que são típicos da juventude em objeto de reflexão mais profunda. É só ver qualquer história (no anime, no mangá) que pareça ser “menina conhece menino” para notar que isso será só o começo de uma aventura mais complexa: no mínimo os personagens serão excêntricos, com atitudes extravagantes vivendo em um mundo bizarro. Isso é muito empolgante. Kimi no Na wa. não chega a ter uma história de amor atípica, mas ele tem muito mais facetas que uma história de amor de um filme americano com os mesmos temas.

Kimi no Na wa. é apaixonante. As cores são usadas de um jeito ridiculamente bonito, são como uma explosão linda na nossa cara. Cada frame é uma pintura. Os protagonistas são cativantes e a história se desenrola de um jeito contagiante. Eles se detestam, eles se amam, eles não entendem o que está acontecendo, eles lutam para arrumar a bagunça, eles querem ficar juntos, eles  não sabem se vão ficar juntos, eles se apaixonam mesmo sem se conhecer. É uma história arrebatadora para ficar para sempre na minha memória. Eu amei. Acho que este blog corre o sério risco de ficar monotemático, acho que eu corro o risco de virar otaku depois de velha.

Get Out – Corra! (mentira, não corra:o filme é bom)

get out

Get Out é muito legal. De uns tempos para cá ficou difícil repetir aquela ladainha de que falta criatividade aos filmes de terror/suspense, já que surgiram vários memoráveis nos últimos anos, mas não dá para negar que o gênero investe muito em nostalgia, referências, homenagens e todas essas coisas que deixam, às vezes, um filme novo com cara de produto reciclado. Não é o caso aqui. Get Out tem o esqueleto obrigatório do suspense, mas encontra um ponto de vista particular.

Imagine que você tem um relacionamento de quatro meses e agora vai conhecer os pais da namorada  ou namorado, em um fim de semana em que você vai dormir na casa deles. Para piorar, você vive num país em que a proibição ao casamento inter-racial, dependendo do estado, era comum na geração de seus avós e muito recente na de seus pais. Vocês formam um casal inter-racial. Você é a parte mais discriminada da história. Essa é a premissa do diretor e roteirista Jordan Peele.

Quando Get Out introduz Chris Washington, vivido por Daniel Kaluuya, o rapaz está fazendo as malas com uma expressão preocupada. Chris quer saber se a namorada contou aos pais que ele é negro. Ela diz que não e que isso pouco importa. Diz que eles são democratas, eleitores de Obama, que têm pavor de racismo e jamais se oporiam a uma pessoa por conta da cor de sua pele. Só que Chris é escolado – e isso é um dos pontos mais legais do filme,  que é conduzido pelos olhos de seu personagem principal. Percebemos logo que ele não vê o mundo com o otimismo de sua namorada, que qualquer discriminação que venha a sofrer não será a primeira e que, na opinião dele, um branco americano de classe alta pode ser racista e eleitor de Obama ao mesmo tempo. Chris não precisa dizer nada disso porque a câmera acompanha suas expressões e reações em todos os diálogos, do começo ao fim. Então é com uma espécie de resignação pessimista que ele parte para a casa dos pais da namorada. Faz isso por ela, apesar da própria vontade; faz porque aposta no relacionamento.

Já que o filme segue Chris em tudo, é claro que ele estava certo. Não demora e a gente percebe que a família da namorada é racista, sim. Só que racista, ali, todo mundo é. O maior problema desse pessoal é ainda mais complicado: a família vai parecendo mais e mais bizarra, e logo Chris começa a temer por sua segurança. Daí em diante, Get Out fica divertidíssimo, um filme sóbrio e dono de uma atmosfera sufocante, e que, ao mesmo tempo, não perde certa veia de comédia de costumes. Ele retrata relações sociais em um país que não conseguiu resolver sua desigualdade e as contradições que brotam dela, sem deixar de ser uma espécie de depoimento pessoal. Por isso, por ter um olhar particular sobre a questão racial americana, Get Out não esbarra no discurso político já pronto para agradar uma plateia de adeptos, bem ao contrário: o filme é muito contundente quando satiriza o racismo justo por não fazer concessões. É como se a premissa tivesse nascido de um comentário levado ao extremo: e se o terror que é conhecer os pais racistas de uma namorada fosse interpretado literalmente e virasse terror de verdade? Jordan Peele nunca se afasta desse ponto de partida.

GetOut corra

Mas o mais legal nem é isso. Para contar o que é mais legal eu vou precisar falar um pouquinho mais do que acontece quando Chris chega à propriedade dos pais da namorada e, para ser sincera, eu acho que saber desses detalhes vai piorar a experiência de quem ainda não assistiu ao filme. É que tem um certo desafio em saber exatamente o que vai acontecer, e o desafio é levado a sério, ou seja: Get Out é mesmo um filme de suspense em que o desenrolar tem importância. Fica o meu aviso, então, de que daqui em diante o texto contém spoilers até que grandinhos.

Pois bem. Os pais da namorada são traficantes de pessoas. O que eles fazem é sequestrar um afro-americano, fazer nele uma lavagem cerebral e leiloar seu corpo a uma clientela formada por brancos ricos. A mãe da menina é psiquiatra, sua especialidade é deixar as vítimas com a mente oca; o pai é neuro-cirurgião, e quando ele encontra um afro-americano com as características que um cliente quer, ele prepara uma cirurgia de transferência de uma parte do cérebro do cliente ao corpo da vítima. Com que finalidade? Ah, sim, transfere-se a consciência de alguém em vias de morrer para o corpo de um americano negro no auge da forma. Essa foi a metáfora que Jordan Peele encontrou para tratar das contradições de um país racista que não deixa de consumir a cultura negra com voracidade. No filme, os negros que tinham recebido o transplante de um cérebro branco perdiam todas as marcas da identidade afro-americana. Vocabulário, roupas, costumes, gostos: na cabeça das vítimas só sobrava uma lembrança distante de quem foram. Eu deixo toda a discussão que isso desperta para alguém que tenha mais familiaridade com os Estados Unidos do que eu (e aproveito para recomendar o documentário vencedor do Oscar, O.J.: Made in America), mas não dá para negar o tamanho da bola de neve que uma premissa dessas pode formar.

Antes de terminar eu queria falar de três coisas. Duas razoáveis e uma besteira muito grande. Razoáveis: (1) Jordan Peele, que é ator e comediante, estreou na direção com uma firmeza que só perde para aquela do sujeito também novato que dirigiu A Bruxa, no ano passado; (2) a julgar por seu desempenho em Get Out, Daniel Kaluuya, que esteve em Black Mirror, tem muito carisma e é um nome para todo mundo guardar. Agora, uma besteira muito grande: Jordan Peele, que dirigiu e também roteirizou Get Out, é casado com Chelsea Peretti, aquela de Brooklyn Nine-Nine e das comédias stand-up. Alguém tem coragem de chegar nele e perguntar se a família dela é assim horrível? Nessas horas faz falta uma Fabiola Reipert.

Ghost in the Shell

Ghost-In-The-Shell

Eu nem comentei aqui que acertei, sem querer e com uns quinze dias de antecedência, a escalação de Kristen Wiig para o remake americano de Toni Erdmann. Não sou o Walter Mercado, nem tenho contatos em Hollywood: é que às vezes as coisas são previsíveis no mundo. Por exemplo: quem não sabe, antes de sair de casa, tudo o que vai acontecer num filme como esse Ghost in the Shell, com a Scarlett Johansson? Assim como o mundo inteiro, eu queria ver uns tiros, uns aparatos tecnológicos e a cara da Scarlett. Fui presenteada, porém, com um filme ruim a ponto de dar raiva. O problema é que a indignação fica ainda maior quando a gente está pagando o ingresso.

Eu também fiz a minha lição de casa antes de ir ao cinema e fiquei sabendo de todas aquelas informações que os resenhistas colocam no primeiro parágrafo: do mangá pro anime, Japão, ciborgues, serei eu um ser humano ou um robô?, será que não era melhor ter uma japonesa para um papel de uma japonesa?, tudo isso. O que me empolgou foi fazer um percurso que eu já estava devendo há um tempinho. Eu nunca tinha visto Blade Runner, não me lembrava de Matrix, não conhecia o Ghost in the Shell de 1995, então tirei uns dois dias para eles e tenho que dizer, que essa espécie de jornada cyberpunk até que vale a pena. Matrix é sensacional. Os filmes de ação de hoje em dia seriam muito diferentes se não houvesse Matrix. Keanu Reeves consegue ser totalmente insosso e ao mesmo tempo ter muito, muito carisma. Já Blade Runner não me comoveu. Eu sempre fico incomodada quando um filme (ou livro ou série) tem mulher mal escrita, mas para assistir a qualquer coisa anterior à semana passada é necessário ter uma carapaça dura. Em Matrix eu tolerei, por exemplo, o fato de a Trinity ter se apaixonado pelo Neo por motivo nenhum: os sentimentos dela não importavam, importava só que ela fosse para ele um porto seguro. Paciência: as cenas de ação são irretocáveis. Já em Blade Runner, as duas mulheres, as duas androides principais, são um horror e simplesmente não há papel para as duas. Porque eu estava incomodada com isso, o clima e a ambientação não conseguiram me pegar. Nem fiquei assim tão fã de Ghost in the Shell, o filme animado de 1995, mas deixa eu falar um pouquinho melhor a respeito deste antes de chegar no da Scarlett.

ghost in the shell

Não dá nem para dizer que a major de Ghost in the Shell é durona. Ela cumpre suas tarefas, a princípio sem hesitar. Ela reflete discretamente sobre sua condição meio humana, meio ciborgue e não me lembro de ela ter requerido a atenção emocional de outros personagens. Ela fica confusa com a própria natureza e tudo, mas quando tem que agir a impressão que deixa é de que está até um pouco maravilhada com o que pode fazer. Esses sentimentos discretos, bem como a quase total falta de conexão que a major demonstra com o resto do mundo, só fazem jogar na cabeça do espectador a ideia de que ela não é bem humana. Por causa disso, não raro a animação deixa os olhos dela bem abertos e sem vida, e as expressões intensas não são frequentes. Mas falando assim tem-se a impressão de que Ghost in the Shell pode ter alguma coisa de estudo de personagem. Eu acho que não. Eu acho que o que mais conta é a cidade, um lugar no futuro que a animação se empenha muito para construir em detalhes. É uma cidade desgraçada, de pobreza (e riqueza) material e de espírito, e é um lugar onde todo mundo poderia ser aquela mesma protagonista: todos desconectados, perdidos, vagando sem propósito. Para demonstrar isso, a cidade de Ghost in the Shell tem que ser um território estranho a quem está vendo o filme: uma parte essencial dessa experiência é que não se saiba muito bem, de partida, o que é que está acontecendo.

E aí o Ghost in the Shell de 2017 começa explicando, quase que em pormenor, onde é que estamos, quem é importante, no que prestar atenção, e quais são as lições que o filme quer tirar do que está acontecendo. Não dá, sinceramente. A major vivida por Scarlett Johansson é uma criança grande que tem que ser amparada e receber explicações – daquelas explicações que não fazem sentido em texto de filme, a não ser como um power point verbal destinado ao espectador. Isso só faz com que o esforço da atriz para parecer forte, gélida e determinada se torne patético. Nada irrita mais do que um filme em que os diálogos dizem uma coisa e todo o resto fica gritando outra. Além disso, Ghost in the Shell faz aquelas escolhas padronizadas, que dão a impressão de que todo filme é o mesmo filme: se tem um homem e uma mulher, deve haver um romance, e se tem um romance uma das partes (ou as duas) tem que ser desesperadamente superprotetora. E aí lá se vai a esquisitice da protagonista – ela não é nem humana, nem robô: é só uma mocinha de Hollywood.

Por coincidência, eu fui ao cinema no mesmo dia em que me apareceu, numa playlist, a música “Love Bites” da banda Def Leppard. Eu demorei uns trinta segundos para me lembrar de onde eu a conhecia, mas o Google ajudou. No Brasil, “Love Bites” virou “Mordida de Amor” do conjunto Yahoo e a moral da história é que adaptações são complicadas.

Para quem vai passar o feriado na Netflix

Serão três feriados em um intervalo bem curto. Não é uma maravilha? Para mim, feriado no outono e no inverno é sinônimo de filme, série e uma mantinha no sofá. Quando faz calor eu só dispenso a mantinha, mas tudo bem. Empolgada para os próximos dias, resolvi fazer uma lista de coisas para assistir na Netflix porque a Netflix é um recanto muito confortável da internet. É para quem tem preguiça de baixar torrent e para quem nem lembra se ainda existe uma locadora aberta na cidade inteira. Então aqui vão as minhas dicas: Stranger Things, Os 13 porquês e as séries da Marvel. Que tal? Aposto que você nunca havia ouvido falar de nada disso. Boa diversão e depois venha me agradecer. MENTIRA: para fugir das coisas que geram mais burburinho, o que eu fiz foi tentar organizar uma lista (bem pequenininha) para ajudar alguém (alguém hipotético e com interesse em trocar figurinhas) a se organizar dentro da Netflix.

Filmes que você pode ter deixado passar

frank

Frank

Aqueles que são meio largadinhos, mas muito bons. Às vezes a gente os deixa passar porque perde o período no cinema (acontece também de um filme jamais estrear perto de casa). É difícil acompanhar tudo que sai, daí um dia, quando a gente já até esqueceu e tá rodando a Netflix para ver o que é que tem, BUM!, lá está o filme. Um assim é Frank, de 2014, com o Michael Fassbender e Maggie Gyllenhaal. A história é sobre um cara (Domhnall Gleeson, de Questão de tempo) que entra numa banda indie, a The Soronprfbs, pensando que aquela é a oportunidade de sua vida. O vocalista é Frank (Michael Fassbender), que usa uma máscara o tempo todo. Ele canta, come, toma banho e dorme com a máscara. Não é pose, é doença: ninguém nunca viu o rosto dele. Frank é quieto e estranho, e me fez pensar no cantor e compositor Daniel Johnston, um artista especial mas de difícil enquadramento. Por causa da excentricidade de Frank a banda faz certo sucesso, mas depois de um tempo tudo começa a degringolar. O fim é delicado de um jeito bizarro e, diferentemente de muitos outros filmes indies, não acontece de o mundo todo se entortar para se enquadrar à visão de mundo do protagonista. É uma boa lição. Também na Netflix está Amantes Eternos, ou Only Lovers Left Alive. Tom Hiddleston e Tilda Swinton formam um casal de vampiros bem dark. A prioridade que eles dão à autenticidade, o espaço que a arte ocupa na vida dos dois, e a maneira como eles vivem apaixonadamente fazem deste um filme meio que tematicamente ligado a Frank. Num caso há um artista indie atormentado e no outro dois vampiros românticos, os únicos amantes que restaram.

Especiais de stand-up cínicos e autodepreciativos

louis ck

Louis C. K.

Eu sei, eu sei, eu sei: o Brasil pegou trauma de comédia stand-up desde o auge do finado CQC. Teve gente reclamando de cerceamento à liberdade de expressão, quando tudo o que rolou foi um pessoal reclamando que a piada não tinha graça e que o comediante era burro. Mas o stand-up foi um produto importado à força por aqui. Nos Estados Unidos a tradição é longa e os melhores comediantes são os que não se agarram àquilo que é consenso. Para a nossa alegria, há alguns deles na Netflix. Louis C. K. é o primeiro nome que me vem à cabeça. Adoro assisti-lo e pensar “é, isso aí mesmo” ou “putz, é verdade, putz, eu também” ou “caramba, cara, você é maluco” enquanto rio sem parar. Ele sempre começa a falar de algum assunto delicado como se ele fosse a pessoa mais rude e desrespeitosa que existe, então de repente ele dá uma volta e você entende que o assunto é só o pano de fundo para ele criticar pessoas mesquinhas, detestáveis e por aí vai. Eu sempre rio. Acho que o catálogo da Netflix tem três ou quatro especiais dele, incluindo um que saiu em 2017. Bill Burr também tem um humor parecido com o de Louis C. K., mas acho que ele consegue ser mais radical e ter mais cara de maluco. A Netflix tem dois dos dele. Por último, gostei muito do show da Chelsea Peretti, que eu só descobri na Netflix recentemente. Ri muito em um dia que eu estava bem gripada e sem forças para fazer o que fosse. Além da cara de maluca e da voz esganiçada, ela tem uma visão particular sobre relacionamentos e tem um jeito neurótico de ver as regrinhas de educação e convivência.

Comédias bizarras para quem quer maratonar

chewing gum

Chewing Gum

Ainda pensando em comédia, mas com um humor mais leve: duas séries curtinhas perfeitas para o feriado. Chewing Gum é uma série inglesa escrita e protagonizada por Michaela Coel. São duas temporadas com seis episódios cada e duração de uns 20 minutos. Eu pretendia assistir a um episódio, mas tudo era tão bizarro que quando notei já tinha acabado com a série. Tracey é a protagonista. Ela vive com a mãe e a irmã, duas fanáticas religiosas. Tracey é virgem e decidiu que já passou da hora de isso mudar. As situações são hilárias e todo o elenco é carismático, não tem como não rir. Uma outra série com uma protagonista descarada é Haters Back Off. Protagonizada e escrita por Colleen Ballinger, a série bebe na fonte de Napoleon Dynamite: gente louca e sem  noção do ridículo, situações embaraçosas, essas coisas que a gente adora. Miranda Sings acha que é a pessoa mais perfeita que já existiu no mundo. Sua aparência, sua voz, sua família, tudo está ali para mostrar que ela é o oposto do que pensa ser. Quanto mais ela pensava que estava sendo plena, mais era desprezível. Tudo é muito absurdo, o elenco todo é excelente.

Séries fofas sem compromisso com a realidade

dramaworld

Dramaworld

Se você não gosta de comédias escrachadas, também há duas séries muito fofas e com um pé (ou os dois) no surreal. Dramaworld é uma minissérie norte-americana e sul-coreana. A protagonista vive em Los Angeles e é obcecada por novelas coreanas. Um dia ela entra no mundo da sua novela preferida e aí está a história: ela vai viver todas as aventuras junto com os protagonistas coreanos. Achei bem fofinha e é legal para quem quer entrar no mundo do K-drama. Ainda pensando em novela: Jane the virgin. Se você gosta de muito drama e cenas incoerentes (e já viu Rubi, Maria do Bairro, Marimar) vai amar Jane the Virgin. Eu falei da primeira temporada bem no início do blog, e posso dizer que a série da CW já está na terceira temporada e continua firme e divertida.

Clássicos para quem não pretende cochilar

o rei da comédia

O rei da comédia

É considerado ofensivo cochilar durante um clássico? Não, né? A Netflix é um convite ao soninho, mas a autoestima dá uma travada se a gente se dispõe a ver um filme que todo mundo considera obrigatório e dorme. Por isso, se você não quer ver nada muito leve e tem dormido oito horas por dia, eu posso te indicar dois filmes que são clássicos do cinema, mas que andam meio esquecidinhos, sem conquistar novos corações. Amadeus, que foi um dos melhores filmes que eu vi em 2016, é longo, lento e primoroso. Fiquei feliz de encontrá-lo no catálogo da Netflix. O outro é o meu preferido do Martin Scorsese: O rei da comédia. Estrelado por Robert De Niro, o filme é divertido e angustiante, com passo de thriller. Quer dizer: se você dormir, vai ficar chato. Robert De Niro é um fã louco de um grande comediante interpretado por Jerry Lewis, e será capaz de tudo para se aproximar de seu ídolo. Eu tenho a impressão de que O rei da comédia não é tão badalado quanto outros sucessos da dupla Scorsese e De Niro, o que me deixa um pouco indignada e confusa.

5 filmes estimados na medida exata em que merecem ser estimados (na minha opinião, é claro)

Listas de superestimados e subestimados são superestimadas. A moda agora é namorar pelado. Mentira: a moda agora é listar cinco filmes estimados na medida exata, certinha, em que eles merecem ser estimados. Já me aconteceu de começar a ver um filme e pensar que o mundo inteiro estava sendo injusto com ele, ou que era não é possível que o mundo inteiro tenha visto aquela joia e deixado para lá. Uma hora e meia depois, a revelação: ah, sim, pois é, esse aqui foi ruim mesmo, não me espanta que ninguém dê bola. Também tem o contrário, que é quando eu chego no sofá com aquela birra contra tudo, contra o diretor, contra o mundo, mas aos poucos tenho que dar o braço a torcer porque aquele ali é bom mesmo e merece todos os elogios que já ganhou.

Num dia desses eu estava no litoral, totalmente relaxada curtindo o calor num sofá cujo forro gruda nas costas, e o meu muito digno marido colocou para tocar um álbum da banda Silverchair, aquela. Nos primeiros 6 ou 8 minutos, transportada para o começo dos anos 2000, eu fiquei pensando em como todo o mundo havia injustamente deixado o Silverchair para trás. Dali a pouco, talvez também pelo calor, com a voz sorumbática de Daniel Johns no ouvido, eu me dei conta de que não faz mal que o mundo tenha guardado essa banda num potinho de semi-esquecimento. Nessa hora eu pensei: tem coisa que não é nem subestimada nem superestimada, tem coisa que é estimada na exata medida em que merece ser estimada.

1) QUALQUER FILME DE YASUJIRO OZU SERÁ BOM

bom dia ozu

Eu confesso que resisti. Não é todo dia que eu acordo querendo encarar um filme preto e branco de 1949, por exemplo. Por sorte, ao contrário do que se fazia, na minha época de ensino médio, com a literatura brasileira, ninguém me obrigou a sentar e prestar atenção nos filmes de Yasujiro Ozu. Eu comecei naturalmente e no meu ritmo. E eu comecei bem. O primeiro que vi foi Bom Dia. Tive que dar o braço a torcer. É japonês, é velho, eu não consigo aferir se a legenda está batendo com o que os atores falam, mas não tem nem como começar a dizer que Ozu não é tudo aquilo que dizem que é.

2) THE NEON DEMON É RUIM MESMO

the neon demon

Gostei de Drive, que foi o filme que deixou Nicolas Winding Refn na crista da onda. Defendi Only God Forgives, quando o caldo começou a entornar, porque acho que peguei o espírito da coisa. Quando eu soube que The Neon Demon havia sido bem vaiado em Cannes, já fiquei com a história pronta na minha cabeça: esse também deve ser bom, mas agora o pessoal já pegou implicância. Fui ver sem medo de ser feliz e deu tudo errado. O filme traz uma crítica muito ralinha ao culto à beleza e às celebridades, tão ralinha que às vezes esbarra na bobeira. Tem tomadas lindas, como todo mundo disse. Isso é verdade. Só que a história tem uma solução que só pode ter sido feita no piloto automático, e aí eu fiquei com a sensação de que o filme não tinha nem o direito de querer ser visualmente bonito. Peguei implicância. O tomatômetro no Rotten Tomatoes é de 57%. E é mais ou menos isso que The Neon Demon merece.

3) EU TAMBÉM ACHO QUE BIRDMAN É ESQUECÍVEL

birdman

Eu não tenho como provar esse consenso com números. É só uma sensação de consenso. Será que eu me fiz entender? Eu me lembro de ter achado Birdman razoável na época do lançamento. Acho até que eu nem tinha um favorito no Oscar daquele ano. Boyhood, talvez? Eu acho também que foi o Marcelo Hessel, do Omelete, quem disse que havia uma falsa profundidade na crítica de Birdman aos filmes de super-heróis. Foi o que eu pensei em 2014. De lá para cá, li uma meia dúzia de textos que diziam que os filmes premiados nos últimos anos são esquecíveis. Não dá para discordar disso. Spotlight tem o Oscar de melhor filme de 2015. Ninguém quer saber. Não acho que Birdman ou Spotlight vão ganhar culto nas próximas décadas. O filme de Iñárritu fica aqui como um símbolo desses muitos que geram bafafá e prêmios, mas que acabam morando num fundo de prateleira da Saraiva por toda a eternidade (com cada vez menos seeders no torrent, melancolia pura).

4) O ROBOCOP DO JOSÉ PADILHA NÃO SERVE PRA NADA.

robocop

Mas é bom? Não. No Rotten Tomatoes tem 48%; no Metacritic, 52 de 100; no Filmow, 3,3 de 5. O público não foi à loucura, mas não tem problema. Às vezes parece que é só uma produção fazer 50 dólares de lucro que o estúdio já se dá por satisfeito, mas não é esse o assunto. Às vezes um diretor pega uma tarefa muito ingrata. Eu fico pensando que o J. J. Abrams foi um milagreiro quando fez aquele Star Wars de 2015. Tinha muita coisa em jogo e ele conseguiu levar o barco do ponto A ao ponto B sem quebrar tudo no meio do caminho. Quanto ao José Padilha, o projeto que caiu na mão dele já estava condenado de antemão. Robocop não precisava de um remake, ninguém clamava por um. E talvez a pior qualidade de um remake seja a apatia. Esse Robocop de 2014 foi assim: não queria muita coisa e não se dispôs a ser um filme bizarro como é o de 1987. Desagradou. Eu pensei que não era possível. Olha o Tropa de Elite: Padilha fez um blockbuster de ação americano em português, todo transcrito numa linguagem que o grande público brasileiro entende e reconhece. Eu juro que, quando ele foi anunciado num blockbuster gringo, eu esperava uma obra-prima. Mas não: jamais vou poder resgatar Robocop numa conversa, não vai dar para dizer que ele é subestimado.

5) THE END OF THE TOUR É QUASE BOM

the end of the tour

Deste as pessoas gostam. É um indie sobre o falecido David Foster Wallace. O cinema americano tem uma relação complicada com escritores famosos. Tem muita afetação na hora de interpretar aquelas figuras que ganham alcunha de gênio para cá, de voz de uma geração para lá. De um filme com Jesse Eisenberg e Jason Segel, sobre um autor que intumesce muito homem crescido, eu esperava um sem número de constrangimentos e de clichês sobre mentes atormentadas. Não foi o caso. Até que a atmosfera era de pé no chão. Jason Segel se conteve e seu esforço não parecia o de alguém desesperado para se afirmar como bom ator. O filme é quase bom, tem um clima dos anos 1990 e tudo. Não deixou muita gente eufórica, não deixou muita gente rolando no chão para aplacar a raiva.