Uma lista para quem quer ter um caso de amor com o Japão

Ano passado foi o ano do Japão e dos animes para mim. Foram muitos filmes e séries com aquele olhar especial e delicado dos japoneses. Acho que todo mundo que dá uma chance aos animes não consegue mais se desprender e, para te ajudar nisso, se você está com vontade de dar essa chance, eu escolhi alguns animes comoventes e capazes de encantar qualquer tipo de gente. Se você conhece bem tudo o que vem do Japão talvez ache a lista bem óbvia, mas calma: estamos apenas começando.

Crianças Lobo – Wolf children

wolf children

A história é linda e fala sobre o amor, principalmente o amor de uma mãe. Hana se apaixona por um homem que se transforma em lobisomem. O sentimento é recíproco, eles casam e têm filhos. Uma complicação é que os filhos também herdaram a condição do pai: ora são crianças fofas, ora lobinhos inquietos. Os problemas começam quando Hana se vê sozinha cuidando de suas duas crianças com necessidades que ela não compreende. A jornada dessa família é incrível, e muito mais profunda do que a premissa pode fazer parecer.

Koe no katachi – A silent voice

a silent voice

Shouko Nishimiya é uma menina que sofreu bullying por ter uma deficiência auditiva. Depois de alguns anos ela reencontra o garoto que mais a atacava na escola e uma amizade surge. O filme é delicado e trata de questões sérias do jeito que só os japoneses conseguem: com sutileza nos momentos pesados e pouco sentimentalismo.

A garota que conquistou o tempo – Toki o kakeru shôjo

a garota que conquistou o tempo

Um dos temas preferidos dos japoneses: o tempo. Makoto Konno é uma garota cheia de energia que vive atrasada. Um dia ela descobre que tem o poder de viajar no tempo. Com essa capacidade em mãos, ela usa e abusa do recurso, até que, claro, as coisas começam a sair de seu controle. Filme fofo com romance para ninguém reclamar.

Cinco centímetros por segundo – Byôsoku 5 senchimêtoru

5 centimetros por segundo

O filme é dividido em três partes, todas sobre o relacionamento de Takaki e Akari. Eles sempre foram muito próximos um do outro, mas o destino os afasta quando Akari precisa se mudar para outra cidade. Será que eles se reencontram? Ficam juntos? O legal das animações japonesas é que a expectativa de alguém que se acostumou com o cinema americano pode ser quebrada sem qualquer aviso prévio.

Sussurros do coração – Mimi wo sumaseba

sussurros do coração

O filme mais antigo da lista (1995) é também o mais fofo. A história é sobre a vida de Shizuku e sobre os desencontros e problemas de uma jovem. Shizuku se apaixona por um menino que ela não conhece, mas que já havia lido todos os livros que ela decide pegar na biblioteca. Sempre que ela vai pegar algum emprestado, o nome dele está lá marcado na fichinha. Shizuku é indecisa e curiosa, e isso às vezes traz problemas e às vezes a ajuda. Eu te desafio a ver esse filme e não se apaixonar pela música Take me home, Country Roads cantada em japonês.

Kimi no na wa – Your name

kimi no na wa

Por último o anime mais especial para mim. O único com texto no blog. A história de amor mais encantadora e graciosa que você vai ver. Um dia ele acorda e lembra que sonhou com ela, e ela sonha que viveu na pele dele. Eles vivem em cidades diferentes e não se conhecem. Um cometa passa e as coisas começam a fazer um pouco de sentido. Ai, o amor é lindo.

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Meus melhores filmes de 2017

O Natal passou e aqui no blog voltamos com a nossa programação normal: que é nenhuma. Mentira, a programação é ter texto não importa quando. Hoje eu trago a minha listinha dos melhores filmes que eu vi no ano de 2017: os ganhadores do Baby de Ouro. Talvez eu ainda veja algum filme tão bom que mereça entrar nesta lista, já que o dia de hoje não parece nem um pouco verão e é claro que vai acabar me fazendo ver um filminho. Lembrando que não há nenhuma ordem de preferência.

Depois da Tempestade, de Hirokazu Kore-eda

Foi um dos primeiros filmes bons do ano. Eu gostei tanto que escrevi um texto até meio longo sobre ele aqui.

Christine, de Antonio Campos

Tem filme que empolga ou emociona, mas também tem aquele que perturba. Foi o caso de Christine. A história é sobre o caso real da jornalista que se suicidou com um tiro na cabeça enquanto apresentava ao vivo o jornal da noite. O caso é chocante, mas o filme conta os últimos dias de vida de Christine de um jeito muito simples, interessado apenas em nos fazer sentir a agonia que ela sentia. É bem angustiante. Demorou dias para sair da minha cabeça.

Margaret, de Kenneth Lonergan

Anna Paquin está ótima neste filme. Ela é uma garota jovem e egocêntrica que, sem querer, causa um mal terrível. A história fica centrada no tormento em que ela transforma sua vida e a das pessoas que a rodeiam porque ela decide que só há uma verdade, só um ponto de vista sobre o que aconteceu. Acho que não é um dos filmes mais fáceis de se pegar o espírito: Margaret trata de amadurecimento e de aprender a enxergar os outros.

Manchester à Beira-Mar, de Kenneth Lonergan

Outro filme do mesmo diretor de Margaret na lista dos melhores. Eu escrevi um texto sobre ele aqui, contando mais da história e do que eu senti. Michelle Williams é muito, muito boa atriz.

O Apartamento, de Asghar Farhadi

Filme iraniano e da mesma época do Oscar. O Apartamento é tenso e te deixa na ponta do sofá querendo saber o que vai acontecer até o fim. Mas fora a tensão que rola o tempo todo ele também examina a mulher e o seu papel em um país como o Irã. Vale muito a pena.

Uma Noiva para Rip Van Winkle, de Shunji Iwai

Outro filme que analisa o momento do seu país, mas aqui é o Japão e os seus relacionamentos (ou a falta deles). Uma garota solitária decide conhecer outras pessoas através de um site de relacionamentos e isso é só o começo de uma longa aventura. Filme longo e lindo, repleto de poesia. É bom assistir depois de tomar um balde de café porque o filme dura mil horas.

Vítimas da Tormenta, de Vittorio de Sica

Acho roubo colocar um clássico na lista, mas seria impossível que Vítimas da Tormenta (ou Sciuscià) não entrasse aqui. Um filme do neorrealismo italiano que fala sobre a infância perdida e sobre o drama que o país vivia no pós-guerra. Escrevi sobre o filme aqui.

A Ghost Story, de David Lowery

O melhor filme sobre fantasmas que você vai ver. Uma história de amor, perdas e pertencimentos. Uma fábula da vida e da morte e do ser humano. Difícil falar de um filme tão especial em poucas palavras. Por filmes assim é que eu continuo vendo tanta porcaria: nunca imaginaria pela sinopse e pelo poster que A Ghost Story seria tão profundo.

Desamor, de Andrey Zvyagintsev

Se você quer chorar e sentir que não há esperança na humanidade veja esse filme. Bom, acho que essa não é a melhor propaganda. Desamor é a história de um menino russo que se sente sozinho com a separação dos pais. Ele tem motivos para pensar assim, seus pais realmente não se importam com ele, todo o sentimento deles está centrado no ódio e desamor de um para outro. O menino, Alyosha, some ou foge, e seus pais finalmente vão ter que se unir para encontrá-lo. Como eu disse no início, não espere que assim os pais aprendam uma lição e todos vivam felizes para sempre. Afinal de contas, o filme é russo, não americano. É triste, mas vale muito pela reflexão.

Bom Comportamento, dos irmãos Benny Safdie e Josh Safdie

Um thriller perfeito do começo ao fim. Imagine um filme de ação, com tomadas longas mas ágeis e um protagonista de caráter duvidoso, mas firme no seu propósito. Este é Bom Comportamento. Com poucos diálogos a história é contada de forma direta, sem se perder no lugar-comum e sem mensagens mastigadinhas e pré-fabricadas. Ah, e ainda tem o Robert Pattinson mostrando que ele é sim, um talentosíssimo ator. Vale lembrar que ele também roubou a cena em Z – A cidade perdida.

Alguns documentários e a minha necessidade de montar listas

Daqui a pouco começam as listas de fim de ano. Eu estou preparando as minhas. Foi muito bom fazer as do ano passado. Mais do que dizer o que vale ou não vale a pena, o proveito que eu tiro desse balanço é poder ver, com um mínimo de distância, o que é que chamou a minha atenção, quando, e que relação isso vai ter com as outras coisas que eu li e assisti durante 2017. Dá pra criar uma espécie de mapa dos meus interesses (ahaha). É um hábito que eu recomendo muito.

Eu acabei deixando algumas coisas de fora quando separei os melhores filmes que vi em 2016. A ausência mais sentida (por mim, é claro) não foi a de um filme em especial, mas a de um gênero. Acabei não falando dos documentários. E eu tenho um fraco por documentário. Com exceção de Faces da Morte e que tais, sou capaz de ver qualquer coisa sobre qualquer tema ou pessoa. Expresso imensa curiosidade sobre assuntos pelos quais nunca me interessei, e isso acaba produzindo alguns caminhos difíceis de explicar lá no tal “mapa dos meus interesses”.

rocco netflix

Em 2017 eu gostaria de saber, por exemplo, o que foi que me fez assistir a Rocco, o documentário sobre a vida e o trabalho do ator pornô italiano Rocco Siffredi. O que eu percebi é que Siffredi é uma das pessoas mais vaidosas sobre as quais qualquer um já apontou uma câmera. Então quer dizer que o filme é ruim? Muito pelo contrário. Quando o personagem principal é quase louco, tamanho o seu ego, não tem como o documentário ser desinteressante. Eu queria ver um documentário sobre os bastidores da indústria pornô (assim como Hot Girls Wanted) mas acabei acompanhando um filme sobre gente obsessiva e desequilibrada.

Falando em obsessão e desequilíbrio, na mesma madrugada eu vi Gaga: Five Foot Two, o documentário da Lady Gaga. Eu acho que posso dizer que eu tinha sentimentos neutros a respeito dela. Nunca parei para ouvir um álbum, mas também nunca pulava quando uma de suas músicas começava a tocar. Eu tenho todo um respeito por quem faz sucesso nesse nível planetário da Gaga, e as histórias por trás desse tipo de sucesso nunca decepcionam. Quase nunca. Quer dizer: eu tenho certeza de que Lady Gaga não virou Lady Gaga sem ter virado o mundo de cabeça para baixo, mas Five Foot Two não trata exatamente disso. Até aí tudo bem. O problema é que estamos falando do rei de todos os documentários de egotrip. Ridiculamente reverente a sua personagem principal, todo supervisionado por ela (mesmo que ela negue, fala sério!), Five Foot Two mostra meio sem querer uma cantora cheia de si, falando platitudes como se fossem pílulas de sabedoria, tentando fazer o espectador acreditar numa ideia romântica e velha daquilo que é arte e do papel que os artistas têm no mundo. O filme é tosco e piegas e abusa de uns recursos visuais toscos e piegas, e ainda por cima acredita firmemente em tudo o que ela fala, sem ironia aparente. Five Foot Two deixa a desejar na investigação que faz a respeito de Gaga. Eu espero que este não seja visto como o documentário definitivo a respeito dessa figura mais ou menos central da cultura pop dos últimos anos, porque caso contrário a gente vai começar a confundir documentário com vídeo institucional.

Mas por que tratar, numa pré-lista de fim de ano, de um filme que mais me deixou com raiva do que outra coisa? Não sei. Talvez para recomendar que você também veja ambos, Rocco e Five Foot Two, na mesma noite, prestando atenção nas semelhanças entre o ator pornô e a diva pop.

Além desses eu também vi Eis os delírios do mundo conectado, que não está entre as melhores coisas que o Werner Herzog já fez.

bright lights

O primeiro documentário digno a entrar numa lista de melhores do ano foi Bright Lights, sobre as espetaculares Carrie Fisher e Debbie Reynolds. Nunca fui fã de Star Wars, mas isso não me impediu de gostar da Carrie Fisher. A mulher era o carisma em pessoa. O documentário, no que diz respeito a tratar de seus personagens principais, era o exato oposto daquele da Lady Gaga. Bright Lights mostrou com honestidade que Fisher era bem difícil. Expôs os defeitos dela, que se abriu sem muita reserva, e foi fundo na relação entre mãe e filha. Olhando agora, e comparando a franqueza de Carrie Fisher com as poses de Gaga, dá para dizer que Five Foot Two mostrava a “humanidade” de Gaga do mesmo jeito que um candidato a uma vaga responderia, numa entrevista de emprego, que seu maior defeito é ser “perfeccionista e muito organizado”. Já Bright Lights passou longe da reverência imoderada, mas fez um perfil doméstico da mãe e da filha, recapitulou duas vidas passadas diante das câmeras e mostrou o que é que sobra disso bem quando estava todo mundo em choque com as mortes tristíssimas das duas. É um filme interessado em mostrar um retrato familiar e deixar o espectador formar uma opinião, em vez de carregar você pela mão para mostrar quão poderosa uma celebridade é.

Olhando agora: o que foi que me fez querer ver Bright Lights, que eu já imaginava ser muito triste? Não sei. Acho que eu fui atraída pela tragédia. Carrie Fisher morreu depois de um tempo no hospital; Debbie Reynolds já estava fragilizada, não aguentou o baque e morreu. Mas me recuso a pensar que fui atraída pela tragédia como seria se estivesse lendo uma revista de fofoca ou fazendo um comentário maldoso. Por minha própria experiência com a minha mãe, acho que há com frequência uma espécie de simbiose entre mãe e filha. Acho que foi a imersão nesse relacionamento que me interessou, acho que foi isso o que me tocou em especial.

Que mais? Se essa fosse uma lista dos melhores documentários que eu vi em 2017, e se eu tivesse algum insight a respeito do racismo em solo norte-americano, eu teria que falar sobre I am not your negro. É revoltante, como não poderia deixar de ser, e é especialmente poderoso porque conta com a inteligência de James Baldwin – sua voz, sua vida, e o que ele tem a dizer. Além do mais, esse filme é muito bem editado, montado, roteirizado ou o que o valha. Tanto assim que ele empalidece outro doc da mesma época, e com o mesmo tema, que é aquele A 13ª Emenda.

Para engatar no ativismo político americano do século XX, só para ter um gancho, eu também assisti a American Anarchist. Outro perfil bastante complexo, este aqui conta a história do sujeito que escreveu The Anarchist Cookbook, aquele livro que ensina qualquer leigo a preparar uma bomba caseira (utilizado, por exemplo, pelos assassinos de Columbine). Onde é que esse filme se situa no “mapa dos meus interesses”? Não sei. Eu poderia dizer que me interesso especialmente por Columbine e assassinatos de massa desde esse texto aqui, mas acho que meu marido escolheu nesse dia e eu estava com preguiça de sugerir alguma outra coisa. Não sei. Vale a pena? Sim. Eu me lembro de ficar pensando “gente, as voltas que a vida dá” a cada cinco minutos.

Caramba, cheguei a 1201 palavras no parágrafo anterior. Ninguém vai ler isso, nem por interesse nem por bondade. Vou encerrar com algumas sugestões, no estilo bate-bola/jogo rápido da Marília Gabriela (entregando a idade). Um documentário para pensar que só tem abobado no mundo? Extraordinary – The Stan Romanek Story; um documentário para pensar que o tabu mata e deixa a gente infeliz? Whitney Houston – Can I Be Me; outro documentário que foi muito menor que a figura que o inspirou? Laerte-se; um documentário para matar saudade do Jerry Seinfeld? Comedian; um documentário para fazer diminuir um pouco a sua inveja dos japoneses e a sua vontade de morar no Japão? Tokyo Idols.

(Lembrando que este não foi um post com uma lista de melhores do ano. Todos esses documentários foram becos sem saída no “mapa dos meus interesses” [gente, que termo ridículo!].)

Dois anos de blog e uma comemoração contida

adorariaNesta semana o blog comemora dois anos de vida (eu acho que é nesta semana, mas é em setembro sem dúvida!), e como o negócio aqui é meio parado, não teremos sorteios, brindes, nem nada dessas coisas que os blogs legais têm. Ano passado, como comemoração, eu expliquei no post de aniversário a origem do nome do blog, mas agora já queimei esse cartucho e não consegui pensar em nada assim tão legal. Por isso resolvi apenas falar das últimas coisas que andei lendo e assistindo. Ok, eu sei que para isso nem precisava avisar do aniversário, mas deixar passar em branco também não é do meu feitio.

Tudo bem. Eu andei lendo alguns livros bem legais, assistindo a muita série ruim (e a outras boazinhas) e poucos filmes que valeram a pena. Não tenho tido tempo de ir ao cinema, por isso tenho vivido na ilegalidade. Sempre acho que um dia o governo vai me pegar e meu azar vai ser tão grande que eles vão querer me fazer de exemplo: cadeia nela!

Minha meta de leitura de 2017 está indo bem graças a um novo método: eu agora calculo antecipadamente quantas páginas preciso ler por dia, durante o mês inteiro, e anoto num papel (que acaba virando marcador) as datas e as páginas a que tenho que chegar a cada dia. No momento estou lendo No caminho de Swann e minha média é de 15 páginas por dia, um número perfeito para ler bem de manhãzinha antes de começar a labuta. Com o mesmo método eu terminei Vida e destino, Doutor Jivago e Todos os Contos da Clarice Lispector. Fico feliz com esse método porque finalmente estou dando conta de ler a meta sem me embananar com tudo o que me aparece fora dela. Parece neurose, mas facilita muito e me ajuda a ter constância.

Só que minhas últimas leituras não foram clássicos. Continuo lendo Outlander e sigo atrasada com a infinidade de livros da série. Terminei Os tambores de outono – Parte 1, mas a segunda parte ainda me espera. Me empolgo só de olhar a pilha de livros aqui de casa e saber que ainda tenho muito a aproveitar na companhia de Claire e Jamie. Também li dois thrillers bem bacanas: O casal que mora ao lado e Por trás dos seus olhos. O primeiro é curtinho e traz o suspense do desaparecimento de um bebê que fica sozinho em casa enquanto os pais jantam na casa ao lado. Dá para ler em uma sentada e, mesmo que não tenha um fim tão surpreendente, nos deixa ligados do começo ao fim. O segundo livro é um pouco mais longo e narra a história de uma mulher que fica amiga da esposa do chefe. Acontece que ela teve um flerte com ele (beijou o sujeito, para falar a verdade). O fim é bem louco, mas bem diferente, e me deixou de queixo caído. No Skoob quase todo mundo que leu ficou da mesma forma.

Animada com esses dois acabei lendo outros thrillers bem ruins: Um pequeno favor e A desconhecida. Os dois contam histórias de mulheres mentalmente perturbadas e desinteressantes. Também li (finalmente!) Agora e para sempre, Lara Jean e Mr. Romance. Ambos foram bem fofos.

mike and harvey

Mike e Harvey lindos

Agosto e início de setembro são sempre meio parados para as séries de televisão, mas mesmo assim encontrei algumas interessantes. Comecei a ver Suits sem acreditar que investiria muito do meu tempo, mas agora estou viciada em Mike e Harvey. Esses dois eu shippo muito (e acabo de descobrir que já existe um nome para o ship deles: Marvey). Falando em shippar, terminei por estes dias a segunda temporada de Animal Kingdom e, se na primeira temporada eu não tinha certeza de que a série iria vingar, a segunda temporada veio para me dizer que sim, os meninos Cody são especiais e merecem ser acompanhados. Pena que são apenas 13 episódios.

jessica biel the sinner

Jessica Biel em The Sinner

Quanto aos suspenses, se eu não gostei de Mr. Mercedes, The Sinner foi bem diferente. Tem a Jessical Biel e o Bill Pulman. O piloto da série me surpreendeu por um evento que pareceu muito aleatório (não dá para ser mais específica sem estragar tudo), mas que foi bem costurado nos outros sete episódios. Strike, aquele da J. K. Rowling, estreou e já acabou (foi tudo muito rápido mesmo) em apenas cinco partes. Uma terceira temporada vai chegar em 2018, mas os capítulos são tão curtos que sinto que, se eu não tivesse lido os livros, não teria entendido coisa nenhuma. Mas a música da abertura é ótima! (só que não vale a pena assistir só por isso, dá para ver a abertura pelo Youtube).

Nas últimas semanas comecei a assistir a The Deuce, que parece bem promissora. É do mesmo criador de The Wire (de que meu marido tentou me fazer gostar, sem sucesso) e tem no elenco James Franco e Maggie Gyllenhaal. A série é lenta e talvez entusiasme mais os fãs de cinema do que os de televisão, mas ainda é cedo para tirar conclusões. Liar e Star Trek: Discovery são outras duas que comecei a assistir por esses dias e ainda não sei aonde vão chegar. Por enquanto foram dois episódios de cada, vale acompanhar mais um pouco.

Ultimamente os filmes estão meio ausentes dos meus dias. Sempre tenho que escolher à noite entre livro, filme e série e os filmes têm levado a pior. Mas eu vi Baby Driver que foi muito bom, cheio de ação e com cenas de carro melhores que as de Velozes e Furiosos (mentira, não posso comparar; nunca vi a franquia do Vin Diesel, que todo mundo ou ama ou odeia). Também vi The Big Sick, uma comédia romântica que tinha tudo para ser boa mas se perdeu na baboseira de tentar dar um final feliz (e chato) para todo mundo.

Bom, o post de comemoração é este. Não parece muito comemorativo, mas estou bem feliz de ter um cantinho há dois anos para falar das minhas paixões mais antigas. Para celebrar um pouquinho mais, segura esse vídeo do Johnny Castle ensinando a Baby a dançar:

5 Filmes sobre o amor e o tempo

Quem não gosta de viagem no tempo? Eu sei que não deveria abrir o texto com uma pergunta que pode suscitar uma resposta negativa, tipo “eu não gosto, sua chata”, mas a quantidade de filmes a respeito de viagens no tempo ou confusões entre passado, presente e futuro já dá um boa medida do tamanho do interesse que todo mundo tem por isso. Eu adoro e sempre me pego pensando nos e se. E se nós tivéssemos oportunidade de ir para a frente ou voltar atrás? Assim ou assado? E se a minha escolha naquela época fosse outra? E se eu não tivesse conhecido tal pessoa? Na ficção científica e nos filmes de passado alternativo, o tema é explorado até que se encontre um futuro aterrador ou uma oportunidade que ficou perdida na passagem das épocas.

Acho que já existem muitas listas com filmes de viagem no tempo falando sobre a humanidade, seu fim e seus propósitos. Por isso resolvi fazer minha listinha pessoal de filmes que usam o tempo para brincar com o amor e/ou vice-versa. Foi uma surpresa perceber que muita coisa se encaixaria na categoria. Alguns estavam na memória afetiva, bem guardadinhos há um bom tempo. Resolvi revê-los pensando no post… e novidade: na vida real, muitas vezes o passado deve ficar no passado, assim como Vanilla Sky e Meia-noite em Paris, que agora me pareceram bem bobos. Outros são apenas ruins, como acontece com A Casa do Lago. Os que sobreviveram ao tempo entraram na lista.

Boku wa Ashita, Kinou no Kimi to Date Suru

Dois apaixonados que precisam lutar tanto contra o passado quanto contra o futuro. Recomendado para quem gostar de chorar. O casal se conhece no trem. Em pouco tempo eles estão namorando. As cenas são fofas e tudo parece avançar normalmente, mas logo descobrimos que o tempo presente de um não é o mesmo do outro. Eles vivem em mundos diferentes, e é como se uma fenda no tempo tivesse feito com que um encontrasse o outro. Agora o que é futuro para um, é passado para o outro e por isso o presente dos dois jamais se alinha. A princípio pode parecer confuso, mas a história é contada de um jeito simples e logo nós entendemos o drama. Adorei, torci e chorei.

Questão de Tempo ou About Time

Foi o primeiro filme que me veio à cabeça quando pensei nesta lista. Acho que se você gosta desse tipo de produção deve ter visto essa daqui, ou no mínimo deve conhecer a atriz. Rachel McAdams é a escolha número 1 dos romances com viagem no tempo (ela está em Meia-noite em Paris e em Te amarei para sempre), e acho que ela tem a cara da comédia romântica. A história aqui não é dela, mas ela fez toda a diferença.

Tim é um cara que descobre, em seu aniversário de 21 anos, que pode voltar para qualquer momento da sua vida. Se eu pudesse fazer isso, minha vida ia virar uma bagunça: eu iria querer voltar a toda hora para desfazer todas as porcarias que eu fiz. E acho que aconteceria o mesmo com todo mundo. É o que acontece com o Tim. Ele experimenta arrumar situações bobas e percebe que, se em um primeiro momento isso pode até dar certo, depois a vida vira uma confusão. Daí ele precisa frear a vontade de arrumar a sua vida e a daqueles que ama. Mary (Rachel McAdams) é a mulher por quem Tim se apaixona. O filme resolve o romance já em sua primeira metade, Mary nem é o foco principal, mas mesmo assim ela consegue emprestar graça para cenas que poderiam ser apenas repetitivas. A trilha sonora também é ótima.

Feitiço do Tempo ou Groundhog Day

Este é muito conhecido. Bill Murray é Phil, um cara chato e sem paciência para qualquer pessoa. Ele é um repórter do tempo arrogante que precisa viajar para uma cidadezinha e noticiar o Dia da Marmota, que é quando todo mundo para o que está fazendo para ver a marmotinha que prevê todo ano se vai haver nevasca ou não. Phil lembra muito Scrooge, da história de Dickens, um homem com temperamento difícil, e o filme tem também semelhança com aquela história. Ele fica preso no mesmo dia, o Dia da Marmota. No início ele aproveita os benefícios, mas depois, com o dia ainda se repetindo, ele percebe que está vivendo um pesadelo e é obrigado a tentar ser uma pessoa melhor. Bill Murray e Andie MacDowell formam um par inusitadamente fofo.

De Volta para o Presente ou Blast from the Past

Revendo este filme tive uma boa surpresa: nem todos os filmes despretensiosos envelhecem mal. De volta para o presente é uma opção típica de Sessão da Tarde, mas nem por isso é uma comédia romântica mais fraca. Adam (Brendan Fraser) é um homem de 35 anos que passou toda a vida com os pais num abrigo anti-bombas, pensando que o mundo havia acabado. Em 1995 ele finalmente põe a cara ao sol e, claro, vai precisar se adaptar. Quem vai ajudá-lo é Alicia Silverstone, a queridinha do mundo inteiro nos anos 90. Claro que vai rolar uma paixão. O filme brinca com as situações de um rapaz que parou no tempo no começo dos anos 1960 e tem a presença ilustre de Christopher Walken.

Kimi no na wa.

Já falei sobre o filme aqui. E agora o cito de novo para representar vários outros. É difícil escolher um anime que fale sobre amor e tempo, eu poderia citar uma dezena, mas estou guardando para outra lista. Brincadeiras com a linha do tempo são temas muito comuns dos animes românticos. Este daqui pode ser uma excelente introdução. Em Kimi no na wa ele sonha que está no corpo dela, ela sonha que está no corpo dele. Eles vivem longe, eles se amam, talvez eles nunca consigam ficar juntos. Um amor impossível. Não assistiu ainda por quê? – (só para terminar com outra pergunta que pode suscitar resposta mal humorada, tipo: “porque eu tenho mais o que fazer, sua chata”).

Então, esses são os cinco filmes. Mas aqui vão mais dois de lambuja: Camille Redouble, um filme francês (tipo um De repente 30 ao contrário), sobre uma mulher que acorda na adolescência e revive tudo com mais gosto ainda. Também tem Peggy Sue Got Married, também sobre uma mulher que acorda na adolescência e resolve fazer tudo diferente. A lista poderia continuar por um bom tempo.

Sciuscià é um filme de cortar o coração

vitimas da tormenta

Os meninos Giuseppe Filippucci e Pasquale Maggi engraxam sapatos. A situação econômica não é fácil. Giuseppe ajuda no sustento de casa, diz que o dinheiro não dá para nada. Pasquale já não tem família. Ele costumava dormir no elevador de um prédio, até que o zelador o descobriu e mandou embora. Os dois estão juntando dinheiro para comprar um cavalo. Só conseguem falar disso. Num lance de azar, injustamente, eles são presos e mandados a um reformatório.

Sciuscià, de Vittorio de Sica, é uma história de amadurecimento em meio ao caos do fim da Segunda Guerra na Itália. Na lista dos filmes mais tristes que eu já vi, três são de Vittorio de Sica. Umberto D.apareceu aqui no blog, e, falando com bastante sinceridade, eu nem tenho coragem de rever Ladrões de Bicicleta. Dá para imaginar, então, que o amadurecimento em Sciuscià não se constrói como aquela história feliz de final edificante. O título brasileiro (Vítimas da Tormenta) já entrega tudo. Se o mundo é horrível, amadurecer é ser apresentado a esse horror.

Mas o filme é muito lindo. Sem grandes introduções a gente se vê testemunhando o cotidiano dos meninos. Soltos em Roma, são eles que fazem as próprias regras. Ser criança e pobre nessa cidade não é muito mais que ser pequeno e frágil. Ninguém olha pelos dois. Nos primeiros minutos a vida na cidade acontece ao redor dos meninos. Os adultos andam de um lado a outro. Automóveis passam. Cada um cuida de seus afazeres. Nesse universo, Giuseppe e Pasquale parecem à vontade. A gente chega a pensar que eles sabem se proteger, que andam com desenvoltura entre tanta coisa que pode dar errado. Mas não é verdade: um pouco por inocência, um pouco por não terem nem chance num mundo em que todas as coisas são mais fortes que eles, os meninos vão parar no reformatório. E o reformatório tem toda a hostilidade das ruas de Roma, sem ter nada da liberdade.

Eu tenho que confessar que fui inocente e tive esperança. A coisa mais bonita da primeira metade de Sciuscià é que os meninos se gostam. Eles têm uma amizade verdadeira. Quando Giuseppe recebe um pacote com comida, enviado pela família, tudo o que ele quer é dividi-lo com o amigo que não tem ninguém. Mas o reformatório parece ter regras especialmente moldadas para que cada um cuide de si. A minha esperança de um final minimamente feliz foi embora quando eu percebi que o laço que unia Pasquale e Giuseppe estava ali para ser cortado, e que a principal ideia do filme era que nenhuma pureza vai sobreviver ao mundo. Não tem lugar para a amizade na hora em que é preciso pensar em si, não tem como manter a bondade quando todo o cenário (as instituições, todas essas coisas) está montado numa direção contrária. Em quase uma dezena de cenas de cortar o coração, os meninos vão se afastando até aquele carinho se transformar em inimizade.

O fim é mais trágico e mais cruel do que eu imaginava. Eu tinha me esquecido da desilusão com o ser humano, da revolta diante da pobreza, da falta de sentido da guerra, de todas essas coisas que definem o neo-realismo italiano quando alguém tenta defini-lo. Quando o menino Pasquale, depois de ter sido preso e conseguido fugir, de terem-lhe raspado a cabeça e metido num uniforme, chorou copiosamente e se desesperou, gritando “O que foi que eu fiz, meu Deus? O que foi que eu fiz?”, eu me perguntei se ele havia conseguido, afinal, ver de um ângulo privilegiado o tamanho da miséria em que se encontrava ou se a tristeza era só resignação diante da dor.

Sciuscià não é um filme para rever todo dia.

Z: uma oportunidade perdida

z a cidade perdida

A pessoa chata que leu o livro e não gostou do filme já é uma figura desprezada por todos. Eu detesto ser chata e não gosto que me desprezem, mas tenho que dizer que saí mais triste que confusa da sala de cinema em que vi Z: a cidade perdida, dirigido por James Gray. O livro eu resenhei aqui, no ano passado, quando não tive do que reclamar. Mas li tarde. A edição brasileira é de 2009. Se, mesmo com o meu atraso, eu consegui chegar a tempo de pegar o filme no cinema foi porque a produção demorou muito para dar vida à história do coronel Percy Fawcett.

Ao longo de alguns anos quem estava de olho ia recebendo notícias do andamento das coisas. Não é um bom sinal quando as novidades somem e ninguém faz questão de perguntar o que aconteceu com aquele filme prometido, mas Z saiu. E não é uma bomba. Nada do que me incomodou parece ser fruto de correria, improviso ou de intervenção de estúdio – essas coisas que em geral acontecem com produções problemáticas, como foi o caso de Esquadrão Suicida no ano passado. O meu problema é que eu e James Gray lemos livros muito diferentes.

O jornalista David Grann queria resolver um dos casos midiáticos mais célebres do começo do século XX. Na partida de Percy Fawcett para sua última expedição amazônica qualquer palavra que ele dissesse virava notícia. Quando, pelo passar dos anos e por falta de contato, ficou evidente que o explorador não mais voltaria, ventilou-se todo tipo de hipótese. Numa hora dessas o jornalismo e o público mandam o comedimento embora. O objetivo do livro de Grann era tirar o entulho que a imaginação popular colocou sobre a trajetória de Fawcett. Para isso ele foi até a floresta, investigou hipóteses, duvidou de testemunhos e chegou a um resultado seguro, embora modesto.

Quer dizer: que Fawcett morreu àquela altura não restam dúvidas, mesmo que as circunstâncias exatas da morte sejam desconhecidas. A última expedição entrou num território hostil e de lá não conseguiu sair. Muito bem. O bom é que Z, o livro, não tem só isso. Grann também faz uma boa investigação sobre a hipótese em que Fawcett apostava. Quanto à existência de uma civilização avançada na floresta amazônica, o livro é fascinante: para Grann, a cidade estava lá mas o explorador não tinha condições de encontrá-la porque estava procurando os sinais errados. Z não era toda de ouro, nem tinha edificações como as pirâmides do Egito, e assim o jornalista nos mostra que a antropologia do século XX conseguiu redescobrir a verdadeira grandeza da civilização amazônica, toda voltada para a adaptação ao ambiente hostil da selva. O misterioso desaparecimento do aventureiro vira um fio condutor. No lugar das infinitas possibilidades da imaginação (chegaram mesmo a dizer que o velho militar inglês havia encontrado Z e lá se transformado em líder espiritual), algumas probabilidades muito interessantes mas muito pouco místicas. Uma morte violenta. Um caminho errado. Exaustão. Fome.

z cidade perdida

Lindo até quando tenta ser feio

Já a história que James Gray conta poderia ser um reboot de Indiana Jones ou o começo de uma franquia nova, mas é muito difícil vê-la se passar por uma adaptação do livro-reportagem. O diretor busca mistério onde já não há, reposiciona gente de carne e osso, transforma um militar inglês famoso pela severidade em pai amoroso e marido compreensivo; e faz tudo isso a ponto de ameaçar a imersão no filme: aquela gente se parece muito com gente contemporânea que ocupa empregos liberais e pensa como progressista nos costumes – o que não é um defeito, de jeito nenhum, a não ser que o seu filme pretenda contar a história de gente que cresceu na Inglaterra imperial quando a Inglaterra imperial se gabava de ter controle sobre o mundo inteiro. Mas isso nem é o mais irritante. A atuação constrangedora de Charlie Hunnam também não é o que mais irrita, nem quando ele caminha com o mesmo remelexo malandro de seu personagem em Sons of Anarchy.

O que me tirou completamente do filme dirigido por James Gray foi o fato de ele ter andado tão na contramão do livro. O que Gray faz (lembrando que o roteiro também é dele) é uma espécie de mistificação bem ao estilo daquelas que motivaram o projeto de David Grann e a busca pelos fatos. O Fawcett deste filme termina sua jornada como uma espécie de peregrinador budista que encontrou a paz de espírito e resolveu compartilhá-la com o filho. Quando não agrada a resposta na história verdadeira, o diretor resolve ele mesmo encontrar a verdade ao abraçar uma espiritualidade banal. Não há nenhuma curiosidade pelo cenário, nenhum confronto entre o interior, que são as coisas que atravessariam a cabeça de um explorador inglês, e o exterior, que é a floresta. Eu fiquei mais atônita do que irritada, ainda, quando percebi que o diretor tinha pouquíssimo interesse pelos indígenas, que são a espinha dorsal do livro-reportagem. No cinema eles são absolutamente tudo o que o aventureiro gringo quiser. Tacape no meio do crânio não é uma opção, então, já que matar Fawcett pode ser uma reação raivosa à invasão de um território (o que provavelmente aconteceu, de acordo com Grann), James Gray tem uma ideia melhor: que tal se os índios forem assistentes em uma espécie de suicídio programado, o fim catártico de uma jornada de autoconhecimento?

Não bastasse o final bobo, o epílogo é inacreditável. Mas só para não terminar o texto num tom de muita raiva e frustração, eu preciso falar de Robert Pattinson. Ele interpreta o principal companheiro de Fawcett, num trabalho tão bom que deve ter feito, com certeza fez, o diretor pensar que escolheu o ator errado para fazer o protagonista. Diretor pateta. Charlie Hunnam como Percy Fawcett? Ah, vá.

Alien: Covenant é um filme da Marvel

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Eu tenho uma opinião impopular a respeito de Alien: Covenant: eu achei bom, gostei, me diverti. Ou seja, não só me diverti (o que pode acontecer mesmo que eu não goste do filme) como ainda por cima gostei (não saí ofendida nem destratada ou querendo o meu dinheiro de volta). Pra ser sincera, eu acho que mais gente se divertiria se essa não fosse uma franquia estabelecida, que tem um filme (Alien, o 8º passageiro, de Ridley Scott) considerado um dos maiores suspenses de todos os tempos, e outro (Aliens, o do James Cameron) em alta conta pelos fãs por ter sido um dos grandes blockbusters dos anos 1980.

Covenant quer realizar duas tarefas bem distintas. Por um lado, Ridley Scott tenta um resgate da importância da franquia. Por outro, ele quer fazer com que ela não fique restrita ao universo meio pequeno e sem grandes explicações dos dois primeiros filmes. Esses objetivos se contradizem porque o segredo do sucesso inicial de Alien era o bicho ser alienígena. Alienígena mesmo: não só uma coisa horrorosa vinda do espaço, mas um ser letal que era desconhecido em todos os aspectos, alheio, forasteiro, um corpo estranho. A princípio ele não era nem um vilão porque não tinha necessariamente vontade de matar, de fazer o mal, de montar uma tramoia. O monstro do primeiro filme era puro instinto de sobrevivência, a indiferença da natureza. Era necessário, sempre, que alguém morresse para que o bicho sobrevivesse e esse era o maior terror.

Claro que as sequências não mantiveram esse princípio. A primeira, dirigida por James Cameron, virou a história de uma operação de guerra. Soldadinhos contra o Alien, o Alien vence. Ainda não se falava muito a respeito de sua origem, mas o universo já se ampliara. Havia a corporação, dessa vez com mais sede de dinheiro; também a vida pessoal da tenente Ripley ganhou contornos mais pesados. Mas, tirando o instinto maternal da protagonista, as motivações eram todas bem vagas e James Cameron não perdeu tempo com elas. O que ele fez foi nos mostrar a tecnologia necessária para combater o bicho. A câmera presta atenção em naves, tanques, sistemas computadorizados, armas de mão, explosivos, robustas armas pesadas. Nada disso foi suficiente para parar o monstro, e por isso ele vai ficando mais poderoso. No primeiro filme, ele pegou todo mundo desprevenido. Agora, ele é uma ameaça séria e a força bruta chega a ser inútil. Ainda assim, ninguém liga para o lugar de onde ele veio.

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As próximas sequências pouco acrescentaram à mitologia. Alien 3, o de David Fincher, tentou começar do zero e não teve graça;  Alien: Resurrection, o de Jean-Pierre Jeunet com Winona Ryder, foi uma perdição tão grande que conseguiu enterrar a franquia. Isso foi em 1997. Vivemos a década de 2010 e sabemos que hoje em dia ninguém pode deixar uma marca morrer. Em 2012 o próprio Ridley Scott trouxe ao mundo o quase interessante e bem decepcionante Prometheus. Foi nessa hora que as duas tarefas distintas começaram a entrar em contradição. O espírito do filme original requer mistério, mas o espírito das produções atuais requer elaboradas explicações, mitologias, teorias, assunto para as redes sociais. Talvez essas duas pontas não sejam necessariamente opostas, mas vê-se que Ridley Scott está tendo dificuldades em conciliá-las.

A Covenant é uma nave que leva mais de duas mil pessoas a outra vizinhança do universo para colonizar lá um planeta. Não tem nem o período de calmaria antes de o problema aparecer: a tripulação já acorda de um hiper-sono com um mau funcionamento no sistema. Tem uma urgência, tem morte, luto e o passo seguinte, como só cientista de blockbuster consegue fazer, é mudar absolutamente todos os planos, ignorar qualquer resquício do protocolo e partir para a improvisação total.  O que pode dar errado quando se pousa em um planeta desconhecido que nem estava nos planos? O esqueminha começa a funcionar e aquelas pessoas bem treinadas e de boas intenções morrem pelo bem do nosso entretenimento. Essa era uma das graças da franquia, e nesse sentido Covenant não decepciona. As mortes são horríveis, uma delas memorável, mesmo que a burrice geral e a falta de sentido nas reações de personagens tire uma parte da graça e coloque indignação no lugar. Ainda quando estão aparecendo os primeiros resultados do contato com o organismo destruidor (que, se eu entendi bem, é uma versão beta do monstro original) o filme toma outro rumo. Dali em diante não vamos só aproveitar a matança, vamos em busca de respostas.

E se a gente se concentrar nas respostas, o filme fica bem bobo. Estou acostumada a produções que tratam o espectador como idiota, mas nesse caso a falta de respeito chegou a um nível a que não se chega todo dia. É verdade que sem decisões irrazoáveis a gente não tem história. Se tudo funcionasse bem, não haveria filme e os tripulantes estariam em casa tomando um golinho de chá e olhando a chuva. Mas Covenant abusa da gente porque tudo o que acontece depende muito de burrice de todas as partes. Os personagens têm que ser burros, e aí quando o filme quer defendê-los acaba ficando burro junto. Quem está assistindo também precisa ser burro para engolir com uma cara séria as ladainhas filosóficas que saem da boca do ótimo Michael Fassbender, mas a certa altura eu tive a impressão de que quem estava errada era eu.

Antes de sair de casa eu li duas críticas, ouvi uns comentários e fiquei preparada para assistir a uma bomba. Essa parte da repercussão de Covenant que eu pude ver se resume a uma indignação por Ridley Scott não deixar intacto o espírito do primeiro filme. E isso é verdade: foi-se embora aquela aura de suspense, embora o diretor tenha tentado engatar umas referências visuais e trazer parte da atmosfera em cenas específicas. O que eu percebi já na sala de cinema foi que ninguém estava errado em dizer que o filme é besta, mas todo mundo (todo mundo que eu li) estava preso na expectativa de ver uma produção da franquia Alien, quando na verdade aquilo ali era uma espécie de filme da Marvel. E eu percebi isso quando Michael Fassbender tocou a flautinha pela primeira vez.

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Eu juro que não estou sendo irônica quando digo que, se Alien: Covenant fosse anunciado como a história de origem de algum super-herói (ou super-vilão, o que seria mais adequado), a gente se concentraria melhor no que interessa (o visual, as cenas de ação, as mortes, a construção do universo) e nem pararia para considerar a falsa profundidade daquilo que o filme diz querer investigar. Por causa disso, eu acho que está muito bem realizado o resgate da franquia. Penso que, ao expandir este universo, a produção consegue apontar na direção em que está todo mundo apontando, que é aquela que segue a cartilha da Marvel ou de Star Wars. Mais do que nunca, agora o mundo de Alien está novamente pronto para sequências, derivados, crossovers e mais uma década de filmes de ação. Quem se deu mal foi o monstro, que já não é mais a grande ameaça desse universo, não é mistério para ninguém, e é quase secundário – serve aos planos de uma cabeça maquiavélica. Estamos abrindo as portas de uma galáxia cheia de perigos e etc.

Nesse sentido, eu também não estou sendo irônica quando digo que gostei de Covenant. Eu concordo que a mitologia é um apanhado de baixa ficção científica requentada, mas a construção do mundo compensa. O planeta, o design dos novos bichos, de naves, de sistemas tecnológicos, tudo isso é de encher os olhos. Michael Fassbender interpreta dois personagens, um é bonzinho e o outro é o malvadão. Rola um kung-fu entre os dois. Ambos conseguem falar os diálogos mais bobos do cinema com expressões críveis, e por causa disso eu louvo esse truque hollywoodiano de pagar ator excelente (e caro) para ser o centro de uma franquia duvidosa.

Aguardo as continuações.