As sombras de Longbourn

A que uma criada do início do século XIX poderia aspirar, além de uma cama para descansar o corpo e comida para ficar de pé? Sarah, uma das personagens de As sombras de Longbourn, de Jo Baker, resolveu desejar mais.

A edição linda é da Companhia das Letras, com tradução de Donaldson M. Garschagen. Fiquei apaixonada pela capa antes mesmo de saber do que o livro tratava. E a lombada é perfeita: adoro olhar para ela na estante, dá um prazer que só um sério fetichista de livro vai entender.

Depois que eu soube um pouco mais da história foi aquele pensamento de sempre quando o assunto é Jane Austen: preciso desse livro. A trama é bem simples. As sombras de Longbourn se passa durante os eventos de Orgulho e Preconceito, mas aqui os protagonistas são os criados, e os acontecimentos com a família Bennet ficam apenas como pano de fundo. Sarah é criada em Longbourn, na propriedade dos Bennet, e junto com Polly, uma menina de uns doze anos, trabalha pesado para deixar a casa em ordem. Desde engomar as roupas da casa com o ferro que machuca toda a mão, passando por tirar a banha do porco para virar sabão, até lavar as peças íntimas das meninas Bennet quando estão no período menstrual. Isso e muitas outras atividades que parecem punição nos dias de hoje eram as tarefas das duas meninas. Fora Sarah e Polly, a família Bennet contava com os Hill, um casal de velhos criados. A senhora Hill fazia vezes de governanta e cozinheira, e o senhor Hill, de tão velho fazia os serviços mais amenos, como receber as visitas.

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Estamos no mesmo ponto de partida de Orgulho e Preconceito, com a chegada dos riquíssimos Bingley. Para os criados da casa a chegada do Sr. Bingley e do Sr. Darcy não traz mudanças grandes no cotidiano, além de uma ou outra tarefa adicional. Como estamos acompanhando os empregados, é a chegada de James Smith como o quinto criado que muda tudo, principalmente para Sarah.

Ela sempre sonhou com mais do que trabalhar dezoito horas por dia. Órfã desde sempre, trabalhou desde os sete ou nove anos para os Bennet, e nunca viu um mundo mais amplo do que aquele que vai da cozinha ao vilarejo. James Smith é um jovem que parece ter vivido muito. Em Sarah, ele primeiro desperta um ressentimento, depois admiração e, por fim, o amor.

Assim como Elizabeth e o Sr. Darcy, Sarah e James vão precisar passar por cima de alguns desentendimentos para dar corpo a esse amor. É marcante como Jo Baker estabeleceu semelhanças em vários pontos fundamentais da história, só para com outros distanciar inteiramente os destinos dos criados e dos Bennet.

Logo no início, o Sr. Bingley, o bom partido, precisa mandar um recado para Jane, a filha mais bonita dos Bennet. Jane vai recebê-lo e vai enviar uma resposta. Em Orgulho e Preconceito só precisamos saber disso, porque é tudo o que importa. Os bilhetes são enviados, as carruagens são aprontadas, as refeições são elaboradas, a grama é cortada. Mesmo que os Bennet não estejam no topo da hierarquia social, eles vivem bem o bastante para que suas filhas não precisem fazer o que fazem Sarah, Polly, James e os Hill. Já em As sombras de Longbourn, Sarah recebe o lacaio dos Bingley, e enquanto ele espera a resposta de Jane, os dois se conhecem mais e mais, distantes dos olhos dos patrões.

Mas o lacaio dos Bingley é uma distração. Em certo momento, Sarah se encanta por ele, e James Smith é visto como um homem arrogante que conhece mais do mundo do que ela, assim como, em certo momento de Orgulho e Preconceito, Elizabeth se encanta pelo Sr. Wickham e rejeita Darcy. Dessa maneira, Jo Baker vai elaborando esses pontos de contato e de afastamento para delinear uma história conhecida: a de como um lugar diferente na escala social é capaz de afastar completamente pessoas que, a princípio, têm as mesmas angústias, aspirações e sentimentos.

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Admito que no início, me incomodou essa crítica tão mordaz àquele que talvez seja o livro mais conhecido de Jane Austen. Orgulho e Preconceito é um texto extraordinário de uma época difícil, e é até um lugar comum repetir que Austen, mesmo se atendo a um universo de intrigas domésticas e problemas amorosos, investigou de perto, e com ironia e graça, as relações sociais na Inglaterra do começo do século XIX. Suas personagens buscam o amor de forma não conformista, e com frequência procuram se distanciar do aparato social previsto para elas. Tudo, claro, dentro de certos limites: não é que Elizabeth Bennet não queria casar, é que ela quer casar por amor e não por conveniência.

Por isso, eu além de guardar Austen no coração, a tenho como inconformista o bastante para uma época e um lugar muito distantes. Acreditando nisso, fiquei incomodada ao começar As sombras de Longbourn: me perturbou que alguém do século XXI viesse escrever um livro jogando nova luz sobre personagens tão queridos, afinal, é sempre um pouco arbitrário ver os problemas de um autor antigo à luz de pressupostos morais e éticos de agora. Mas quanto mais eu avançava na história de Jo Baker, mais eu entendia que o livro não é tanto uma crítica ao que Jane Austen achava razoável, e sim uma espécie de reparação, de iluminação de todo um elenco de apoio que ficou às sombras.

É um projeto interessante e necessário, mas para apreciá-lo de verdade eu tive que dissociá-lo do Orgulho e Preconceito que eu aprendi a gostar. Para ser mais clara: o livro da Jo Baker toca em um assunto delicado, verdadeiro e de cortar o coração, mas a Elizabeth Bennet daqui não é a Elizabeth Bennet da Jane Austen. Tudo é muito real e verossímil, mas para preservar lá quietinho um livro que é tão especial para mim, eu precisei fazer a opção de não misturar os mundos. Assim consegui aproveitar a leitura de As sombras de Longbourn.

Não é sempre que surge uma história de amor onde o mocinho é pobre e maltratado. Elizabeth Bennet, afinal de contas, teve a sorte de encontrar o amor de sua vida e o homem mais rico da província numa pessoa só, e Darcy é um modelo para vários personagens que vieram depois. Anastasia Steele está aí para comprovar que o dinheiro é, para muitas, um ótimo afrodisíaco. Mas nesse sentido, funcionando como uma espécie de negativo fotográfico de Orgulho e Preconceito, As sombras de Longbourn está aqui para mostrar que o mocinho pode ser estropiado, magro, fraquinho, não ter uma moedinha no bolso e mesmo assim nos fazer torcer e suspirar por ele. Tem lá uma história de amor que se sustenta sozinha. Essa é uma das grandes qualidades do livro de Jo Baker, que não é só um apêndice da obra de Austen.

Nada, porém, supera o apelo da personagem principal, Sarah. A Inglaterra do século XIX podia ter se libertado da servidão, mas ainda sentia os efeitos do trabalho forçado. Sarah era livre para sair do seu trabalho e viver sua vida em qualquer lugar. Mas como fazer isso quando não tinha dinheiro e nem família? Ela estava no nível mais baixo da escala social, e suas possibilidades não eram as mesmas que as de um cavalheiro. As sombras de Longbourn se passa em um tempo em que a efervescência dos direitos do ser humano era novidade, uma época em que mulheres e homens começavam a desejar coisas como liberdade e o direito de não morrer de exaustão aos 30 anos. O fim do livro só firma mais essa ideia, quando Sarah toma uma decisão que conversa muito bem com as coisas que a gente deseja hoje em dia.

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