Dois romances policiais que valem a pena

Uma das minhas primeiras leituras foi um romance da Agatha Christie que eu comprei numa banquinha de revistas. Isso foi em 1997. O livro era Morte no Nilo. Eu só me lembro disso porque ainda guardo o exemplar. Na primeira página escrevi o meu nome completo e a data, com a minha letra ainda infantil, só para atestar que aquele livro era meu (quem tem irmãos mais velhos sabe que é necessário marcar com o nome os objetos mais queridos). De lá para cá eu li uns bons livros dela e do Conan Doyle. Dificilmente passo dois meses sem ler um romance policial. A oferta tem sido muito grande, mas alguns elementos estão em falta.

Sinto que há ondas no mundo editorial. Crepúsculo trouxe consigo uma infinidade de outros romances sobrenaturais. Aos poucos, a chama foi se apagando. Jogos Vorazes veio em seguida e vimos as livrarias inundadas por distopias de variada qualidade. Mas isso já faz tempo. Agora em 2017 quando eu vago o Skoob atrás de novidades e boas histórias, chego a me cansar de ver livros de fantasia young adult e romances policiais das mais variadas origens – tem os escandinavos, tem os ingleses, e tem também, como não poderia deixar de ser, os americanos. O problema é que eles têm muita coisa em comum. Acho que Garota Exemplar, embora não seja um policial no sentido estrito, trouxe uma nova onda de thrillers meio adultos e de temática relativamente pesada. Sob a influência do sucesso do livro de Gillian Flynn, muito do que surge parece ter o mesmo tom.

indesejadas

É muito difícil, nesse mar de livros, nessa verdadeira bola de neve, escolher o que ler. As editoras estão cada vez mais especializadas em nos enganar com capas lindas e sinopses esquivas. Muita coisa parece legal e, se a gente se deixar levar, sai comprando tudo e cai até em crise existencial por não saber o que tirar da prateleira. Eu queria falar sobre dois romances que li recentemente, e que fogem um pouquinho da regra por apresentarem personagens excelentes. Um é Indesejadas, o primeiro da série Fredrika Bergman & Alex Recht, da sueca Kristina Ohlsson. Aqui no Brasil a série vai pelo terceiro livro. Fredrika e Alex são os investigadores da vez. Em Indesejadas eles precisam desvendar um desaparecimento que logo se revela assassinato. Não há muito o que contar sem soltar spoilers. O caso é complicado e de deixar o leitor sentado na ponta do sofá (ou da cadeira, da cama, do que for de preferência). Só que, para mim, o diferencial desse livro é o carisma dos personagens. Os protagonistas são um ponto fundamental. Quando o detetive é ruim, o romance policial parece durar uma eternidade. Não é o caso aqui. Há rixas, ciúmes, desavenças. O livro é longo. São quase 400 páginas, então o foco fica bem dividido entre o crime que precisa ser solucionado e a vida de Alex, Fredrika e Peder. Discórdia entre policiais é um clichê nem sempre bem vindo, mas aqui não há enfrentamentos irritantes. O lugar-comum dá espaço a crises que parecem genuínas. Eu me senti na pele de uma policial ferrada durante a leitura de Indesejadas. Um outro ponto bacana é que em Indesejadas o frio, que obviamente é marca registrada da Escandinávia, sai de cena para a chegada do verão. Não é muito comum sentir calor ao ler um romance sueco.

A garota no gelo

O segundo livro é A Garota no Gelo, que também é o primeiro de vários, dessa vez pelo autor britânico Robert Bryndza. Ele nos apresenta a série da detetive Erika Foster, com dois volumes publicados no Brasil até agora. A detetive está deprimida e acaba de voltar a trabalhar. Seu marido foi morto em uma ação policial que a tinha como comandante. Ela se sente culpada, e todo mundo acha que ela tem culpa mesmo. Atrás de novos ares, ela vai para Londres investigar um assassinato. Um recomeço. Mas não para uma jovem rica que foi achada morta em um bairro decadente. O caso cai nas mãos de Erika. Ela não conhece ninguém da equipe e vai se desentender com muita gente para conseguir juntas as peças. A detetive é chata (mas a gente simpatiza com ela), intransigente e ranzinza: meu tipo preferido de personagem. De novo, como é de praxe, o livro fica bem dividido entre a vida da protagonista e o caso a ser solucionado.

Sempre me alegro quando vejo uma protagonista como Erika, com esse gostinho amargo de rabugice e com brio. Uma pessoa com espírito resistente, mas cheia de manias bizarras. A Fredrika de Indesejadas não fica atrás. Quando elas pegam os assassinos fica aquela sensação de justiça feita e missão cumprida.

É importante que a trama seja intrigante e que as pontas não fiquem soltas, mas isso não é tudo. Eu adoro me apegar aos protagonistas, mas isso tem ficado cada vez mais difícil. Todo personagem parece igual, com tiques, costumes e mensagens parecidos. Esses dois romances que eu destaco não trazem novidades, e para falar a verdade eles têm muito em comum com o bolo de coisas parecidas que a gente encontra nas livrarias, mas, se você é como eu e é capaz de seguir um personagem bom aonde quer que ele vá, vale a pena passar umas horas investigando esses casos esquisitos.

Z: uma oportunidade perdida

z a cidade perdida

A pessoa chata que leu o livro e não gostou do filme já é uma figura desprezada por todos. Eu detesto ser chata e não gosto que me desprezem, mas tenho que dizer que saí mais triste que confusa da sala de cinema em que vi Z: a cidade perdida, dirigido por James Gray. O livro eu resenhei aqui, no ano passado, quando não tive do que reclamar. Mas li tarde. A edição brasileira é de 2009. Se, mesmo com o meu atraso, eu consegui chegar a tempo de pegar o filme no cinema foi porque a produção demorou muito para dar vida à história do coronel Percy Fawcett.

Ao longo de alguns anos quem estava de olho ia recebendo notícias do andamento das coisas. Não é um bom sinal quando as novidades somem e ninguém faz questão de perguntar o que aconteceu com aquele filme prometido, mas Z saiu. E não é uma bomba. Nada do que me incomodou parece ser fruto de correria, improviso ou de intervenção de estúdio – essas coisas que em geral acontecem com produções problemáticas, como foi o caso de Esquadrão Suicida no ano passado. O meu problema é que eu e James Gray lemos livros muito diferentes.

O jornalista David Grann queria resolver um dos casos midiáticos mais célebres do começo do século XX. Na partida de Percy Fawcett para sua última expedição amazônica qualquer palavra que ele dissesse virava notícia. Quando, pelo passar dos anos e por falta de contato, ficou evidente que o explorador não mais voltaria, ventilou-se todo tipo de hipótese. Numa hora dessas o jornalismo e o público mandam o comedimento embora. O objetivo do livro de Grann era tirar o entulho que a imaginação popular colocou sobre a trajetória de Fawcett. Para isso ele foi até a floresta, investigou hipóteses, duvidou de testemunhos e chegou a um resultado seguro, embora modesto.

Quer dizer: que Fawcett morreu àquela altura não restam dúvidas, mesmo que as circunstâncias exatas da morte sejam desconhecidas. A última expedição entrou num território hostil e de lá não conseguiu sair. Muito bem. O bom é que Z, o livro, não tem só isso. Grann também faz uma boa investigação sobre a hipótese em que Fawcett apostava. Quanto à existência de uma civilização avançada na floresta amazônica, o livro é fascinante: para Grann, a cidade estava lá mas o explorador não tinha condições de encontrá-la porque estava procurando os sinais errados. Z não era toda de ouro, nem tinha edificações como as pirâmides do Egito, e assim o jornalista nos mostra que a antropologia do século XX conseguiu redescobrir a verdadeira grandeza da civilização amazônica, toda voltada para a adaptação ao ambiente hostil da selva. O misterioso desaparecimento do aventureiro vira um fio condutor. No lugar das infinitas possibilidades da imaginação (chegaram mesmo a dizer que o velho militar inglês havia encontrado Z e lá se transformado em líder espiritual), algumas probabilidades muito interessantes mas muito pouco místicas. Uma morte violenta. Um caminho errado. Exaustão. Fome.

z cidade perdida

Lindo até quando tenta ser feio

Já a história que James Gray conta poderia ser um reboot de Indiana Jones ou o começo de uma franquia nova, mas é muito difícil vê-la se passar por uma adaptação do livro-reportagem. O diretor busca mistério onde já não há, reposiciona gente de carne e osso, transforma um militar inglês famoso pela severidade em pai amoroso e marido compreensivo; e faz tudo isso a ponto de ameaçar a imersão no filme: aquela gente se parece muito com gente contemporânea que ocupa empregos liberais e pensa como progressista nos costumes – o que não é um defeito, de jeito nenhum, a não ser que o seu filme pretenda contar a história de gente que cresceu na Inglaterra imperial quando a Inglaterra imperial se gabava de ter controle sobre o mundo inteiro. Mas isso nem é o mais irritante. A atuação constrangedora de Charlie Hunnam também não é o que mais irrita, nem quando ele caminha com o mesmo remelexo malandro de seu personagem em Sons of Anarchy.

O que me tirou completamente do filme dirigido por James Gray foi o fato de ele ter andado tão na contramão do livro. O que Gray faz (lembrando que o roteiro também é dele) é uma espécie de mistificação bem ao estilo daquelas que motivaram o projeto de David Grann e a busca pelos fatos. O Fawcett deste filme termina sua jornada como uma espécie de peregrinador budista que encontrou a paz de espírito e resolveu compartilhá-la com o filho. Quando não agrada a resposta na história verdadeira, o diretor resolve ele mesmo encontrar a verdade ao abraçar uma espiritualidade banal. Não há nenhuma curiosidade pelo cenário, nenhum confronto entre o interior, que são as coisas que atravessariam a cabeça de um explorador inglês, e o exterior, que é a floresta. Eu fiquei mais atônita do que irritada, ainda, quando percebi que o diretor tinha pouquíssimo interesse pelos indígenas, que são a espinha dorsal do livro-reportagem. No cinema eles são absolutamente tudo o que o aventureiro gringo quiser. Tacape no meio do crânio não é uma opção, então, já que matar Fawcett pode ser uma reação raivosa à invasão de um território (o que provavelmente aconteceu, de acordo com Grann), James Gray tem uma ideia melhor: que tal se os índios forem assistentes em uma espécie de suicídio programado, o fim catártico de uma jornada de autoconhecimento?

Não bastasse o final bobo, o epílogo é inacreditável. Mas só para não terminar o texto num tom de muita raiva e frustração, eu preciso falar de Robert Pattinson. Ele interpreta o principal companheiro de Fawcett, num trabalho tão bom que deve ter feito, com certeza fez, o diretor pensar que escolheu o ator errado para fazer o protagonista. Diretor pateta. Charlie Hunnam como Percy Fawcett? Ah, vá.

The Handmaid’s Tale é desesperadora(mente boa)

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Você já deve ter ouvido falar desta série no último mês. Todos os textos que eu li falavam bem de The Handmaid’s Tale, e por aqui não vai ser diferente. A produção que estreou no Hulu tem sido muito bem cotada por todo mundo e já teve uma segunda temporada confirmada. Inspirada num livro de Margaret Atwood (O conto de Aia, publicado pela Rocco aqui no Brasil), a série conta o que acontece depois que uma nova liderança assume o poder nos Estados Unidos. A história tem todos os elementos de uma distopia: um poder tirânico que não aceita a desobediência, pessoas comuns lutando para fugir, pessoas comuns lutando para mudar a situação, repressão e injustiça.

Offred, vivida por Elisabeth Moss, é a aia a que o título se refere. Antes de o mundo virar de cabeça para baixo, o nome dela era June e ela levava uma vida pacata com marido, filha e trabalho. As coisas começam a se desintegrar quando a taxa de natalidade diminui, mulheres e homens deixam de conseguir conceber bebês e a taxa de aborto espontâneo cresce loucamente. Um poder religioso aproveita a oportunidade de desespero para se infiltrar na vida pública. De repente mulheres perdem seus empregos e deixam de ter acesso a dinheiro. Acontecem protestos, mas não tem jeito, em pouco tempo o que antes eram os Estados Unidos agora é República de Gilead. A principal função das aias nessa distopia é entrar no período fértil e copular com os patrões num bizarríssimo ritual em presença das esposas ricas e inférteis –  um estupro travestido de ritual religioso. As aias, essas poucas mulheres que ainda são férteis, perdem a cidadania e o comando das próprias vidas, perdendo com isso até o nome próprio. Offred vem de “of + Fred” porque June agora pertence a um homem poderoso, figura de destaque na nova nação.

June/Offred tenta com todas as forças não entrar em desespero. Mas é difícil. Levaram sua filha, o marido sumiu, a melhor amiga desapareceu e só há inimigos e estranhos por todos os lados. A repressão é pesada e o clima é de paranoia religiosa. É a força da personagem que faz com que The Handmaid’s Tale não seja só uma enorme lista de desgraças. June é resiliente, esperta, jamais conformada. Quando eu vi Elisabeth Moss em Mad Men pela primeira vez, eu achei que era questão de tempo até que ela entrasse no clubinho seleto das atrizes que são unanimidade. Fazendo June/Offred, Moss consegue imprimir intensidade em cenas emocionalmente pesadas, mas de poucos diálogos. Não é todo elenco que conta com alguém assim. O olhar de desafio da personagem está ali. Vê-se que ela está inconformada e revoltada e que busca uma oportunidade para dar o troco. Na mão de uma atriz pior, o dramalhão poderia ser insuportável. Esses pequenos detalhes que fazem parte da composição de Moss dão um tom distinto para a série. Assim, The Handmaid’s Tale não busca explicações esmiuçadas em longos diálogos porque confia no poder de comunicação de sua atriz principal. E o que ela mais comunica é uma raiva muito grande porque a situação é muito ruim.

the handmaids tale

Eu li alguns textos relacionando a história das aias ao momento atual. O livro foi escrito na década de 1980 e, agora,  a repercussão da série tem dado conta de Margaret Atwood como uma visionária, alguém que previu certas tendências e criou um cenário irreal e assustador. Ela imaginou um mundo distópico em que as mulheres não têm vez. Eu ainda não li o livro, faz muito tempo que estou para ler alguma coisa de Atwood, mas os episódios que eu vi até aqui me fazem pensar em Persépolis, de Marjane Satrapi. É uma coisa que não me sai da cabeça. Persépolis conta a história de uma moça, criada no Irã, que viu o sucesso da revolução islâmica quando ainda era menina. Até aquela altura, 1979, o Irã era um país relativamente aberto. Não havia lei obrigando o uso do hijab. Quem leu Persépolis sabe do que eu estou falando. Satrapi fala do dia-a-dia do aferrenhamento do regime iraniano, das diferenças entre o que a família dela desejava para a sua criação (louvando independência, criatividade, curiosidade) e o que os valores de um Estado mergulhado em religião exigiam para todas as meninas e mulheres. Além de  Persépolis, tem uma foto que ficou grudada na minha memória. É de uma fotógrafa iraniana que documentou a marcha contra a obrigatoriedade do uso do hijab, em março de 1979. Foi um protesto enorme, foi um momento de resistência e acabou sendo, também, o último dia em que se permitiu que uma mulher saísse à rua com a cabeça descoberta. Quer dizer: tanto esse momento histórico quanto uma obra como Persépolis mostram que isso já aconteceu recentemente no mundo, que já houve um dia em que se decretou que todo um grupo de pessoas teria status rebaixado, em que um poder religioso retirou direitos de mulheres. Isso deixa The Handmaid’s Tale mais assustador e sufocante.

Além de incutir desespero, a série consegue contar uma história impactante com ótimas atuações (Elisabeth Moss não está sozinha: o elenco é de primeira) e com um certo cinismo, ainda que na medida certa para não deixar a gente perder a esperança. O último episódio que eu assisti foi revelador e focou em um personagem que tinha aparecido pouco. A história tem aventura, vilania e muito mistério. Esta primeira temporada tem sido daquelas que claramente plantam raízes para uma longa jornada. Posso estar com grandes esperanças e pode ser que alguém que já tenha lido o livro as ache injustificadas, porque as melhores histórias dificilmente têm finais felizes, mas tenho que dizer que não vejo a hora de me sentir vingada. Eu queria que June dissesse que Offred é o cacete e matasse todo mundo a tiros. Mas vamos ver.

Deixei você ir

Deixei você ir

Uma mulher luta para seguir a vida depois de um acidente terrível. Um detetive com problemas familiares se vê às voltas com o caso de um menino morto. Deixei Você Ir, de Clare Mackintosh, é a história de duas pessoas corroídas pelos fatos de um acidente trágico. Em um dia chuvoso o menino Jacob é atropelado por um carro em alta velocidade. O motorista foge do local, deixando o menino morto na rua. A mãe  presenciou tudo. A equipe do detetive Ray Stevens começa a investigar o ocorrido, mas as provas são poucas e parece impossível descobrir quem faria tamanha crueldade. Jenna precisa recomeçar, mas não tem como superar aquela morte. Ela se muda para uma praia isolada, aluga uma cabana e tenta viver.

A sinopse de Deixei você ir entrega um clima de romance policial, mas depois de poucas páginas já notamos que a investigação e a busca pelo assassino não são o ponto crucial da história. Os capítulos são alternados entre a investigação (com lampejos da vida particular do detetive Ray) e o recomeço mais do que complicado de Jenna. O detetive e sua equipe trabalham no caso do atropelamento, mas ele também está com muitos problemas em casa. O filho mais velho está estranho, com alguns problemas na escola; o relacionamento com a esposa também não parece o mesmo, e sua companheira de trabalho, a jovem Kate, parece ser exatamente aquilo que ele precisa para fugir dos problemas.  Dessa forma, a investigação fica permeada pelos dilemas  de Ray e por causa disso, ainda que este seja um recurso comum em romances policiais, aqui vai uma reclamação: achei tudo o que envolvia o detetive bem desinteressante.

As partes de Jenna, pelo contrário, são o ponto alto do livro.  Os capítulos na praia, em que ela tenta começar de novo, me fizeram continuar a leitura. Mas esqueça qualquer resquício de romance policial enquanto a história se concentra nela. O livro vira um romance reflexivo sobre uma mulher e sua vida estilhaçada, alguém que tem poucos amigos e conhece um homem, por quem se apaixona. A primeira metade de Deixei você ir se dá assim. É na segunda parte que acontece uma reviravolta. O livro deixa de ser morno e nos ajuda a entender melhor a personagem de Jenna. Clare Mackintosh me enganou direitinho com um desses recursos que estão na moda nos thrillers de hoje em dia.

Para mim, Deixei você ir não foi uma das melhores leituras do ano, mas está longe de ser maçante. A reviravolta coloca a história inteira sob outra perspectiva, e por causa disso a segunda metade do livro ganha fôlego. Além disso, Mackintosh me fez torcer por Jenna, e isso sempre requer uma dose de identificação não só com a tristeza gerada pela tragédia, mas com os pensamentos que surgem dela.

Deixei você ir intrinseca

Para quem já leu ou para quem quer spoilers

Como eu não consigo me controlar, preciso contar mais dessa segunda metade do romance. Saber de alguns detalhes não atrapalha, mas tem coisa que anula um livro inteiro. Acho que fica impossível ler Deixei você ir sabendo da reviravolta. Seria outra experiência. Fica o aviso.

Jenna passa todos os capítulos da primeira metade do livro se sentindo culpada. Jacob morreu e ela, claro, não consegue lidar com isso. O leitor sabe que a mãe de Jacob não segurou a mão dele ao atravessar a rua, e que ela se culpa por isso. A autora nos induz a acreditar que Jenna é a mãe de Jacob. Por que ela estaria com culpa e precisaria reaprender a viver se não fosse a mãe? Porque ela é a assassina, a atropeladora! No fim, a polícia descobre que o carro que atropelou o menino é de Jenna e a prende. Ela assume toda a responsabilidade, dando um nó na cabeça do leitor (pelo menos na minha, vai que você é mais inteligente e percebeu rapidamente tudo o que acontecia?).

Jenna é uma boa pessoa que tomou más decisões, mas ela tem um motivo. Na segunda metade do livro um novo personagem é inserido. Ian era marido de Jenna, um sujeito abusivo e violento. Ele narra todo o relacionamento dos dois desde que se conheceram. É incrível ver fatos horríveis pelos olhos de uma pessoa que acha normal fazer a namorada engolir água sanitária. Aos poucos nós vamos entendendo por que Jenna se isolou numa cabana no meio do nada e por que ela tem medo de tudo. Ian é violento e está atrás dela. Só aí o livro fica com cara de thriller, só a essa altura entendemos que o tema central da história é a violência doméstica e não as consequências do assassinato do menino Jacob.

Meu único problema com Deixei você ir? Bom, se você ainda não leu o livro e aguentou todos esses spoilers vai aguentar mais este choque: Ian atropelou Jacob enquanto Jenna estava no banco do passageiro. Foi ele. Foi mais uma das vilezas dele. Mas ela assume a culpa, sozinha, pois acha que alguém precisa pagar pelo sofrimento da mãe de Jacob. Eu entendo que uma vítima de violência doméstica pode não conseguir delatar seu agressor por puro medo, mas simplesmente não me caiu bem que Jenna tenha deixado um abusador assassino escapar impune. Achei que esse foi um grande furo, mas isso não estraga o livro.

Alien: Covenant é um filme da Marvel

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Eu tenho uma opinião impopular a respeito de Alien: Covenant: eu achei bom, gostei, me diverti. Ou seja, não só me diverti (o que pode acontecer mesmo que eu não goste do filme) como ainda por cima gostei (não saí ofendida nem destratada ou querendo o meu dinheiro de volta). Pra ser sincera, eu acho que mais gente se divertiria se essa não fosse uma franquia estabelecida, que tem um filme (Alien, o 8º passageiro, de Ridley Scott) considerado um dos maiores suspenses de todos os tempos, e outro (Aliens, o do James Cameron) em alta conta pelos fãs por ter sido um dos grandes blockbusters dos anos 1980.

Covenant quer realizar duas tarefas bem distintas. Por um lado, Ridley Scott tenta um resgate da importância da franquia. Por outro, ele quer fazer com que ela não fique restrita ao universo meio pequeno e sem grandes explicações dos dois primeiros filmes. Esses objetivos se contradizem porque o segredo do sucesso inicial de Alien era o bicho ser alienígena. Alienígena mesmo: não só uma coisa horrorosa vinda do espaço, mas um ser letal que era desconhecido em todos os aspectos, alheio, forasteiro, um corpo estranho. A princípio ele não era nem um vilão porque não tinha necessariamente vontade de matar, de fazer o mal, de montar uma tramoia. O monstro do primeiro filme era puro instinto de sobrevivência, a indiferença da natureza. Era necessário, sempre, que alguém morresse para que o bicho sobrevivesse e esse era o maior terror.

Claro que as sequências não mantiveram esse princípio. A primeira, dirigida por James Cameron, virou a história de uma operação de guerra. Soldadinhos contra o Alien, o Alien vence. Ainda não se falava muito a respeito de sua origem, mas o universo já se ampliara. Havia a corporação, dessa vez com mais sede de dinheiro; também a vida pessoal da tenente Ripley ganhou contornos mais pesados. Mas, tirando o instinto maternal da protagonista, as motivações eram todas bem vagas e James Cameron não perdeu tempo com elas. O que ele fez foi nos mostrar a tecnologia necessária para combater o bicho. A câmera presta atenção em naves, tanques, sistemas computadorizados, armas de mão, explosivos, robustas armas pesadas. Nada disso foi suficiente para parar o monstro, e por isso ele vai ficando mais poderoso. No primeiro filme, ele pegou todo mundo desprevenido. Agora, ele é uma ameaça séria e a força bruta chega a ser inútil. Ainda assim, ninguém liga para o lugar de onde ele veio.

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As próximas sequências pouco acrescentaram à mitologia. Alien 3, o de David Fincher, tentou começar do zero e não teve graça;  Alien: Resurrection, o de Jean-Pierre Jeunet com Winona Ryder, foi uma perdição tão grande que conseguiu enterrar a franquia. Isso foi em 1997. Vivemos a década de 2010 e sabemos que hoje em dia ninguém pode deixar uma marca morrer. Em 2012 o próprio Ridley Scott trouxe ao mundo o quase interessante e bem decepcionante Prometheus. Foi nessa hora que as duas tarefas distintas começaram a entrar em contradição. O espírito do filme original requer mistério, mas o espírito das produções atuais requer elaboradas explicações, mitologias, teorias, assunto para as redes sociais. Talvez essas duas pontas não sejam necessariamente opostas, mas vê-se que Ridley Scott está tendo dificuldades em conciliá-las.

A Covenant é uma nave que leva mais de duas mil pessoas a outra vizinhança do universo para colonizar lá um planeta. Não tem nem o período de calmaria antes de o problema aparecer: a tripulação já acorda de um hiper-sono com um mau funcionamento no sistema. Tem uma urgência, tem morte, luto e o passo seguinte, como só cientista de blockbuster consegue fazer, é mudar absolutamente todos os planos, ignorar qualquer resquício do protocolo e partir para a improvisação total.  O que pode dar errado quando se pousa em um planeta desconhecido que nem estava nos planos? O esqueminha começa a funcionar e aquelas pessoas bem treinadas e de boas intenções morrem pelo bem do nosso entretenimento. Essa era uma das graças da franquia, e nesse sentido Covenant não decepciona. As mortes são horríveis, uma delas memorável, mesmo que a burrice geral e a falta de sentido nas reações de personagens tire uma parte da graça e coloque indignação no lugar. Ainda quando estão aparecendo os primeiros resultados do contato com o organismo destruidor (que, se eu entendi bem, é uma versão beta do monstro original) o filme toma outro rumo. Dali em diante não vamos só aproveitar a matança, vamos em busca de respostas.

E se a gente se concentrar nas respostas, o filme fica bem bobo. Estou acostumada a produções que tratam o espectador como idiota, mas nesse caso a falta de respeito chegou a um nível a que não se chega todo dia. É verdade que sem decisões irrazoáveis a gente não tem história. Se tudo funcionasse bem, não haveria filme e os tripulantes estariam em casa tomando um golinho de chá e olhando a chuva. Mas Covenant abusa da gente porque tudo o que acontece depende muito de burrice de todas as partes. Os personagens têm que ser burros, e aí quando o filme quer defendê-los acaba ficando burro junto. Quem está assistindo também precisa ser burro para engolir com uma cara séria as ladainhas filosóficas que saem da boca do ótimo Michael Fassbender, mas a certa altura eu tive a impressão de que quem estava errada era eu.

Antes de sair de casa eu li duas críticas, ouvi uns comentários e fiquei preparada para assistir a uma bomba. Essa parte da repercussão de Covenant que eu pude ver se resume a uma indignação por Ridley Scott não deixar intacto o espírito do primeiro filme. E isso é verdade: foi-se embora aquela aura de suspense, embora o diretor tenha tentado engatar umas referências visuais e trazer parte da atmosfera em cenas específicas. O que eu percebi já na sala de cinema foi que ninguém estava errado em dizer que o filme é besta, mas todo mundo (todo mundo que eu li) estava preso na expectativa de ver uma produção da franquia Alien, quando na verdade aquilo ali era uma espécie de filme da Marvel. E eu percebi isso quando Michael Fassbender tocou a flautinha pela primeira vez.

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Eu juro que não estou sendo irônica quando digo que, se Alien: Covenant fosse anunciado como a história de origem de algum super-herói (ou super-vilão, o que seria mais adequado), a gente se concentraria melhor no que interessa (o visual, as cenas de ação, as mortes, a construção do universo) e nem pararia para considerar a falsa profundidade daquilo que o filme diz querer investigar. Por causa disso, eu acho que está muito bem realizado o resgate da franquia. Penso que, ao expandir este universo, a produção consegue apontar na direção em que está todo mundo apontando, que é aquela que segue a cartilha da Marvel ou de Star Wars. Mais do que nunca, agora o mundo de Alien está novamente pronto para sequências, derivados, crossovers e mais uma década de filmes de ação. Quem se deu mal foi o monstro, que já não é mais a grande ameaça desse universo, não é mistério para ninguém, e é quase secundário – serve aos planos de uma cabeça maquiavélica. Estamos abrindo as portas de uma galáxia cheia de perigos e etc.

Nesse sentido, eu também não estou sendo irônica quando digo que gostei de Covenant. Eu concordo que a mitologia é um apanhado de baixa ficção científica requentada, mas a construção do mundo compensa. O planeta, o design dos novos bichos, de naves, de sistemas tecnológicos, tudo isso é de encher os olhos. Michael Fassbender interpreta dois personagens, um é bonzinho e o outro é o malvadão. Rola um kung-fu entre os dois. Ambos conseguem falar os diálogos mais bobos do cinema com expressões críveis, e por causa disso eu louvo esse truque hollywoodiano de pagar ator excelente (e caro) para ser o centro de uma franquia duvidosa.

Aguardo as continuações.

O que aconteceu até agora na nona temporada de RuPaul’s Drag Race

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Já vi oito episódios da nona temporada de RuPaul’s Drag Race e ainda não tenho uma drag preferida. Acho que a Trinity vai ganhar. Eureka saiu num acidente infeliz. Valentina não tem cacife. Alexis Michelle pensa que é melhor do que é de verdade. Sasha Velour precisa dar uma boa arrancada se quiser brilhar desse ponto em diante. O mesmo vale para Peppermint, embora ela tenha feito a melhor coreografia de lipsync da história do programa. Shea Couleé parece uma ótima concorrente, mas só mostrou lapsos  de brilho e não um brilho intenso.

Vimos pouco de todas, mas não acho que o nível das competidoras esteja ruim, tenho uma outra hipótese: a temporada se concentrou, até agora, em quem nunca esteve nem um pouquinho perto de ganhar nada de jeito nenhum. No talento, Jaymes, Kimora Black, Charlie Hides, Cynthia Lee Fountaine, Aja e Farrah Moan, somadas, não dão meia Courtney Act. Só que elas são personagens excelentes e eu tenho certeza de que lá na produção de Drag Race ninguém pôde resistir a contar essas histórias.

A primeira a sair foi a esquisitíssima Jaymes Mansfield. Quem acampanha o reality há muito tempo sabe que os patinhos feios despertam a curiosidade e que o patinho não é feio porque é feio,  mas porque não se encaixa. Na primeira temporada havia Tammie Brown, uma drag que parece ter como missão de vida deixar o público desconfortável. Mas era de propósito que ela fazia assim. Ficou claro que o estilo de Tammie Brown não era bem o do tipo de participante que Drag Race coroava. As temporadas seguintes também tiveram gente excêntrica, até que Sharon Needles conseguiu esculpir a esquisitice e levar o troféu para casa na quarta edição do programa.

Só que o problema de Jaymes Mansfield era outro. Nada do que ela fez deu certo. No Untucked, ela parecia deslocada e desconfortável. Seu ponto de partida era a comédia, mas a parte engraçada não apareceu. Ela estava nervosa, não demonstrava traquejo nem versatilidade. As outras competidoras perceberam e demorou minutos para que, tanto elas como a edição do programa, começassem a tratar Mansfield como café-com-leite. A história dela, como ali não poderia deixar de ser, foi a de alguém que encontrou uma barreira intransponível bem na hora em que precisava se livrar de todos os limites. Essa história é necessariamente verdadeira ou faz justiça à vida  da participante? Não importa. O que importa é que, no universo que se revela em Drag Race, Jaymes Mansfield foi a primeira a sair e virou um símbolo para todas as que já perderam feio.

Kimora Black não é muito interessante. Acho que toda temporada tem aquela drag que só quer ser bonita, e com essas eu implico. No caso de Kimora, era até engraçado ver a diferença entre o que ela pensava de si (em estilo, carisma, essas coisas) e a realidade do que conseguiu demonstrar.  Ela nem teve muito tempo de tela. Charlie Hides, a terceira a sair, não acrescentou muito no que diz respeito ao propósito da competição, mas o arco dela também teve um aceno ao que talvez seja o tema principal de Drag Race desde o começo, a autoestima. Com mais de 50 anos, nem ela nem a edição deixaram de destacar as diferenças que a idade traz.

Para mim, a saída de Charlie foi a mais marcante. Ela foi a que se negou a dublar [lipsyncar?haha] pela própria vida. Quer dizer: Charlie ficou respeitosamente no palco, sem dar um passo para a frente ou para trás e dublou sem nem fingir entusiasmo. No ideário das participantes do programa, que é aquele conjunto feito das ideias que são marteladas por todas elas desde a primeira temporada, o que Charlie fez foi um verdadeiro crime. Todas falam em deixar a vida no palco, dizem que aquela é a oportunidade de uma vida, que se fosse para fazer pela metade seria melhor ficar em casa. Eu acho que essa tem que ser a postura de quem quer competir, é claro, mas também entendo o que Charlie Hides fez. Sempre tem uma certa classe em quem se nega a fazer o que todo mundo faz, principalmente quando isso é garantia de suicídio social. De certa forma, a desistência de Charlie quebra um pouco a história que o programa quer contar e vira um contraponto ao que aconteceu com Jaymes Mansfield na primeira eliminação. Jaymes saiu chorando porque estar fora de Drag Race era uma espécie de morte, enquanto Charlie, do alto de sua experiência, foi embora como quem afirma que vai continuar fazendo o que já fazia antes do reality show. E isso é muito legal porque, sem negar a importância de RPDR, assim como The Voice não é dono da música, Drag Race também não deve ser dono da arte drag. “Eu sei cantar”, Charlie disse, “dublar é uma coisa que eu não faço”.  Ué, mas ela sabia que teria que dublar! Sim, e quando a hora chegou, ela virou as costas e saiu andando. Esse é um orgulho que eu compreendo.

O que eu não entendo é o apelo do drag de Cynthia Lee Fountaine. É verdade que ela parece uma das pessoas mais queridas do planeta, mas pouca gente fez coisas tão sem sentido. Na oitava temporada Cynthia foi eliminada com um shortinho bem abaixo da competição. Teve uma segunda chance e mostrou que não tinha o que mostrar. Pôde fazer a Kim Kardashian, e o resultado foi… triste. Mas vocês a viram no Untucked ou naqueles momentos de descontração (meio ensaiados, mas tudo bem) enquanto as meninas se pintam? Ela não só tem histórias boas para contar, como ainda por cima oferece aquele tipo de companheirismo que é um dos pilares do discurso de Drag Race. Essa participação grande que Cynthia Lee Fountaine teve, mesmo quando não tinha a menor chance de vencer, mostra que o programa parece mais preocupado com personagens do que com competidoras. Por não ser boa no jogo e não ter uma história destacada, alguém como Farrah Moan passa sem deixar rastros.

You look like Linda Evangelista

Para mim, o que esta nona edição teve de melhor, até agora, foi o potencial mêmico de mais uma competidora que não teve a menor chance: Aja. Eu acho que Aja é do nível de Shangela, quando Shangela era recém chegada. Aja não sabe se maquiar, nem se vestir, nem atuar, nem cantar e, pelo que demonstrou no Untucked, não era lá um poço de bondade. Seu melhor momento foi  quando descarregou sua frustração em Valentina, no que até agora é o meme mais engraçado de 2017.

A raiva de Aja foi uma das coisas mais gostosas que eu já vi na vida. É um momento que só RPDR é capaz de produzir. Eu tenho certeza de que aquele diálogo não foi previamente escrito porque ator nenhum poderia fingir toda aquela variedade de sentimentos. Tem inveja? Aham. Tem indignação por injustiça? Sim. Tem tensão sexual? Também tem. Ainda por cima, Aja declama  tudo com uma sinceridade que eu só tinha visto em crianças, especificamente aquelas sem filtro algum e insensíveis ao subtexto que pode aparecer em qualquer frase que uma pessoa fala. Só alguém completamente despreparado para ter um surto assim, para demonstrar tudo o que sente enquanto diz só uma parte do que queria dizer.

Por tudo isso, a nona temporada fica na média. Não vai ser a melhor. Não tem gente brilhante e carismática como Bianca Del Rio, Raja ou Jinx Monsoon, mas também não é um mar de drags pouco interessantes como foi a sétima edição (e eu digo isso em retrospecto, porque na época eu me lembro de ter gostado até de Violet Chachki). O programa vai continuar tendo seu apelo por causa de suas histórias universais e porque, entre outras coisas, RuPaul Charles é a elegância em pessoa.

Kimi no Na wa.

kimi no na wa

Eu estou apaixonada pelo Japão. Acho que isso ia acabar acontecendo. Sem muito alarde, e já faz tempo, o Japão é o segundo maior polo exportador de cultura pop do mundo. Nos últimos tempos coincidiu de eu assistir a vários bons filmes japoneses e ouvir uma banda japonesa, a Galneryus, e pronto: kawaii pra tudo que é lado. Eu vi Kimi no Na wa. no último fim de semana, logo depois de uma overdose de uma música só: “Destiny”. Foi a gota que faltava.

Kimi no Na wa. – que também tem um título mais fácil: Your name. – é um filme perfeito. Tem aventura, romance e é visualmente lindo. É difícil falar do anime sem esbarrar em spoilers. Mitsuba vive no interior do Japão. Ela tem uma rotina simples: vai para a escola, vive com a avó e a irmãzinha e sonha em morar em Tóquio. Taki é o jovem que parece ter a vida que Mitsuba quer: ele mora na capital, é universitário e trabalha como garçom em um restaurante. Os dois não se conhecem, mas por conta do destino suas vidas acabam entrelaçadas. De um jeito inexplicado, eles acordam um no corpo do outro pelos menos duas vezes por semana. Daí um passa pelo que o outro passaria, só para acordar como se nada tivesse acontecido no dia seguinte. Isso dura alguns meses, até que, do nada, para de acontecer e Taki decide ir atrás de Mitsuba para investigar o que houve, e também para conhecer a garota que faz parte dos seus pensamentos.

O ponto de partida é meio juvenil, mas isso não quer dizer nada. Os japoneses são especialistas em conseguir transformar temas que são típicos da juventude em objeto de reflexão mais profunda. É só ver qualquer história (no anime, no mangá) que pareça ser “menina conhece menino” para notar que isso será só o começo de uma aventura mais complexa: no mínimo os personagens serão excêntricos, com atitudes extravagantes vivendo em um mundo bizarro. Isso é muito empolgante. Kimi no Na wa. não chega a ter uma história de amor atípica, mas ele tem muito mais facetas que uma história de amor de um filme americano com os mesmos temas.

Kimi no Na wa. é apaixonante. As cores são usadas de um jeito ridiculamente bonito, são como uma explosão linda na nossa cara. Cada frame é uma pintura. Os protagonistas são cativantes e a história se desenrola de um jeito contagiante. Eles se detestam, eles se amam, eles não entendem o que está acontecendo, eles lutam para arrumar a bagunça, eles querem ficar juntos, eles  não sabem se vão ficar juntos, eles se apaixonam mesmo sem se conhecer. É uma história arrebatadora para ficar para sempre na minha memória. Eu amei. Acho que este blog corre o sério risco de ficar monotemático, acho que eu corro o risco de virar otaku depois de velha.

Get Out – Corra! (mentira, não corra:o filme é bom)

get out

Get Out é muito legal. De uns tempos para cá ficou difícil repetir aquela ladainha de que falta criatividade aos filmes de terror/suspense, já que surgiram vários memoráveis nos últimos anos, mas não dá para negar que o gênero investe muito em nostalgia, referências, homenagens e todas essas coisas que deixam, às vezes, um filme novo com cara de produto reciclado. Não é o caso aqui. Get Out tem o esqueleto obrigatório do suspense, mas encontra um ponto de vista particular.

Imagine que você tem um relacionamento de quatro meses e agora vai conhecer os pais da namorada  ou namorado, em um fim de semana em que você vai dormir na casa deles. Para piorar, você vive num país em que a proibição ao casamento inter-racial, dependendo do estado, era comum na geração de seus avós e muito recente na de seus pais. Vocês formam um casal inter-racial. Você é a parte mais discriminada da história. Essa é a premissa do diretor e roteirista Jordan Peele.

Quando Get Out introduz Chris Washington, vivido por Daniel Kaluuya, o rapaz está fazendo as malas com uma expressão preocupada. Chris quer saber se a namorada contou aos pais que ele é negro. Ela diz que não e que isso pouco importa. Diz que eles são democratas, eleitores de Obama, que têm pavor de racismo e jamais se oporiam a uma pessoa por conta da cor de sua pele. Só que Chris é escolado – e isso é um dos pontos mais legais do filme,  que é conduzido pelos olhos de seu personagem principal. Percebemos logo que ele não vê o mundo com o otimismo de sua namorada, que qualquer discriminação que venha a sofrer não será a primeira e que, na opinião dele, um branco americano de classe alta pode ser racista e eleitor de Obama ao mesmo tempo. Chris não precisa dizer nada disso porque a câmera acompanha suas expressões e reações em todos os diálogos, do começo ao fim. Então é com uma espécie de resignação pessimista que ele parte para a casa dos pais da namorada. Faz isso por ela, apesar da própria vontade; faz porque aposta no relacionamento.

Já que o filme segue Chris em tudo, é claro que ele estava certo. Não demora e a gente percebe que a família da namorada é racista, sim. Só que racista, ali, todo mundo é. O maior problema desse pessoal é ainda mais complicado: a família vai parecendo mais e mais bizarra, e logo Chris começa a temer por sua segurança. Daí em diante, Get Out fica divertidíssimo, um filme sóbrio e dono de uma atmosfera sufocante, e que, ao mesmo tempo, não perde certa veia de comédia de costumes. Ele retrata relações sociais em um país que não conseguiu resolver sua desigualdade e as contradições que brotam dela, sem deixar de ser uma espécie de depoimento pessoal. Por isso, por ter um olhar particular sobre a questão racial americana, Get Out não esbarra no discurso político já pronto para agradar uma plateia de adeptos, bem ao contrário: o filme é muito contundente quando satiriza o racismo justo por não fazer concessões. É como se a premissa tivesse nascido de um comentário levado ao extremo: e se o terror que é conhecer os pais racistas de uma namorada fosse interpretado literalmente e virasse terror de verdade? Jordan Peele nunca se afasta desse ponto de partida.

GetOut corra

Mas o mais legal nem é isso. Para contar o que é mais legal eu vou precisar falar um pouquinho mais do que acontece quando Chris chega à propriedade dos pais da namorada e, para ser sincera, eu acho que saber desses detalhes vai piorar a experiência de quem ainda não assistiu ao filme. É que tem um certo desafio em saber exatamente o que vai acontecer, e o desafio é levado a sério, ou seja: Get Out é mesmo um filme de suspense em que o desenrolar tem importância. Fica o meu aviso, então, de que daqui em diante o texto contém spoilers até que grandinhos.

Pois bem. Os pais da namorada são traficantes de pessoas. O que eles fazem é sequestrar um afro-americano, fazer nele uma lavagem cerebral e leiloar seu corpo a uma clientela formada por brancos ricos. A mãe da menina é psiquiatra, sua especialidade é deixar as vítimas com a mente oca; o pai é neuro-cirurgião, e quando ele encontra um afro-americano com as características que um cliente quer, ele prepara uma cirurgia de transferência de uma parte do cérebro do cliente ao corpo da vítima. Com que finalidade? Ah, sim, transfere-se a consciência de alguém em vias de morrer para o corpo de um americano negro no auge da forma. Essa foi a metáfora que Jordan Peele encontrou para tratar das contradições de um país racista que não deixa de consumir a cultura negra com voracidade. No filme, os negros que tinham recebido o transplante de um cérebro branco perdiam todas as marcas da identidade afro-americana. Vocabulário, roupas, costumes, gostos: na cabeça das vítimas só sobrava uma lembrança distante de quem foram. Eu deixo toda a discussão que isso desperta para alguém que tenha mais familiaridade com os Estados Unidos do que eu (e aproveito para recomendar o documentário vencedor do Oscar, O.J.: Made in America), mas não dá para negar o tamanho da bola de neve que uma premissa dessas pode formar.

Antes de terminar eu queria falar de três coisas. Duas razoáveis e uma besteira muito grande. Razoáveis: (1) Jordan Peele, que é ator e comediante, estreou na direção com uma firmeza que só perde para aquela do sujeito também novato que dirigiu A Bruxa, no ano passado; (2) a julgar por seu desempenho em Get Out, Daniel Kaluuya, que esteve em Black Mirror, tem muito carisma e é um nome para todo mundo guardar. Agora, uma besteira muito grande: Jordan Peele, que dirigiu e também roteirizou Get Out, é casado com Chelsea Peretti, aquela de Brooklyn Nine-Nine e das comédias stand-up. Alguém tem coragem de chegar nele e perguntar se a família dela é assim horrível? Nessas horas faz falta uma Fabiola Reipert.