Uma lista para quem quer ter um caso de amor com o Japão

Ano passado foi o ano do Japão e dos animes para mim. Foram muitos filmes e séries com aquele olhar especial e delicado dos japoneses. Acho que todo mundo que dá uma chance aos animes não consegue mais se desprender e, para te ajudar nisso, se você está com vontade de dar essa chance, eu escolhi alguns animes comoventes e capazes de encantar qualquer tipo de gente. Se você conhece bem tudo o que vem do Japão talvez ache a lista bem óbvia, mas calma: estamos apenas começando.

Crianças Lobo – Wolf children

wolf children

A história é linda e fala sobre o amor, principalmente o amor de uma mãe. Hana se apaixona por um homem que se transforma em lobisomem. O sentimento é recíproco, eles casam e têm filhos. Uma complicação é que os filhos também herdaram a condição do pai: ora são crianças fofas, ora lobinhos inquietos. Os problemas começam quando Hana se vê sozinha cuidando de suas duas crianças com necessidades que ela não compreende. A jornada dessa família é incrível, e muito mais profunda do que a premissa pode fazer parecer.

Koe no katachi – A silent voice

a silent voice

Shouko Nishimiya é uma menina que sofreu bullying por ter uma deficiência auditiva. Depois de alguns anos ela reencontra o garoto que mais a atacava na escola e uma amizade surge. O filme é delicado e trata de questões sérias do jeito que só os japoneses conseguem: com sutileza nos momentos pesados e pouco sentimentalismo.

A garota que conquistou o tempo – Toki o kakeru shôjo

a garota que conquistou o tempo

Um dos temas preferidos dos japoneses: o tempo. Makoto Konno é uma garota cheia de energia que vive atrasada. Um dia ela descobre que tem o poder de viajar no tempo. Com essa capacidade em mãos, ela usa e abusa do recurso, até que, claro, as coisas começam a sair de seu controle. Filme fofo com romance para ninguém reclamar.

Cinco centímetros por segundo – Byôsoku 5 senchimêtoru

5 centimetros por segundo

O filme é dividido em três partes, todas sobre o relacionamento de Takaki e Akari. Eles sempre foram muito próximos um do outro, mas o destino os afasta quando Akari precisa se mudar para outra cidade. Será que eles se reencontram? Ficam juntos? O legal das animações japonesas é que a expectativa de alguém que se acostumou com o cinema americano pode ser quebrada sem qualquer aviso prévio.

Sussurros do coração – Mimi wo sumaseba

sussurros do coração

O filme mais antigo da lista (1995) é também o mais fofo. A história é sobre a vida de Shizuku e sobre os desencontros e problemas de uma jovem. Shizuku se apaixona por um menino que ela não conhece, mas que já havia lido todos os livros que ela decide pegar na biblioteca. Sempre que ela vai pegar algum emprestado, o nome dele está lá marcado na fichinha. Shizuku é indecisa e curiosa, e isso às vezes traz problemas e às vezes a ajuda. Eu te desafio a ver esse filme e não se apaixonar pela música Take me home, Country Roads cantada em japonês.

Kimi no na wa – Your name

kimi no na wa

Por último o anime mais especial para mim. O único com texto no blog. A história de amor mais encantadora e graciosa que você vai ver. Um dia ele acorda e lembra que sonhou com ela, e ela sonha que viveu na pele dele. Eles vivem em cidades diferentes e não se conhecem. Um cometa passa e as coisas começam a fazer um pouco de sentido. Ai, o amor é lindo.

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Meta de leitura 2017 – 2018

O ano já começou há uma semana e aos poucos eu vou me acostumando com 2018. Aqui no blog o primeiro post de janeiro vai ser sobre a minha meta de leitura. Fiquei devendo os últimos três livros da meta de 2017 (o texto no blog, porque a leitura de todos os livros eu concluí a tempo) e resolvi juntar tudo por aqui: os três livros que faltavam da última meta e o começo de outra, novinha em folha. Minha meta de doze livros continua firme e forte. Ano passado os escolhidos foram na maioria clássicos e minha impressões sobre cada leitura foram publicadas aqui, aqui e aqui. Para finalizar faltava o romance de estreia da Virginia Woolf: A Viagem; um livro-reportagem brasileiro: Abusado, de Caco Barcellos; e por último um clássico russo: Pais e Filhos, de Ivan Turguêniev.

a viagem

A Viagem foi o que eu esperava. Eu li algumas opiniões agressivas e achei que talvez o livro fosse descomplicado demais para o gosto das pessoas acostumadas com as coisas que Virginia Woolf acabou fazendo em sua fase mais madura. Mas eu gostei muito da leitura. A Viagem foi o romance mais tranquilo de se ler da Virginia Woolf. Por tranquilo quero dizer que a história segue reta, sem as inovações técnicas que fizeram a fama da autora. A simplicidade do dia a dia dos personagens e dos acontecimentos faz deste um livro perfeito para começar a ler Virginia Woolf. Para um leitor brasileiro há uma pequena complicação adicional, que é a visão que Woolf tinha do Brasil (país que ela não chega a nomear, mas nem precisa). Se você conseguir dar esse desconto, tudo segue muito bem. A Viagem vale muito a pena, principalmente tendo em perspectiva todo o desenvolvimento posterior da autora.

abusado

Abusado foi o penúltimo livro da meta, e talvez a pior escolha. Um dos meus gêneros preferidos é o livro-reportagem (principalmente os de jornalismo investigativo), mas quando a reconstituição dos fatos faz uma história de não ficção virar praticamente ficção eu fico incomodada. Meu autor preferido no segmento é o Jon Krakauer porque ele consegue navegar com desenvoltura ali onde não se admite ficção em excesso: ele enche o livro de dados através de uma apuração perfeita e mesmo assim não deixa a história engessada; o Caco Barcellos pode ser um ótimo jornalista, mas em Abusado esteve longe de conseguir escrever uma história sem romantizá-la (no pior sentido da palavra). O lado bom foi que pelo menos eu tirei da lista uma leitura que eu adiava há muito tempo.

pais e filhos

Pais e Filhos, de Turguêniev é lindo. O protagonista é um dos personagens mais odiáveis do mundo da literatura, mas mesmo assim o envolvimento é inevitável. Eu praticamente devorei o romance em poucos dias e a sensação foi a de sempre com os russos que atravessaram meu caminho: que livro incrível! A experiência só não foi melhor porque eu me excedi e li três clássicos russos no ano. Tenho a impressão de que mais espaço entre um e outro me faria aproveitar melhor a leitura, então fica a lição para o futuro.

2018

meta de leitura 2018

Depois de dois anos em que as metas envolviam ler doze livros que estavam parados por aqui há um tempo, eu resolvi mudar. Em 2018 eu vou reler alguns dos livros que me empolgaram tanto que acabaram me fazendo tomar gosto pela leitura. A principal razão é a saudade. Para confirmar que a minha ideia foi boa eu acabei lendo o do mês de janeiro em um dia. Acho que a nova meta vai ser a mais fácil de concluir. Vou tentar seguir o cronograma de eleger um livro para cada mês do ano, mas vamos ver o que acontece. Quer saber quais são? Olha a foto aí em cima, só faltaram Crime e Castigo, de Dostoiévski, que eu ainda não tenho (li numa edição bem velhinha de que me desfiz há um tempo); e A Ventura de Amar, de Danielle Steel, e O outro lado da meia-noite, de Sidney Sheldon, que estão na casa dos meus pais. Cada livro escolhido aqui tem uma história sentimental comigo. Alguns são clássicos e outros… nem tanto(?). Dom Casmurro foi o primeiro que eu tirei da pilha. Eu só peguei a edição para dar aquela olhadinha, mas foi irresistível. Sabe como é apertar um cachorrinho? Foi assim para mim. Eu não conseguia parar. Essa foi a minha terceira passagem por Dom Casmurro e eu tenho que dizer que tinha a impressão de que a coisa de Capitu ter ou não traído o Bentinho era mais central para gostar do livro. Mas não. Bom, esse assunto fica para outro texto. Que este seja um ano bom.

Meus melhores filmes de 2017

O Natal passou e aqui no blog voltamos com a nossa programação normal: que é nenhuma. Mentira, a programação é ter texto não importa quando. Hoje eu trago a minha listinha dos melhores filmes que eu vi no ano de 2017: os ganhadores do Baby de Ouro. Talvez eu ainda veja algum filme tão bom que mereça entrar nesta lista, já que o dia de hoje não parece nem um pouco verão e é claro que vai acabar me fazendo ver um filminho. Lembrando que não há nenhuma ordem de preferência.

Depois da Tempestade, de Hirokazu Kore-eda

Foi um dos primeiros filmes bons do ano. Eu gostei tanto que escrevi um texto até meio longo sobre ele aqui.

Christine, de Antonio Campos

Tem filme que empolga ou emociona, mas também tem aquele que perturba. Foi o caso de Christine. A história é sobre o caso real da jornalista que se suicidou com um tiro na cabeça enquanto apresentava ao vivo o jornal da noite. O caso é chocante, mas o filme conta os últimos dias de vida de Christine de um jeito muito simples, interessado apenas em nos fazer sentir a agonia que ela sentia. É bem angustiante. Demorou dias para sair da minha cabeça.

Margaret, de Kenneth Lonergan

Anna Paquin está ótima neste filme. Ela é uma garota jovem e egocêntrica que, sem querer, causa um mal terrível. A história fica centrada no tormento em que ela transforma sua vida e a das pessoas que a rodeiam porque ela decide que só há uma verdade, só um ponto de vista sobre o que aconteceu. Acho que não é um dos filmes mais fáceis de se pegar o espírito: Margaret trata de amadurecimento e de aprender a enxergar os outros.

Manchester à Beira-Mar, de Kenneth Lonergan

Outro filme do mesmo diretor de Margaret na lista dos melhores. Eu escrevi um texto sobre ele aqui, contando mais da história e do que eu senti. Michelle Williams é muito, muito boa atriz.

O Apartamento, de Asghar Farhadi

Filme iraniano e da mesma época do Oscar. O Apartamento é tenso e te deixa na ponta do sofá querendo saber o que vai acontecer até o fim. Mas fora a tensão que rola o tempo todo ele também examina a mulher e o seu papel em um país como o Irã. Vale muito a pena.

Uma Noiva para Rip Van Winkle, de Shunji Iwai

Outro filme que analisa o momento do seu país, mas aqui é o Japão e os seus relacionamentos (ou a falta deles). Uma garota solitária decide conhecer outras pessoas através de um site de relacionamentos e isso é só o começo de uma longa aventura. Filme longo e lindo, repleto de poesia. É bom assistir depois de tomar um balde de café porque o filme dura mil horas.

Vítimas da Tormenta, de Vittorio de Sica

Acho roubo colocar um clássico na lista, mas seria impossível que Vítimas da Tormenta (ou Sciuscià) não entrasse aqui. Um filme do neorrealismo italiano que fala sobre a infância perdida e sobre o drama que o país vivia no pós-guerra. Escrevi sobre o filme aqui.

A Ghost Story, de David Lowery

O melhor filme sobre fantasmas que você vai ver. Uma história de amor, perdas e pertencimentos. Uma fábula da vida e da morte e do ser humano. Difícil falar de um filme tão especial em poucas palavras. Por filmes assim é que eu continuo vendo tanta porcaria: nunca imaginaria pela sinopse e pelo poster que A Ghost Story seria tão profundo.

Desamor, de Andrey Zvyagintsev

Se você quer chorar e sentir que não há esperança na humanidade veja esse filme. Bom, acho que essa não é a melhor propaganda. Desamor é a história de um menino russo que se sente sozinho com a separação dos pais. Ele tem motivos para pensar assim, seus pais realmente não se importam com ele, todo o sentimento deles está centrado no ódio e desamor de um para outro. O menino, Alyosha, some ou foge, e seus pais finalmente vão ter que se unir para encontrá-lo. Como eu disse no início, não espere que assim os pais aprendam uma lição e todos vivam felizes para sempre. Afinal de contas, o filme é russo, não americano. É triste, mas vale muito pela reflexão.

Bom Comportamento, dos irmãos Benny Safdie e Josh Safdie

Um thriller perfeito do começo ao fim. Imagine um filme de ação, com tomadas longas mas ágeis e um protagonista de caráter duvidoso, mas firme no seu propósito. Este é Bom Comportamento. Com poucos diálogos a história é contada de forma direta, sem se perder no lugar-comum e sem mensagens mastigadinhas e pré-fabricadas. Ah, e ainda tem o Robert Pattinson mostrando que ele é sim, um talentosíssimo ator. Vale lembrar que ele também roubou a cena em Z – A cidade perdida.

Minhas melhores leituras de 2017

Se em 2016 eu fiz uma lista de melhores leituras com muita variedade, em 2017 ela vai ser enxuta; e essa é uma decisão consciente. Ano passado eu não consegui me controlar e botei tudo quanto era livro entre os melhores do ano, mas neste ano o esquema vai ser o mesmo das séries: apenas cinco melhores. Em 2016 eu separei por gênero. Não gosto de colocar um policial e um clássico na mesma lista, como se assim eu estivesse comparando-os e o policial estivesse levando a pior. Mas se eu consigo ser concisa na lista de séries e filmes, por que não na de livros? Em 2017 vou embolar tudo. Lembrando que, assim como na categoria de séries do Baby de Ouro, aqui o que vale é o ano em que eu li o livro, não o de seu lançamento.

Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar

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Eu falei rapidamente sobre o livro aqui, há meses, mas o sentimento segue inalterado: foi de longe a melhor leitura de 2017. Eu não consigo nem imaginar o tamanho da dificuldade em escrever um livro partindo do ponto de vista de um imperador romano, e nem entendo direito como é que a autora conseguiu fazer para manter essa história ao mesmo tempo verossímil e particularmente tocante para uma pessoa nascida no século XX, mas durante a leitura de Memórias de Adriano só o que vinha na minha cabeça era a naturalidade daquela voz que a autora conseguiu criar. Pretendo reler muitas outras vezes, virou um daqueles livros que eu quero que envelheçam comigo.

Vida e Destino, de Vassili Grossman

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O mês de julho de 2017 vai sempre me fazer lembrar de Vida e Destino. Uma daquelas leituras que são uma verdadeira jornada. Ainda esses dias eu reli um dos trechos que eu marquei no livro e fiquei feliz por ter passado por tudo aquilo. De onde eu estou sentada consigo enxergá-lo na estante e a sensação me ocorre de novo. Se quiser saber mais da obra, eu fiz um texto com algumas impressões aqui.

Ressurreição, de Liev Tolstói

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Uma das primeiras publicações do ano no blog no ano tratava de Ressurreição. Confesso que demorou para me cair a ficha de que essa leitura havia me tocado em particular. Mas eu vi o livro surgindo em uma conversa ou outra, ou na minha cabeça quando alguma notícia me fazia lembrar de uma passagem. E assim eu comecei a valorizá-lo mais e mais com o passar dos dias. Quando me lembro da história e das reflexões que ela traz eu sinto um aperto no peito. Ainda fico admirada com o poder que uma boa leitura tem na vida da gente, e um livro como Ressurreição só renova este sentimento.

Indesejadas, de Kristina Ohlsson

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O gênero que eu mais li em 2017 foi o romance policial. Até fiz um post falando deste e de outro livro e do meu amor por histórias de detetive e afins. Indesejadas é tenso, e até tem cara de thriller, mas é bem mais lento. Os protagonistas são cativantes e o clima deixa a história acolhedora mesmo com assassinatos e desaparecimentos de crianças. Pra quem gosta do gênero a leitura é irresistível, para quem quer começar é um bom ponto de partida.

Mr. Romance, de Leisa Rayven

mr romance

O único livro da lista sem texto aqui no blog. Falar sobre o amor entre duas pessoas e criar um ambiente adequado para isso parece fácil, mas não é. Parece tão fácil que há toneladas de livros por aí propagando essa ideia, tentando causar aquela sensação única que uma história de amor consegue provocar. Só que quem gosta dessas leituras sabe que vai precisar ler uns dez livros para achar três razoáveis e um ótimo. Mr. Romance é aquele ótimo que só aparece bem de vez em quando. A autora brinca com as possibilidades do romance (o relacionamento amoroso entre duas pessoas, não o gênero literário) e constrói personagens que fazem você querer devorar o livro. Não vejo a hora de ler o próximo da série.

Então é isso. Daqui de casa eu consigo até ouvir o estouro do champanhe dos editores por terem conquistado um prêmio tão valioso quanto o Baby de Ouro. Para a semana que vem preparem seus vestidos porque as premiações de cinema são sempre muito chiques.

Minhas melhores séries de 2017

Chegou o momento dos MEUS MELHORES DO ANO. Ainda não é uma tradição – eu comecei com isso no ano passado – mas o Oscar e o Troféu Imprensa também tiveram que começar de baixo. Ou não? 2017 ainda não acabou, mas eu sei que não vou ver nenhuma série que me empolgue tanto quanto essas cinco que listei aqui. Por que cinco? Não sei. Quase todas as listas do blog acabam em cinco.

Ah, vale lembrar que essas são séries que eu comecei a ver neste ano, mas elas não estrearam necessariamente em 2017. Opa, também vale lembrar que elas não estão organizadas em ordem de preferência ou importância.

Mindhunter

mindhunter

Taí uma que me pegou desprevenida. Eu estava vindo de umas séries policiais bem decepcionantes, quase todas da Netflix. Eu lia por aí que eram muito boas e quando ia ver achava tudo mais do mesmo ou ainda pior. Já no segundo semestre surgiu Mindhunter. Com um padrão acima da média, Mindhunter analisou os serial killers quando eles ainda nem carregavam esse nome, e também contou uma história bem melhor e mais interessante que a do livro que inspirou a produção. Logo depois do fim de semana de estreia eu fiz um texto falando um pouco sobre o que achei.

The Handmaid’s Tale

the handmaids tale

Acho difícil que você não tenha visto ou ouvido falar desta série. Ela ficou famosa por seu teor feminista. Muitas vezes o cinema, a tevê e a publicidade surfam na onda dos ativismos, ganham bastante exposição, mas mal conseguem esconder que têm pouco a dizer ou – pior ainda – que aquilo que defendem é só uma maquiagem muito superficial jogada em cima do mesmo produto bobão e padronizado. The Handmaid’s Tale é o oposto de tudo isso. A série tem o que dizer, não tem medo de ser desconfortável, vai além do discurso comum. É apavorante e ao mesmo tempo tem alto valor de entretenimento. É toda bem feita, da luz às atuações. Eu fiz um texto sobre a série aqui, num dia em que estava bem deslumbrada.

Twin Peaks

twin peaks

Eu sei que disse que não haveria ordem de preferência, mas vou entregar meu xodó. Se eu tivesse que eleger uma melhor série no ano todo seria Twin Peaks, sem dúvida. Twin Peaks é a minha série favorita da vida, mas em 2017 ela voltou com os dois pés no peito. Eu falei um pouco dela aqui, mas gostaria de falar dela para sempre (vou evitar isso, estou tentando ser sucinta). A Twin Peaks de antigamente tem tudo que posso querer numa série: o clima familiar e acolhedor; diálogos engenhosos mas cheios de simpatia; mistérios que dão um nó na cabeça; personagens cativantes e ação no momento certo (quando a gente menos espera). A nova Twin Peaks fez tudo isso e ao mesmo tempo fez seu exato oposto. Por semanas eu esperava ansiosamente pelo novo episódio, para saber quando Cooper voltaria a ser Cooper, para tentar entender só um pouquinho toda a confusão que David Lynch estava fazendo – e que, é bem evidente, na verdade não tem desenlace. Meu otimismo é grande para que David Lynch receba uma boa oferta para uma nova temporada da melhor série que já fizeram. Vou sentir falta de Dougie Jones.

This is us

this is us

Ano passado eu assisti o piloto desta série na minha fase alucinada de pilotos da fall season. Eu gostei mas achei piegas além da conta (olha que eu sou fã de Grey’s Anatomy) e por isso larguei mão. De repente eu via em todo lugar alguém falando de como This is us era linda e emocionante, e então a série foi concorrendo às premiações e, claro, eu não consegui deixar passar. Sou muito influenciável. Dei uma nova chance e o meu amor ao novelão falou mais forte. Se você gosta de chorar à toa vai amar This is us. Deixando todo o drama de lado, a série consegue se manter em pé com ótimas atuações (com exceção da Mandy Moore, por favor) e histórias impactantes que, mais pela forma com que são contadas do que pelo conteúdo, pouco vemos na televisão: o filho negro que precisa se encontrar dentro de uma família branca e a mulher obesa que precisa encontrar seu amor próprio e vencer preconceitos. Eles não são o apoio dos protagonistas, eles são os protagonistas. Essa série é uma boa prova de que bons atores e boas histórias podem existir em qualquer lugar.

Suits

suits

Acho que Suits entra aqui como um guilty pleasure. Quer dizer: eu para falar a verdade só tenho o pleasure e não me sinto guilty de nada. Tenho algum comentário para tecer? Não. Só estou viciada. Um dia de bobeira na Netflix eu pensei “só vou ver um episódio, vou detestar e nunca mais”. Quando dei por mim já estava no terceiro episódio, viciada no Mike, no Harvey e na Rachel. A atriz que faz a Rachel agora está famosa porque vai se casar com o príncipe Harry, mas minha tristeza é saber que ela abandonou a série que está agora na sétima temporada (eu ainda estou no início da quarta). Nunca tive o sonho de ser advogada, mas adoro essas séries fora da realidade com intriguinhas de firma. Adoro ver esse povo ainda no escritório às 10 da noite, de terno, enquanto eu estou toda aquecida no sofá.

(Alguém faz o favor de avisar os estúdios que eles ganharam o Baby de Ouro 2017?)

Alguns documentários e a minha necessidade de montar listas

Daqui a pouco começam as listas de fim de ano. Eu estou preparando as minhas. Foi muito bom fazer as do ano passado. Mais do que dizer o que vale ou não vale a pena, o proveito que eu tiro desse balanço é poder ver, com um mínimo de distância, o que é que chamou a minha atenção, quando, e que relação isso vai ter com as outras coisas que eu li e assisti durante 2017. Dá pra criar uma espécie de mapa dos meus interesses (ahaha). É um hábito que eu recomendo muito.

Eu acabei deixando algumas coisas de fora quando separei os melhores filmes que vi em 2016. A ausência mais sentida (por mim, é claro) não foi a de um filme em especial, mas a de um gênero. Acabei não falando dos documentários. E eu tenho um fraco por documentário. Com exceção de Faces da Morte e que tais, sou capaz de ver qualquer coisa sobre qualquer tema ou pessoa. Expresso imensa curiosidade sobre assuntos pelos quais nunca me interessei, e isso acaba produzindo alguns caminhos difíceis de explicar lá no tal “mapa dos meus interesses”.

rocco netflix

Em 2017 eu gostaria de saber, por exemplo, o que foi que me fez assistir a Rocco, o documentário sobre a vida e o trabalho do ator pornô italiano Rocco Siffredi. O que eu percebi é que Siffredi é uma das pessoas mais vaidosas sobre as quais qualquer um já apontou uma câmera. Então quer dizer que o filme é ruim? Muito pelo contrário. Quando o personagem principal é quase louco, tamanho o seu ego, não tem como o documentário ser desinteressante. Eu queria ver um documentário sobre os bastidores da indústria pornô (assim como Hot Girls Wanted) mas acabei acompanhando um filme sobre gente obsessiva e desequilibrada.

Falando em obsessão e desequilíbrio, na mesma madrugada eu vi Gaga: Five Foot Two, o documentário da Lady Gaga. Eu acho que posso dizer que eu tinha sentimentos neutros a respeito dela. Nunca parei para ouvir um álbum, mas também nunca pulava quando uma de suas músicas começava a tocar. Eu tenho todo um respeito por quem faz sucesso nesse nível planetário da Gaga, e as histórias por trás desse tipo de sucesso nunca decepcionam. Quase nunca. Quer dizer: eu tenho certeza de que Lady Gaga não virou Lady Gaga sem ter virado o mundo de cabeça para baixo, mas Five Foot Two não trata exatamente disso. Até aí tudo bem. O problema é que estamos falando do rei de todos os documentários de egotrip. Ridiculamente reverente a sua personagem principal, todo supervisionado por ela (mesmo que ela negue, fala sério!), Five Foot Two mostra meio sem querer uma cantora cheia de si, falando platitudes como se fossem pílulas de sabedoria, tentando fazer o espectador acreditar numa ideia romântica e velha daquilo que é arte e do papel que os artistas têm no mundo. O filme é tosco e piegas e abusa de uns recursos visuais toscos e piegas, e ainda por cima acredita firmemente em tudo o que ela fala, sem ironia aparente. Five Foot Two deixa a desejar na investigação que faz a respeito de Gaga. Eu espero que este não seja visto como o documentário definitivo a respeito dessa figura mais ou menos central da cultura pop dos últimos anos, porque caso contrário a gente vai começar a confundir documentário com vídeo institucional.

Mas por que tratar, numa pré-lista de fim de ano, de um filme que mais me deixou com raiva do que outra coisa? Não sei. Talvez para recomendar que você também veja ambos, Rocco e Five Foot Two, na mesma noite, prestando atenção nas semelhanças entre o ator pornô e a diva pop.

Além desses eu também vi Eis os delírios do mundo conectado, que não está entre as melhores coisas que o Werner Herzog já fez.

bright lights

O primeiro documentário digno a entrar numa lista de melhores do ano foi Bright Lights, sobre as espetaculares Carrie Fisher e Debbie Reynolds. Nunca fui fã de Star Wars, mas isso não me impediu de gostar da Carrie Fisher. A mulher era o carisma em pessoa. O documentário, no que diz respeito a tratar de seus personagens principais, era o exato oposto daquele da Lady Gaga. Bright Lights mostrou com honestidade que Fisher era bem difícil. Expôs os defeitos dela, que se abriu sem muita reserva, e foi fundo na relação entre mãe e filha. Olhando agora, e comparando a franqueza de Carrie Fisher com as poses de Gaga, dá para dizer que Five Foot Two mostrava a “humanidade” de Gaga do mesmo jeito que um candidato a uma vaga responderia, numa entrevista de emprego, que seu maior defeito é ser “perfeccionista e muito organizado”. Já Bright Lights passou longe da reverência imoderada, mas fez um perfil doméstico da mãe e da filha, recapitulou duas vidas passadas diante das câmeras e mostrou o que é que sobra disso bem quando estava todo mundo em choque com as mortes tristíssimas das duas. É um filme interessado em mostrar um retrato familiar e deixar o espectador formar uma opinião, em vez de carregar você pela mão para mostrar quão poderosa uma celebridade é.

Olhando agora: o que foi que me fez querer ver Bright Lights, que eu já imaginava ser muito triste? Não sei. Acho que eu fui atraída pela tragédia. Carrie Fisher morreu depois de um tempo no hospital; Debbie Reynolds já estava fragilizada, não aguentou o baque e morreu. Mas me recuso a pensar que fui atraída pela tragédia como seria se estivesse lendo uma revista de fofoca ou fazendo um comentário maldoso. Por minha própria experiência com a minha mãe, acho que há com frequência uma espécie de simbiose entre mãe e filha. Acho que foi a imersão nesse relacionamento que me interessou, acho que foi isso o que me tocou em especial.

Que mais? Se essa fosse uma lista dos melhores documentários que eu vi em 2017, e se eu tivesse algum insight a respeito do racismo em solo norte-americano, eu teria que falar sobre I am not your negro. É revoltante, como não poderia deixar de ser, e é especialmente poderoso porque conta com a inteligência de James Baldwin – sua voz, sua vida, e o que ele tem a dizer. Além do mais, esse filme é muito bem editado, montado, roteirizado ou o que o valha. Tanto assim que ele empalidece outro doc da mesma época, e com o mesmo tema, que é aquele A 13ª Emenda.

Para engatar no ativismo político americano do século XX, só para ter um gancho, eu também assisti a American Anarchist. Outro perfil bastante complexo, este aqui conta a história do sujeito que escreveu The Anarchist Cookbook, aquele livro que ensina qualquer leigo a preparar uma bomba caseira (utilizado, por exemplo, pelos assassinos de Columbine). Onde é que esse filme se situa no “mapa dos meus interesses”? Não sei. Eu poderia dizer que me interesso especialmente por Columbine e assassinatos de massa desde esse texto aqui, mas acho que meu marido escolheu nesse dia e eu estava com preguiça de sugerir alguma outra coisa. Não sei. Vale a pena? Sim. Eu me lembro de ficar pensando “gente, as voltas que a vida dá” a cada cinco minutos.

Caramba, cheguei a 1201 palavras no parágrafo anterior. Ninguém vai ler isso, nem por interesse nem por bondade. Vou encerrar com algumas sugestões, no estilo bate-bola/jogo rápido da Marília Gabriela (entregando a idade). Um documentário para pensar que só tem abobado no mundo? Extraordinary – The Stan Romanek Story; um documentário para pensar que o tabu mata e deixa a gente infeliz? Whitney Houston – Can I Be Me; outro documentário que foi muito menor que a figura que o inspirou? Laerte-se; um documentário para matar saudade do Jerry Seinfeld? Comedian; um documentário para fazer diminuir um pouco a sua inveja dos japoneses e a sua vontade de morar no Japão? Tokyo Idols.

(Lembrando que este não foi um post com uma lista de melhores do ano. Todos esses documentários foram becos sem saída no “mapa dos meus interesses” [gente, que termo ridículo!].)

Meus 5 personagens preferidos de séries

Sempre que eu vejo ou experimento alguma coisa muito boa eu imediatamente penso em listas, minha cabeça sempre funcionou assim. Por exemplo: comi um bolo delicioso de chocolate – quais são os cinco bolos de chocolate mais deliciosos que eu comi na minha vida?; acabei de ouvir pela centésima vez o mesmo álbum do Angra – quais são minha cinco músicas preferidas do Angra? Quem sofre com isso é o meu marido, porque para cada lista minha eu preciso ouvir a dele, e claro, quase sempre ele não sabe me responder, porque é difícil definir rapidamente as coisas de que você mais gosta.

Um dia vendo a nova temporada de Twin Peaks eu me peguei pensando no agente Dale Cooper, e percebi que ele é o meu personagem preferido de todos os tempos entre todas as séries que eu já vi. Não demorou para surgir a questão “e quais são os meus outros quatro personagens favoritos de séries de todos os tempos?”.

Pois é, falando assim minha cabeça não parece um lugar muito empolgante, mas garanto que pensamentos mais nobres aparecem por aqui de vez em quando.

Meus cinco personagens preferidos são necessariamente aqueles com quem eu gostaria de conviver? Aquela pessoa que você gostaria que saísse da tela e fosse de verdade? Veremos.

Dale Cooper – Twin Peaks

dale cooper

Twin Peaks é minha série preferida, então nada mais normal do que meu personagem preferido vir dela. Eu vi e revi a primeira temporada, acho que foram quatro vezes, e posso dizer que o agente especial Dale Cooper (Kyle MacLachlan) é uma pessoa que deveria existir. Alguém que melhoraria o mundo. Na história ele precisa resolver o assassinato de Laura Palmer na cidadezinha de Twin Peaks. Ele trabalha para o FBI, mas o perfil de agente metido não combina com ele. Cooper é amistoso, generoso e gentil. Estas características acabam transparecendo no jeito de encarar o trabalho, sem deixar de ser profissional. Seus métodos pouco convencionais impressionam os cidadãos de Twin Peaks na mesma medida em que seu bom coração os conquista. Acho que eu gosto tanto deste personagem porque ele é a síntese de uma pessoa que me atrairia (não romanticamente). Eu prezo muito a honestidade de uma pessoa que se conhece e não usa de subterfúgios para se relacionar, é quase como se a pessoa voltasse a ser criança de tão clara que ela é. Esse é o Dale Cooper, um personagem mais do que especial. Acho que Kyle MacLachlan é responsável por pelo menos metade do apelo que Twin Peaks tem comigo. Lembrando que a terceira temporada, lançada agora em 2017, foi o auge da série até agora.

Elaine Benes – Seinfeld

elaine benes

Que surpresa! Mais uma que vem de uma das séries favoritas. Seinfeld é uma sitcom da década de 1990 que conta a história (vá lá: contar a história não faz jus ao que acontece porque o objetivo, às vezes, é não contar história nenhuma) de quatro amigos em Nova York (se você pensou em Friends, saiba que Seinfeld chegou antes e que os friends são seis). Jerry Seinfeld, Jason Alexander e Michael Richards são talentosos e engraçadíssimos, e por isso o trabalho de Julia Louis-Dreyfus era difícil. Não é que ela seja menos talentosa e brilhante, mas naquela época, numa série quase inteirinha feita por homens, não seria uma surpresa se a única protagonista mulher fosse colocada de escanteio. E a razão de isso não acontecer não foi a pressão do público ou a boa consciência dos produtores, não: foi porque Julia Louis-Dreyfus é muito, muito, muito boa atriz, muito carismática e muitíssimo engraçada. Mesmo sem humor físico ou caricato ao extremo ela conseguiu, logo no começo, estabelecer uma sintonia que é rara – tão rara que não foram poucas as comparações, ao longo dos anos, entre os quatro de Seinfeld e os quatro Beatles.

Quando Seinfeld começa, Elaine Benes é uma garota comum que convive com três caras bizarros. Em uma época em que poucos levantavam a bandeira das mulheres fortes e decididas na tevê, Elaine era tudo isso, e com a maior naturalidade: ela tinha tantos relacionamentos quantos os homens da série, era cheia de opiniões, nunca deixava um desaforo barato. Aos poucos ela foi se revelando deliciosamente mesquinha e egoísta. Todo mundo é mesquinho em Seinfeld, mas mesmo assim você torce por eles e a identificação acaba acontecendo. Acho que eu me daria muito bem com uma amiga como Elaine Benes. Não sei bem em que posição isso me coloca, mas não tem problema.

Felicity Porter – Felicity

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Para falar em amizade, ninguém melhor do que Felicity Porter. Ela acabou de chegar em Nova York para estudar, totalmente despreparada para viver tudo o que vai precisar viver – inclusive porque, se preparada estivesse, não haveria série. Fiz uma declaraçãozinha de amor ao seriado aqui. Por agora é suficiente dizer que aquelas que não se identificam com Felicity estão mortas por dentro. Ela é desajeitada e erra muito, mas também é confiável, querida. Ela se importa de verdade com os problemas dos amigos. Mesmo que seja a protagonista, não é daquelas que fazem o mundo todo girar em ao redor delas. Quem nunca se irritou com aquela mocinha que tem uma melhor amiga e enche as orelhas dela com seus problemas? A Felicity é o oposto disso. Ela para, senta, ouve, tenta resolver. É ao mesmo tempo frágil e corajosa, daquele tipo que tira a valentia de onde não pensava que haveria. Acho que existem muitos outros personagens assim, mas a atriz (Keri Russell, que todo mundo conhece agora em The Americans) fez de Felicity um retrato de muito do que a gente quer ser, e também de alguém que a gente gostaria de conhecer. Quem não queria uma amiga como a Felicity?

Eric Northman – True Blood

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True Blood é um exemplo de série que desandou e acabou de um jeito bem feio, mas antes de isso acontecer já estava sedimentada a minha paixão pelo Eric, interpretado por Alexander Skarsgård. Eric é um personagem de livro (True Blood foi baseada nos romances de Charlaine Harris) mas foi na tevê que ele virou o que virou. É um personagem irreal? Bom, se você acha que um vampiro bonitão e capaz de tudo pelo seu amor é uma coisa irreal, então ele é. Mas existir apenas na imaginação às vezes é a graça de uma história. E de um bom personagem. No começo a pinta de bad boy convencia, mas depois Eric vira um sujeito (mais ou menos) leal e um herói com sangue quente. Ele entra aqui na lista para representar os galãs, que geralmente são meio chatinhos. Chatinho, inclusive, era o Bill, que era o par romântico inicial da Sookie. Este era insuportável. Torci muito para que Sookie ficasse com o Eric, mas confesso que lá pelas tantas a série estava tão perdida e mal feita que já não fazia diferença.

Cristina Yang – Grey’s Anatomy

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Sim, Cristina Yang também é my person. É muito triste continuar assistindo a uma série sem sua personagem preferida (pelo menos a Meredith continua). Cristina Yang também é aquela pessoa que você quer ser ou ter ao seu lado. Ninguém mete medo nela. Ela é uma personagem incomum. É agressiva e chega a beirar a grosseria, mas sua franqueza não passa de honestidade. É uma pessoa bruta com um coração enorme, interpretada por Sandra Oh, uma atriz que mereceria uma carreira de muito mais destaque. Foi impossível desgostar de uma personagem assim, principalmente porque ela era justo aquilo de que a Meredith precisava. Juntas elas eram imbatíveis naquele hospital. Eu sinceramente achei que não conseguiria continuar acompanhando Grey’s Anatomy quando Sandra Oh deu adeus. Foi um baque muito grande. Maior, sinceramente, do que o de quando certo marido de certa protagonista morreu.

Um dia eu ainda apareço com a lista das minhas pessoas preferidas com quem eu convivo no mundo real. Um spoiler: mamãe está na lista.

Um balanço final da primeira temporada de The Deuce

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Teria sido frustrante se a HBO não houvesse confirmado uma segunda temporada de The Deuce. Isso porque a série teve a ambição de construir um quadro enorme do mercado do sexo na Nova York dos anos 1970, e porque este quadro mal começou a ganhar vida. Ao mesmo tempo, como ninguém é bobo, a primeira temporada acabou sendo uma história completa – pouco ficaria em aberto se mais episódios não fossem encomendados.

The Deuce ganhou elogios de veículos especializados e já saiu com a expectativa lá no alto por causa do renome de seus criadores. David Simon é o sujeito por trás de The Wire. George Pelecanos, além de ter trabalhado em The Wire, é um reconhecido autor de romances policiais. Richard Price, um dos produtores executivos, foi responsável por The Night Of e também é um romancista importante. No elenco estão James Franco e Maggie Gyllenhaal, além de um monte de rostos conhecidos para quem viu qualquer coisa nos últimos quinze anos.

Ainda assim – e como acontece com frequência – o burburinho não durou muito. A série não é daquelas de colocar a internet inteira em colapso quando alguma coisa vai acontecer. Pelo que eu vi a recepção no Brasil foi meio morna. The Deuce não pegou de jeito aquele pessoal que é louco por séries, nem entusiasmou bastante a turma cinéfila. Da minha parte, ah, eu achei que fosse me entusiasmar mais. Acho que houve algumas concessões bobas ao que se pensa ser o gosto do público. Vou tentar explicar.

Um exemplo é o arco de Eileen, interpretada por Maggie Gyllenhaal. Talvez em tempo de tela não dê para perceber o tamanho da centralidade da personagem dela, mas é ela quem conduz tudo. As mulheres de The Deuce estão ou em conflito para perceber que um novo lugar no mundo é possível, ou em luta para construir este novo lugar. Eileen é uma prostituta que não tem cafetão. Os cafetões exploram as meninas, sob a desculpa de protegê-las, mas Eileen não é o perfil comum de uma prostituta. Ao longo dos oito episódios a gente descobre que ela apelou para a prostituição para fugir de um pai repressivo, mas que vem de uma família mais abastada que as das demais. Nas ruas ela corre tanto perigo quanto as outras mas, diferentemente das outras, resolveu administrar sozinha o que ganha e como trabalha. Eileen é bem resolvida com sua sexualidade. É madura, liberada, inteligente, conhece bem o próprio corpo. Acontece que o ambiente de trabalho é muito, muito insalubre. Não é de espantar que algumas meninas queiram proteção. Ela apanha de mais de um cliente, o perigo vem como que em escalada. O fim da década de 1970 é um dos períodos mais violentos da história de Nova York. A polícia não liga se algum maluco enforca, esfaqueia ou estripa uma garota de programa. A situação fica insustentável e Eileen precisa parar de trabalhar. Por sorte os tempos estão mudando e, por competência, ela consegue se envolver num negócio que só vai crescer: o cinema pornográfico.

Não tenho nem como negar que isso é muito legal. Eileen é uma personagem central porque serve como símbolo da mudança dos tempos. Na juventude ela foi reprimida pelas limitações sociais, os tabus sexuais a marginalizaram – com uma revolução nos costumes ela vai encontrar seu lugar. A princípio Eileen fica na frente das câmeras, transando, mas depois ela começa a usar a criatividade e mostrar que é capaz, e aí a oportunidade surge. Quando a temporada termina ela já está dirigindo seu primeiro filme, um pouco por acaso e um pouco por obstinação. Para mim isso é quase um modelo de arco. Ela foi do ponto A ao B e tudo se encaixa com o grande panorama histórico. Onde estão as concessões bobas? Na hora de colocar essa jornada na tela.

DEUCE - THE

O roteiro traz uma personagem cheia de complexidades, mas ao mesmo tempo quer contar essa história como se estivesse falando com uma criança, como se The Deuce fosse um telefilme edificante. Um exemplo pontual está numa cena do último capítulo. O lugar é um set de filmagens. Maggie Gyllenhaal está usando meias 7/8 e um robe de seda. Eileen está pronta para rodar sua próxima cena. Mas o telefone toca. Uma assistente atende. O diretor não vai conseguir chegar a tempo. O que resta a fazer a não ser ir para casa? Mais do que obstinada, Eileen parece predestinada a assumir aquela posição: já que o diretor não vem, quem dirige sou eu. Faz sentido? Na vida real, eu não tenho dúvida nenhuma de que uma atriz pornô consiga dirigir um filme. Eu sei que isso acontece bastante. Muitas atrizes juntam dinheiro e abrem suas próprias companhias com o objetivo de ter controle sobre tudo o que fazem ou de ganhar dinheiro ao produzir conteúdo num meio que já conhecem. Só que The Deuce tratou esse processo de um jeito simplificador em excesso. O set é grande. Há um assistente de iluminação, uma contra-regra, vários atores, cenário, figurino, dinheiro envolvido: tudo isso para uma pessoa com zero experiência tomar as regras só porque se dispôs a aprender fazendo. O desenrolar da cena não é só inverossímil para qualquer um que já tenha trabalhado com qualquer coisa: ele também é feito com o máximo apego a fórmulas muito conhecidas de quem acompanha, por exemplo, o Supercine. Eileen compreende o trabalho do diretor, dá pitaco na direção de arte, trabalha o lado psicológico das atrizes menos experientes. Maggie Gyllenhaal faz tudo isso com a sutileza de um trator: cara de boazinha, cara de compreensiva, cara de quem está exercitando a criatividade.

Seria legal ver mais novidades em uma série com as pretensões de The Deuce. A sensação de déjà vu também bate forte quando se acompanha alguns dos personagens secundários: a jovem rica que largou a faculdade para virar garçonete, desafiar os pais e viver a “vida real”; a prostituta sonhadora que lê e vê filmes entre um programa e outro; o trabalhador assalariado que se encanta com as possibilidades da vida do crime; o trabalhador honesto que se vê seduzido pela máfia ao reafirmar sua masculinidade; o casal gay em crise porque um tem mais reservas que o outro a respeito de demonstrar intimidade em público e sair do armário. De novo: tenho certeza de que essas pessoas existem na vida real, mas acho que não precisamos vê-las no cinema e na tevê, para sempre, sob as mesmas luzes.

Mas todo esse didatismo não chega a estragar a série, que tem um fio condutor bem interessante. No fim das contas, o antagonista principal em The Deuce é o homem que contrata prostitutas. Ele aparece pouco, mas é a escrotidão em forma de criatura. Mais vil que os cafetões, mais hipócrita que os mafiosos e policiais, muito mais problemático que as prostitutas, o homem que contrata prostitutas é quem as submete à violência, quem solicita o sexo e quem as reprime por terem fornecido aquilo que ele solicitou. Trocando em miúdos: em The Deuce o homem que contrata é o símbolo de uma doença social. Ele vai ferrar todo mundo porque quer sexo, ele vai fazer de tudo para esconder suas preferências, ele vai pagar o que for preciso para ter o que quer. Quando a sociedade e a tecnologia permitem que essa obsessão seja levada adiante sob a proteção da privacidade é que surge a milionária pornografia moderna.

(Eu não sei se essas hipóteses correspondem exatamente à realidade, mas não custa lembrar que o Brasil, por exemplo, é ao mesmo tempo o país que mais mata transexuais e o que mais consome pornografia trans.)

De qualquer forma, em The Deuce os personagens servem para levar uma tese adiante: a de que uma revolução nos costumes e na tecnologia tirou o sexo pago das ruas e o levou para dentro das casas. Às vezes essa tese chega até a gente de um jeito meio simplista e quadradinho, mas o resultado final é bom. O tema fica mais e mais interessante na medida em que a gente conhece mais ângulos, e isso não é um feito que toda série consegue realizar. Pelo jeito a segunda temporada vai querer investigar se essas grandes mudanças na indústria do sexo e na sociedade serão necessariamente boas.

P.S.1: A recriação da época, em cenários e figurinos, está impecável.

P.S.2: Eu não sei julgar se James Franco é bom ator, mas eu adoro a participação dele em The Deuce. Ele faz irmãos gêmeos: um é malandro, o outro é ainda mais malandro. Os dois só se beneficiam do jeito canastrão de Franco.