Mr. Mercedes é legal?

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2017 está sendo um bom ano para o bolso de Stephen King. Tem It e A Torre Negra nos cinemas, tem O Nevoeiro, que saiu para a televisão em junho, além de Mr. Mercedes que estreou em agosto. Tenho certeza de que a conta não para aí. Deve haver alguma coisa perdida lá no primeiro semestre – boa sorte para quem for fazer a lista completa das adaptações de King para todas as mídias. Eu não posso dizer que criei uma relação especial com o autor, nem que conheço tudo o que ele fez de cabo a rabo. Lembro que comecei por It. Muito tempo depois veio Novembro de 63. E agora em 2017 eu li Mr. Mercedes sem saber que uma série de tevê estava a caminho. Acho que fiquei levemente desapontada. Não me encantei, mas terminei a leitura. Sabe o que isso quer dizer? Quer dizer que eu estou apta a ser a pessoa insuportável que viu Mr. Mercedes, a série, e ficou comparando com o que acontecia (e como acontecia) no livro. Só que nesse quesito tudo deu certo. O espírito do romance está todo na tela. O que é que deu errado, se é que algo deu errado?

O tal Sr. Mercedes é um assassino em massa que conseguiu escapar. Ninguém sabe seu verdadeiro nome. Em 2008, no auge da última grande crise econômica americana, ele atropelou mais de uma dezena de pessoas numa fila para conseguir emprego, com um Mercedes Benz roubado. Muita gente morreu. O detetive Bill Hodges ficou obcecado com o caso e perdeu uma parte da sanidade, teve que se aposentar. Nos dias atuais, encontramos Bill em modo autodestrutivo, desgostoso da vida, viúvo, numa casa bagunçada, sem fazer a barba e bebendo a qualquer hora do dia. O que vai tirá-lo desse torpor é a vaidade do Sr. Mercedes. O assassino não se contentou com o anonimato: ele quer fazer joguinhos, quer brincar com a cabeça do velho detetive e começa a se corresponder com ele. A perseguição recomeça, mas o ritmo de Bill não é lá essas coisas.

Há muitas pontos legais nos quatro episódios que eu vi. Qualquer um que tenha assistido a um filme americano lançado nos últimos dez anos vai poder identificar, em Mr. Mercedes, aquela desolação bem característica das obras que retrataram o pior da crise e suas consequências de longa duração. Carros velhos, interiores arruinados, personagens aguentando pequenas e grandes humilhações pela preservação de empregos sufocantes, vizinhanças depauperadas. Esses elementos dispensam diálogos explicativos: está na cara que todo mundo empobreceu, que a vida urbana nessas condições convida à paranoia e à alienação, que o mundo é uma máquina de moer gente.

Esse recado foi dado com a ajuda, ainda por cima, de um elenco muito bom. Do detetive ao assassino, todos mantém Mr. Mercedes naquele nível em que a gente consegue levar o que está acontecendo a sério. Deixa eu dar um exemplo. Harry Treadaway, o ator que faz o assassino, poderia ter ido muito mal – e isso nem é spoiler já que nós, o público, descobrimos sua identidade logo no piloto – pois a tarefa dele era bem complicada. O Sr. Mercedes é um homem, no fim dos 20 ou começo dos 30 (agora eu não me lembro se isso foi especificado, mas não mais de 35), que tem um trabalho chatíssimo e pouco recompensador, uma mãe com muitos probleminhas, e um porão trancado à chave em que ninguém pode entrar. No porão não há uma coleção de cadáveres nem de mulheres sequestradas, mas um monte de computadores, luzinhas piscando, aparelhinhos sobre os quais ninguém explica nada, paredes pintadas de preto. Tudo isso para dizer que o Sr. Mercedes não é só um louco que entrou num carro e teve vontade de passar por cima dos outros – ele também é um competentíssimo hacker. Não há computador ou sistema de segurança que esteja a salvo de um cara como ele. Qual é o problema? Bom, a gente sabe que o cinema (e a televisão, por consequência) tem certa dificuldade com a figura do hacker.

Primeiro porque a habilidade de um hacker, num roteiro que precisa de um hacker habilidoso, sempre acaba se transformando em um elemento mágico. É um recurso excelente porque resolve pontos complicados. Se você pergunta qual é a origem da renda do hacker, a resposta dirá que ele hackeou um banco. Se você pergunta como é que ele conseguiu invadir uma prisão de segurança máxima, a resposta dirá que ele hackeou o sistema de segurança e abriu todas as portas. O hacker descobre os podres dos inimigos sem mover uma palha, apaga arquivos que precisam sumir e todas essas coisas. Pior do que isso: quando os estúdios escalam atores para interpretar hackers, a regra é a afetação e não é difícil que tudo termine em constrangimento. Do ponto de vista de Harry Treadway, então, o personagem já era complicado porque o roteiro incluía todos esses cacoetes identificados com quem mexe com computadores e, ainda para ajudar, o Sr. Mercedes tinha que parecer um psicopata que transa com a própria mãe mas passa abaixo do radar daqueles que não prestam atenção, ou seja: tinha que parecer uma pessoa comum. O resultado final não é ruim. O Sr. Mercedes de Treadway é cínico, raivoso, passivo-agressivo; da aparência normal, com um rosto quase bonitinho, ele vai para uma expressão quase monstruosa e claramente perturbada. Tem cara de hacker, tem cara de funcionário de loja de informática, mas também tem cara de assassino atropelador, stalkeador vingativo, manipulador sem piedade. Não é nada que vá levar o ator a um monte de premiações, mas poderia ter sido bem pior.

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Só que esses pontos positivos não conseguiram me segurar em Mr. Mercedes. O problema principal é uma insistência em fazer tudo dentro do convencional, com mínima dose de surpresa. Mr. Mercedes usa sem moderação alguns dos recursos mais chatos e velhos da tevê. Para reforçar o ponto de vista do detetive e estabelecer no público uma identificação com ele, qualquer outro personagem precisa subestimá-lo: ninguém acredita no que o velho Bill fala, seu ex-colega nem quer ouvi-lo, os vizinhos são inacessíveis mesmo quando estão do lado dele; quando ele tem razão, os outros dão uma volta imensa para dizer que ele está errado – a ideia é que nos irritemos com a burocracia da polícia e o desinteresse do mundo, mas o descompasso soa forçado e inverossímil porque é mal escrito, todo esquemático. Muitas coisas acontecem porque têm que acontecer, a série tem vícios que parecem ter saído direto dos anos 1980, sem qualquer adaptação. Um exemplo é o romance que o detetive Bill engata com uma mulher bem mais jovem. Pessoas de diferentes idades se apaixonam desde sempre, tudo bem, mas qualquer romance que vá ocupar tempo de tela, desviando o espectador daquilo que é o centro da história, precisa acontecer depois que a gente tenha conseguido entender o que é que leva uma pessoa a se interessar por outra, não é? O que é que levou essa mulher jovem, rica e bonita a se interessar por um senhor autodestrutivo e decadente, desinteressado e bem longe de irrestível? Ela pode ser uma dessas mulheres com uma queda por tipos assim. Pode ser que ela queria consertá-lo (o que é um clichê chatíssimo, mas beleza), sei lá, ela pode ter qualquer razão: Mr. Mercedes não apresentou sequer uma. O que ganhamos, portanto, é um romance que aconteceu porque o roteiro quis que acontecesse e uma personagem sem vida própria: ela dá conselhos, oferece cama, mesa e banho, é bonita (é a Mary-Louise Parker) e só.

Depois da paixão que ninguém conseguiu explicar eu não tive mais paciência para continuar acompanhando, mas, para falar a verdade, acho que a irritação com os defeitos de Mr. Mercedes depende mais das coisas que estão no repertório de quem está assistindo. Eu tive minha cota de detetives angustiados e mulheres mal escritas, geralmente aos sábados no Supercine, e por isso para mim as coisas não funcionaram lá muito bem, mas Mr. Mercedes não é horrível. É uma história de conflito de gerações, de um velho que mal sabe usar o computador contra um jovem que só consegue viver porque tem uma tela entre ele e o resto do mundo, ambos muito deslocados, um a serviço do mal e o outro ali tentando consertar as coisas.

 

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5 Filmes sobre o amor e o tempo

Quem não gosta de viagem no tempo? Eu sei que não deveria abrir o texto com uma pergunta que pode suscitar uma resposta negativa, tipo “eu não gosto, sua chata”, mas a quantidade de filmes a respeito de viagens no tempo ou confusões entre passado, presente e futuro já dá um boa medida do tamanho do interesse que todo mundo tem por isso. Eu adoro e sempre me pego pensando nos e se. E se nós tivéssemos oportunidade de ir para a frente ou voltar atrás? Assim ou assado? E se a minha escolha naquela época fosse outra? E se eu não tivesse conhecido tal pessoa? Na ficção científica e nos filmes de passado alternativo, o tema é explorado até que se encontre um futuro aterrador ou uma oportunidade que ficou perdida na passagem das épocas.

Acho que já existem muitas listas com filmes de viagem no tempo falando sobre a humanidade, seu fim e seus propósitos. Por isso resolvi fazer minha listinha pessoal de filmes que usam o tempo para brincar com o amor e/ou vice-versa. Foi uma surpresa perceber que muita coisa se encaixaria na categoria. Alguns estavam na memória afetiva, bem guardadinhos há um bom tempo. Resolvi revê-los pensando no post… e novidade: na vida real, muitas vezes o passado deve ficar no passado, assim como Vanilla Sky e Meia-noite em Paris, que agora me pareceram bem bobos. Outros são apenas ruins, como acontece com A Casa do Lago. Os que sobreviveram ao tempo entraram na lista.

Boku wa Ashita, Kinou no Kimi to Date Suru

Dois apaixonados que precisam lutar tanto contra o passado quanto contra o futuro. Recomendado para quem gostar de chorar. O casal se conhece no trem. Em pouco tempo eles estão namorando. As cenas são fofas e tudo parece avançar normalmente, mas logo descobrimos que o tempo presente de um não é o mesmo do outro. Eles vivem em mundos diferentes, e é como se uma fenda no tempo tivesse feito com que um encontrasse o outro. Agora o que é futuro para um, é passado para o outro e por isso o presente dos dois jamais se alinha. A princípio pode parecer confuso, mas a história é contada de um jeito simples e logo nós entendemos o drama. Adorei, torci e chorei.

Questão de Tempo ou About Time

Foi o primeiro filme que me veio à cabeça quando pensei nesta lista. Acho que se você gosta desse tipo de produção deve ter visto essa daqui, ou no mínimo deve conhecer a atriz. Rachel McAdams é a escolha número 1 dos romances com viagem no tempo (ela está em Meia-noite em Paris e em Te amarei para sempre), e acho que ela tem a cara da comédia romântica. A história aqui não é dela, mas ela fez toda a diferença.

Tim é um cara que descobre, em seu aniversário de 21 anos, que pode voltar para qualquer momento da sua vida. Se eu pudesse fazer isso, minha vida ia virar uma bagunça: eu iria querer voltar a toda hora para desfazer todas as porcarias que eu fiz. E acho que aconteceria o mesmo com todo mundo. É o que acontece com o Tim. Ele experimenta arrumar situações bobas e percebe que, se em um primeiro momento isso pode até dar certo, depois a vida vira uma confusão. Daí ele precisa frear a vontade de arrumar a sua vida e a daqueles que ama. Mary (Rachel McAdams) é a mulher por quem Tim se apaixona. O filme resolve o romance já em sua primeira metade, Mary nem é o foco principal, mas mesmo assim ela consegue emprestar graça para cenas que poderiam ser apenas repetitivas. A trilha sonora também é ótima.

Feitiço do Tempo ou Groundhog Day

Este é muito conhecido. Bill Murray é Phil, um cara chato e sem paciência para qualquer pessoa. Ele é um repórter do tempo arrogante que precisa viajar para uma cidadezinha e noticiar o Dia da Marmota, que é quando todo mundo para o que está fazendo para ver a marmotinha que prevê todo ano se vai haver nevasca ou não. Phil lembra muito Scrooge, da história de Dickens, um homem com temperamento difícil, e o filme tem também semelhança com aquela história. Ele fica preso no mesmo dia, o Dia da Marmota. No início ele aproveita os benefícios, mas depois, com o dia ainda se repetindo, ele percebe que está vivendo um pesadelo e é obrigado a tentar ser uma pessoa melhor. Bill Murray e Andie MacDowell formam um par inusitadamente fofo.

De Volta para o Presente ou Blast from the Past

Revendo este filme tive uma boa surpresa: nem todos os filmes despretensiosos envelhecem mal. De volta para o presente é uma opção típica de Sessão da Tarde, mas nem por isso é uma comédia romântica mais fraca. Adam (Brendan Fraser) é um homem de 35 anos que passou toda a vida com os pais num abrigo anti-bombas, pensando que o mundo havia acabado. Em 1995 ele finalmente põe a cara ao sol e, claro, vai precisar se adaptar. Quem vai ajudá-lo é Alicia Silverstone, a queridinha do mundo inteiro nos anos 90. Claro que vai rolar uma paixão. O filme brinca com as situações de um rapaz que parou no tempo no começo dos anos 1960 e tem a presença ilustre de Christopher Walken.

Kimi no na wa.

Já falei sobre o filme aqui. E agora o cito de novo para representar vários outros. É difícil escolher um anime que fale sobre amor e tempo, eu poderia citar uma dezena, mas estou guardando para outra lista. Brincadeiras com a linha do tempo são temas muito comuns dos animes românticos. Este daqui pode ser uma excelente introdução. Em Kimi no na wa ele sonha que está no corpo dela, ela sonha que está no corpo dele. Eles vivem longe, eles se amam, talvez eles nunca consigam ficar juntos. Um amor impossível. Não assistiu ainda por quê? – (só para terminar com outra pergunta que pode suscitar resposta mal humorada, tipo: “porque eu tenho mais o que fazer, sua chata”)

Então, esses são os cinco filmes. Mas aqui vão mais dois de lambuja: Camille Redouble, um filme francês (tipo um De repente 30 ao contrário), sobre uma mulher que acorda na adolescência e revive tudo com mais gosto ainda. Também tem Peggy Sue Got Married, também sobre uma mulher que acorda na adolescência e resolve fazer tudo diferente. A lista poderia continuar por um bom tempo.

Legião, de William Peter Blatty

Legião darkside

Quando William Peter Blatty escreveu Legião, ele já era famoso por O Exorcista, o livro, e pelo roteiro de sua adaptação ao cinema. O filme não precisa de introduções. Deve ter gente que nunca o viu e mesmo assim pode dizer tudo o que acontece, tamanha a permanência dessa franquia na cultura popular. Partindo daí Legião tenta duas coisas bem difíceis: contar uma história totalmente nova e, ao mesmo tempo, reclamar para ela o renome e a distinção da história antiga.

O problema é que o romance original não precisava de sequência. O Exorcista é uma história de redenção, de expiação e, por fim, da luta do bem contra o mal. Depois de uma jornada terrível, o bem vence – mas a vitória é tão custosa que a sensação que fica, tanto no romance quanto no filme, é a de que o mal estará para sempre à espreita, ou seja, de que a batalha é eterna. Só que a história daquelas pessoas, da menina Regan, da mãe dela, dos padres Damien Karras e Lankester Merrin, já havia sido contada.

Para não deixar a chama se apagar, William Peter Blatty fez de Legião (que saiu no Brasil pela Darkside, na tradução de Eduardo Alves) um romance policial com todos os ingredientes a que a gente já se acostumou e, como que por obrigação, deu um jeito de costurar nele o pano de fundo sobrenatural que o liga a O Exorcista. Um assassinato ritualístico e um detetive em crise existencial são ingredientes de metade dos romances policiais que já se fez. O detetive Kinderman, que no primeiro livro investigava uma morte suspeita, é agora um homem amargurado (embora amoroso) e desiludido com (literalmente) Deus e o mundo. Veterano, ele já viu muita coisa feia, muita maldade e loucura, mas quando o encontramos ele está na cena de um crime que não acontece todo dia. Um menino foi crucificado. Ao que tudo indica, ele passou consciente por dor e sofrimento. Isso leva Kinderman a pensar.

E quando Kinderman pensa o livro fica um pouco chato. Legião tem algumas das mesmas qualidades que fizeram de O Exorcista uma história inesquecível. Blatty cria cenas memoráveis, todas sob uma espécie de horror ao mesmo tempo sobrenatural e mundano; seus personagens são sombrios e deprimidos, todos com cruzes a carregar, mas, enquanto o sucesso do primeiro livro se deve em parte à simplicidade da batalha do bem contra o mal, a maior fraqueza de Legião está em tentar esmiuçar essa luta em digressões que vão das meio bobas às bastante constrangedoras, ditas sempre através de Kinderman, seja em fluxos de consciência, seja em diálogos extremamente mastigados e um pouco caricatos. O detetive está à beira da loucura, tudo bem, mas isso não o exime de ser um verdadeiro apanhado de todos os clichês de detetive já feitos.

Isso significa que Legião é ruim? De jeito nenhum, mas vale avisar que há umas oitenta ou cem páginas, mais ou menos no meio do livro, sobre as quais é necessário passar correndo: as sacadas de Kinderman quebram verossimilhança, deixam evidente a voz do autor (com isso esvaziando o personagem), parecem saídas diretamente da enciclopédia Barsa, às vezes são só bobinhas, às vezes bem pretensiosas. Ter que remeter essa história de um detetive no rastro de um serial killer ao exorcismo do primeiro livro também não ajuda. Blatty precisou ressuscitar um personagem, rearrumar certas circunstâncias, explicar eventos que não só não precisavam de explicações como ainda saem prejudicados por elas.

Essa bagunça é triste porque alguns dos elementos novos são muito bons: a história de origem do Geminiano, o serial killer em questão, é de gelar a alma; o hospital em que boa parte da ação se passa cria vida através das histórias bizarras de seus muitos internos; as mortes são intrigantes e criativas. Para não cometer injustiça, mesmo que boa parte da construção de Kinderman seja prejudicada por aquele palavrório aborrecedor, a personalidade do detetive consegue ganhar força nas cenas em que ele se concentra em sua família, e no capítulo final, que me parece mais otimista e menos apressado que o do primeiro livro.

Por último, vale lembrar que Legião inspirou o filme O Exorcista III, com direção do próprio William Peter Blatty. É assistir e não dormir por uns três dias.

Vida e Destino

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Viktor Chtrum é um cientista judeu que vive na União Soviética. Ele segue trabalhando em plena Segunda Guerra Mundial. Com ele moram a esposa, a filha e a sogra. A vida não está fácil, mas há muitos soviéticos em situação pior. A mãe dele, por exemplo, que nunca se entendeu com a nora e mora em outra cidade, vive na pele a pior época para ser uma senhora judia na Europa. Em outro lugar, no mesmo período, alguns prisioneiros de guerra vivem uma vida tão difícil quanto a dos prisioneiros dos campos de concentração. Há também os presos longe da guerra, aqueles que cometeram crimes políticos ou comuns; para eles a situação também é ruim. Enquanto tudo isso acontece, mais judeus estão dentro de vagões de trem em direção ao extermínio. O clima é de sujeira, fome, frio, aperto e profunda desesperança.

Vida e Destino, de Vassili Grossman, fala sobre essas e outras pessoas, mas trata principalmente de uma era negra na União Soviética. Na altura da Segunda Guerra os líderes soviéticos travavam duas batalhas: uma com os alemães, que eram o inimigo externo, e outra com seu próprio povo. O Estado totalitário fazia com que todos desconfiassem uns dos outros; em busca da própria salvação, não era raro que um camarada denunciasse o outro como traidor da revolução. A suspeita pairava acima da cabeça de todos e frases bobas ou piadas infames acabavam em penas longas e reputações arruinadas. Mas Vida e Destino é mais que um compilado minucioso da vida sob o totalitarismo. O livro consegue analisar profundamente o mal através de vários pontos; o extermínio sem sentido, a paranoia mesmo entre amigos de longa data, a fome e a miséria: tudo é parte de um quadro em que o que se analisa é a humanidade e o que significa estar vivo e fazer o bem.

São 900 páginas de muito sofrimento e de passagens que me deixavam ora com desgosto, ora com desânimo. Eu podia sentir aquela maldade entranhada nas picuinhas políticas, mas inerente às pessoas. Admito que chorei em mais de um momento muito difícil, e acho que é impossível não sair cambaleando da leitura de Vida e Destino. São muitos os livros sobre as brutalidades e a barbárie das guerras, mas eu ainda não havia experimentado esse sentimento de perplexidade diante da tragédia que encontrei no livro de Vassili Grossman.

Vai ver o impacto acontece porque o autor viveu aquilo de perto, como correspondente de guerra. Mas o realismo das descrições da vida em um lugar, em uma determinada época, não foi o que mais me comoveu. O que me deixou espantada foram as intervenções de Grossman, a maneira como seu narrador se debruça sobre os acontecimentos para refletir sobre eles. Meu exemplar está todo rabiscado e minha vontade era transcrever aqui tudo o que me emocionou, como se com isso fosse possível convencer alguém a tirar o livro de uma prateleira e começar a leitura na mesma hora.

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Qualquer livro sobre guerra não seria a minha primeira escolha de leitura. A quantidade de nomes de lugares e personagens deu um nó na minha cabeça. Eu comecei sem ter certeza de que iria até o final, mas aí bati o olho nesse parágrafo:

Os olhos dela, que tinham lido Homero, o jornal Izvéstia, Huckleberry Finn, Mayne Reid, a Lógica de Hegel, que haviam visto gente boa e gente má, os gansos nos prados verdes de Kursk, as estrelas no telescópio de Púlkovo, o brilho do aço cirúrgico, a Gioconda no Louvre, os tomates e nabos nas gôndolas dos mercados, o azul do lago Issik-Kul, agora não lhe eram mais necessários. Se alguém a cegasse naquele instante ela não sentiria a perda.

Foi ali que eu percebi que às vezes o que a gente tem que fazer é abrir o livro que não parece ter muito a ver com o que a gente quer de uma leitura. Eu não conhecia Vassili Grossman. Meu marido comprou o livro em 2015 e, assim que o terminou, começou uma campanha para eu lê-lo logo. Só agora em 2017, acompanhando o canal Lido Lendo, foi que eu soube que Vida e Destino havia sido escolhido para uma leitura compartilhada durante o mês de julho. Achei que era a hora de dar uma chance. Segui o cronograma estabelecido e adorei avançar no livro enquanto acompanhava a opinião dos outros.

Às vezes quando eu leio um livro de gênero eu penso naquela velha história de que sempre precisamos de uma dose de pré-disposição para encarar qualquer ficção. Afinal, é preciso boa vontade para comprar uma história e ler a respeito de monstros, vampiros, zumbis, magnatas de 25 anos solteiros e amorosos, fantasmas e toda a coleção de coisas que não aconteceram e nunca vão acontecer. Não importa o gênero. Se há muita invencionice, é preciso que a gente esteja disposta a encarar a leitura e fazer a tal viagem. Isso é uma das melhores coisas que a literatura proporciona, mas às vezes é bom e importante ler um livro que não demanda esforço da imaginação para que a gente entenda profundamente o que há de melhor e pior no mundo. O melhor e o pior estão ali representados, de um jeito preciso e profundo. Grossman investigou e revelou situações que não eram de conhecimento geral naquela época. Tanto quanto um livro como Doutor Jivago, Vida e Destino mostrou para o resto do mundo o tamanho do desastre que era a União Soviética. Se para encontrar isso um leitor precisa de certa dose de coragem, o que dizer do trabalho de quem escreve?

É impressionante a empreitada de escrever com tanta sinceridade em um momento tão perigoso. Para terminar, eu só queria deixar um trechinho desses que renovam o amor da gente pela literatura (lembrando que a tradução do russo é de Irineu Franco Perpétuo):

A história dos homens não é a batalha do bem tentando vencer o mal. A história do ser humano é a batalha do grande mal para reduzir a pó a semente do humanismo. Mas se nem agora o humano foi morto dentro do homem, então o mal não há de triunfar.

Twin Peaks chega ao auge com 25 anos de atraso

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A polícia encontrou a cabeça de uma mulher, logo identificada como Ruth Davenport, num apartamentinho bem organizado, em uma vizinhança pacata da cidade de Buckhorn, na Carolina do Sul. Lá também foi encontrado um corpo, que não era o de Ruth, mas o de um homem não-identificado. Enquanto isso, Dale Cooper, agente do FBI, está preso em outra dimensão desde 1991. Ele tenta voltar para esta dimensão, a nossa, mas parece que seu lugar aqui está sendo ocupado por um doppelganger sinistro, que construiu uma carreira de assassinatos e maldade. Em Nova York, um bilionário anônimo conduz um experimento em que um rapaz precisa vigiar, sem pausa, uma cabine de vidro.

Esse cenário é armado no primeiro episódio da volta de Twin Peaks. Dali em diante acontecem bizarrices numa velocidade que a gente não vê todo dia na televisão. Tem um monte de personagens, pelo menos três cidades, histórias antigas que ganharam argumentos novos e histórias totalmente novas que vão precisar, de algum jeito, encontrar uma ligação com tudo o que quem viu as temporadas velhas conhece. Mark Frost e David Lynch vão amarrar todas essas pontas soltas? Duvido que isso esteja nos planos.

Eu rodei a internet atrás de gente falando de Twin Peaks e vi que as pessoas estão bem divididas. A profusão de personagens e histórias paralelas incomoda uma parte do público. Outra parcela está inquieta com a lentidão com que se desenrolam os plots principais. Há quem deteste Dougie Jones e os que até estavam gostando mas acham que já deu. Outra parcela é a daqueles que estão achando tudo lindo. Nesta eu me incluo.

Acho que a terceira temporada caminha para ser a melhor até agora. Muita gente superestima a dificuldade de acompanhar a série, mas não dá para negar que algumas coisas são confusas. São confusas de propósito, diz o fã mais entusiasmado. E com razão, mas convenhamos que este é um argumento um pouco preguiçoso, se ele for parar aí. Geralmente essa discussão desanda em alguém dizendo que a trama é complexa, picotada, não-linear, que há mensagens subliminares e que o sentido final só será acessível a quem conseguir enxergar todas as camadas e juntar as peças. Disso eu discordo. Eu acho que o que Twin Peaks quer afirmar já foi posto há muito tempo, e é algo do tipo: o mal é um espírito capaz de possuir qualquer pessoa, e assim todo tipo de maldade vem do mesmo lugar mas se manifesta de maneiras diferentes; o bem é como uma plantinha frágil que deve ser cultivada; tanto o bem como o mal têm uma carga de ridículo que às vezes só pode ser encarada na base da piada.

Acho que todas as cenas valiosas de Twin Peaks reforçam uma dessas três afirmações ou alguma combinação delas, mesmo que um detalhe fora de lugar ou uma perspectiva bizarra tente levar a nossa atenção numa direção diferente. Tem uma cena do episódio mais recente (até agora foram 11 nesta terceira temporada) que serve como exemplo.

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Bobby Briggs era um traste. Foi um dos primeiros suspeitos no caso do assassinato de Laura Palmer porque era um rapazinho metido a bad boy, chato, alguém que não falava coisa com coisa e vivia mascando chiclete. Eles foram namorados e Laura recorria a ele para conseguir cocaína. Quando começa a primeira temporada, Bobby vive no limite da marginalidade apesar de ainda frequentar o high-school e viver com os pais. Na série antiga ele não teve um desenvolvimento para além disso, apesar de algumas pistas lá pelo final da segunda temporada. Mas agora, em sua primeira aparição na temporada três, vinte e cinco anos depois, vemos que ele virou um policial sério e membro respeitável da comunidade de Twin Peaks. Só que são muitos personagens. Bobby surge já policial no episódio quatro, sem qualquer explicação, e depois não se ouve nada (ou quase nada, pode ser que a minha memória me engane) a respeito dele.

Shelly Johnson foi quem teve mais tempo de tela ao lado de Bobby, lá nos anos 1990, quando os dois formavam um casal de pilantras. Ela era uma garçonete meio inocente e meio trambiqueira, vítima de violência doméstica. Shelly também apareceu pouco nessa volta de Twin Peaks, mas dela sabemos mais. Agora ela tem uma filha já adulta e continua trabalhando no mesmo restaurante. O reencontro de Shelly e Bobby era aguardado pois as informações estavam incompletas. A filha dela era filha de Bobby? Os dois não estavam mais juntos? E é aí que entra a cena especial que eu estou tentando usar como exemplo.

Becky, a filha de Shelly, é um pouco instável. Ela vive com o marido num trailer horroroso. Os dois cultivam aquele tipo de relacionamento que só vai dar muito errado porque ninguém se ajuda. A certa altura do episódio onze, a filha mete a mãe no meio de sua confusão conjugal (descontrolada, aos gritos, sem pudor de causar preocupação). Acaba que Becky sai no rastro do marido e, não o encontrando, atira várias vezes contra a porta de um apartamento em que ela pensava que ele se escondia. É no meio da confusão que descobrimos que Bobby (agora policial, agora alguém com quem se pode contar) é, sim, o pai da filha de Shelly.

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A cena começa como uma intervenção. Bobby (aquele mesmo Bobby que não era digno de confiança) é o pai aflito. Shelly (aquela que era irresponsável e volúvel) está com lágrimas nos olhos. A filha diz que perdeu o controle, que isso não vai acontecer mais, que odeia o marido, que ama o marido, que não vai pagar pelo prejuízo que causou, que não teria dinheiro para isso; e aí os pais, cada um de um jeito, claramente separados, se dispõem a ajudar com dinheiro. O tom é de bronca, mas não parece ser a primeira vez que uma conversa dessas se faz necessária. Um novo namorado de Shelly surge na janela. Bobby fica claramente arrasado, é óbvio que ele ainda a ama. A filha sabe disso. Toda a sequência tem muito mais informação que diálogo. Ficamos sabendo muito da personalidade de Becky, descobrimos que Bobby ainda ama Shelly, que Shelly já partiu para outra, que Norma (a patroa, aquela velha amiga) não concorda com as decisões de sua funcionária mais antiga. Logo saberemos que Bobby virou quase completamente o oposto daquilo que era. Um tiro atravessa a janela do restaurante e todo mundo entra em desespero. Treinado, Bobby toma a dianteira, empunha a arma e vai para a rua investigar o que aconteceu, com aquela pose de policial em alerta. O costume de quem já viu mais de uma série de tevê me levou a crer que havia alguma conspiração em jogo, que aquele tiro resultaria num tiroteio, que aquilo não terminaria ali e seria mais uma peça a se encaixar no quadro geral.

Mas o que se desenrolou foi um desses momentos bizarros de Twin Peaks em que a tragédia parece uma coisa totalmente besta, mas nem por isso menos horrível. Aconteceu que um menininho disparou sem querer a arma do pai, de dentro de um carro. O carro parou, começou um engarrafamento. A mãe do menino está em pânico, indignada com o marido por ele ter deixado que uma coisa dessas acontecesse. Bobby vai até eles. A câmera o acompanha. A criança que mexeu na arma tem o ar de um monstrinho possuído e encara Bobby com raiva. As buzinas não param, mas um carro, em especial, faz mais barulho que os outros. A sequência é montada para causar tensão: eu achei que Bobby fosse morrer, que alguma coisa iria explodir, que algum tipo de monstro fosse pular na tela. Mas não. O que acontece é que Bobby vai até o carro que buzina sem parar e ouve o sermão de uma mulher descontrolada: ela está atrasada, isso não poderia ter acontecido. A mulher está naquele desespero comum às pessoas que se deixaram levar pela infelicidade cotidiana, mas até ali o desespero é assustador e até que patético. Só que a câmera segue os olhos de Bobby para dentro do carro. Num cantinho escuro tem uma forma a se mexer, a forma é um menino, o menino está tendo um tipo de ataque e começa a soltar uma gosma pela boca. Não é bem vômito. Não tem o impulso do vômito. É mais uma gosma mesmo, como se alguém tivesse aberto um furinho por onde sai um líquido pegajoso.

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E aí a sequência acaba. Foi apavorante e, ao mesmo tempo, bem familiar. O mal é horrível, muito comum, ataca sem aviso e não tem, necessariamente, explicação ou conexão com alguma ordem maior. O bem é uma coisa frágil a ser cultivada. É Bobby Briggs – bully, peso-morto, golpista, desgosto da família – quem agora tenta organizar toda a bagunça.

Eu acho que Twin Peaks vem contando a mesma história em todos os seus episódios, mas também acho que vai ser covardia não encaixar pelo menos algumas peças. O que talvez já dê para dizer é o seguinte: a primeira temporada, que foi infinitamente melhor que a segunda, não tinha a regularidade e a imensidão de recursos (os recursos visuais e artísticos, os atores muito bons, a liberdade absoluta) que essa terceira temporada vem mostrando. Para mim, Twin Peaks chegou a seu auge com 25 anos de atraso.

Três livros da meta de 2017

Ano passado eu tive a brilhante ideia de criar uma meta de leitura com 12 livros que estavam encostados aqui na prateleira de casa. Um para cada mês, fora os outros que fossem aparecendo durante o ano. Um outro objetivo era escrever um texto para cada livro aqui no blog. 2016 acabou, eu dei conta da tarefa e fiquei muito feliz. É tão difícil finalizar uma coisa, qualquer coisa, que eu pulo de alegria quando consigo. Empolgada, em 2017 eu resolvi dificultar um pouco mais e incluí livros que acabaram exigindo uma leitura mais lenta, seja por conta do número de páginas ou das características de tal e tal obra.

Mas o ano está super corrido e é claro que agora, depois da metade de julho, eu me encontro arrependida e atrasada. É que eu me embolei com alguns romances e ainda resolvi ler outros bem exigentes (em tempo, disposição, atenção…), coisas que nem estavam nos planos. E aí me esforço para lembrar que isso aqui é um hobby, um dos prazeres da vida. É tão bom achar livros empolgantes, lê-los e descobrir mais e continuar nesse ciclo infinito (nem tão infinito porque um dia a gente morre e acaba o tempo para ler e deixa tudo para trás, mas acho que me fiz entender).

Não estou querendo dizer que abandonei a meta. Um dia eu gostaria de ser outra pessoa e ter esse desprendimento para dizer que não deu e paciência. O que eu vou ter que fazer é rearranjar todo o esquema, já que (1) não estava prático escrever os textos sobre os livros, (2) ninguém se importava mesmo e (3) mesmo gostando de alguma coisa, nem sempre eu tenho o que dizer sobre ela. Daí eu resolvi fazer a metade da tarefa, ou seja: vou em frente, terminando livro a livro quando conseguir, e agora, em vez de escrever um texto para cada um e publicá-lo no começo do mês seguinte, vou agrupar três livros de cada vez, escrever quando for possível e postar quando der vontade.

Né? Que pessoa liberada, sensata, despreocupada.

Três dos que eu já terminei (os outros três da meta já lidos foram resenhados aqui, aqui e aqui):

memórias de adriano

Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, foi o melhor livro que eu li em 2017. Não acho que isso vá mudar até o fim do ano. Não foi uma surpresa porque toda a aura do romance me dizia que ele seria especial. Também foi um dos livros mais contemplativos que eu já li. Eu só conseguia ler poucas páginas por dia e em total silêncio, sem música, vozes, passarinhos cantando. O livro é como uma autobiografia do imperador Adriano. São memórias de um homem que viveu coisas perversas, mas que ainda era uma pessoa. É fácil aceitar as palavras de Yourcenar e acreditar que você está lendo os pensamentos de um imperador. O que aparece na página são as memórias de um homem poderoso. Nada parece ficar de fora: há meditações sobre guerras, namoricos, inimigos, amizades, desafios. Tudo soa verdadeiro, tudo parece real. Acho que ninguém chegaria mais perto disso do que ela. Acho incrível que Marguertite Yourcenar não seja mais comentada e lida. Memórias de Adriano é muito poético, mas de uma profundidade honesta, sem artificialidade. Nunca li nada como esse livro.

a força das coisas

O próximo livro da meta foi A Força das Coisas, de Simone de Beauvoir. Nem me lembro de quando li Memórias de uma moça bem-comportada, que é o primeiro desta série autobiográfica. Só lembro que a edição era velha e a leitura foi tocante: me identifiquei e até ri muito com os relatos dela. Um dia encontrei num sebo esse A força das coisas, novinho e por um ótimo preço. Mas desde que li Tête-à-Tête: Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre eu peguei um pouco de má vontade com a dupla. Por isso, por achar que se não me forçasse eu demoraria muito para ler novamente alguma coisa de um deles, coloquei na meta do ano A força das coisas. Nele encontramos Beauvoir madura, no alto dos seus cinquenta e poucos anos, e por isso um tanto mais soturna. Eu não consegui repetir o sentimento daquele primeiro livro. As questões políticas discutidas no livro não me impressionaram, Sartre foi a palavra mais repetida página por página, a ponto de eu pegar bronca. Mas ela é a Simone de Beauvoir e apenas ler suas reflexões sobre os romances que escreveu já faz valer a leitura. Eu daria tudo para que todo autor bom tivesse a mesma disposição para revisitar o que escreveu, e nesse volume Beauvoir nos presenteia com isso. Ah, o livro também vale para ver o Brasil pelos olhos dela, já que há muita coisa a respeito de sua visita ao Brasil e as coisas e pessoas que viu por aqui: Jorge Amado, o Rio de Janeiro, Zélia Gattai, Rubem Braga.

evelina frances burney

Na sequência veio Evelina. É o livro que consta na meta para o mês de junho, e eu só terminei por esses dias. Em algum lugar e há muito tempo eu li que Frances Burney era uma das escritoras preferidas de Jane Austen. Daí surgiu esta edição publicada pela Pedrazul. Foi uma das minhas primeiras compras pelo site da editora, há muito tempo, e só agora eu tive a decência de ler. Para quem espera algo parecido com Jane Austen: não espere. Enquanto eu lia Evelina não pude deixar de pensar: ah, sim, por isso que Jane Austen e Charlotte Brontë são tão festejadas até hoje. Elas eram diferentes e seus romances fogem muito do que era padrão. Não é o caso de Evelina. Assim como outros romances da época (a primeira edição é de 1778), esse de Burney tem uma mocinha delicada e de caráter, mas sem voz. O livro não se sustenta fora de seu contexto editorial. É a história de uma moça sem muitos recursos financeiros que se vê enrolada no meio de personagens de má índole. Num mar de gente incivilizada, uma pessoa se destaca: o mocinho. A leitura emperrou um pouco, mas a imersão foi possível, o valor histórico é grande. Evelina me lembrou de A intrusa, de Júlia Lopes de Almeida, um romance brasileiro que veio ao mundo mais de 100 anos depois. O que fica é o estudo dos costumes, essas coisas. A edição estava um pouco truncada, a diagramação estava difícil, mas vale a pena para entender o contexto que pôde gerar, poucos anos depois, os sensacionais romances de Austen e das Brontë.

Com a missão parcialmente cumprida, eu dou tchau.

Sciuscià é um filme de cortar o coração

vitimas da tormenta

Os meninos Giuseppe Filippucci e Pasquale Maggi engraxam sapatos. A situação econômica não é fácil. Giuseppe ajuda no sustento de casa, diz que o dinheiro não dá para nada. Pasquale já não tem família. Ele costumava dormir no elevador de um prédio, até que o zelador o descobriu e mandou embora. Os dois estão juntando dinheiro para comprar um cavalo. Só conseguem falar disso. Num lance de azar, injustamente, eles são presos e mandados a um reformatório.

Sciuscià, de Vittorio de Sica, é uma história de amadurecimento em meio ao caos do fim da Segunda Guerra na Itália. Na lista dos filmes mais tristes que eu já vi, três são de Vittorio de Sica. Umberto D.apareceu aqui no blog, e, falando com bastante sinceridade, eu nem tenho coragem de rever Ladrões de Bicicleta. Dá para imaginar, então, que o amadurecimento em Sciuscià não se constrói como aquela história feliz de final edificante. O título brasileiro (Vítimas da Tormenta) já entrega tudo. Se o mundo é horrível, amadurecer é ser apresentado a esse horror.

Mas o filme é muito lindo. Sem grandes introduções a gente se vê testemunhando o cotidiano dos meninos. Soltos em Roma, são eles que fazem as próprias regras. Ser criança e pobre nessa cidade não é muito mais que ser pequeno e frágil. Ninguém olha pelos dois. Nos primeiros minutos a vida na cidade acontece ao redor dos meninos. Os adultos andam de um lado a outro. Automóveis passam. Cada um cuida de seus afazeres. Nesse universo, Giuseppe e Pasquale parecem à vontade. A gente chega a pensar que eles sabem se proteger, que andam com desenvoltura entre tanta coisa que pode dar errado. Mas não é verdade: um pouco por inocência, um pouco por não terem nem chance num mundo em que todas as coisas são mais fortes que eles, os meninos vão parar no reformatório. E o reformatório tem toda a hostilidade das ruas de Roma, sem ter nada da liberdade.

Eu tenho que confessar que fui inocente e tive esperança. A coisa mais bonita da primeira metade de Sciuscià é que os meninos se gostam. Eles têm uma amizade verdadeira. Quando Giuseppe recebe um pacote com comida, enviado pela família, tudo o que ele quer é dividi-lo com o amigo que não tem ninguém. Mas o reformatório parece ter regras especialmente moldadas para que cada um cuide de si. A minha esperança de um final minimamente feliz foi embora quando eu percebi que o laço que unia Pasquale e Giuseppe estava ali para ser cortado, e que a principal ideia do filme era que nenhuma pureza vai sobreviver ao mundo. Não tem lugar para a amizade na hora em que é preciso pensar em si, não tem como manter a bondade quando todo o cenário (as instituições, todas essas coisas) está montado numa direção contrária. Em quase uma dezena de cenas de cortar o coração, os meninos vão se afastando até aquele carinho se transformar em inimizade.

O fim é mais trágico e mais cruel do que eu imaginava. Eu tinha me esquecido da desilusão com o ser humano, da revolta diante da pobreza, da falta de sentido da guerra, de todas essas coisas que definem o neo-realismo italiano quando alguém tenta defini-lo. Quando o menino Pasquale, depois de ter sido preso e conseguido fugir, de terem-lhe raspado a cabeça e metido num uniforme, chorou copiosamente e se desesperou, gritando “O que foi que eu fiz, meu Deus? O que foi que eu fiz?”, eu me perguntei se ele havia conseguido, afinal, ver de um ângulo privilegiado o tamanho da miséria em que se encontrava ou se a tristeza era só resignação diante da dor.

Sciuscià não é um filme para rever todo dia.

Seis detalhes sem importância de Game of Thrones

carinho no dragão

Maratonei Game of Thrones. Fui do começo ao fim num tempo tão curto que até me envergonha dizer. Tinha visto o piloto na época em que ele saiu, mas nada ali me indicava que a série era para mim. Agora, no começo de junho, me veio à cabeça que seria uma boa hora para começar de novo. O resultado é que me apeguei a uns seis personagens (é que tem muita gente carismática) e não conseguia assistir a outra coisa (é que tem muita cena de ação bem coreografada, tensa, que absorve a gente). Por causa da popularidade tão grande de GoT, até quem não acompanha acaba sabendo de tudo o que acontece porque quando começa ou termina uma temporada a internet enlouquece. Por sorte, quem é Alzheimer vive em dobro – como dizia a comunidade do Orkut – e para mim tudo era novidade.

O que não é novidade é que a série tem fanáticos que já esmiuçaram cada detalhe, leram os livros mais de uma vez, bolaram teorias (tanto as absurdas quanto aquelas que fazem muito sentido) e decuparam cada episódio em busca de um significado oculto. Acho que eu não sou esse tipo de fã. Às vezes eu deixava todo o resto para prestar atenção em uma besteirinha. Uma expressão engraçada na cara de um ator, um detalhe com pouco significado, uma intriga que ficou sem explicação. Não é que eu não entrasse na história, mas é que tem tanta coisa em que reparar que tem hora em que acontece de a gente não se concentrar bem no que é o ponto principal. Será que eu consegui me explicar? Fiz uma lista com seis momentos sem importância que me desviaram do caminho. Que comece o aquecimento para a sétima temporada.

JORAH MORMONT TOTALMENTE “TRIGGERED”

jorah mormont friendzone

Ele é a enciclopédia ambulante da khaleesi. Sabe tudo sobre toda cidade que ela precisa conquistar. Cultura, arquitetura, população, hábitos alimentares, organização política: é só pedir que Jorah Mormont esmiúça aquelas partes exóticas do mundo de GoT para a khaleesi ter uma pequena noção do buraco em que está se metendo. Como nada é fácil, acontece de Mormont ser perdidamente apaixonado por ela. O cavaleiro quase tem um tremelique toda vez que precisa olhar Daenerys nos olhos, num amor que é verdadeira devoção. Muito bonito. Só que tem duas coisas: primeiro que o sentimento não é recíproco – a Mãe dos Dragões só pensa no trono que quer conquistar e, quando tem tempo para escapar um pouquinho, parece ter outro tipo de homem em mente; segundo: agora Mormont está apaixonado e daria a vida por ela, mas ele já foi um traidor, um informante daqueles que queriam vê-la morta. É claro que ela vai descobrir. Vai escorraçar o homem e dizer que ele tem sorte de não ser executado.

E aí, será que ele lida bem com a separação? De jeito nenhum. A gente vai ficar sabendo do nível de sofrência quando, depois, Tyrion Lannister e Varys vão parar num bordel em Volantis. Lá uma prostituta está vestida de khaleesi para agradar os homens que “gostariam de foder uma rainha”. É um verdadeiro cosplay. A cópia não é tão graciosa quanto a original, mas está tudo lá: o cabelo platinado, o babyliss, a vestimenta azul. Num canto do bordel, meio louco, bêbado e decadente, totalmente perturbado pela visão da falsa Quebradora de Correntes sentada no colo de um qualquer, está Jorah Mormont. Só faltou aquela tarja de TRIGGERED. A cena deve durar dois segundos, mas eu fiquei rindo pelo resto do episódio. Para completar, ele sequestra o anão para dar de presente à amada.

MAMILOS

nipple game of thrones

A vida da khaleesi tem dessas. A certa altura ela precisa de um exército, mas o pessoal do ramo de venda de exércitos não parece muito legal. O sujeito que a apresenta aos Imaculados (aqueles soldados castrados na infância, máquinas de matar) é intragável. A gente sabe que ele vai morrer desde a primeira fala que ele dá, a gente sabe que ele vai morrer já por causa da escolha de elenco. Mas ele quer mostrar que os Imaculados não dão um pio diante da dor. O que ele faz? Ele chama um soldado e, sem cerimônia, corta-lhe o mamilo. Corta mesmo, como se estivesse passando a faca na casca de uma fruta. Eu preciso confessar que, fosse o que fosse a história, dali em diante nada mais conseguiu a minha atenção. O senhor cortou o mamilo do soldado, arrancou fora, só para provar que os Imaculados não estão nem aí para a dor. Mas é um mamilo, sabe? É claro que a pessoa que perde o mamilo vai ficar com ardência. Essa cena me deu arrepio. Quando eu lembro é como se alguém passasse as unhas num quadro negro. Ai.

AQUELE SENHOR DESCALÇO

high sparrow

Cersei não é boa estrategista. Ela está sempre maquinando. Na verdade todo mundo está sempre maquinando, mas ela não faz um movimento sequer que não seja voltado a um plano elaborado. Só que vocês podem reparar: ela só dá passo em falso. Quando ela encrenca com os Tyrell, porque Margaery finalmente conseguiu casar com o rei e virar rainha, a solução encontrada não é exatamente parcimoniosa. O que ela faz é dar poder a um grupo de fanáticos religiosos para que eles possam enquadrar os Tyrell. Só que, claro, os fanáticos saem do controle e tudo dá erradíssimo.

Enquanto isso acontecia, todas as minhas energias estavam voltadas para a roupa do líder da seita religiosa, o tal do Alto Pardal. Os monges dele não eram nada que a gente não tenha visto na vida real: apenas uma mistura de monge budista com franciscano com uma corrente amarrada no peito e um símbolo na testa. Mas o traje do Alto Pardal, um verdadeiro saco de batatas imundo e sem corte, me irritou profundamente. Eu entendo que a ideia era fazer um contraste entre ele e os pecadores bem arrumados de Porto Real. Tudo bem. Mas o velho não só era profundamente irritante, todo arrogante e com pose de sábio, como sempre aparecia despenteado, com a cara suja e descalço. Descalço. Eu parei para imaginar o chão de Porto Real. A quantidade de matéria fecal, xixi, resto de comida e sangue que deve ter por lá. Fora que a estrutura da cidade não é grandes coisas. Ruas de pedra não só acumulam mais sujeira como também quebram. Aquele velho andava com os pés descalços e sentia as pedrinhas e grãos de areia nos vãos dos dedos. E o pior: não usar sapatos não era um pré-requisito para entrar na seita porque os monges todos usavam uma botinha aparentemente feita de couro.

O gostoso é que a Cersei deu um bom jeito nele.

LÁ VAI A KHALEESI INDO EMBORA NO DRAGÃO

drogon

O diferencial de Daenerys no pleito pelo Trono de Ferro são os dragões. A série repete isso a todo momento. Faz sentido. Eles não só são uma arma poderosíssima, como também, só na presença, conseguem impressionar os inimigos e incentivar os aliados. Durante o torneio dos escravos, aquele em que Jorah Mormont virou uma espécie de Russel Crowe em Gladiador, os inimigos da khaleesi começaram a matar todo mundo e ela se viu cercada, com poucos homens e pouquíssima esperança. Foi aí que Drogon, que é o dragão principal, apareceu. Ele fez uma demonstração de força, matou um pessoal, deixou Tyrion Lannister de boca aberta e, por fim, pousou no meio da arena. Nisso Daenerys montou nele e saiu voando.

Os companheiros de batalha podem ter ficado um pouco desapontados com a rainha abandonando a luta assim sem cerimônia, mas eu achei tudo muito razoável. Pensei: agora o dragão vai parar no topo da pirâmide, que é a residência oficial, ela vai desembarcar em segurança e o problema foi resolvido. Que nada! Sem controle do dragão, nem Daenerys soube onde foi parar. Ele voou embora e a deixou sozinha no meio do nada. Tiveram que montar uma equipe de resgate para encontrar a rainha. Eu achei engraçadíssimo, ainda mais porque toda a cena da chegada do dragão foi apoteótica. Um daqueles momentos em que um fiapo de esperança vira uma glória gigantesca. Tudo isso para ela ficar perdida no meio de uma terra estranha, cercada de dothrakis que estão apostando para ver quem vai estuprá-la primeiro.

Mas ela é a Não Queimada, a Noiva do Fogo. No final não há quem lhe encoste um dedo.

E VOCÊ. QUEM É VOCÊ MESMO?

cersei qyburn

Eu tenho certeza de que isso deve ser muito bem explicado nos livros, mas para quem só viu a série ficou esquisito. Qyburn é aquele homem que faz experimentos com Gregor “A Montanha” Clegane. Ele aparece primeiro quando Jaime Lannister perde a mão. Dali em diante, numa ascensão impressionante explicada por ninguém, ele vai virar conselheiro de Cersei. Não tem graça nenhuma, eu sei, mas é aquele tipo de coisa que acontece quando o roteirista precisa enxugar personagens. Aqui em casa a gente sempre se lembra de um filme com a Nicole Kidman e o Daniel Craig, Invasores, que é meio que uma releitura de Invasion of the Body Snatchers. Lá, um médico que tinha uma salinha e um cargo desimportante num hospital sem destaque acaba indo parar no centro dos acontecimentos, só porque no roteiro não cabe outro médico. Ele está num helicóptero, ele descobre a cura, ele ajuda os protagonistas: tudo a serviço de uma história enxuta. A função de Qyburn em Game of Thrones é essa, e por isso ele sempre acabava roubando a minha atenção. Eu precisava me lembrar de quem ele era, e começava a pensar que estava perdendo alguma coisa, que alguém tinha explicado e eu tinha perdido. Como esse homem foi parar aí? Nesse mundo de tanta intriga não teve ninguém para barrar uma ascensão tão grande, nem para explicar porque ele é importante?

O fato é que agora o “Time Cersei” está bem peculiar. Tem ela, um cavaleiro sem mão, um cavaleiro zumbi e um médico louco.

MINDINHO FALANDO NO OUVIDINHO

sansa e littlefinger

“Só um tolo confiaria no Mindinho”, diz Sansa Stark no fim da sexta temporada. A função dele na vida é ser um fofoqueiro, intriguento, leva-e-traz, duas caras e fraco de caráter. Não demora nada para a série querer que a gente entenda isso, e uma das primeiras cenas dele é impagável. Ned Stark acabou de chegar a Porto Real com as duas filhas. O rei manda fazer um torneio. Um dos participantes é Gregor “A Montanha” Clegane. O episódio quer nos contar três coisas ao mesmo tempo: 1) Montanha é muito malvado; 2) Mindinho é muito fofoqueiro; 3) a origem da queimadura do Cão de Caça. Qual é a cena? Na arquibancada, Sansa, que àquela altura é toda empolgada com cavaleiros e cortesias e romances e casórios, sentou-se ao lado de Mindinho. O que ele faz? Ele conta a história da vez em que Gregor Clegane, ainda criança, colocou a cara do irmão no fogo só por causa de um brinquedo. Mas ele conta tudo no ouvidinho dela, aos sussurros. Quem já esteve em um lugar barulhento sabe que não se entende nada de um sussurro. Quem vai sussurrar tem que falar frases curtas, tipo “Vamos embora?” ou “Onde é o banheiro?”, mas o Mindinho conta a história inteira, uma frase atrás da outra, sussurrando alto, com cara de safado, para uma Sansa impressionada, em meio a uma arquibancada lotada. Não adiantou nada ele sussurrar, até porque ele falou alto. Todo mundo ouviu. Mania de falar perto da cara dos outros!