Três livros da meta de 2017

Ano passado eu tive a brilhante ideia de criar uma meta de leitura com 12 livros que estavam encostados aqui na prateleira de casa. Um para cada mês, fora os outros que fossem aparecendo durante o ano. Um outro objetivo era escrever um texto para cada livro aqui no blog. 2016 acabou, eu dei conta da tarefa e fiquei muito feliz. É tão difícil finalizar uma coisa, qualquer coisa, que eu pulo de alegria quando consigo. Empolgada, em 2017 eu resolvi dificultar um pouco mais e incluí livros que acabaram exigindo uma leitura mais lenta, seja por conta do número de páginas ou das características de tal e tal obra.

Mas o ano está super corrido e é claro que agora, depois da metade de julho, eu me encontro arrependida e atrasada. É que eu me embolei com alguns romances e ainda resolvi ler outros bem exigentes (em tempo, disposição, atenção…), coisas que nem estavam nos planos. E aí me esforço para lembrar que isso aqui é um hobby, um dos prazeres da vida. É tão bom achar livros empolgantes, lê-los e descobrir mais e continuar nesse ciclo infinito (nem tão infinito porque um dia a gente morre e acaba o tempo para ler e deixa tudo para trás, mas acho que me fiz entender).

Não estou querendo dizer que abandonei a meta. Um dia eu gostaria de ser outra pessoa e ter esse desprendimento para dizer que não deu e paciência. O que eu vou ter que fazer é rearranjar todo o esquema, já que (1) não estava prático escrever os textos sobre os livros, (2) ninguém se importava mesmo e (3) mesmo gostando de alguma coisa, nem sempre eu tenho o que dizer sobre ela. Daí eu resolvi fazer a metade da tarefa, ou seja: vou em frente, terminando livro a livro quando conseguir, e agora, em vez de escrever um texto para cada um e publicá-lo no começo do mês seguinte, vou agrupar três livros de cada vez, escrever quando for possível e postar quando der vontade.

Né? Que pessoa liberada, sensata, despreocupada.

Três dos que eu já terminei (os outros três da meta já lidos foram resenhados aqui, aqui e aqui):

memórias de adriano

Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, foi o melhor livro que eu li em 2017. Não acho que isso vá mudar até o fim do ano. Não foi uma surpresa porque toda a aura do romance me dizia que ele seria especial. Também foi um dos livros mais contemplativos que eu já li. Eu só conseguia ler poucas páginas por dia e em total silêncio, sem música, vozes, passarinhos cantando. O livro é como uma autobiografia do imperador Adriano. São memórias de um homem que viveu coisas perversas, mas que ainda era uma pessoa. É fácil aceitar as palavras de Yourcenar e acreditar que você está lendo os pensamentos de um imperador. O que aparece na página são as memórias de um homem poderoso. Nada parece ficar de fora: há meditações sobre guerras, namoricos, inimigos, amizades, desafios. Tudo soa verdadeiro, tudo parece real. Acho que ninguém chegaria mais perto disso do que ela. Acho incrível que Marguertite Yourcenar não seja mais comentada e lida. Memórias de Adriano é muito poético, mas de uma profundidade honesta, sem artificialidade. Nunca li nada como esse livro.

a força das coisas

O próximo livro da meta foi A Força das Coisas, de Simone de Beauvoir. Nem me lembro de quando li Memórias de uma moça bem-comportada, que é o primeiro desta série autobiográfica. Só lembro que a edição era velha e a leitura foi tocante: me identifiquei e até ri muito com os relatos dela. Um dia encontrei num sebo esse A força das coisas, novinho e por um ótimo preço. Mas desde que li Tête-à-Tête: Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre eu peguei um pouco de má vontade com a dupla. Por isso, por achar que se não me forçasse eu demoraria muito para ler novamente alguma coisa de um deles, coloquei na meta do ano A força das coisas. Nele encontramos Beauvoir madura, no alto dos seus cinquenta e poucos anos, e por isso um tanto mais soturna. Eu não consegui repetir o sentimento daquele primeiro livro. As questões políticas discutidas no livro não me impressionaram, Sartre foi a palavra mais repetida página por página, a ponto de eu pegar bronca. Mas ela é a Simone de Beauvoir e apenas ler suas reflexões sobre os romances que escreveu já faz valer a leitura. Eu daria tudo para que todo autor bom tivesse a mesma disposição para revisitar o que escreveu, e nesse volume Beauvoir nos presenteia com isso. Ah, o livro também vale para ver o Brasil pelos olhos dela, já que há muita coisa a respeito de sua visita ao Brasil e as coisas e pessoas que viu por aqui: Jorge Amado, o Rio de Janeiro, Zélia Gattai, Rubem Braga.

evelina frances burney

Na sequência veio Evelina. É o livro que consta na meta para o mês de junho, e eu só terminei por esses dias. Em algum lugar e há muito tempo eu li que Frances Burney era uma das escritoras preferidas de Jane Austen. Daí surgiu esta edição publicada pela Pedrazul. Foi uma das minhas primeiras compras pelo site da editora, há muito tempo, e só agora eu tive a decência de ler. Para quem espera algo parecido com Jane Austen: não espere. Enquanto eu lia Evelina não pude deixar de pensar: ah, sim, por isso que Jane Austen e Charlotte Brontë são tão festejadas até hoje. Elas eram diferentes e seus romances fogem muito do que era padrão. Não é o caso de Evelina. Assim como outros romances da época (a primeira edição é de 1778), esse de Burney tem uma mocinha delicada e de caráter, mas sem voz. O livro não se sustenta fora de seu contexto editorial. É a história de uma moça sem muitos recursos financeiros que se vê enrolada no meio de personagens de má índole. Num mar de gente incivilizada, uma pessoa se destaca: o mocinho. A leitura emperrou um pouco, mas a imersão foi possível, o valor histórico é grande. Evelina me lembrou de A intrusa, de Júlia Lopes de Almeida, um romance brasileiro que veio ao mundo mais de 100 anos depois. O que fica é o estudo dos costumes, essas coisas. A edição estava um pouco truncada, a diagramação estava difícil, mas vale a pena para entender o contexto que pôde gerar, poucos anos depois, os sensacionais romances de Austen e das Brontë.

Com a missão parcialmente cumprida, eu dou tchau.

Sciuscià é um filme de cortar o coração

vitimas da tormenta

Os meninos Giuseppe Filippucci e Pasquale Maggi engraxam sapatos. A situação econômica não é fácil. Giuseppe ajuda no sustento de casa, diz que o dinheiro não dá para nada. Pasquale já não tem família. Ele costumava dormir no elevador de um prédio, até que o zelador o descobriu e mandou embora. Os dois estão juntando dinheiro para comprar um cavalo. Só conseguem falar disso. Num lance de azar, injustamente, eles são presos e mandados a um reformatório.

Sciuscià, de Vittorio de Sica, é uma história de amadurecimento em meio ao caos do fim da Segunda Guerra na Itália. Na lista dos filmes mais tristes que eu já vi, três são de Vittorio de Sica. Umberto D.apareceu aqui no blog, e, falando com bastante sinceridade, eu nem tenho coragem de rever Ladrões de Bicicleta. Dá para imaginar, então, que o amadurecimento em Sciuscià não se constrói como aquela história feliz de final edificante. O título brasileiro (Vítimas da Tormenta) já entrega tudo. Se o mundo é horrível, amadurecer é ser apresentado a esse horror.

Mas o filme é muito lindo. Sem grandes introduções a gente se vê testemunhando o cotidiano dos meninos. Soltos em Roma, são eles que fazem as próprias regras. Ser criança e pobre nessa cidade não é muito mais que ser pequeno e frágil. Ninguém olha pelos dois. Nos primeiros minutos a vida na cidade acontece ao redor dos meninos. Os adultos andam de um lado a outro. Automóveis passam. Cada um cuida de seus afazeres. Nesse universo, Giuseppe e Pasquale parecem à vontade. A gente chega a pensar que eles sabem se proteger, que andam com desenvoltura entre tanta coisa que pode dar errado. Mas não é verdade: um pouco por inocência, um pouco por não terem nem chance num mundo em que todas as coisas são mais fortes que eles, os meninos vão parar no reformatório. E o reformatório tem toda a hostilidade das ruas de Roma, sem ter nada da liberdade.

Eu tenho que confessar que fui inocente e tive esperança. A coisa mais bonita da primeira metade de Sciuscià é que os meninos se gostam. Eles têm uma amizade verdadeira. Quando Giuseppe recebe um pacote com comida, enviado pela família, tudo o que ele quer é dividi-lo com o amigo que não tem ninguém. Mas o reformatório parece ter regras especialmente moldadas para que cada um cuide de si. A minha esperança de um final minimamente feliz foi embora quando eu percebi que o laço que unia Pasquale e Giuseppe estava ali para ser cortado, e que a principal ideia do filme era que nenhuma pureza vai sobreviver ao mundo. Não tem lugar para a amizade na hora em que é preciso pensar em si, não tem como manter a bondade quando todo o cenário (as instituições, todas essas coisas) está montado numa direção contrária. Em quase uma dezena de cenas de cortar o coração, os meninos vão se afastando até aquele carinho se transformar em inimizade.

O fim é mais trágico e mais cruel do que eu imaginava. Eu tinha me esquecido da desilusão com o ser humano, da revolta diante da pobreza, da falta de sentido da guerra, de todas essas coisas que definem o neo-realismo italiano quando alguém tenta defini-lo. Quando o menino Pasquale, depois de ter sido preso e conseguido fugir, de terem-lhe raspado a cabeça e metido num uniforme, chorou copiosamente e se desesperou, gritando “O que foi que eu fiz, meu Deus? O que foi que eu fiz?”, eu me perguntei se ele havia conseguido, afinal, ver de um ângulo privilegiado o tamanho da miséria em que se encontrava ou se a tristeza era só resignação diante da dor.

Sciuscià não é um filme para rever todo dia.

Seis detalhes sem importância de Game of Thrones

carinho no dragão

Maratonei Game of Thrones. Fui do começo ao fim num tempo tão curto que até me envergonha dizer. Tinha visto o piloto na época em que ele saiu, mas nada ali me indicava que a série era para mim. Agora, no começo de junho, me veio à cabeça que seria uma boa hora para começar de novo. O resultado é que me apeguei a uns seis personagens (é que tem muita gente carismática) e não conseguia assistir a outra coisa (é que tem muita cena de ação bem coreografada, tensa, que absorve a gente). Por causa da popularidade tão grande de GoT, até quem não acompanha acaba sabendo de tudo o que acontece porque quando começa ou termina uma temporada a internet enlouquece. Por sorte, quem é Alzheimer vive em dobro – como dizia a comunidade do Orkut – e para mim tudo era novidade.

O que não é novidade é que a série tem fanáticos que já esmiuçaram cada detalhe, leram os livros mais de uma vez, bolaram teorias (tanto as absurdas quanto aquelas que fazem muito sentido) e decuparam cada episódio em busca de um significado oculto. Acho que eu não sou esse tipo de fã. Às vezes eu deixava todo o resto para prestar atenção em uma besteirinha. Uma expressão engraçada na cara de um ator, um detalhe com pouco significado, uma intriga que ficou sem explicação. Não é que eu não entrasse na história, mas é que tem tanta coisa em que reparar que tem hora em que acontece de a gente não se concentrar bem no que é o ponto principal. Será que eu consegui me explicar? Fiz uma lista com seis momentos sem importância que me desviaram do caminho. Que comece o aquecimento para a sétima temporada.

JORAH MORMONT TOTALMENTE “TRIGGERED”

jorah mormont friendzone

Ele é a enciclopédia ambulante da khaleesi. Sabe tudo sobre toda cidade que ela precisa conquistar. Cultura, arquitetura, população, hábitos alimentares, organização política: é só pedir que Jorah Mormont esmiúça aquelas partes exóticas do mundo de GoT para a khaleesi ter uma pequena noção do buraco em que está se metendo. Como nada é fácil, acontece de Mormont ser perdidamente apaixonado por ela. O cavaleiro quase tem um tremelique toda vez que precisa olhar Daenerys nos olhos, num amor que é verdadeira devoção. Muito bonito. Só que tem duas coisas: primeiro que o sentimento não é recíproco – a Mãe dos Dragões só pensa no trono que quer conquistar e, quando tem tempo para escapar um pouquinho, parece ter outro tipo de homem em mente; segundo: agora Mormont está apaixonado e daria a vida por ela, mas ele já foi um traidor, um informante daqueles que queriam vê-la morta. É claro que ela vai descobrir. Vai escorraçar o homem e dizer que ele tem sorte de não ser executado.

E aí, será que ele lida bem com a separação? De jeito nenhum. A gente vai ficar sabendo do nível de sofrência quando, depois, Tyrion Lannister e Varys vão parar num bordel em Volantis. Lá uma prostituta está vestida de khaleesi para agradar os homens que “gostariam de foder uma rainha”. É um verdadeiro cosplay. A cópia não é tão graciosa quanto a original, mas está tudo lá: o cabelo platinado, o babyliss, a vestimenta azul. Num canto do bordel, meio louco, bêbado e decadente, totalmente perturbado pela visão da falsa Quebradora de Correntes sentada no colo de um qualquer, está Jorah Mormont. Só faltou aquela tarja de TRIGGERED. A cena deve durar dois segundos, mas eu fiquei rindo pelo resto do episódio. Para completar, ele sequestra o anão para dar de presente à amada.

MAMILOS

nipple game of thrones

A vida da khaleesi tem dessas. A certa altura ela precisa de um exército, mas o pessoal do ramo de venda de exércitos não parece muito legal. O sujeito que a apresenta aos Imaculados (aqueles soldados castrados na infância, máquinas de matar) é intragável. A gente sabe que ele vai morrer desde a primeira fala que ele dá, a gente sabe que ele vai morrer já por causa da escolha de elenco. Mas ele quer mostrar que os Imaculados não dão um pio diante da dor. O que ele faz? Ele chama um soldado e, sem cerimônia, corta-lhe o mamilo. Corta mesmo, como se estivesse passando a faca na casca de uma fruta. Eu preciso confessar que, fosse o que fosse a história, dali em diante nada mais conseguiu a minha atenção. O senhor cortou o mamilo do soldado, arrancou fora, só para provar que os Imaculados não estão nem aí para a dor. Mas é um mamilo, sabe? É claro que a pessoa que perde o mamilo vai ficar com ardência. Essa cena me deu arrepio. Quando eu lembro é como se alguém passasse as unhas num quadro negro. Ai.

AQUELE SENHOR DESCALÇO

high sparrow

Cersei não é boa estrategista. Ela está sempre maquinando. Na verdade todo mundo está sempre maquinando, mas ela não faz um movimento sequer que não seja voltado a um plano elaborado. Só que vocês podem reparar: ela só dá passo em falso. Quando ela encrenca com os Tyrell, porque Margaery finalmente conseguiu casar com o rei e virar rainha, a solução encontrada não é exatamente parcimoniosa. O que ela faz é dar poder a um grupo de fanáticos religiosos para que eles possam enquadrar os Tyrell. Só que, claro, os fanáticos saem do controle e tudo dá erradíssimo.

Enquanto isso acontecia, todas as minhas energias estavam voltadas para a roupa do líder da seita religiosa, o tal do Alto Pardal. Os monges dele não eram nada que a gente não tenha visto na vida real: apenas uma mistura de monge budista com franciscano com uma corrente amarrada no peito e um símbolo na testa. Mas o traje do Alto Pardal, um verdadeiro saco de batatas imundo e sem corte, me irritou profundamente. Eu entendo que a ideia era fazer um contraste entre ele e os pecadores bem arrumados de Porto Real. Tudo bem. Mas o velho não só era profundamente irritante, todo arrogante e com pose de sábio, como sempre aparecia despenteado, com a cara suja e descalço. Descalço. Eu parei para imaginar o chão de Porto Real. A quantidade de matéria fecal, xixi, resto de comida e sangue que deve ter por lá. Fora que a estrutura da cidade não é grandes coisas. Ruas de pedra não só acumulam mais sujeira como também quebram. Aquele velho andava com os pés descalços e sentia as pedrinhas e grãos de areia nos vãos dos dedos. E o pior: não usar sapatos não era um pré-requisito para entrar na seita porque os monges todos usavam uma botinha aparentemente feita de couro.

O gostoso é que a Cersei deu um bom jeito nele.

LÁ VAI A KHALEESI INDO EMBORA NO DRAGÃO

drogon

O diferencial de Daenerys no pleito pelo Trono de Ferro são os dragões. A série repete isso a todo momento. Faz sentido. Eles não só são uma arma poderosíssima, como também, só na presença, conseguem impressionar os inimigos e incentivar os aliados. Durante o torneio dos escravos, aquele em que Jorah Mormont virou uma espécie de Russel Crowe em Gladiador, os inimigos da khaleesi começaram a matar todo mundo e ela se viu cercada, com poucos homens e pouquíssima esperança. Foi aí que Drogon, que é o dragão principal, apareceu. Ele fez uma demonstração de força, matou um pessoal, deixou Tyrion Lannister de boca aberta e, por fim, pousou no meio da arena. Nisso Daenerys montou nele e saiu voando.

Os companheiros de batalha podem ter ficado um pouco desapontados com a rainha abandonando a luta assim sem cerimônia, mas eu achei tudo muito razoável. Pensei: agora o dragão vai parar no topo da pirâmide, que é a residência oficial, ela vai desembarcar em segurança e o problema foi resolvido. Que nada! Sem controle do dragão, nem Daenerys soube onde foi parar. Ele voou embora e a deixou sozinha no meio do nada. Tiveram que montar uma equipe de resgate para encontrar a rainha. Eu achei engraçadíssimo, ainda mais porque toda a cena da chegada do dragão foi apoteótica. Um daqueles momentos em que um fiapo de esperança vira uma glória gigantesca. Tudo isso para ela ficar perdida no meio de uma terra estranha, cercada de dothrakis que estão apostando para ver quem vai estuprá-la primeiro.

Mas ela é a Não Queimada, a Noiva do Fogo. No final não há quem lhe encoste um dedo.

E VOCÊ. QUEM É VOCÊ MESMO?

cersei qyburn

Eu tenho certeza de que isso deve ser muito bem explicado nos livros, mas para quem só viu a série ficou esquisito. Qyburn é aquele homem que faz experimentos com Gregor “A Montanha” Clegane. Ele aparece primeiro quando Jaime Lannister perde a mão. Dali em diante, numa ascensão impressionante explicada por ninguém, ele vai virar conselheiro de Cersei. Não tem graça nenhuma, eu sei, mas é aquele tipo de coisa que acontece quando o roteirista precisa enxugar personagens. Aqui em casa a gente sempre se lembra de um filme com a Nicole Kidman e o Daniel Craig, Invasores, que é meio que uma releitura de Invasion of the Body Snatchers. Lá, um médico que tinha uma salinha e um cargo desimportante num hospital sem destaque acaba indo parar no centro dos acontecimentos, só porque no roteiro não cabe outro médico. Ele está num helicóptero, ele descobre a cura, ele ajuda os protagonistas: tudo a serviço de uma história enxuta. A função de Qyburn em Game of Thrones é essa, e por isso ele sempre acabava roubando a minha atenção. Eu precisava me lembrar de quem ele era, e começava a pensar que estava perdendo alguma coisa, que alguém tinha explicado e eu tinha perdido. Como esse homem foi parar aí? Nesse mundo de tanta intriga não teve ninguém para barrar uma ascensão tão grande, nem para explicar porque ele é importante?

O fato é que agora o “Time Cersei” está bem peculiar. Tem ela, um cavaleiro sem mão, um cavaleiro zumbi e um médico louco.

MINDINHO FALANDO NO OUVIDINHO

sansa e littlefinger

“Só um tolo confiaria no Mindinho”, diz Sansa Stark no fim da sexta temporada. A função dele na vida é ser um fofoqueiro, intriguento, leva-e-traz, duas caras e fraco de caráter. Não demora nada para a série querer que a gente entenda isso, e uma das primeiras cenas dele é impagável. Ned Stark acabou de chegar a Porto Real com as duas filhas. O rei manda fazer um torneio. Um dos participantes é Gregor “A Montanha” Clegane. O episódio quer nos contar três coisas ao mesmo tempo: 1) Montanha é muito malvado; 2) Mindinho é muito fofoqueiro; 3) a origem da queimadura do Cão de Caça. Qual é a cena? Na arquibancada, Sansa, que àquela altura é toda empolgada com cavaleiros e cortesias e romances e casórios, sentou-se ao lado de Mindinho. O que ele faz? Ele conta a história da vez em que Gregor Clegane, ainda criança, colocou a cara do irmão no fogo só por causa de um brinquedo. Mas ele conta tudo no ouvidinho dela, aos sussurros. Quem já esteve em um lugar barulhento sabe que não se entende nada de um sussurro. Quem vai sussurrar tem que falar frases curtas, tipo “Vamos embora?” ou “Onde é o banheiro?”, mas o Mindinho conta a história inteira, uma frase atrás da outra, sussurrando alto, com cara de safado, para uma Sansa impressionada, em meio a uma arquibancada lotada. Não adiantou nada ele sussurrar, até porque ele falou alto. Todo mundo ouviu. Mania de falar perto da cara dos outros!

Dois romances policiais que valem a pena

Uma das minhas primeiras leituras foi um romance da Agatha Christie que eu comprei numa banquinha de revistas. Isso foi em 1997. O livro era Morte no Nilo. Eu só me lembro disso porque ainda guardo o exemplar. Na primeira página escrevi o meu nome completo e a data, com a minha letra ainda infantil, só para atestar que aquele livro era meu (quem tem irmãos mais velhos sabe que é necessário marcar com o nome os objetos mais queridos). De lá para cá eu li uns bons livros dela e do Conan Doyle. Dificilmente passo dois meses sem ler um romance policial. A oferta tem sido muito grande, mas alguns elementos estão em falta.

Sinto que há ondas no mundo editorial. Crepúsculo trouxe consigo uma infinidade de outros romances sobrenaturais. Aos poucos, a chama foi se apagando. Jogos Vorazes veio em seguida e vimos as livrarias inundadas por distopias de variada qualidade. Mas isso já faz tempo. Agora em 2017 quando eu vago o Skoob atrás de novidades e boas histórias, chego a me cansar de ver livros de fantasia young adult e romances policiais das mais variadas origens – tem os escandinavos, tem os ingleses, e tem também, como não poderia deixar de ser, os americanos. O problema é que eles têm muita coisa em comum. Acho que Garota Exemplar, embora não seja um policial no sentido estrito, trouxe uma nova onda de thrillers meio adultos e de temática relativamente pesada. Sob a influência do sucesso do livro de Gillian Flynn, muito do que surge parece ter o mesmo tom.

indesejadas

É muito difícil, nesse mar de livros, nessa verdadeira bola de neve, escolher o que ler. As editoras estão cada vez mais especializadas em nos enganar com capas lindas e sinopses esquivas. Muita coisa parece legal e, se a gente se deixar levar, sai comprando tudo e cai até em crise existencial por não saber o que tirar da prateleira. Eu queria falar sobre dois romances que li recentemente, e que fogem um pouquinho da regra por apresentarem personagens excelentes. Um é Indesejadas, o primeiro da série Fredrika Bergman & Alex Recht, da sueca Kristina Ohlsson. Aqui no Brasil a série vai pelo terceiro livro. Fredrika e Alex são os investigadores da vez. Em Indesejadas eles precisam desvendar um desaparecimento que logo se revela assassinato. Não há muito o que contar sem soltar spoilers. O caso é complicado e de deixar o leitor sentado na ponta do sofá (ou da cadeira, da cama, do que for de preferência). Só que, para mim, o diferencial desse livro é o carisma dos personagens. Os protagonistas são um ponto fundamental. Quando o detetive é ruim, o romance policial parece durar uma eternidade. Não é o caso aqui. Há rixas, ciúmes, desavenças. O livro é longo. São quase 400 páginas, então o foco fica bem dividido entre o crime que precisa ser solucionado e a vida de Alex, Fredrika e Peder. Discórdia entre policiais é um clichê nem sempre bem vindo, mas aqui não há enfrentamentos irritantes. O lugar-comum dá espaço a crises que parecem genuínas. Eu me senti na pele de uma policial ferrada durante a leitura de Indesejadas. Um outro ponto bacana é que em Indesejadas o frio, que obviamente é marca registrada da Escandinávia, sai de cena para a chegada do verão. Não é muito comum sentir calor ao ler um romance sueco.

A garota no gelo

O segundo livro é A Garota no Gelo, que também é o primeiro de vários, dessa vez pelo autor britânico Robert Bryndza. Ele nos apresenta a série da detetive Erika Foster, com dois volumes publicados no Brasil até agora. A detetive está deprimida e acaba de voltar a trabalhar. Seu marido foi morto em uma ação policial que a tinha como comandante. Ela se sente culpada, e todo mundo acha que ela tem culpa mesmo. Atrás de novos ares, ela vai para Londres investigar um assassinato. Um recomeço. Mas não para uma jovem rica que foi achada morta em um bairro decadente. O caso cai nas mãos de Erika. Ela não conhece ninguém da equipe e vai se desentender com muita gente para conseguir juntas as peças. A detetive é chata (mas a gente simpatiza com ela), intransigente e ranzinza: meu tipo preferido de personagem. De novo, como é de praxe, o livro fica bem dividido entre a vida da protagonista e o caso a ser solucionado.

Sempre me alegro quando vejo uma protagonista como Erika, com esse gostinho amargo de rabugice e com brio. Uma pessoa com espírito resistente, mas cheia de manias bizarras. A Fredrika de Indesejadas não fica atrás. Quando elas pegam os assassinos fica aquela sensação de justiça feita e missão cumprida.

É importante que a trama seja intrigante e que as pontas não fiquem soltas, mas isso não é tudo. Eu adoro me apegar aos protagonistas, mas isso tem ficado cada vez mais difícil. Todo personagem parece igual, com tiques, costumes e mensagens parecidos. Esses dois romances que eu destaco não trazem novidades, e para falar a verdade eles têm muito em comum com o bolo de coisas parecidas que a gente encontra nas livrarias, mas, se você é como eu e é capaz de seguir um personagem bom aonde quer que ele vá, vale a pena passar umas horas investigando esses casos esquisitos.

Z: uma oportunidade perdida

z a cidade perdida

A pessoa chata que leu o livro e não gostou do filme já é uma figura desprezada por todos. Eu detesto ser chata e não gosto que me desprezem, mas tenho que dizer que saí mais triste que confusa da sala de cinema em que vi Z: a cidade perdida, dirigido por James Gray. O livro eu resenhei aqui, no ano passado, quando não tive do que reclamar. Mas li tarde. A edição brasileira é de 2009. Se, mesmo com o meu atraso, eu consegui chegar a tempo de pegar o filme no cinema foi porque a produção demorou muito para dar vida à história do coronel Percy Fawcett.

Ao longo de alguns anos quem estava de olho ia recebendo notícias do andamento das coisas. Não é um bom sinal quando as novidades somem e ninguém faz questão de perguntar o que aconteceu com aquele filme prometido, mas Z saiu. E não é uma bomba. Nada do que me incomodou parece ser fruto de correria, improviso ou de intervenção de estúdio – essas coisas que em geral acontecem com produções problemáticas, como foi o caso de Esquadrão Suicida no ano passado. O meu problema é que eu e James Gray lemos livros muito diferentes.

O jornalista David Grann queria resolver um dos casos midiáticos mais célebres do começo do século XX. Na partida de Percy Fawcett para sua última expedição amazônica qualquer palavra que ele dissesse virava notícia. Quando, pelo passar dos anos e por falta de contato, ficou evidente que o explorador não mais voltaria, ventilou-se todo tipo de hipótese. Numa hora dessas o jornalismo e o público mandam o comedimento embora. O objetivo do livro de Grann era tirar o entulho que a imaginação popular colocou sobre a trajetória de Fawcett. Para isso ele foi até a floresta, investigou hipóteses, duvidou de testemunhos e chegou a um resultado seguro, embora modesto.

Quer dizer: que Fawcett morreu àquela altura não restam dúvidas, mesmo que as circunstâncias exatas da morte sejam desconhecidas. A última expedição entrou num território hostil e de lá não conseguiu sair. Muito bem. O bom é que Z, o livro, não tem só isso. Grann também faz uma boa investigação sobre a hipótese em que Fawcett apostava. Quanto à existência de uma civilização avançada na floresta amazônica, o livro é fascinante: para Grann, a cidade estava lá mas o explorador não tinha condições de encontrá-la porque estava procurando os sinais errados. Z não era toda de ouro, nem tinha edificações como as pirâmides do Egito, e assim o jornalista nos mostra que a antropologia do século XX conseguiu redescobrir a verdadeira grandeza da civilização amazônica, toda voltada para a adaptação ao ambiente hostil da selva. O misterioso desaparecimento do aventureiro vira um fio condutor. No lugar das infinitas possibilidades da imaginação (chegaram mesmo a dizer que o velho militar inglês havia encontrado Z e lá se transformado em líder espiritual), algumas probabilidades muito interessantes mas muito pouco místicas. Uma morte violenta. Um caminho errado. Exaustão. Fome.

z cidade perdida

Lindo até quando tenta ser feio

Já a história que James Gray conta poderia ser um reboot de Indiana Jones ou o começo de uma franquia nova, mas é muito difícil vê-la se passar por uma adaptação do livro-reportagem. O diretor busca mistério onde já não há, reposiciona gente de carne e osso, transforma um militar inglês famoso pela severidade em pai amoroso e marido compreensivo; e faz tudo isso a ponto de ameaçar a imersão no filme: aquela gente se parece muito com gente contemporânea que ocupa empregos liberais e pensa como progressista nos costumes – o que não é um defeito, de jeito nenhum, a não ser que o seu filme pretenda contar a história de gente que cresceu na Inglaterra imperial quando a Inglaterra imperial se gabava de ter controle sobre o mundo inteiro. Mas isso nem é o mais irritante. A atuação constrangedora de Charlie Hunnam também não é o que mais irrita, nem quando ele caminha com o mesmo remelexo malandro de seu personagem em Sons of Anarchy.

O que me tirou completamente do filme dirigido por James Gray foi o fato de ele ter andado tão na contramão do livro. O que Gray faz (lembrando que o roteiro também é dele) é uma espécie de mistificação bem ao estilo daquelas que motivaram o projeto de David Grann e a busca pelos fatos. O Fawcett deste filme termina sua jornada como uma espécie de peregrinador budista que encontrou a paz de espírito e resolveu compartilhá-la com o filho. Quando não agrada a resposta na história verdadeira, o diretor resolve ele mesmo encontrar a verdade ao abraçar uma espiritualidade banal. Não há nenhuma curiosidade pelo cenário, nenhum confronto entre o interior, que são as coisas que atravessariam a cabeça de um explorador inglês, e o exterior, que é a floresta. Eu fiquei mais atônita do que irritada, ainda, quando percebi que o diretor tinha pouquíssimo interesse pelos indígenas, que são a espinha dorsal do livro-reportagem. No cinema eles são absolutamente tudo o que o aventureiro gringo quiser. Tacape no meio do crânio não é uma opção, então, já que matar Fawcett pode ser uma reação raivosa à invasão de um território (o que provavelmente aconteceu, de acordo com Grann), James Gray tem uma ideia melhor: que tal se os índios forem assistentes em uma espécie de suicídio programado, o fim catártico de uma jornada de autoconhecimento?

Não bastasse o final bobo, o epílogo é inacreditável. Mas só para não terminar o texto num tom de muita raiva e frustração, eu preciso falar de Robert Pattinson. Ele interpreta o principal companheiro de Fawcett, num trabalho tão bom que deve ter feito, com certeza fez, o diretor pensar que escolheu o ator errado para fazer o protagonista. Diretor pateta. Charlie Hunnam como Percy Fawcett? Ah, vá.

The Handmaid’s Tale é desesperadora(mente boa)

the handmaids tale1

Você já deve ter ouvido falar desta série no último mês. Todos os textos que eu li falavam bem de The Handmaid’s Tale, e por aqui não vai ser diferente. A produção que estreou no Hulu tem sido muito bem cotada por todo mundo e já teve uma segunda temporada confirmada. Inspirada num livro de Margaret Atwood (O conto de Aia, publicado pela Rocco aqui no Brasil), a série conta o que acontece depois que uma nova liderança assume o poder nos Estados Unidos. A história tem todos os elementos de uma distopia: um poder tirânico que não aceita a desobediência, pessoas comuns lutando para fugir, pessoas comuns lutando para mudar a situação, repressão e injustiça.

Offred, vivida por Elisabeth Moss, é a aia a que o título se refere. Antes de o mundo virar de cabeça para baixo, o nome dela era June e ela levava uma vida pacata com marido, filha e trabalho. As coisas começam a se desintegrar quando a taxa de natalidade diminui, mulheres e homens deixam de conseguir conceber bebês e a taxa de aborto espontâneo cresce loucamente. Um poder religioso aproveita a oportunidade de desespero para se infiltrar na vida pública. De repente mulheres perdem seus empregos e deixam de ter acesso a dinheiro. Acontecem protestos, mas não tem jeito, em pouco tempo o que antes eram os Estados Unidos agora é República de Gilead. A principal função das aias nessa distopia é entrar no período fértil e copular com os patrões num bizarríssimo ritual em presença das esposas ricas e inférteis –  um estupro travestido de ritual religioso. As aias, essas poucas mulheres que ainda são férteis, perdem a cidadania e o comando das próprias vidas, perdendo com isso até o nome próprio. Offred vem de “of + Fred” porque June agora pertence a um homem poderoso, figura de destaque na nova nação.

June/Offred tenta com todas as forças não entrar em desespero. Mas é difícil. Levaram sua filha, o marido sumiu, a melhor amiga desapareceu e só há inimigos e estranhos por todos os lados. A repressão é pesada e o clima é de paranoia religiosa. É a força da personagem que faz com que The Handmaid’s Tale não seja só uma enorme lista de desgraças. June é resiliente, esperta, jamais conformada. Quando eu vi Elisabeth Moss em Mad Men pela primeira vez, eu achei que era questão de tempo até que ela entrasse no clubinho seleto das atrizes que são unanimidade. Fazendo June/Offred, Moss consegue imprimir intensidade em cenas emocionalmente pesadas, mas de poucos diálogos. Não é todo elenco que conta com alguém assim. O olhar de desafio da personagem está ali. Vê-se que ela está inconformada e revoltada e que busca uma oportunidade para dar o troco. Na mão de uma atriz pior, o dramalhão poderia ser insuportável. Esses pequenos detalhes que fazem parte da composição de Moss dão um tom distinto para a série. Assim, The Handmaid’s Tale não busca explicações esmiuçadas em longos diálogos porque confia no poder de comunicação de sua atriz principal. E o que ela mais comunica é uma raiva muito grande porque a situação é muito ruim.

the handmaids tale

Eu li alguns textos relacionando a história das aias ao momento atual. O livro foi escrito na década de 1980 e, agora,  a repercussão da série tem dado conta de Margaret Atwood como uma visionária, alguém que previu certas tendências e criou um cenário irreal e assustador. Ela imaginou um mundo distópico em que as mulheres não têm vez. Eu ainda não li o livro, faz muito tempo que estou para ler alguma coisa de Atwood, mas os episódios que eu vi até aqui me fazem pensar em Persépolis, de Marjane Satrapi. É uma coisa que não me sai da cabeça. Persépolis conta a história de uma moça, criada no Irã, que viu o sucesso da revolução islâmica quando ainda era menina. Até aquela altura, 1979, o Irã era um país relativamente aberto. Não havia lei obrigando o uso do hijab. Quem leu Persépolis sabe do que eu estou falando. Satrapi fala do dia-a-dia do aferrenhamento do regime iraniano, das diferenças entre o que a família dela desejava para a sua criação (louvando independência, criatividade, curiosidade) e o que os valores de um Estado mergulhado em religião exigiam para todas as meninas e mulheres. Além de  Persépolis, tem uma foto que ficou grudada na minha memória. É de uma fotógrafa iraniana que documentou a marcha contra a obrigatoriedade do uso do hijab, em março de 1979. Foi um protesto enorme, foi um momento de resistência e acabou sendo, também, o último dia em que se permitiu que uma mulher saísse à rua com a cabeça descoberta. Quer dizer: tanto esse momento histórico quanto uma obra como Persépolis mostram que isso já aconteceu recentemente no mundo, que já houve um dia em que se decretou que todo um grupo de pessoas teria status rebaixado, em que um poder religioso retirou direitos de mulheres. Isso deixa The Handmaid’s Tale mais assustador e sufocante.

Além de incutir desespero, a série consegue contar uma história impactante com ótimas atuações (Elisabeth Moss não está sozinha: o elenco é de primeira) e com um certo cinismo, ainda que na medida certa para não deixar a gente perder a esperança. O último episódio que eu assisti foi revelador e focou em um personagem que tinha aparecido pouco. A história tem aventura, vilania e muito mistério. Esta primeira temporada tem sido daquelas que claramente plantam raízes para uma longa jornada. Posso estar com grandes esperanças e pode ser que alguém que já tenha lido o livro as ache injustificadas, porque as melhores histórias dificilmente têm finais felizes, mas tenho que dizer que não vejo a hora de me sentir vingada. Eu queria que June dissesse que Offred é o cacete e matasse todo mundo a tiros. Mas vamos ver.

Deixei você ir

Deixei você ir

Uma mulher luta para seguir a vida depois de um acidente terrível. Um detetive com problemas familiares se vê às voltas com o caso de um menino morto. Deixei Você Ir, de Clare Mackintosh, é a história de duas pessoas corroídas pelos fatos de um acidente trágico. Em um dia chuvoso o menino Jacob é atropelado por um carro em alta velocidade. O motorista foge do local, deixando o menino morto na rua. A mãe  presenciou tudo. A equipe do detetive Ray Stevens começa a investigar o ocorrido, mas as provas são poucas e parece impossível descobrir quem faria tamanha crueldade. Jenna precisa recomeçar, mas não tem como superar aquela morte. Ela se muda para uma praia isolada, aluga uma cabana e tenta viver.

A sinopse de Deixei você ir entrega um clima de romance policial, mas depois de poucas páginas já notamos que a investigação e a busca pelo assassino não são o ponto crucial da história. Os capítulos são alternados entre a investigação (com lampejos da vida particular do detetive Ray) e o recomeço mais do que complicado de Jenna. O detetive e sua equipe trabalham no caso do atropelamento, mas ele também está com muitos problemas em casa. O filho mais velho está estranho, com alguns problemas na escola; o relacionamento com a esposa também não parece o mesmo, e sua companheira de trabalho, a jovem Kate, parece ser exatamente aquilo que ele precisa para fugir dos problemas.  Dessa forma, a investigação fica permeada pelos dilemas  de Ray e por causa disso, ainda que este seja um recurso comum em romances policiais, aqui vai uma reclamação: achei tudo o que envolvia o detetive bem desinteressante.

As partes de Jenna, pelo contrário, são o ponto alto do livro.  Os capítulos na praia, em que ela tenta começar de novo, me fizeram continuar a leitura. Mas esqueça qualquer resquício de romance policial enquanto a história se concentra nela. O livro vira um romance reflexivo sobre uma mulher e sua vida estilhaçada, alguém que tem poucos amigos e conhece um homem, por quem se apaixona. A primeira metade de Deixei você ir se dá assim. É na segunda parte que acontece uma reviravolta. O livro deixa de ser morno e nos ajuda a entender melhor a personagem de Jenna. Clare Mackintosh me enganou direitinho com um desses recursos que estão na moda nos thrillers de hoje em dia.

Para mim, Deixei você ir não foi uma das melhores leituras do ano, mas está longe de ser maçante. A reviravolta coloca a história inteira sob outra perspectiva, e por causa disso a segunda metade do livro ganha fôlego. Além disso, Mackintosh me fez torcer por Jenna, e isso sempre requer uma dose de identificação não só com a tristeza gerada pela tragédia, mas com os pensamentos que surgem dela.

Deixei você ir intrinseca

Para quem já leu ou para quem quer spoilers

Como eu não consigo me controlar, preciso contar mais dessa segunda metade do romance. Saber de alguns detalhes não atrapalha, mas tem coisa que anula um livro inteiro. Acho que fica impossível ler Deixei você ir sabendo da reviravolta. Seria outra experiência. Fica o aviso.

Jenna passa todos os capítulos da primeira metade do livro se sentindo culpada. Jacob morreu e ela, claro, não consegue lidar com isso. O leitor sabe que a mãe de Jacob não segurou a mão dele ao atravessar a rua, e que ela se culpa por isso. A autora nos induz a acreditar que Jenna é a mãe de Jacob. Por que ela estaria com culpa e precisaria reaprender a viver se não fosse a mãe? Porque ela é a assassina, a atropeladora! No fim, a polícia descobre que o carro que atropelou o menino é de Jenna e a prende. Ela assume toda a responsabilidade, dando um nó na cabeça do leitor (pelo menos na minha, vai que você é mais inteligente e percebeu rapidamente tudo o que acontecia?).

Jenna é uma boa pessoa que tomou más decisões, mas ela tem um motivo. Na segunda metade do livro um novo personagem é inserido. Ian era marido de Jenna, um sujeito abusivo e violento. Ele narra todo o relacionamento dos dois desde que se conheceram. É incrível ver fatos horríveis pelos olhos de uma pessoa que acha normal fazer a namorada engolir água sanitária. Aos poucos nós vamos entendendo por que Jenna se isolou numa cabana no meio do nada e por que ela tem medo de tudo. Ian é violento e está atrás dela. Só aí o livro fica com cara de thriller, só a essa altura entendemos que o tema central da história é a violência doméstica e não as consequências do assassinato do menino Jacob.

Meu único problema com Deixei você ir? Bom, se você ainda não leu o livro e aguentou todos esses spoilers vai aguentar mais este choque: Ian atropelou Jacob enquanto Jenna estava no banco do passageiro. Foi ele. Foi mais uma das vilezas dele. Mas ela assume a culpa, sozinha, pois acha que alguém precisa pagar pelo sofrimento da mãe de Jacob. Eu entendo que uma vítima de violência doméstica pode não conseguir delatar seu agressor por puro medo, mas simplesmente não me caiu bem que Jenna tenha deixado um abusador assassino escapar impune. Achei que esse foi um grande furo, mas isso não estraga o livro.

Alien: Covenant é um filme da Marvel

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Eu tenho uma opinião impopular a respeito de Alien: Covenant: eu achei bom, gostei, me diverti. Ou seja, não só me diverti (o que pode acontecer mesmo que eu não goste do filme) como ainda por cima gostei (não saí ofendida nem destratada ou querendo o meu dinheiro de volta). Pra ser sincera, eu acho que mais gente se divertiria se essa não fosse uma franquia estabelecida, que tem um filme (Alien, o 8º passageiro, de Ridley Scott) considerado um dos maiores suspenses de todos os tempos, e outro (Aliens, o do James Cameron) em alta conta pelos fãs por ter sido um dos grandes blockbusters dos anos 1980.

Covenant quer realizar duas tarefas bem distintas. Por um lado, Ridley Scott tenta um resgate da importância da franquia. Por outro, ele quer fazer com que ela não fique restrita ao universo meio pequeno e sem grandes explicações dos dois primeiros filmes. Esses objetivos se contradizem porque o segredo do sucesso inicial de Alien era o bicho ser alienígena. Alienígena mesmo: não só uma coisa horrorosa vinda do espaço, mas um ser letal que era desconhecido em todos os aspectos, alheio, forasteiro, um corpo estranho. A princípio ele não era nem um vilão porque não tinha necessariamente vontade de matar, de fazer o mal, de montar uma tramoia. O monstro do primeiro filme era puro instinto de sobrevivência, a indiferença da natureza. Era necessário, sempre, que alguém morresse para que o bicho sobrevivesse e esse era o maior terror.

Claro que as sequências não mantiveram esse princípio. A primeira, dirigida por James Cameron, virou a história de uma operação de guerra. Soldadinhos contra o Alien, o Alien vence. Ainda não se falava muito a respeito de sua origem, mas o universo já se ampliara. Havia a corporação, dessa vez com mais sede de dinheiro; também a vida pessoal da tenente Ripley ganhou contornos mais pesados. Mas, tirando o instinto maternal da protagonista, as motivações eram todas bem vagas e James Cameron não perdeu tempo com elas. O que ele fez foi nos mostrar a tecnologia necessária para combater o bicho. A câmera presta atenção em naves, tanques, sistemas computadorizados, armas de mão, explosivos, robustas armas pesadas. Nada disso foi suficiente para parar o monstro, e por isso ele vai ficando mais poderoso. No primeiro filme, ele pegou todo mundo desprevenido. Agora, ele é uma ameaça séria e a força bruta chega a ser inútil. Ainda assim, ninguém liga para o lugar de onde ele veio.

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As próximas sequências pouco acrescentaram à mitologia. Alien 3, o de David Fincher, tentou começar do zero e não teve graça;  Alien: Resurrection, o de Jean-Pierre Jeunet com Winona Ryder, foi uma perdição tão grande que conseguiu enterrar a franquia. Isso foi em 1997. Vivemos a década de 2010 e sabemos que hoje em dia ninguém pode deixar uma marca morrer. Em 2012 o próprio Ridley Scott trouxe ao mundo o quase interessante e bem decepcionante Prometheus. Foi nessa hora que as duas tarefas distintas começaram a entrar em contradição. O espírito do filme original requer mistério, mas o espírito das produções atuais requer elaboradas explicações, mitologias, teorias, assunto para as redes sociais. Talvez essas duas pontas não sejam necessariamente opostas, mas vê-se que Ridley Scott está tendo dificuldades em conciliá-las.

A Covenant é uma nave que leva mais de duas mil pessoas a outra vizinhança do universo para colonizar lá um planeta. Não tem nem o período de calmaria antes de o problema aparecer: a tripulação já acorda de um hiper-sono com um mau funcionamento no sistema. Tem uma urgência, tem morte, luto e o passo seguinte, como só cientista de blockbuster consegue fazer, é mudar absolutamente todos os planos, ignorar qualquer resquício do protocolo e partir para a improvisação total.  O que pode dar errado quando se pousa em um planeta desconhecido que nem estava nos planos? O esqueminha começa a funcionar e aquelas pessoas bem treinadas e de boas intenções morrem pelo bem do nosso entretenimento. Essa era uma das graças da franquia, e nesse sentido Covenant não decepciona. As mortes são horríveis, uma delas memorável, mesmo que a burrice geral e a falta de sentido nas reações de personagens tire uma parte da graça e coloque indignação no lugar. Ainda quando estão aparecendo os primeiros resultados do contato com o organismo destruidor (que, se eu entendi bem, é uma versão beta do monstro original) o filme toma outro rumo. Dali em diante não vamos só aproveitar a matança, vamos em busca de respostas.

E se a gente se concentrar nas respostas, o filme fica bem bobo. Estou acostumada a produções que tratam o espectador como idiota, mas nesse caso a falta de respeito chegou a um nível a que não se chega todo dia. É verdade que sem decisões irrazoáveis a gente não tem história. Se tudo funcionasse bem, não haveria filme e os tripulantes estariam em casa tomando um golinho de chá e olhando a chuva. Mas Covenant abusa da gente porque tudo o que acontece depende muito de burrice de todas as partes. Os personagens têm que ser burros, e aí quando o filme quer defendê-los acaba ficando burro junto. Quem está assistindo também precisa ser burro para engolir com uma cara séria as ladainhas filosóficas que saem da boca do ótimo Michael Fassbender, mas a certa altura eu tive a impressão de que quem estava errada era eu.

Antes de sair de casa eu li duas críticas, ouvi uns comentários e fiquei preparada para assistir a uma bomba. Essa parte da repercussão de Covenant que eu pude ver se resume a uma indignação por Ridley Scott não deixar intacto o espírito do primeiro filme. E isso é verdade: foi-se embora aquela aura de suspense, embora o diretor tenha tentado engatar umas referências visuais e trazer parte da atmosfera em cenas específicas. O que eu percebi já na sala de cinema foi que ninguém estava errado em dizer que o filme é besta, mas todo mundo (todo mundo que eu li) estava preso na expectativa de ver uma produção da franquia Alien, quando na verdade aquilo ali era uma espécie de filme da Marvel. E eu percebi isso quando Michael Fassbender tocou a flautinha pela primeira vez.

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Eu juro que não estou sendo irônica quando digo que, se Alien: Covenant fosse anunciado como a história de origem de algum super-herói (ou super-vilão, o que seria mais adequado), a gente se concentraria melhor no que interessa (o visual, as cenas de ação, as mortes, a construção do universo) e nem pararia para considerar a falsa profundidade daquilo que o filme diz querer investigar. Por causa disso, eu acho que está muito bem realizado o resgate da franquia. Penso que, ao expandir este universo, a produção consegue apontar na direção em que está todo mundo apontando, que é aquela que segue a cartilha da Marvel ou de Star Wars. Mais do que nunca, agora o mundo de Alien está novamente pronto para sequências, derivados, crossovers e mais uma década de filmes de ação. Quem se deu mal foi o monstro, que já não é mais a grande ameaça desse universo, não é mistério para ninguém, e é quase secundário – serve aos planos de uma cabeça maquiavélica. Estamos abrindo as portas de uma galáxia cheia de perigos e etc.

Nesse sentido, eu também não estou sendo irônica quando digo que gostei de Covenant. Eu concordo que a mitologia é um apanhado de baixa ficção científica requentada, mas a construção do mundo compensa. O planeta, o design dos novos bichos, de naves, de sistemas tecnológicos, tudo isso é de encher os olhos. Michael Fassbender interpreta dois personagens, um é bonzinho e o outro é o malvadão. Rola um kung-fu entre os dois. Ambos conseguem falar os diálogos mais bobos do cinema com expressões críveis, e por causa disso eu louvo esse truque hollywoodiano de pagar ator excelente (e caro) para ser o centro de uma franquia duvidosa.

Aguardo as continuações.