The Terror é a melhor história de fim de mundo que já apareceu na TV

the terror amc

Eu já vi muito seriado na minha vida – um número que até constrangeria pessoas com um pouquinho mais de noção – e posso dizer que sei reconhecer um clássico instantâneo quando esbarro em um. Quem não assistir a The Terror, da AMC, vai perder um dos grandes momentos da televisão nos últimos anos, com algumas das atuações mais comoventes que eu já vi em qualquer mídia.

Desculpa, me empolguei. Eu não sei se a série foi divulgada com alarde ou não, o que sei é que fui pega de surpresa. Baseada no livro de Dan Simmons, temos a história real da expedição de John Franklin, que partiu da Inglaterra vitoriana para encontrar a passagem que liga o oceano Atlântico ao Pacífico acima do Circulo Polar Árctico. Franklin e seus mais de 100 tripulantes partiram em dois navios, em 1845 e… jamais voltaram. Viraram lenda, motivando dezenas de outras viagens em seu encalço. O livro e a série ficcionam a expedição. E quando eu digo ficcionam eu me refiro a um pacote mais que completo. A história não é contada como poderia ter acontecido, nada disso: não demora e um monstro meio urso, meio demônio coloca a vida dos homens em risco, como se não bastassem o frio, a fome e as doenças.

The Terror é perfeita por diversos ângulos. A produção é daquele tipo que recria a época na medida certa, nem a mais nem a menos, sem pretensão de ser um fim em si mesma. Isso inclui os figurinos e cenários. A direção é precisa, nem sempre sutil ou no mesmíssimo tom, mas sem jogadas mirabolantes para fingir profundidade ou passagens arrastadas para duvidar de nossa inteligência. Mas se The Terror tem um aspecto irrepreensível este é o desempenho de todo o elenco. Não consigo me lembrar de uma exceção.

the terror

Os três personagens principais são atores entre aqueles rostos que a gente se acostuma a ver, mas que nem sempre consegue lembrar de onde os conhece. Aqui, eles brilham. Tem Jared Harris, que tinha feito um dos coadjuvantes mais humanos de Mad Men; Tobias Menzies, que tem um papel nanico em Game of Thrones mas chamou a minha atenção pelo que fez em Outlander; e tem o veterano Ciarán Hinds, que é o Mance Ryder, também de Game of Thrones. Além deles, há Adam Nagaitis, que é um vilãozinho do capeta, um ator que me deixou com vontade de levantar do sofá e partir para a agressão física, que nem aquele homem com um capacete que invadiu uma versão teatral da Paixão de Cristo. Apoiados por gente que, pelo que me pareceu, mantém o mesmo nível, esses quatro atores mostram aquela capacidade de manter o olho da gente colado na tela, independentemente do texto.

E olha que o texto é bom pra caramba. Não li o livro, não o conhecia, nem sabia da existência de Dan Simmons, que, fui descobrir depois, é um autor bem badalado quando o assunto é ficcção histórica, mas os roteiros baseados no livro são do tipo que consegue contar várias histórias com o mínimo de pirotecnia, com aquelas sacadas que, ou dão vontade de chorar, ou despertam uma pergunta bem profunda lá no meio da cabeça. Além disso, uma das coisas mais gostosas de se envolver com um filme ou série é a possibilidade ter as expectativas frustradas, de se enganar a respeito do que vai acontecer e como – isso tudo The Terror faz sem render-se completamente ao espírito do tempo, o que é um sinal de originalidade, afinal de contas.

A minha vontade era escrever sobre The Terror na altura do segundo capítulo. Ali eu previ que sairia impressionada, mas segurei o entusiasmo porque aqui, no blog, já caí seguidas vezes no conto do ótimo piloto, ou do começo empolgante que depois revela um abacaxi. Por sorte, não cheguei a me decepcionar. O último episódio tem lá seus defeitos, alguém mais crica que eu seria capaz até de se frustrar, mas eu duvido que os últimos dois ou três anos, na televisão, tenham visto nascer uma história melhor a respeito de amizade, lealdade, integridade, das coisas que tornam as pessoas humanas e daquelas que fazem com que a gente perca de tudo isso de vista.

Essa foi, na minha opinião, a melhor série de fim de mundo que já apareceu na televisão porque ela mostra que não precisa de muito para o mundo desabar. Vou terminar com uma frase profunda: fica a dica.

Anúncios

A mulher na janela

a mulher na janelaÉ muito bom engatar em uma leitura e esquecer do resto do mundo. Acho que nunca vou me cansar da sensação de prazer que um livro proporciona, porque ela é diferente de tudo. A mulher na janela nem é o melhor exemplo, porque no fim das contas a empolgação foi diminuindo no fim, mas mesmo assim eu engatei nele e por boa parte do tempo eu pensei “talvez (provavelmente!) eu nem lembre da história em alguns meses, mas que história envolvente!”.

O livro de A. J. Finn é mais um thriller com mulher (ou garota) no título e que, em um primeiro momento lembra A garota no trem, de Paula Hawkins: uma mulher destruída por um evento do passado, que testemunha um crime e precisa lutar para provar que o que ela viu realmente aconteceu. Mas as semelhanças ficam apenas na sinopse. A mulher na janela é um livro intenso, em que você se perde nas ruminações da protagonista e luta para tentar desvendar o que está acontecendo antes do fim da história.

Anna é uma mulher triste. Ela não consegue sair de casa por conta de um transtorno psicológico conhecido como agorafobia. A tristeza é fácil de perceber: ela nunca sai de casa, não toma banho sempre, vive sozinha, sente falta do marido e da filha e passa os dias bisbilhotando os vizinhos pela janela. A casa é gigante, com quatro andares mais um super porão, o que deixa tudo mais atraente: você sabe que um crime vai acontecer em algum momento e que a casona, como cenário principal, só vai fazer a imaginação trabalhar mais.

Quando vizinhos novos se mudam para a propriedade mais próxima, Anna, munida de uma câmera com ótimo zoom, passa a sondar a nova família aparentemente normal. Em pouco tempo o adolescente surge na porta de Anna, com um presente oferecido pela mãe. Eles conversam e Anna se sente mais próxima da família. Mais tarde é a vez de a mãe visitá-la. Elas estabelecem uma ligação rapidamente e então Anna se vê consumida pela vida dos vizinhos.

É aí que um assassinato acontece, e Anna, que vive em meio a vinhos e remédios fortes, vê tudo através das janelas de sua casa. Como ela vai conseguir provar para a polícia que o que ela viu não foi uma alucinação quando a pessoa que ela achava estar morta surge, com outro rosto, dizendo que nunca a conheceu?

A protagonista é uma mulher que, sim, em muitos momentos parece delirante, mas que tem uma confiança inabalável no que vê. Como confiar em uma narradora assim? Não dá. E é justo nessas horas que A mulher na janela é empolgante. Em um momento você quer, junto com Anna, descobrir o que está acontecendo; depois você já acha que todo o problema está nela, mesmo que não do jeito que o autor quer fazer você pensar.

Mas falando assim fica parecendo que eu me apaixonei pelo livro. As coisas começaram a desandar na minha leitura quando o fim foi se descortinando. O autor recheia o romance com referências aos filmes antigos de suspense, com destaque para os de Hitchcock. A história da mulher na janela espionando os vizinhos é uma homenagem declarada a Janela Indiscreta. Anna assiste a muitos filmes clássicos de suspense, e o autor consegue colocar no papel o clima tão único do cinema em preto e branco, o que faz a expectativa crescer. A menção ao clima tenso e de certa forma sedutor dos filmes do Hitchcock me deixou inebriada, esperando por algo que eu imaginava que nunca adivinharia, mas quando o final surgiu, me senti caindo de novo na realidade de um livro mediano e sem muita graça.

O fim me lembrou dos remakes dos filmes do Hitchcock que surgiram ao longo do tempo. A mesma sensação que me daria uma versão, plano a plano, de Janela Indiscreta, tão sem vida quanto Psicose com o Vince Vaughn, da década de 1990. A história, por mais da metade do tempo, me fez pensar em um bom filme do diretor: com um desenvolvimento magnético, complexo e intrincado, mas a decepção veio quando no fim, em vez de continuar como Hitchcock faria e finalizar com um desfecho simples e genial, A. J. Finn optou por dobrar a aposta e deixar tudo maior e mais confuso, recheado de coisas explicadas em excesso. Para mim, não deu certo.

A senhora de Wildfell Hall, de Anne Brontë

a senhora de wildfell hall

Uma mulher se apaixona por um homem bonito, radiante e impulsivo. Parece uma linda história de amor, mas em pouco tempo tudo vira um pesadelo. A impulsividade do homem vira escárnio: ele não se importa com nada e ninguém, bebe, trai a esposa e só sabe tratá-la com desdém em seus modos egoístas. Isso é o tema de um livro na era vitoriana, em 1848. Ousado, não? Parece que cada irmã Brontë tinha um papel na literatura e, se Anne Brontë tivesse conseguido viver um pouco mais, teria ocupado já em vida o papel de transgressora da família.

Como uma jovem que nunca viveu um romance e que viveu tão pouco tempo consegue contar uma história com desdobramentos tão reais? Dizem que ela queria dar uma resposta a O morro dos ventos uivantes, romance da irmã mais velha; além disso, havia inspirações na história da família: o irmão era alcoólatra e morreu em consequência disso, ainda jovem, depois de gastar boa parte do dinheiro da família. Deixando as especulações de lado, Anne Bronte conseguiu escrever um texto feminista numa época em que a palavra mal engatinhava.

A senhora de Wildfell Hall começa com as cartas de um homem (Gilbert) que se surpreende com a chegada de uma nova moradora na vizinhança. Ela é Helen, uma viúva que se mudou para o casarão com o filho. Helen é estranha para o padrão dos moradores da região. Ela é arredia e não faz questão de ser sociável com a vizinhança. Gilbert, em um primeiro momento, também se sente como os outros e censura Helen, mas com o passar do tempo ele se vê cada vez mais atraído pela estranha moradora de Wildfell Hall. Em poucas semanas a amizade deles engata e o homem não entende por que Helen é tão prudente em querer casar de novo.

O livro pode ser dividido em três momentos: as cartas de Gilbert narrando como conheceu Helen; o diário de Helen, com a protagonista narrando os eventos principais; e a volta de Gilbert para finalizar a história. Helen precisa explicar por que não pode se envolver romanticamente mais uma vez e entrega o diário em que conta toda sua história antes de chegar a Wildfell Hall: ela se apaixonou perdidamente por um jovem alegre, mas inconsequente. Uma tia a alertou, mas Helen achava charmoso o jeito imprudente de viver de Arthur. Eles se casam e vivem uma boa vida até os sinais de que Arthur ainda pretende levar sua rotina desregrada mesmo casado. Por vários meses ele viaja para Londres e continua sua vida de solteiro, deixando Helen sozinha com o filho recém-nascido. Helen se agarra na religião para tentar melhorar o comportamento do marido, mas a situação só piora. Ela vê que seu filho cresce e tenta imitar as atitudes do pai, então uma decisão é tomada. Uma decisão que não é a que se espera de nenhuma mulher daquela classe social, naquele lugar, naquele tempo.

Anne Brontë propõe uma reflexão feita por não muitas mulheres célebres de sua época: qual é o papel da mulher na sociedade? Até que ponto a submissão feminina vai ser aceitável? Essas questões não foram bem aceitas, lá atrás, nem mesmo pela família da autora. Charlotte Brontë foi a irmã que ficou responsável pelas obras de Emily e Anne Brontë depois de suas mortes precoces, e não demorou para tirar de circulação A senhora de Wildfell Hall, proibindo sua reedição enquanto viveu. A coragem de Anne Brontë em denunciar a servidão feminina e a dependência financeira na era vitoriana é motivo suficiente para a mais jovem das irmãs Brontë ser lida com entusiasmo nos dias de hoje. O romance ganhou duas edições brasileiras quase simultaneamente, o que prova que seus temas não são anacrônicos nem foram esgotados com o passar dos anos.

Uma lista para quem quer ter um caso de amor com o Japão

Ano passado foi o ano do Japão e dos animes para mim. Foram muitos filmes e séries com aquele olhar especial e delicado dos japoneses. Acho que todo mundo que dá uma chance aos animes não consegue mais se desprender e, para te ajudar nisso, se você está com vontade de dar essa chance, eu escolhi alguns animes comoventes e capazes de encantar qualquer tipo de gente. Se você conhece bem tudo o que vem do Japão talvez ache a lista bem óbvia, mas calma: estamos apenas começando.

Crianças Lobo – Wolf children

wolf children

A história é linda e fala sobre o amor, principalmente o amor de uma mãe. Hana se apaixona por um homem que se transforma em lobisomem. O sentimento é recíproco, eles casam e têm filhos. Uma complicação é que os filhos também herdaram a condição do pai: ora são crianças fofas, ora lobinhos inquietos. Os problemas começam quando Hana se vê sozinha cuidando de suas duas crianças com necessidades que ela não compreende. A jornada dessa família é incrível, e muito mais profunda do que a premissa pode fazer parecer.

Koe no katachi – A silent voice

a silent voice

Shouko Nishimiya é uma menina que sofreu bullying por ter uma deficiência auditiva. Depois de alguns anos ela reencontra o garoto que mais a atacava na escola e uma amizade surge. O filme é delicado e trata de questões sérias do jeito que só os japoneses conseguem: com sutileza nos momentos pesados e pouco sentimentalismo.

A garota que conquistou o tempo – Toki o kakeru shôjo

a garota que conquistou o tempo

Um dos temas preferidos dos japoneses: o tempo. Makoto Konno é uma garota cheia de energia que vive atrasada. Um dia ela descobre que tem o poder de viajar no tempo. Com essa capacidade em mãos, ela usa e abusa do recurso, até que, claro, as coisas começam a sair de seu controle. Filme fofo com romance para ninguém reclamar.

Cinco centímetros por segundo – Byôsoku 5 senchimêtoru

5 centimetros por segundo

O filme é dividido em três partes, todas sobre o relacionamento de Takaki e Akari. Eles sempre foram muito próximos um do outro, mas o destino os afasta quando Akari precisa se mudar para outra cidade. Será que eles se reencontram? Ficam juntos? O legal das animações japonesas é que a expectativa de alguém que se acostumou com o cinema americano pode ser quebrada sem qualquer aviso prévio.

Sussurros do coração – Mimi wo sumaseba

sussurros do coração

O filme mais antigo da lista (1995) é também o mais fofo. A história é sobre a vida de Shizuku e sobre os desencontros e problemas de uma jovem. Shizuku se apaixona por um menino que ela não conhece, mas que já havia lido todos os livros que ela decide pegar na biblioteca. Sempre que ela vai pegar algum emprestado, o nome dele está lá marcado na fichinha. Shizuku é indecisa e curiosa, e isso às vezes traz problemas e às vezes a ajuda. Eu te desafio a ver esse filme e não se apaixonar pela música Take me home, Country Roads cantada em japonês.

Kimi no na wa – Your name

kimi no na wa

Por último o anime mais especial para mim. O único com texto no blog. A história de amor mais encantadora e graciosa que você vai ver. Um dia ele acorda e lembra que sonhou com ela, e ela sonha que viveu na pele dele. Eles vivem em cidades diferentes e não se conhecem. Um cometa passa e as coisas começam a fazer um pouco de sentido. Ai, o amor é lindo.

Meta de leitura 2017 – 2018

O ano já começou há uma semana e aos poucos eu vou me acostumando com 2018. Aqui no blog o primeiro post de janeiro vai ser sobre a minha meta de leitura. Fiquei devendo os últimos três livros da meta de 2017 (o texto no blog, porque a leitura de todos os livros eu concluí a tempo) e resolvi juntar tudo por aqui: os três livros que faltavam da última meta e o começo de outra, novinha em folha. Minha meta de doze livros continua firme e forte. Ano passado os escolhidos foram na maioria clássicos e minha impressões sobre cada leitura foram publicadas aqui, aqui e aqui. Para finalizar faltava o romance de estreia da Virginia Woolf: A Viagem; um livro-reportagem brasileiro: Abusado, de Caco Barcellos; e por último um clássico russo: Pais e Filhos, de Ivan Turguêniev.

a viagem

A Viagem foi o que eu esperava. Eu li algumas opiniões agressivas e achei que talvez o livro fosse descomplicado demais para o gosto das pessoas acostumadas com as coisas que Virginia Woolf acabou fazendo em sua fase mais madura. Mas eu gostei muito da leitura. A Viagem foi o romance mais tranquilo de se ler da Virginia Woolf. Por tranquilo quero dizer que a história segue reta, sem as inovações técnicas que fizeram a fama da autora. A simplicidade do dia a dia dos personagens e dos acontecimentos faz deste um livro perfeito para começar a ler Virginia Woolf. Para um leitor brasileiro há uma pequena complicação adicional, que é a visão que Woolf tinha do Brasil (país que ela não chega a nomear, mas nem precisa). Se você conseguir dar esse desconto, tudo segue muito bem. A Viagem vale muito a pena, principalmente tendo em perspectiva todo o desenvolvimento posterior da autora.

abusado

Abusado foi o penúltimo livro da meta, e talvez a pior escolha. Um dos meus gêneros preferidos é o livro-reportagem (principalmente os de jornalismo investigativo), mas quando a reconstituição dos fatos faz uma história de não ficção virar praticamente ficção eu fico incomodada. Meu autor preferido no segmento é o Jon Krakauer porque ele consegue navegar com desenvoltura ali onde não se admite ficção em excesso: ele enche o livro de dados através de uma apuração perfeita e mesmo assim não deixa a história engessada; o Caco Barcellos pode ser um ótimo jornalista, mas em Abusado esteve longe de conseguir escrever uma história sem romantizá-la (no pior sentido da palavra). O lado bom foi que pelo menos eu tirei da lista uma leitura que eu adiava há muito tempo.

pais e filhos

Pais e Filhos, de Turguêniev é lindo. O protagonista é um dos personagens mais odiáveis do mundo da literatura, mas mesmo assim o envolvimento é inevitável. Eu praticamente devorei o romance em poucos dias e a sensação foi a de sempre com os russos que atravessaram meu caminho: que livro incrível! A experiência só não foi melhor porque eu me excedi e li três clássicos russos no ano. Tenho a impressão de que mais espaço entre um e outro me faria aproveitar melhor a leitura, então fica a lição para o futuro.

2018

meta de leitura 2018

Depois de dois anos em que as metas envolviam ler doze livros que estavam parados por aqui há um tempo, eu resolvi mudar. Em 2018 eu vou reler alguns dos livros que me empolgaram tanto que acabaram me fazendo tomar gosto pela leitura. A principal razão é a saudade. Para confirmar que a minha ideia foi boa eu acabei lendo o do mês de janeiro em um dia. Acho que a nova meta vai ser a mais fácil de concluir. Vou tentar seguir o cronograma de eleger um livro para cada mês do ano, mas vamos ver o que acontece. Quer saber quais são? Olha a foto aí em cima, só faltaram Crime e Castigo, de Dostoiévski, que eu ainda não tenho (li numa edição bem velhinha de que me desfiz há um tempo); e A Ventura de Amar, de Danielle Steel, e O outro lado da meia-noite, de Sidney Sheldon, que estão na casa dos meus pais. Cada livro escolhido aqui tem uma história sentimental comigo. Alguns são clássicos e outros… nem tanto(?). Dom Casmurro foi o primeiro que eu tirei da pilha. Eu só peguei a edição para dar aquela olhadinha, mas foi irresistível. Sabe como é apertar um cachorrinho? Foi assim para mim. Eu não conseguia parar. Essa foi a minha terceira passagem por Dom Casmurro e eu tenho que dizer que tinha a impressão de que a coisa de Capitu ter ou não traído o Bentinho era mais central para gostar do livro. Mas não. Bom, esse assunto fica para outro texto. Que este seja um ano bom.

Meus melhores filmes de 2017

O Natal passou e aqui no blog voltamos com a nossa programação normal: que é nenhuma. Mentira, a programação é ter texto não importa quando. Hoje eu trago a minha listinha dos melhores filmes que eu vi no ano de 2017: os ganhadores do Baby de Ouro. Talvez eu ainda veja algum filme tão bom que mereça entrar nesta lista, já que o dia de hoje não parece nem um pouco verão e é claro que vai acabar me fazendo ver um filminho. Lembrando que não há nenhuma ordem de preferência.

Depois da Tempestade, de Hirokazu Kore-eda

Foi um dos primeiros filmes bons do ano. Eu gostei tanto que escrevi um texto até meio longo sobre ele aqui.

Christine, de Antonio Campos

Tem filme que empolga ou emociona, mas também tem aquele que perturba. Foi o caso de Christine. A história é sobre o caso real da jornalista que se suicidou com um tiro na cabeça enquanto apresentava ao vivo o jornal da noite. O caso é chocante, mas o filme conta os últimos dias de vida de Christine de um jeito muito simples, interessado apenas em nos fazer sentir a agonia que ela sentia. É bem angustiante. Demorou dias para sair da minha cabeça.

Margaret, de Kenneth Lonergan

Anna Paquin está ótima neste filme. Ela é uma garota jovem e egocêntrica que, sem querer, causa um mal terrível. A história fica centrada no tormento em que ela transforma sua vida e a das pessoas que a rodeiam porque ela decide que só há uma verdade, só um ponto de vista sobre o que aconteceu. Acho que não é um dos filmes mais fáceis de se pegar o espírito: Margaret trata de amadurecimento e de aprender a enxergar os outros.

Manchester à Beira-Mar, de Kenneth Lonergan

Outro filme do mesmo diretor de Margaret na lista dos melhores. Eu escrevi um texto sobre ele aqui, contando mais da história e do que eu senti. Michelle Williams é muito, muito boa atriz.

O Apartamento, de Asghar Farhadi

Filme iraniano e da mesma época do Oscar. O Apartamento é tenso e te deixa na ponta do sofá querendo saber o que vai acontecer até o fim. Mas fora a tensão que rola o tempo todo ele também examina a mulher e o seu papel em um país como o Irã. Vale muito a pena.

Uma Noiva para Rip Van Winkle, de Shunji Iwai

Outro filme que analisa o momento do seu país, mas aqui é o Japão e os seus relacionamentos (ou a falta deles). Uma garota solitária decide conhecer outras pessoas através de um site de relacionamentos e isso é só o começo de uma longa aventura. Filme longo e lindo, repleto de poesia. É bom assistir depois de tomar um balde de café porque o filme dura mil horas.

Vítimas da Tormenta, de Vittorio de Sica

Acho roubo colocar um clássico na lista, mas seria impossível que Vítimas da Tormenta (ou Sciuscià) não entrasse aqui. Um filme do neorrealismo italiano que fala sobre a infância perdida e sobre o drama que o país vivia no pós-guerra. Escrevi sobre o filme aqui.

A Ghost Story, de David Lowery

O melhor filme sobre fantasmas que você vai ver. Uma história de amor, perdas e pertencimentos. Uma fábula da vida e da morte e do ser humano. Difícil falar de um filme tão especial em poucas palavras. Por filmes assim é que eu continuo vendo tanta porcaria: nunca imaginaria pela sinopse e pelo poster que A Ghost Story seria tão profundo.

Desamor, de Andrey Zvyagintsev

Se você quer chorar e sentir que não há esperança na humanidade veja esse filme. Bom, acho que essa não é a melhor propaganda. Desamor é a história de um menino russo que se sente sozinho com a separação dos pais. Ele tem motivos para pensar assim, seus pais realmente não se importam com ele, todo o sentimento deles está centrado no ódio e desamor de um para outro. O menino, Alyosha, some ou foge, e seus pais finalmente vão ter que se unir para encontrá-lo. Como eu disse no início, não espere que assim os pais aprendam uma lição e todos vivam felizes para sempre. Afinal de contas, o filme é russo, não americano. É triste, mas vale muito pela reflexão.

Bom Comportamento, dos irmãos Benny Safdie e Josh Safdie

Um thriller perfeito do começo ao fim. Imagine um filme de ação, com tomadas longas mas ágeis e um protagonista de caráter duvidoso, mas firme no seu propósito. Este é Bom Comportamento. Com poucos diálogos a história é contada de forma direta, sem se perder no lugar-comum e sem mensagens mastigadinhas e pré-fabricadas. Ah, e ainda tem o Robert Pattinson mostrando que ele é sim, um talentosíssimo ator. Vale lembrar que ele também roubou a cena em Z – A cidade perdida.

Minhas melhores leituras de 2017

Se em 2016 eu fiz uma lista de melhores leituras com muita variedade, em 2017 ela vai ser enxuta; e essa é uma decisão consciente. Ano passado eu não consegui me controlar e botei tudo quanto era livro entre os melhores do ano, mas neste ano o esquema vai ser o mesmo das séries: apenas cinco melhores. Em 2016 eu separei por gênero. Não gosto de colocar um policial e um clássico na mesma lista, como se assim eu estivesse comparando-os e o policial estivesse levando a pior. Mas se eu consigo ser concisa na lista de séries e filmes, por que não na de livros? Em 2017 vou embolar tudo. Lembrando que, assim como na categoria de séries do Baby de Ouro, aqui o que vale é o ano em que eu li o livro, não o de seu lançamento.

Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar

memórias de adriano

Eu falei rapidamente sobre o livro aqui, há meses, mas o sentimento segue inalterado: foi de longe a melhor leitura de 2017. Eu não consigo nem imaginar o tamanho da dificuldade em escrever um livro partindo do ponto de vista de um imperador romano, e nem entendo direito como é que a autora conseguiu fazer para manter essa história ao mesmo tempo verossímil e particularmente tocante para uma pessoa nascida no século XX, mas durante a leitura de Memórias de Adriano só o que vinha na minha cabeça era a naturalidade daquela voz que a autora conseguiu criar. Pretendo reler muitas outras vezes, virou um daqueles livros que eu quero que envelheçam comigo.

Vida e Destino, de Vassili Grossman

IMG_20170807_203403_855

O mês de julho de 2017 vai sempre me fazer lembrar de Vida e Destino. Uma daquelas leituras que são uma verdadeira jornada. Ainda esses dias eu reli um dos trechos que eu marquei no livro e fiquei feliz por ter passado por tudo aquilo. De onde eu estou sentada consigo enxergá-lo na estante e a sensação me ocorre de novo. Se quiser saber mais da obra, eu fiz um texto com algumas impressões aqui.

Ressurreição, de Liev Tolstói

IMG_20170408_180552_843

Uma das primeiras publicações do ano no blog no ano tratava de Ressurreição. Confesso que demorou para me cair a ficha de que essa leitura havia me tocado em particular. Mas eu vi o livro surgindo em uma conversa ou outra, ou na minha cabeça quando alguma notícia me fazia lembrar de uma passagem. E assim eu comecei a valorizá-lo mais e mais com o passar dos dias. Quando me lembro da história e das reflexões que ela traz eu sinto um aperto no peito. Ainda fico admirada com o poder que uma boa leitura tem na vida da gente, e um livro como Ressurreição só renova este sentimento.

Indesejadas, de Kristina Ohlsson

indesejadas

O gênero que eu mais li em 2017 foi o romance policial. Até fiz um post falando deste e de outro livro e do meu amor por histórias de detetive e afins. Indesejadas é tenso, e até tem cara de thriller, mas é bem mais lento. Os protagonistas são cativantes e o clima deixa a história acolhedora mesmo com assassinatos e desaparecimentos de crianças. Pra quem gosta do gênero a leitura é irresistível, para quem quer começar é um bom ponto de partida.

Mr. Romance, de Leisa Rayven

mr romance

O único livro da lista sem texto aqui no blog. Falar sobre o amor entre duas pessoas e criar um ambiente adequado para isso parece fácil, mas não é. Parece tão fácil que há toneladas de livros por aí propagando essa ideia, tentando causar aquela sensação única que uma história de amor consegue provocar. Só que quem gosta dessas leituras sabe que vai precisar ler uns dez livros para achar três razoáveis e um ótimo. Mr. Romance é aquele ótimo que só aparece bem de vez em quando. A autora brinca com as possibilidades do romance (o relacionamento amoroso entre duas pessoas, não o gênero literário) e constrói personagens que fazem você querer devorar o livro. Não vejo a hora de ler o próximo da série.

Então é isso. Daqui de casa eu consigo até ouvir o estouro do champanhe dos editores por terem conquistado um prêmio tão valioso quanto o Baby de Ouro. Para a semana que vem preparem seus vestidos porque as premiações de cinema são sempre muito chiques.

Minhas melhores séries de 2017

Chegou o momento dos MEUS MELHORES DO ANO. Ainda não é uma tradição – eu comecei com isso no ano passado – mas o Oscar e o Troféu Imprensa também tiveram que começar de baixo. Ou não? 2017 ainda não acabou, mas eu sei que não vou ver nenhuma série que me empolgue tanto quanto essas cinco que listei aqui. Por que cinco? Não sei. Quase todas as listas do blog acabam em cinco.

Ah, vale lembrar que essas são séries que eu comecei a ver neste ano, mas elas não estrearam necessariamente em 2017. Opa, também vale lembrar que elas não estão organizadas em ordem de preferência ou importância.

Mindhunter

mindhunter

Taí uma que me pegou desprevenida. Eu estava vindo de umas séries policiais bem decepcionantes, quase todas da Netflix. Eu lia por aí que eram muito boas e quando ia ver achava tudo mais do mesmo ou ainda pior. Já no segundo semestre surgiu Mindhunter. Com um padrão acima da média, Mindhunter analisou os serial killers quando eles ainda nem carregavam esse nome, e também contou uma história bem melhor e mais interessante que a do livro que inspirou a produção. Logo depois do fim de semana de estreia eu fiz um texto falando um pouco sobre o que achei.

The Handmaid’s Tale

the handmaids tale

Acho difícil que você não tenha visto ou ouvido falar desta série. Ela ficou famosa por seu teor feminista. Muitas vezes o cinema, a tevê e a publicidade surfam na onda dos ativismos, ganham bastante exposição, mas mal conseguem esconder que têm pouco a dizer ou – pior ainda – que aquilo que defendem é só uma maquiagem muito superficial jogada em cima do mesmo produto bobão e padronizado. The Handmaid’s Tale é o oposto de tudo isso. A série tem o que dizer, não tem medo de ser desconfortável, vai além do discurso comum. É apavorante e ao mesmo tempo tem alto valor de entretenimento. É toda bem feita, da luz às atuações. Eu fiz um texto sobre a série aqui, num dia em que estava bem deslumbrada.

Twin Peaks

twin peaks

Eu sei que disse que não haveria ordem de preferência, mas vou entregar meu xodó. Se eu tivesse que eleger uma melhor série no ano todo seria Twin Peaks, sem dúvida. Twin Peaks é a minha série favorita da vida, mas em 2017 ela voltou com os dois pés no peito. Eu falei um pouco dela aqui, mas gostaria de falar dela para sempre (vou evitar isso, estou tentando ser sucinta). A Twin Peaks de antigamente tem tudo que posso querer numa série: o clima familiar e acolhedor; diálogos engenhosos mas cheios de simpatia; mistérios que dão um nó na cabeça; personagens cativantes e ação no momento certo (quando a gente menos espera). A nova Twin Peaks fez tudo isso e ao mesmo tempo fez seu exato oposto. Por semanas eu esperava ansiosamente pelo novo episódio, para saber quando Cooper voltaria a ser Cooper, para tentar entender só um pouquinho toda a confusão que David Lynch estava fazendo – e que, é bem evidente, na verdade não tem desenlace. Meu otimismo é grande para que David Lynch receba uma boa oferta para uma nova temporada da melhor série que já fizeram. Vou sentir falta de Dougie Jones.

This is us

this is us

Ano passado eu assisti o piloto desta série na minha fase alucinada de pilotos da fall season. Eu gostei mas achei piegas além da conta (olha que eu sou fã de Grey’s Anatomy) e por isso larguei mão. De repente eu via em todo lugar alguém falando de como This is us era linda e emocionante, e então a série foi concorrendo às premiações e, claro, eu não consegui deixar passar. Sou muito influenciável. Dei uma nova chance e o meu amor ao novelão falou mais forte. Se você gosta de chorar à toa vai amar This is us. Deixando todo o drama de lado, a série consegue se manter em pé com ótimas atuações (com exceção da Mandy Moore, por favor) e histórias impactantes que, mais pela forma com que são contadas do que pelo conteúdo, pouco vemos na televisão: o filho negro que precisa se encontrar dentro de uma família branca e a mulher obesa que precisa encontrar seu amor próprio e vencer preconceitos. Eles não são o apoio dos protagonistas, eles são os protagonistas. Essa série é uma boa prova de que bons atores e boas histórias podem existir em qualquer lugar.

Suits

suits

Acho que Suits entra aqui como um guilty pleasure. Quer dizer: eu para falar a verdade só tenho o pleasure e não me sinto guilty de nada. Tenho algum comentário para tecer? Não. Só estou viciada. Um dia de bobeira na Netflix eu pensei “só vou ver um episódio, vou detestar e nunca mais”. Quando dei por mim já estava no terceiro episódio, viciada no Mike, no Harvey e na Rachel. A atriz que faz a Rachel agora está famosa porque vai se casar com o príncipe Harry, mas minha tristeza é saber que ela abandonou a série que está agora na sétima temporada (eu ainda estou no início da quarta). Nunca tive o sonho de ser advogada, mas adoro essas séries fora da realidade com intriguinhas de firma. Adoro ver esse povo ainda no escritório às 10 da noite, de terno, enquanto eu estou toda aquecida no sofá.

(Alguém faz o favor de avisar os estúdios que eles ganharam o Baby de Ouro 2017?)