Z, a cidade perdida

 

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O coronel Percy Fawcett é um daqueles personagens míticos que povoam histórias de aventura. Um explorador ousado e corajoso, com muitos feitos no currículo, sua maior proeza foi ter sido, como ele mesmo dizia, “consagrado com um porte físico perfeito”. A melhor parte de tudo isso é que ele não precisou ser inventado: Fawcett nasceu na Inglaterra e viveu no início do século XX, deixando um bom rastro de informações que o jornalista David Grann perseguiu e registrou em seu livro: Z, a cidade perdida.

O livro foi lançado no Brasil em 2009, onze anos depois de, por exemplo, Na natureza selvagem de Jon Krakauer. Os dois livros-reportagem falam de pessoas que atravessam a natureza em uma busca maníaca por algo impalpável, mas diferente do livro de Krakauer, que fez um sucesso tremendo, de Z, a cidade perdida se falou muito pouco. Com uma capa linda e com uma história hipnotizante é difícil entender por que isso aconteceu. Admito que o livro ficou parado aqui em casa por anos, e se não fosse minha meta de leitura eu não teria chegado a ele tão cedo. Mas é para isso que metas de leituras existem, não? Para fazer a fila que está parada há anos finalmente andar e a gente se surpreender com livros ótimos.

A cidade perdida de Z foi nomeada assim por Percy Fawcett depois de algumas aventuras pela Amazônia. Ele acreditava estar nos rastros de uma civilização desaparecida na selva, e a essa busca dedicou sua vida. O que Fawcett quer encontrar em Z se assemelha a um Eldorado, um lugar cheio de riquezas e oportunidades na América do Sul, o oposto da Inglaterra do começo do século XX. Pensando assim não parece tão disparatada  a ideia de  um explorador querer ser o primeiro a encontrar uma cidade perdida, se embrenhando em lugares perigosos e inóspitos, porque a recompensa seria muito grande, e a vida andava difícil.

Em Z David Grann não deixa de contar um lado menos romântico de uma vida de aventuras. Com uma família para sustentar, Percy Fawcett estava sempre na miséria. A pobreza dos Fawcett era desesperadora e começou por causa das expedições. Ao mesmo tempo, a esperança de uma grande descoberta era também a esperança de tirar a família da miséria. Então surgiu Z.

Um dos nomes mais conhecidos em sua época, Fawcett se tornou famoso por ser o explorador que conseguia superar as grandes adversidades das florestas da América do Sul, onde os maiores inimigos dos humanos não eram predadores famintos mas insetos transmissores de graves doenças. A fama surgiu quando muitas expedições não voltavam ou quando seus integrantes retornavam doentes e à beira da morte. No meio deles, Fawcett parecia ter o corpo fechado. Ninguém melhor que ele para encarar os maiores desafios. Pesquisando referências antigas, Fawcett achou as anotações de um bandeirante que encontrara artefatos valiosos e complexos no meio da Amazônia. Assim foi lançada a semente da obsessão de Fawcett. Em 1925, aos 58 anos, com seu filho Jack e o amigo dele, Raleigh Rimmell, o explorador inglês pegou um navio em direção ao Brasil.

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É nessa hora que David Grann conta a história de uma outra obsessão: a do público pelo paradeiro de Fawcett. Afinal, o homem se perdeu enquanto procurava a cidade perdida. Grann retraça diversas teorias e ouve várias fontes a respeito do suposto destino final de Fawcett. Mas os muitos anos não trouxeram respostas concretas. Em 1926 Fawcett foi visto oficialmente pela última vez, já embrenhado na floresta, e o resto virou lenda. Z, a cidade perdida trata também dessa lenda. Até para que Fawcett pudesse arrecadar dinheiro para a expedição, já antes da partida houve furor exacerbado: era uma época em que o “exotismo” das Américas fascinava a imaginação europeia. Quando os três exploradores sumiram na floresta onde muitas tribos sequer tinham contato com o homem branco, especulou-se de tudo: o inglês havia encontrado a cidade perdida e decidira não sair de lá, os índios haviam-no matado, ele havia se apaixonado por uma  índia e construído família brasileira, ele morreu de fome ou de picada de mosquitos.

Um mérito de Grann é jogar um pouco de realismo sobre mais de oitenta anos de incertezas. Fawcett, nas inúmeras viagens que fez pela América do Sul, fez contato com várias tribos indígenas. Para começar qualquer contato, o inglês chegava desarmado e com as mãos para cima. Fawcett acreditava que essa abordagem – suicida para alguns, como relata Grann – era a melhor forma de conseguir a amizade dos índios. Assim ele se virou por anos. A hipótese tratada com mais ênfase em Z, a cidade perdida é a de que, numa terra com leis que Fawcett compreendia de forma rudimentar, uma hora a sorte dele acabou.

A obsessão de Fawcett por Z e a obsessão das pessoas por Fawcett é compreensível. Diante da falta de resposta, somos capazes de imaginar e supor as situações mais fantasiosas. Teóricos da conspiração e caçadores de OVNIS são prova disso. Por que seria diferente com uma cidade perdida? Como não sonhar com uma Machu Picchu no meio da Floresta Amazônica, com tesouros e estruturas que mostram que uma sociedade altamente desenvolvida viveu ali muito antes de os europeus desembarcarem? Mas o grande mérito de David Grann é levar Z a sério. Fawcett pode nunca ter achado seu Eldorado porque se convenceu de que uma sociedade complexa, ali no meio do mato, só poderia surgir de ancestrais europeus e se desenvolver de formas parecidas com aquelas que ele havia estudado e sob as quais havia crescido.

A reviravolta fascinante que Grann oferece em Z, ouvindo especialistas e consultando a literatura científica que trata das sociedades amazônicas, mostra que os índios que ali viveram antes da chegada dos europeus formaram, de fato, uma sociedade desenvolvida e complexa, com pequenas pontes e estradas, diferente do que boa parte das ciências humanas imaginou durante o século XX. Z estava lá, mas Fawcett não conseguiria encontrá-la. Povos amazônicos construíram grandes estruturas no meio da mata, mas o que havia de grandioso nelas era a forma como ajudavam o ser humano a sobreviver num ambiente hostil como o da floresta. Seus materiais não eram o ouro e a prata, que Fawcett esperava encontrar, mas palha, barro e matéria orgânica. O tempo e a mortandade ocasionada pela chegada do europeu levaram quase tudo.

Z existiu, talvez não com a opulência que Fawcett desejava, mas os rastros ainda estão na Amazônia para provar que uma civilização existiu e quase foi extinta, mas ainda sobrevive em um pequeno número de descendentes. David Grnan esteve entre eles quando visitou o Brasil para escrever seu livro. “Havia mil anos que os xinguanos mantinham as tradições artísticas e culturais daquela civilização avançada e altamente estruturada”, ele afirma em uma das passagens finais de Z.

Um filme baseado no livro-reportagem, com produção de Brad Pitt, está para ser lançado e eu torço para que, na esteira do sucesso dele, mais pessoas encontrem esse livro excelente. Mais do que a história de um explorador inglês obcecado por uma cidade perdida, o livro trata de um povo que demorou muito tempo a ser descoberto em seus próprios termos.

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