5 Filmes sobre o amor e o tempo

Quem não gosta de viagem no tempo? Eu sei que não deveria abrir o texto com uma pergunta que pode suscitar uma resposta negativa, tipo “eu não gosto, sua chata”, mas a quantidade de filmes a respeito de viagens no tempo ou confusões entre passado, presente e futuro já dá um boa medida do tamanho do interesse que todo mundo tem por isso. Eu adoro e sempre me pego pensando nos e se. E se nós tivéssemos oportunidade de ir para a frente ou voltar atrás? Assim ou assado? E se a minha escolha naquela época fosse outra? E se eu não tivesse conhecido tal pessoa? Na ficção científica e nos filmes de passado alternativo, o tema é explorado até que se encontre um futuro aterrador ou uma oportunidade que ficou perdida na passagem das épocas.

Acho que já existem muitas listas com filmes de viagem no tempo falando sobre a humanidade, seu fim e seus propósitos. Por isso resolvi fazer minha listinha pessoal de filmes que usam o tempo para brincar com o amor e/ou vice-versa. Foi uma surpresa perceber que muita coisa se encaixaria na categoria. Alguns estavam na memória afetiva, bem guardadinhos há um bom tempo. Resolvi revê-los pensando no post… e novidade: na vida real, muitas vezes o passado deve ficar no passado, assim como Vanilla Sky e Meia-noite em Paris, que agora me pareceram bem bobos. Outros são apenas ruins, como acontece com A Casa do Lago. Os que sobreviveram ao tempo entraram na lista.

Boku wa Ashita, Kinou no Kimi to Date Suru

Dois apaixonados que precisam lutar tanto contra o passado quanto contra o futuro. Recomendado para quem gostar de chorar. O casal se conhece no trem. Em pouco tempo eles estão namorando. As cenas são fofas e tudo parece avançar normalmente, mas logo descobrimos que o tempo presente de um não é o mesmo do outro. Eles vivem em mundos diferentes, e é como se uma fenda no tempo tivesse feito com que um encontrasse o outro. Agora o que é futuro para um, é passado para o outro e por isso o presente dos dois jamais se alinha. A princípio pode parecer confuso, mas a história é contada de um jeito simples e logo nós entendemos o drama. Adorei, torci e chorei.

Questão de Tempo ou About Time

Foi o primeiro filme que me veio à cabeça quando pensei nesta lista. Acho que se você gosta desse tipo de produção deve ter visto essa daqui, ou no mínimo deve conhecer a atriz. Rachel McAdams é a escolha número 1 dos romances com viagem no tempo (ela está em Meia-noite em Paris e em Te amarei para sempre), e acho que ela tem a cara da comédia romântica. A história aqui não é dela, mas ela fez toda a diferença.

Tim é um cara que descobre, em seu aniversário de 21 anos, que pode voltar para qualquer momento da sua vida. Se eu pudesse fazer isso, minha vida ia virar uma bagunça: eu iria querer voltar a toda hora para desfazer todas as porcarias que eu fiz. E acho que aconteceria o mesmo com todo mundo. É o que acontece com o Tim. Ele experimenta arrumar situações bobas e percebe que, se em um primeiro momento isso pode até dar certo, depois a vida vira uma confusão. Daí ele precisa frear a vontade de arrumar a sua vida e a daqueles que ama. Mary (Rachel McAdams) é a mulher por quem Tim se apaixona. O filme resolve o romance já em sua primeira metade, Mary nem é o foco principal, mas mesmo assim ela consegue emprestar graça para cenas que poderiam ser apenas repetitivas. A trilha sonora também é ótima.

Feitiço do Tempo ou Groundhog Day

Este é muito conhecido. Bill Murray é Phil, um cara chato e sem paciência para qualquer pessoa. Ele é um repórter do tempo arrogante que precisa viajar para uma cidadezinha e noticiar o Dia da Marmota, que é quando todo mundo para o que está fazendo para ver a marmotinha que prevê todo ano se vai haver nevasca ou não. Phil lembra muito Scrooge, da história de Dickens, um homem com temperamento difícil, e o filme tem também semelhança com aquela história. Ele fica preso no mesmo dia, o Dia da Marmota. No início ele aproveita os benefícios, mas depois, com o dia ainda se repetindo, ele percebe que está vivendo um pesadelo e é obrigado a tentar ser uma pessoa melhor. Bill Murray e Andie MacDowell formam um par inusitadamente fofo.

De Volta para o Presente ou Blast from the Past

Revendo este filme tive uma boa surpresa: nem todos os filmes despretensiosos envelhecem mal. De volta para o presente é uma opção típica de Sessão da Tarde, mas nem por isso é uma comédia romântica mais fraca. Adam (Brendan Fraser) é um homem de 35 anos que passou toda a vida com os pais num abrigo anti-bombas, pensando que o mundo havia acabado. Em 1995 ele finalmente põe a cara ao sol e, claro, vai precisar se adaptar. Quem vai ajudá-lo é Alicia Silverstone, a queridinha do mundo inteiro nos anos 90. Claro que vai rolar uma paixão. O filme brinca com as situações de um rapaz que parou no tempo no começo dos anos 1960 e tem a presença ilustre de Christopher Walken.

Kimi no na wa.

Já falei sobre o filme aqui. E agora o cito de novo para representar vários outros. É difícil escolher um anime que fale sobre amor e tempo, eu poderia citar uma dezena, mas estou guardando para outra lista. Brincadeiras com a linha do tempo são temas muito comuns dos animes românticos. Este daqui pode ser uma excelente introdução. Em Kimi no na wa ele sonha que está no corpo dela, ela sonha que está no corpo dele. Eles vivem longe, eles se amam, talvez eles nunca consigam ficar juntos. Um amor impossível. Não assistiu ainda por quê? – (só para terminar com outra pergunta que pode suscitar resposta mal humorada, tipo: “porque eu tenho mais o que fazer, sua chata”).

Então, esses são os cinco filmes. Mas aqui vão mais dois de lambuja: Camille Redouble, um filme francês (tipo um De repente 30 ao contrário), sobre uma mulher que acorda na adolescência e revive tudo com mais gosto ainda. Também tem Peggy Sue Got Married, também sobre uma mulher que acorda na adolescência e resolve fazer tudo diferente. A lista poderia continuar por um bom tempo.

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Seis detalhes sem importância de Game of Thrones

carinho no dragão

Maratonei Game of Thrones. Fui do começo ao fim num tempo tão curto que até me envergonha dizer. Tinha visto o piloto na época em que ele saiu, mas nada ali me indicava que a série era para mim. Agora, no começo de junho, me veio à cabeça que seria uma boa hora para começar de novo. O resultado é que me apeguei a uns seis personagens (é que tem muita gente carismática) e não conseguia assistir a outra coisa (é que tem muita cena de ação bem coreografada, tensa, que absorve a gente). Por causa da popularidade tão grande de GoT, até quem não acompanha acaba sabendo de tudo o que acontece porque quando começa ou termina uma temporada a internet enlouquece. Por sorte, quem é Alzheimer vive em dobro – como dizia a comunidade do Orkut – e para mim tudo era novidade.

O que não é novidade é que a série tem fanáticos que já esmiuçaram cada detalhe, leram os livros mais de uma vez, bolaram teorias (tanto as absurdas quanto aquelas que fazem muito sentido) e decuparam cada episódio em busca de um significado oculto. Acho que eu não sou esse tipo de fã. Às vezes eu deixava todo o resto para prestar atenção em uma besteirinha. Uma expressão engraçada na cara de um ator, um detalhe com pouco significado, uma intriga que ficou sem explicação. Não é que eu não entrasse na história, mas é que tem tanta coisa em que reparar que tem hora em que acontece de a gente não se concentrar bem no que é o ponto principal. Será que eu consegui me explicar? Fiz uma lista com seis momentos sem importância que me desviaram do caminho. Que comece o aquecimento para a sétima temporada.

JORAH MORMONT TOTALMENTE “TRIGGERED”

jorah mormont friendzone

Ele é a enciclopédia ambulante da khaleesi. Sabe tudo sobre toda cidade que ela precisa conquistar. Cultura, arquitetura, população, hábitos alimentares, organização política: é só pedir que Jorah Mormont esmiúça aquelas partes exóticas do mundo de GoT para a khaleesi ter uma pequena noção do buraco em que está se metendo. Como nada é fácil, acontece de Mormont ser perdidamente apaixonado por ela. O cavaleiro quase tem um tremelique toda vez que precisa olhar Daenerys nos olhos, num amor que é verdadeira devoção. Muito bonito. Só que tem duas coisas: primeiro que o sentimento não é recíproco – a Mãe dos Dragões só pensa no trono que quer conquistar e, quando tem tempo para escapar um pouquinho, parece ter outro tipo de homem em mente; segundo: agora Mormont está apaixonado e daria a vida por ela, mas ele já foi um traidor, um informante daqueles que queriam vê-la morta. É claro que ela vai descobrir. Vai escorraçar o homem e dizer que ele tem sorte de não ser executado.

E aí, será que ele lida bem com a separação? De jeito nenhum. A gente vai ficar sabendo do nível de sofrência quando, depois, Tyrion Lannister e Varys vão parar num bordel em Volantis. Lá uma prostituta está vestida de khaleesi para agradar os homens que “gostariam de foder uma rainha”. É um verdadeiro cosplay. A cópia não é tão graciosa quanto a original, mas está tudo lá: o cabelo platinado, o babyliss, a vestimenta azul. Num canto do bordel, meio louco, bêbado e decadente, totalmente perturbado pela visão da falsa Quebradora de Correntes sentada no colo de um qualquer, está Jorah Mormont. Só faltou aquela tarja de TRIGGERED. A cena deve durar dois segundos, mas eu fiquei rindo pelo resto do episódio. Para completar, ele sequestra o anão para dar de presente à amada.

MAMILOS

nipple game of thrones

A vida da khaleesi tem dessas. A certa altura ela precisa de um exército, mas o pessoal do ramo de venda de exércitos não parece muito legal. O sujeito que a apresenta aos Imaculados (aqueles soldados castrados na infância, máquinas de matar) é intragável. A gente sabe que ele vai morrer desde a primeira fala que ele dá, a gente sabe que ele vai morrer já por causa da escolha de elenco. Mas ele quer mostrar que os Imaculados não dão um pio diante da dor. O que ele faz? Ele chama um soldado e, sem cerimônia, corta-lhe o mamilo. Corta mesmo, como se estivesse passando a faca na casca de uma fruta. Eu preciso confessar que, fosse o que fosse a história, dali em diante nada mais conseguiu a minha atenção. O senhor cortou o mamilo do soldado, arrancou fora, só para provar que os Imaculados não estão nem aí para a dor. Mas é um mamilo, sabe? É claro que a pessoa que perde o mamilo vai ficar com ardência. Essa cena me deu arrepio. Quando eu lembro é como se alguém passasse as unhas num quadro negro. Ai.

AQUELE SENHOR DESCALÇO

high sparrow

Cersei não é boa estrategista. Ela está sempre maquinando. Na verdade todo mundo está sempre maquinando, mas ela não faz um movimento sequer que não seja voltado a um plano elaborado. Só que vocês podem reparar: ela só dá passo em falso. Quando ela encrenca com os Tyrell, porque Margaery finalmente conseguiu casar com o rei e virar rainha, a solução encontrada não é exatamente parcimoniosa. O que ela faz é dar poder a um grupo de fanáticos religiosos para que eles possam enquadrar os Tyrell. Só que, claro, os fanáticos saem do controle e tudo dá erradíssimo.

Enquanto isso acontecia, todas as minhas energias estavam voltadas para a roupa do líder da seita religiosa, o tal do Alto Pardal. Os monges dele não eram nada que a gente não tenha visto na vida real: apenas uma mistura de monge budista com franciscano com uma corrente amarrada no peito e um símbolo na testa. Mas o traje do Alto Pardal, um verdadeiro saco de batatas imundo e sem corte, me irritou profundamente. Eu entendo que a ideia era fazer um contraste entre ele e os pecadores bem arrumados de Porto Real. Tudo bem. Mas o velho não só era profundamente irritante, todo arrogante e com pose de sábio, como sempre aparecia despenteado, com a cara suja e descalço. Descalço. Eu parei para imaginar o chão de Porto Real. A quantidade de matéria fecal, xixi, resto de comida e sangue que deve ter por lá. Fora que a estrutura da cidade não é grandes coisas. Ruas de pedra não só acumulam mais sujeira como também quebram. Aquele velho andava com os pés descalços e sentia as pedrinhas e grãos de areia nos vãos dos dedos. E o pior: não usar sapatos não era um pré-requisito para entrar na seita porque os monges todos usavam uma botinha aparentemente feita de couro.

O gostoso é que a Cersei deu um bom jeito nele.

LÁ VAI A KHALEESI INDO EMBORA NO DRAGÃO

drogon

O diferencial de Daenerys no pleito pelo Trono de Ferro são os dragões. A série repete isso a todo momento. Faz sentido. Eles não só são uma arma poderosíssima, como também, só na presença, conseguem impressionar os inimigos e incentivar os aliados. Durante o torneio dos escravos, aquele em que Jorah Mormont virou uma espécie de Russel Crowe em Gladiador, os inimigos da khaleesi começaram a matar todo mundo e ela se viu cercada, com poucos homens e pouquíssima esperança. Foi aí que Drogon, que é o dragão principal, apareceu. Ele fez uma demonstração de força, matou um pessoal, deixou Tyrion Lannister de boca aberta e, por fim, pousou no meio da arena. Nisso Daenerys montou nele e saiu voando.

Os companheiros de batalha podem ter ficado um pouco desapontados com a rainha abandonando a luta assim sem cerimônia, mas eu achei tudo muito razoável. Pensei: agora o dragão vai parar no topo da pirâmide, que é a residência oficial, ela vai desembarcar em segurança e o problema foi resolvido. Que nada! Sem controle do dragão, nem Daenerys soube onde foi parar. Ele voou embora e a deixou sozinha no meio do nada. Tiveram que montar uma equipe de resgate para encontrar a rainha. Eu achei engraçadíssimo, ainda mais porque toda a cena da chegada do dragão foi apoteótica. Um daqueles momentos em que um fiapo de esperança vira uma glória gigantesca. Tudo isso para ela ficar perdida no meio de uma terra estranha, cercada de dothrakis que estão apostando para ver quem vai estuprá-la primeiro.

Mas ela é a Não Queimada, a Noiva do Fogo. No final não há quem lhe encoste um dedo.

E VOCÊ. QUEM É VOCÊ MESMO?

cersei qyburn

Eu tenho certeza de que isso deve ser muito bem explicado nos livros, mas para quem só viu a série ficou esquisito. Qyburn é aquele homem que faz experimentos com Gregor “A Montanha” Clegane. Ele aparece primeiro quando Jaime Lannister perde a mão. Dali em diante, numa ascensão impressionante explicada por ninguém, ele vai virar conselheiro de Cersei. Não tem graça nenhuma, eu sei, mas é aquele tipo de coisa que acontece quando o roteirista precisa enxugar personagens. Aqui em casa a gente sempre se lembra de um filme com a Nicole Kidman e o Daniel Craig, Invasores, que é meio que uma releitura de Invasion of the Body Snatchers. Lá, um médico que tinha uma salinha e um cargo desimportante num hospital sem destaque acaba indo parar no centro dos acontecimentos, só porque no roteiro não cabe outro médico. Ele está num helicóptero, ele descobre a cura, ele ajuda os protagonistas: tudo a serviço de uma história enxuta. A função de Qyburn em Game of Thrones é essa, e por isso ele sempre acabava roubando a minha atenção. Eu precisava me lembrar de quem ele era, e começava a pensar que estava perdendo alguma coisa, que alguém tinha explicado e eu tinha perdido. Como esse homem foi parar aí? Nesse mundo de tanta intriga não teve ninguém para barrar uma ascensão tão grande, nem para explicar porque ele é importante?

O fato é que agora o “Time Cersei” está bem peculiar. Tem ela, um cavaleiro sem mão, um cavaleiro zumbi e um médico louco.

MINDINHO FALANDO NO OUVIDINHO

sansa e littlefinger

“Só um tolo confiaria no Mindinho”, diz Sansa Stark no fim da sexta temporada. A função dele na vida é ser um fofoqueiro, intriguento, leva-e-traz, duas caras e fraco de caráter. Não demora nada para a série querer que a gente entenda isso, e uma das primeiras cenas dele é impagável. Ned Stark acabou de chegar a Porto Real com as duas filhas. O rei manda fazer um torneio. Um dos participantes é Gregor “A Montanha” Clegane. O episódio quer nos contar três coisas ao mesmo tempo: 1) Montanha é muito malvado; 2) Mindinho é muito fofoqueiro; 3) a origem da queimadura do Cão de Caça. Qual é a cena? Na arquibancada, Sansa, que àquela altura é toda empolgada com cavaleiros e cortesias e romances e casórios, sentou-se ao lado de Mindinho. O que ele faz? Ele conta a história da vez em que Gregor Clegane, ainda criança, colocou a cara do irmão no fogo só por causa de um brinquedo. Mas ele conta tudo no ouvidinho dela, aos sussurros. Quem já esteve em um lugar barulhento sabe que não se entende nada de um sussurro. Quem vai sussurrar tem que falar frases curtas, tipo “Vamos embora?” ou “Onde é o banheiro?”, mas o Mindinho conta a história inteira, uma frase atrás da outra, sussurrando alto, com cara de safado, para uma Sansa impressionada, em meio a uma arquibancada lotada. Não adiantou nada ele sussurrar, até porque ele falou alto. Todo mundo ouviu. Mania de falar perto da cara dos outros!

Para quem vai passar o feriado na Netflix

Serão três feriados em um intervalo bem curto. Não é uma maravilha? Para mim, feriado no outono e no inverno é sinônimo de filme, série e uma mantinha no sofá. Quando faz calor eu só dispenso a mantinha, mas tudo bem. Empolgada para os próximos dias, resolvi fazer uma lista de coisas para assistir na Netflix porque a Netflix é um recanto muito confortável da internet. É para quem tem preguiça de baixar torrent e para quem nem lembra se ainda existe uma locadora aberta na cidade inteira. Então aqui vão as minhas dicas: Stranger Things, Os 13 porquês e as séries da Marvel. Que tal? Aposto que você nunca havia ouvido falar de nada disso. Boa diversão e depois venha me agradecer. MENTIRA: para fugir das coisas que geram mais burburinho, o que eu fiz foi tentar organizar uma lista (bem pequenininha) para ajudar alguém (alguém hipotético e com interesse em trocar figurinhas) a se organizar dentro da Netflix.

Filmes que você pode ter deixado passar

frank

Frank

Aqueles que são meio largadinhos, mas muito bons. Às vezes a gente os deixa passar porque perde o período no cinema (acontece também de um filme jamais estrear perto de casa). É difícil acompanhar tudo que sai, daí um dia, quando a gente já até esqueceu e tá rodando a Netflix para ver o que é que tem, BUM!, lá está o filme. Um assim é Frank, de 2014, com o Michael Fassbender e Maggie Gyllenhaal. A história é sobre um cara (Domhnall Gleeson, de Questão de tempo) que entra numa banda indie, a The Soronprfbs, pensando que aquela é a oportunidade de sua vida. O vocalista é Frank (Michael Fassbender), que usa uma máscara o tempo todo. Ele canta, come, toma banho e dorme com a máscara. Não é pose, é doença: ninguém nunca viu o rosto dele. Frank é quieto e estranho, e me fez pensar no cantor e compositor Daniel Johnston, um artista especial mas de difícil enquadramento. Por causa da excentricidade de Frank a banda faz certo sucesso, mas depois de um tempo tudo começa a degringolar. O fim é delicado de um jeito bizarro e, diferentemente de muitos outros filmes indies, não acontece de o mundo todo se entortar para se enquadrar à visão de mundo do protagonista. É uma boa lição. Também na Netflix está Amantes Eternos, ou Only Lovers Left Alive. Tom Hiddleston e Tilda Swinton formam um casal de vampiros bem dark. A prioridade que eles dão à autenticidade, o espaço que a arte ocupa na vida dos dois, e a maneira como eles vivem apaixonadamente fazem deste um filme meio que tematicamente ligado a Frank. Num caso há um artista indie atormentado e no outro dois vampiros românticos, os únicos amantes que restaram.

Especiais de stand-up cínicos e autodepreciativos

louis ck

Louis C. K.

Eu sei, eu sei, eu sei: o Brasil pegou trauma de comédia stand-up desde o auge do finado CQC. Teve gente reclamando de cerceamento à liberdade de expressão, quando tudo o que rolou foi um pessoal reclamando que a piada não tinha graça e que o comediante era burro. Mas o stand-up foi um produto importado à força por aqui. Nos Estados Unidos a tradição é longa e os melhores comediantes são os que não se agarram àquilo que é consenso. Para a nossa alegria, há alguns deles na Netflix. Louis C. K. é o primeiro nome que me vem à cabeça. Adoro assisti-lo e pensar “é, isso aí mesmo” ou “putz, é verdade, putz, eu também” ou “caramba, cara, você é maluco” enquanto rio sem parar. Ele sempre começa a falar de algum assunto delicado como se ele fosse a pessoa mais rude e desrespeitosa que existe, então de repente ele dá uma volta e você entende que o assunto é só o pano de fundo para ele criticar pessoas mesquinhas, detestáveis e por aí vai. Eu sempre rio. Acho que o catálogo da Netflix tem três ou quatro especiais dele, incluindo um que saiu em 2017. Bill Burr também tem um humor parecido com o de Louis C. K., mas acho que ele consegue ser mais radical e ter mais cara de maluco. A Netflix tem dois dos dele. Por último, gostei muito do show da Chelsea Peretti, que eu só descobri na Netflix recentemente. Ri muito em um dia que eu estava bem gripada e sem forças para fazer o que fosse. Além da cara de maluca e da voz esganiçada, ela tem uma visão particular sobre relacionamentos e tem um jeito neurótico de ver as regrinhas de educação e convivência.

Comédias bizarras para quem quer maratonar

chewing gum

Chewing Gum

Ainda pensando em comédia, mas com um humor mais leve: duas séries curtinhas perfeitas para o feriado. Chewing Gum é uma série inglesa escrita e protagonizada por Michaela Coel. São duas temporadas com seis episódios cada e duração de uns 20 minutos. Eu pretendia assistir a um episódio, mas tudo era tão bizarro que quando notei já tinha acabado com a série. Tracey é a protagonista. Ela vive com a mãe e a irmã, duas fanáticas religiosas. Tracey é virgem e decidiu que já passou da hora de isso mudar. As situações são hilárias e todo o elenco é carismático, não tem como não rir. Uma outra série com uma protagonista descarada é Haters Back Off. Protagonizada e escrita por Colleen Ballinger, a série bebe na fonte de Napoleon Dynamite: gente louca e sem  noção do ridículo, situações embaraçosas, essas coisas que a gente adora. Miranda Sings acha que é a pessoa mais perfeita que já existiu no mundo. Sua aparência, sua voz, sua família, tudo está ali para mostrar que ela é o oposto do que pensa ser. Quanto mais ela pensava que estava sendo plena, mais era desprezível. Tudo é muito absurdo, o elenco todo é excelente.

Séries fofas sem compromisso com a realidade

dramaworld

Dramaworld

Se você não gosta de comédias escrachadas, também há duas séries muito fofas e com um pé (ou os dois) no surreal. Dramaworld é uma minissérie norte-americana e sul-coreana. A protagonista vive em Los Angeles e é obcecada por novelas coreanas. Um dia ela entra no mundo da sua novela preferida e aí está a história: ela vai viver todas as aventuras junto com os protagonistas coreanos. Achei bem fofinha e é legal para quem quer entrar no mundo do K-drama. Ainda pensando em novela: Jane the virgin. Se você gosta de muito drama e cenas incoerentes (e já viu Rubi, Maria do Bairro, Marimar) vai amar Jane the Virgin. Eu falei da primeira temporada bem no início do blog, e posso dizer que a série da CW já está na terceira temporada e continua firme e divertida.

Clássicos para quem não pretende cochilar

o rei da comédia

O rei da comédia

É considerado ofensivo cochilar durante um clássico? Não, né? A Netflix é um convite ao soninho, mas a autoestima dá uma travada se a gente se dispõe a ver um filme que todo mundo considera obrigatório e dorme. Por isso, se você não quer ver nada muito leve e tem dormido oito horas por dia, eu posso te indicar dois filmes que são clássicos do cinema, mas que andam meio esquecidinhos, sem conquistar novos corações. Amadeus, que foi um dos melhores filmes que eu vi em 2016, é longo, lento e primoroso. Fiquei feliz de encontrá-lo no catálogo da Netflix. O outro é o meu preferido do Martin Scorsese: O rei da comédia. Estrelado por Robert De Niro, o filme é divertido e angustiante, com passo de thriller. Quer dizer: se você dormir, vai ficar chato. Robert De Niro é um fã louco de um grande comediante interpretado por Jerry Lewis, e será capaz de tudo para se aproximar de seu ídolo. Eu tenho a impressão de que O rei da comédia não é tão badalado quanto outros sucessos da dupla Scorsese e De Niro, o que me deixa um pouco indignada e confusa.

5 filmes estimados na medida exata em que merecem ser estimados (na minha opinião, é claro)

Listas de superestimados e subestimados são superestimadas. A moda agora é namorar pelado. Mentira: a moda agora é listar cinco filmes estimados na medida exata, certinha, em que eles merecem ser estimados. Já me aconteceu de começar a ver um filme e pensar que o mundo inteiro estava sendo injusto com ele, ou que era não é possível que o mundo inteiro tenha visto aquela joia e deixado para lá. Uma hora e meia depois, a revelação: ah, sim, pois é, esse aqui foi ruim mesmo, não me espanta que ninguém dê bola. Também tem o contrário, que é quando eu chego no sofá com aquela birra contra tudo, contra o diretor, contra o mundo, mas aos poucos tenho que dar o braço a torcer porque aquele ali é bom mesmo e merece todos os elogios que já ganhou.

Num dia desses eu estava no litoral, totalmente relaxada curtindo o calor num sofá cujo forro gruda nas costas, e o meu muito digno marido colocou para tocar um álbum da banda Silverchair, aquela. Nos primeiros 6 ou 8 minutos, transportada para o começo dos anos 2000, eu fiquei pensando em como todo o mundo havia injustamente deixado o Silverchair para trás. Dali a pouco, talvez também pelo calor, com a voz sorumbática de Daniel Johns no ouvido, eu me dei conta de que não faz mal que o mundo tenha guardado essa banda num potinho de semi-esquecimento. Nessa hora eu pensei: tem coisa que não é nem subestimada nem superestimada, tem coisa que é estimada na exata medida em que merece ser estimada.

1) QUALQUER FILME DE YASUJIRO OZU SERÁ BOM

bom dia ozu

Eu confesso que resisti. Não é todo dia que eu acordo querendo encarar um filme preto e branco de 1949, por exemplo. Por sorte, ao contrário do que se fazia, na minha época de ensino médio, com a literatura brasileira, ninguém me obrigou a sentar e prestar atenção nos filmes de Yasujiro Ozu. Eu comecei naturalmente e no meu ritmo. E eu comecei bem. O primeiro que vi foi Bom Dia. Tive que dar o braço a torcer. É japonês, é velho, eu não consigo aferir se a legenda está batendo com o que os atores falam, mas não tem nem como começar a dizer que Ozu não é tudo aquilo que dizem que é.

2) THE NEON DEMON É RUIM MESMO

the neon demon

Gostei de Drive, que foi o filme que deixou Nicolas Winding Refn na crista da onda. Defendi Only God Forgives, quando o caldo começou a entornar, porque acho que peguei o espírito da coisa. Quando eu soube que The Neon Demon havia sido bem vaiado em Cannes, já fiquei com a história pronta na minha cabeça: esse também deve ser bom, mas agora o pessoal já pegou implicância. Fui ver sem medo de ser feliz e deu tudo errado. O filme traz uma crítica muito ralinha ao culto à beleza e às celebridades, tão ralinha que às vezes esbarra na bobeira. Tem tomadas lindas, como todo mundo disse. Isso é verdade. Só que a história tem uma solução que só pode ter sido feita no piloto automático, e aí eu fiquei com a sensação de que o filme não tinha nem o direito de querer ser visualmente bonito. Peguei implicância. O tomatômetro no Rotten Tomatoes é de 57%. E é mais ou menos isso que The Neon Demon merece.

3) EU TAMBÉM ACHO QUE BIRDMAN É ESQUECÍVEL

birdman

Eu não tenho como provar esse consenso com números. É só uma sensação de consenso. Será que eu me fiz entender? Eu me lembro de ter achado Birdman razoável na época do lançamento. Acho até que eu nem tinha um favorito no Oscar daquele ano. Boyhood, talvez? Eu acho também que foi o Marcelo Hessel, do Omelete, quem disse que havia uma falsa profundidade na crítica de Birdman aos filmes de super-heróis. Foi o que eu pensei em 2014. De lá para cá, li uma meia dúzia de textos que diziam que os filmes premiados nos últimos anos são esquecíveis. Não dá para discordar disso. Spotlight tem o Oscar de melhor filme de 2015. Ninguém quer saber. Não acho que Birdman ou Spotlight vão ganhar culto nas próximas décadas. O filme de Iñárritu fica aqui como um símbolo desses muitos que geram bafafá e prêmios, mas que acabam morando num fundo de prateleira da Saraiva por toda a eternidade (com cada vez menos seeders no torrent, melancolia pura).

4) O ROBOCOP DO JOSÉ PADILHA NÃO SERVE PRA NADA.

robocop

Mas é bom? Não. No Rotten Tomatoes tem 48%; no Metacritic, 52 de 100; no Filmow, 3,3 de 5. O público não foi à loucura, mas não tem problema. Às vezes parece que é só uma produção fazer 50 dólares de lucro que o estúdio já se dá por satisfeito, mas não é esse o assunto. Às vezes um diretor pega uma tarefa muito ingrata. Eu fico pensando que o J. J. Abrams foi um milagreiro quando fez aquele Star Wars de 2015. Tinha muita coisa em jogo e ele conseguiu levar o barco do ponto A ao ponto B sem quebrar tudo no meio do caminho. Quanto ao José Padilha, o projeto que caiu na mão dele já estava condenado de antemão. Robocop não precisava de um remake, ninguém clamava por um. E talvez a pior qualidade de um remake seja a apatia. Esse Robocop de 2014 foi assim: não queria muita coisa e não se dispôs a ser um filme bizarro como é o de 1987. Desagradou. Eu pensei que não era possível. Olha o Tropa de Elite: Padilha fez um blockbuster de ação americano em português, todo transcrito numa linguagem que o grande público brasileiro entende e reconhece. Eu juro que, quando ele foi anunciado num blockbuster gringo, eu esperava uma obra-prima. Mas não: jamais vou poder resgatar Robocop numa conversa, não vai dar para dizer que ele é subestimado.

5) THE END OF THE TOUR É QUASE BOM

the end of the tour

Deste as pessoas gostam. É um indie sobre o falecido David Foster Wallace. O cinema americano tem uma relação complicada com escritores famosos. Tem muita afetação na hora de interpretar aquelas figuras que ganham alcunha de gênio para cá, de voz de uma geração para lá. De um filme com Jesse Eisenberg e Jason Segel, sobre um autor que intumesce muito homem crescido, eu esperava um sem número de constrangimentos e de clichês sobre mentes atormentadas. Não foi o caso. Até que a atmosfera era de pé no chão. Jason Segel se conteve e seu esforço não parecia o de alguém desesperado para se afirmar como bom ator. O filme é quase bom, tem um clima dos anos 1990 e tudo. Não deixou muita gente eufórica, não deixou muita gente rolando no chão para aplacar a raiva.

Minhas melhores leituras de 2016

Como escolher apenas doze livros? Primeiro preciso explicar por que doze livros. Não tenho nenhuma explicação. Doze é um número razoável, não? Resolvi colocá-los em categorias porque é mais fácil listá-los assim, sem precisar dizer qual é o melhor livro, já que eles são tão diferentes. Seria impossível comparar A amiga genial a Paper Princess, por exemplo. Como eu gosto de ler vários gêneros, nada mais justo do que colocá-los aqui, todos representados. Sempre lembrando que para essas listas eu considero o meu 2016, e por isso coisas mais velhinhas se misturam a alguns lançamentos. Finja que não percebeu que eu roubei na conta e contei três livros da Elena Ferrante como apenas um.

Livros sérios que ninguém tem vergonha de dizer que leu:

A amiga genial ( e História do novo sobrenome e Dias de abandono), de Elena Ferrante

Neste ano eu resolvi ler o livro que todo mundo comentou ano passado. Cheguei atrasada e terminei apenas os dois primeiros da série napolitana, além do Dias de abandono que é igual ou melhor que os outros. Tenho certeza de que, se eu tivesse lido os outros livros dela, eles estariam aqui na lista. Todo mundo já falou da Elena Ferrante, e sinto que não tenho mais nada a acrescentar. Ela é presença garantida na maioria das listas de melhores do ano, e acho que pelo mundo inteiro. Se você ainda não leu a história da Lenu e Lila, faça-se um favor e corra ler. Combina com praia e verão, hein.

Esposas e Filhas: uma história cotidiana, de Elizabeth Gaskell

O título diz tudo. Uma história sobre o cotidiano de mulheres que vivem em uma pequena cidade da Inglaterra. Alguma fofocas e desentendimentos, brigas, amores e inveja. O livro é longo e a edição é caprichada, como sempre acontece com as da Pedrazul. Gaskell é uma escritora inglesa do século XIX, e Esposas e Filhas é significativamente mais leve do que o outro livro dela que eu conhecia, o Norte e Sul. Eu demorei mais do que imaginava para terminar, e por isso posso dizer que esse foi o livro que mais me acompanhou por 2016.

Um outro amor, de Karl Ove Knausgård

Resenha do livro aqui. Fiquei muito surpresa com o segundo livro da série Minha luta. Eu não havia morrido de amores pelo primeiro, e só comecei  Um outro amor numa espécie de última chance, já que ele já estava aqui na estante e eu não gosto de gastar dinheiro para não ler. O humor autodepreciativo de  Knausgård joga um tom meio patético na chatice dele, chatice que ele sabe que tem. Foi por causa disso que eu acabei entendendo a empolgação de tanta gente com essa série: é que eu acho que não tem tanta gente disposta a cometer os sincericídios que esse cara comete. No fim das contas, acho que também me identifiquei com as birras e paranoias.

Os resíduos do dia, de Kazuo Ishiguro

Livro lindo que eu tive a sorte (ou competência?) de colocar na meta do ano. A resenha dele está aqui. Talvez seja o mais curto da meta, mas deixou uma impressão forte na memória.

Livros nem tão sérios assim, mas gostosos demais:

 

Paper Princess, de Erin Watt

Tem toda a farofada que eu gosto: mocinho malvadão; mocinha corajosa mas coitadinha; casal que se odeia mas que se ama; no fim, o amor prevalece. São poucos livros com esta temática que me fazem pensar “é, isso é ruim mas é muito bom”. Paper Princess foi uma surpresa. E eu fiquei até ansiosa pela continuação. Como sempre acontece com aquilo em que eu ponho grandes expectativas, o que foi que aconteceu? Um fiasco, é claro. As continuações foram bem ruins. Li o segundo pouco tempo depois do primeiro, e me inebriei ainda sob o efeito de Paper Princess. Passados alguns dias a ficha caiu e eu percebi que o que queria da história já tinha sido esgotado no primeiro livro, e que o resto era apenas enrolação. Uma pena, ou melhor: meia pena porque Paper Princess está lá e foi bom.

Nove regras a ignorar antes de se apaixonar, de Sarah MacLean

Eu sou louca por romances água-com-açúcar, já deu para perceber. Li muitos livros de época da Julia Quinn este ano, e mais alguns que foram muito bons, mas escolhi este aqui da Sarah MacLean para representar todos. Muito romance, muitos desencontros e mocinho e mocinha que não se entendem. Perfeito. E perfeito especialmente para quem não está familiarizada com o gênero. É um bom começo.

Romance policial:

 

Vocação para o mal, de Robert Galbraith

Sim, amei este livro. Sempre gostei de romance policial, mas nos últimos anos relaxei e vinha lendo muito poucos. A vontade voltou com força depois de Vocação para o mal, que eu li por acaso e a toque de caixa. Todos os elementos estavam lá: o mistério com medinho, o investigador astuto e tranquilo, a ajudante com personalidade forte. E o melhor: o relacionamento dos protagonistas está mais à flor da pele do que nunca. Esse é o terceiro da série e, para mim, foi o melhor.

Flores partidas, de Karin Slaughter

É um thriller psicológico com um pezinho no gênero que as pessoas têm chamado de dark, quer dizer: qualquer tipo de ficção com uma inclinação pelas coisas mais repulsivas e pesadas, todo tipo de violência e abuso, sangue e vísceras; mantendo sempre, claro, os dois pés bem longe do chão que é para conteúdo sombrio não esbarrar na verossimilhança, porque aí a coisa fica mais dark do que a gente consegue aguentar.  Meu sentimento foi aquele mesmo: repulsa e fascinação. O final foi um pouco pior do que eu imaginava, mas ele ficou na minha cabeça por uns dias, o que eu sempre vejo como um bom sinal.

Romance histórico?

O Bobo da Rainha, de Philippa Gregory

Este eu sei que é romance histórico. Ele estava na minha meta do ano, e já ganhou resenha aqui.  A irmã de Ana Bolena ainda é melhor, mas ter terminado O Bobo da Rainha me fez ter certeza de que ter comprado vários livros da Philippa Gregory de uma só vez foi uma boa decisão. Vou tentar ler um por ano.

A Libélula no Âmbar, de Diana Gabaldon

Favorito do ano, mas não tenho certeza se é um romance histórico. Faço uma pergunta: vale viagem no tempo em romance histórico? Só o fato de ter viagem no tempo, mesmo que até aqui não tenha magia, já faria deste um livro de ficção científica ou de fantasia? Isso importa? Claro que não. Jamie e Claire formam o casal mais lindo do mundo literário. Resenha aqui.

Fantasia:

Corte de névoa e fúria, de Sarah J. Maas

Muita aventura e muito romance. Já ficou claro que esse é um critério que eu levo em consideração. A resenha dele está aqui.

Filho das sombras, de Juliet Marillier

Menos trágico que Filha da Floresta, mas igualmente triste e lindo. Também resenhei o livro. E, não é por nada não, mas acho que fantasia escrita por mulheres dá uma surra em fantasia escrita por homens. 2016 me deixou com essa impressão.

Minhas melhores séries de 2016

Quantas séries horríveis a gente é obrigada a ver até topar com uma nova Mad Men? Muitas. Nos últimos dois anos, ainda por cima, eu tenho participado do Projeto Fall Season no Banco de Séries, isto é: eu me obrigo a ver o maior número de estreias possível. E no que isso resulta? Não chega a dar úlcera, mas sobe aquele ceticismo toda vez que alguém fala em “era de ouro da televisão”. Pois é, Seinfeld e Mad Men não aparecem todo dia, mas a minha sorte é que eu me contento com pouco. Eu paro e vejo qualquer coisa: se tiver um casalzinho para shippar, se houver um serial killer à solta, se eu gostar de uma atriz ou ator, ou se a produção não tiver nada disso, mas me prender por alguma razão que deve estar soterrada lá no subconsciente.

Ao longo do ano, eu fiz posts sobre várias séries de que eu gostava à época, mas que depois acabaram me decepcionando. Isso não me impediu de conseguir separar uma listinha das coisas que eu vou guardar no coração. Tenho que avisar que algumas delas não vão ter continuação, porque não tinha mesmo o que continuar, e que, claro, as que eu acompanho há bastante tempo, como Grey’s Anatomy e The Affair, embora sejam pontos altos do ano, não vão aparecer aqui porque seria redundante. Se você não assiste a Grey’s Anatomy talvez já seja muito tarde para começar, mas se você ainda não começou The Affair o azar é seu. E ah, quase me esqueço: assim como na lista dos filmes, aqui também não constam só produções deste ano. É o meu 2016, oras.

Olive Kitteridge

É uma pena que tão poucas pessoas tenham visto, porque esta minissérie é incrível. Eu acho que Olive Kitteridge tem o nível daquelas séries que todo mundo gosta de incensar. É da HBO, tem atores fantásticos e, ei, eu já escrevi sobre ela aqui.

Outlander

Depois de começar a ler os livros o próximo passo era a série. Eu já imaginava que iria gostar, mas não tinha ideia de que Outlander viraria favorita. Essa série é injustiçada e, se o mundo fosse um lugar bom, todos seriam obcecados por Claire e Jamie. Não entendo o descaso, principalmente agora que a primeira temporada está disponível na Netflix. Até aqui a produção é bem fiel aos livros, e logo se vê que o orçamento não é dos mais modestos. Por causa disso,  a qualidade de cenários e figurino é de encher os olhos.

O.J. Made in America

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Foi em 2016 que estrou American Crime Story: The People vs. OJ Simpson? Foi. Eu confesso que não tive boa vontade com a série, que depois foi super premiada e tudo. Passou sem que eu desse bola. Mas a minha curiosidade sobre o caso dos assassinatos de O.J. Simpson estava intacta. Foi assim que eu descobri O.J. Made in America. É uma série documental, que eu vi em cinco capítulos, mas que estreou como filme no Festival de Sundance. Especula-se que vá disputar o Oscar de melhor documentário, e tem toda a discussão de “ué, mas é série”, “ué, mas é filme”. O importante é lembrar que O.J. Made in America não trata apenas dos crimes que o ex jogador da NFL cometeu, mas elabora, lá de trás, todo o contexto que fez desse caso um dos mais célebres da história dos Estados Unidos. O seriado consegue esmiuçar o racismo no judiciário americano e intercalar a história do país, na segunda metade do século XX, à ascensão e queda de um sujeito que era um mito, e que continuou sendo um tipo de mito mesmo depois de ter pisado na bola.  (“O.J. Simpson pisou na bola”: este é o maior eufemismo da história do blog).

Pitch

Já começo dizendo que não entendo nada de beisebol. Sempre quis saber um pouco mais, mas sempre desisti sem nem entender o básico. Foi mais ou menos assim que tentei aprender a tocar piano quando era criança: quando vi que para tocar era preciso ler teoria musical, a preguiça falou mais alto. Como tirar da ignorância total alguém que tem certo interesse por um assunto? Com a televisão, é claro, o veículo mais educativo que há.

A boa notícia é que a primeira temporada de Pitch já acabou, ultrapassou e muito as minhas expectativas, trouxe o OTP mais empolgante de 2016, e me deixou aqui ansiosa para saber se a Fox vai dar o sinal verde para uma segunda temporada. A má notícia é que eu ainda não entendo nem quem é a bola numa partida de beisebol. Claro, o esporte é um pano de fundo muito importante em Pitch, mas a série é sobre relacionamentos, superação, amadurecimento, essas coisas com que todo mundo que não tem o menor interesse por beisebol pode se identificar. Ginny Baker é a primeira mulher a conseguir jogar na liga principal, e aí não só a vida dela vira de cabeça para baixo, como  haverá reviravoltas em todas as coisas que envolvem uma mulher num ambiente extremamente masculino.  A série é muito bem feitinha, mesmo que dê uma leve escorregada de vez em quando, e vale muito a pena acompanhar Ginny Baker nos problemas, que não param de surgir quando você é desafiada não só pelas dificuldades de um esporte de alta performance, mas também pelo preconceito e tolice geral do mundo.

Black Mirror

Em 2016 todo mundo viu a terceira temporada de Black Mirror. A série virou meme e tudo, e eu não posso negar que também fui uma adepta tardia. Eu já sabia de Black Mirror, mas tinha sido vencida por minha resistência a qualquer série que não mantenha os mesmos personagens em todos os capítulos. É que eu gosto de me apegar, e se isso não for possível eu nem começo. É claro que eu estava errada, minha implicância foi vencida pelo hype e eu embarquei junto com todo mundo. E  o que isso me rendeu? Não sei. Tristeza? Um estado de torpor em que eu me sentia um robô e percebia que todos à minha volta estão condenados pela tecnologia, que no fim das contas vai nos levar (ou já nos levou) a um estado totalitário? Sim. Bem isso.

Angie Tribeca

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Mas a vida não é só vontade de morrer. Angie Tribeca teve duas temporadas e ainda bem que uma terceira já foi encomendada. É uma comédia de vinte minutos para rir muito. Se você costumava assistir a Corra que a polícia vem aí na Sessão da Tarde, precisa dar uma chance a Angie Tribeca. Criada pelo casal Nancy e Steve Carell , a série parodia todos os vícios de filmes e séries policiais com humor nonsense. Angie (a Rashida Jones) é a policial durona que precisa resolver crimes complicadíssimos ao mesmo tempo em que tenta equilibrar a vida amorosa com seu parceiro/namorado. Depois de passar pelas duas temporadas de Angie Tribeca, não tem como não ver CSI (ou mesmo uma estreia desse ano, como Frequency) e não dar aquela risadinha. Além de tudo, o elenco é muito bom. Tem um cachorro policial, sentadinho em sua mesa e tudo, conferindo umas coisas no computador. Não tinha como ser ruim.

E é isso. Para fechar 2016 só faltam os livros.

 

Meus melhores filmes de 2016 pt. 2

Nos encaminhamos para o fim de dezembro, mas aqui ainda falta bastante para fechar a lojinha. Falta terminar a lista dos melhores filmes, começar a de séries e cumprir a meta de leitura do ano para listar os melhores livros que eu li em 2016. Eu disse que seria um mês de muitas listas.

Um alguém apaixonado – Like someone in love

Não resenhei porque não tinha coisa alguma para falar. Foi um dos últimos trabalhos de Abbas Kiarostami, que morreu em julho. Mas o filme é sobre solidão? Incompatibilidade? Sobre o amor ser um fardo? Não tenho vergonha de dizer que às vezes eu me encanto, acho tudo bonito, mas não saberia juntar as peças do que vi. Um alguém apaixonado é visualmente lindo, uma cena mais deslumbrante que a outra. Nele, uma garota de programa é chamada para passar a noite na casa de um velhinho. Acaba que eles nem dormem juntos, mas meio que cada um era exatamente aquilo de que o outro precisava naquele momento. A cena da garota olhando a noite iluminada pela janela do táxi é de tirar o fôlego.

O lamento – Goksung

No ano passado eu venci minha resistência a filmes sul-coreanos e foi assim que encontrei O Lamento. Magia, xamanismo, possessão e mortes. Pessoas estão morrendo misteriosamente, e um homem precisa descobrir a causa quando percebe que sua filha pode ser a próxima. Às vezes o filme ganha um tom de comédia, e isso só deixa o horror mais horrível toda vez que alguma coisa bizarra acontece. Achei incrível, mas eu percebia que havia perdido muitas referências do folclore coreano, espiritualidade, essas coisas. Tive que ver uma explicação detalhada para esses buracos que a minha ignorância deixou passar, e aí sim: ah tá, agora entendi. Que filme!

Bem-vindo à casa de bonecas – Welcome to the dollhouse

Um filme nem um pouco fofo. Bem-vindo à casa de bonecas fala sobre a vida de uma adolescente hostilizada tanta na escola quanto em sua própria casa. Nada aqui é típico. A protagonista é atacada de todos os lados, mas em muitos momentos parece impossível detectar nela sentimentos negativos ou uma tristeza sem fim. Isso só é acontece por conta do humor negro que dá o tom do filme. Bem vindo à casa de bonecas é de 1995, e de lá para cá duvido que tenham feito uma história de rejeição e juventude mais impactante que essa.

O Açougueiro – Le boucher

Este me dá arrepio. Uma história simples, mas com um tom sombrio desde a primeira cena. Os protagonistas se conhecem em uma festa de casamento: ele é o açougueiro da cidadezinha, ela a professora da escolinha. Cidade pequena, todos se conhecem e logo os dois ensaiam começar um relacionamento. Tudo parece estar indo bem até a notícia de que há um assassino de mulheres na cidade. Para quem está vendo o filme, o assassino não é nenhum segredo. Isso é o que menos importa. O mistério principal não é quem matou as garotas. O segredo está na obscuridade dos protagonistas, tanto de quem mata quanto de quem está em perigo. A sequência final é de arrepiar. Eu nunca senti tanto medo com tão pouco.

Amadeus

Quando comecei a assistir a Amadeus pensei que seria outra bomba. Eu sei da fama do filme, mas ele parecia pretensioso e exagerado como os filmes do Oscar, feito para ganhar prêmios e só. Fato é que eu perseverei no sofá (leia-se: fiquei com preguiça de levantar) e meu esforço foi recompensado. Acho que todo mundo sabe quais são as características de um filme que quer passar o rodo nas estatuetas do Oscar. São histórias grandiosas, orçamentos obscenos, atores até bons mas totalmente acima do tom, gente perdendo mais de vinte quilos em transformações físicas que mascaram a debilidade de roteiros muito esquemáticos, essas coisas. Então, Amadeus não é nada disso. Quer dizer: o orçamento e a história são mesmo gigantescos, mas no mais o filme do diretor Milos Forman é o que todo filmão de Hollywood quer ser: longo, ambicioso, bonito, reflexivo, com atores excelentes. É uma investigação sobre a natureza da arte e sobre a mesquinharia da vida. Tem um Mozart moldado na melancolia pós-punk e um Salieri com pinta de inspetor de colégio interno. Acho que foi o filme mais longo que eu vi em 2016, e que, se eu precisasse escolher só um para ter visto durante todo o ano, seria esse. Talvez. Provavelmente.

Elle

Acho que esse é o único de 2016 na lista inteira. Será? Tem uns três de 2015, mas então. Elle é, segundo dizem, um forte candidato ao Oscar de filme estrangeiro. Foi dirigido pelo Paul Verhoeven e tem a Isabelle Huppert. Já na primeira cena, se eu me lembro bem, Huppert é estuprada por um estranho usando uma máscara de esqui. Ela não vai à polícia, e aos poucos vamos percebendo que ela quer descobrir sozinha a identidade do estuprador, e que ela tem um jeito bem particular de lidar com o que lhe aconteceu. Daí precisamos saber o que foi que moldou essa mulher: na infância, o pai dela foi preso por ser o maior serial killer da França. Na época, muitos diziam que ela, a filha, então criança, tinha sido cúmplice. Quer dizer: a personalidade dela foi moldada pelo mal e pela violência, e agora, depois de ter sido estuprada ela meio que tem que encarar o mal de frente. Só que o mal exerce uma certa atração sobre ela. Elle é fascinante porque trata da ambivalência que todo mundo tem de um jeito que não aparece todo dia no cinema, ainda mais quando a gente pensa em termos absolutos: tipo bem e mal, vítima e perpetrador. Para ajudar, o filme tem uns ecos de Hitchcock na construção do suspense e, especialmente, numa cena num porão. Não vou estragar porque esse é muito recente. Hipnotizante.

Um mês de muitas listas: meus melhores filmes de 2016

Chegou a época do ano que eu menos gosto. Mas admito que tenho feito progressos: para mim, de agora em diante dezembro será o mês das listas. Montei três: os melhores livros, os melhores filmes vistos em 2016 e as séries mais legais. E sob que critérios? Sei lá, são as melhores coisas que passaram pela minha mão de janeiro a dezembro. A gema, o crème de la crème.

No post de hoje eu começo a listar os filmes. Veja bem: eles não foram necessariamente lançados em 2016 e, para falar a verdade, a maioria não é nem muito recente. Escolhi doze filmes (um para cada mês), mas para não deixar o post muito longo decidi dividi-lo em duas partes.

Selecionar não foi uma tarefa difícil. Isso porque eu vi muito, mas muito filme ruim. Foram muitas bombas para cada acerto, e  acho que uma dezena de bombas para cada filme ótimo e marcante. O mais estranho é que há, na lista dos filmes de que eu mais gostei, só um com resenha aqui no blog. O que isso significa? Que eu só tenho  disposição para escrever a respeito daquilo que me desagrada?  Não, dizer isso seria maldade. Sem mais delongas, e assim como o Faustão, vamos aos Melhores do Ano.

Nossa irmã mais nova – Umimachi Diary

O único filme da lista resenhado aqui no blog é também o mais gracioso. É pacato e não tem lances mirabolantes. Trata da vida de quatro irmãs, três que cresceram juntas e uma que é fruto de outro relacionamento do pai delas. Elas precisam aprender a conviver. O relacionamento é contado de forma muito delicada, e sem nenhum grande drama. Umimachi Diary é muito discreto. O que me deixou apaixonada foram as escolhas: sempre as menos comuns, menos diretamente dramáticas, e aí por isso as mais verossímeis.

Tangerine

Eu ouvi falar de Tangerine no fim do ano passado como aquele filme feito apenas com câmeras de iPhone 5. Isso poderia ser só um truquezinho numa produção sem substância, mas já no começo o aspecto técnico vai para segundo plano, até porque a mobilidade que o celular possibilita serve muito à história que se está contando. E é uma história excelente: duas mulheres trans, garotas de programa, andam pelas ruas de Los  Angeles num dia ensolarado. Uma delas está decidida a acertar contas com o namorado, que ao que tudo indica é infiel. O mais legal é que Tangerine estava mesmo disposto a discutir e jogar uma luz sobre os temas que interessam a quem é trans, ou a qualquer um que seja excluído. É um pouco cansativo topar com produções que usam a diversidade como elemento decorativo, sem nunca dar espaço de verdade para que aquele pessoal pouco representado seja visto com complexidade. Nesse sentido, Tangerine é um filme obrigatório. Seria importante só por causa de seu tema, mas também é um filme sobre as ilusões em que a gente decide acreditar, sobre a amizade. E é um filme de jornada. Uma das cenas mais lindas surge quando uma das garotas paga para cantar em um bar vazio. O momento é bonito e triste. Acrescente-se a isso o pôr do sol nas ruas de Los Angeles. Lindo.

Victoria

Este me prendeu do início ao fim. Não acho que fazer o tempo voar seja um critério para estabelecer se algo é ruim ou bom. Acho que quando isso acontece, o que fica em evidência é o nosso gosto ou nosso ritmo. Já me aconteceu mais de uma vez de ir ao cinema, me encantar, sair bem satisfeita e aí, aos poucos, ir percebendo que o que eu havia visto não aguentava umas duas ou três perguntas. Fiquei pensando muito nisso quando assisti a Victoria, porque o longa é ligado no 220 (e foi filmado em um único plano-sequência) e ainda assim a impressão dele ficou em mim por muitos dias. O filme todo acontece em uma noite, e isso por si só já é extremamente sedutor para mim. Eu gosto muito de histórias que acontecem em uma madrugada ou em um dia. Mas Victoria é empolgante por conseguir realizar um monte de  situações com uma trama simples. Uma garota espanhola que está vivendo na Alemanha conhece um grupo de caras e passa a noite se divertindo com eles pelas ruas da cidade. Em uma transição suave, ela deixa de apenas brincar nas ruas em uma madrugada e se vê envolvida em um assalto que parece pronto para dar errado. O filme termina na manhã do outro dia, e eu fiquei tão envolvida que me peguei com aquela sensação de passar a noite em claro e encontrar o comecinho da manhã, mas aqui em casa ainda era meia-noite.

Um clarão nas trevas – Wait until dark

Um suspense com a Audrey Hepburn. Eu não sei por que demorei tanto para assistir. Hepburn está cega, mas a condição é recente e ela ainda não se acostumou a viver na escuridão. Sozinha em casa, ela se vê à mercê de três homens inescrupulosos que vão fazer de tudo para recuperar um objeto cheio de heroína. O suspense é praticamente todo elaborado em um pequeno ambiente: a casa minúscula da protagonista. Não fiquei com medo, mas me sentei na ponta do sofá muitas vezes. O terceiro ato do filme me fez esquecer que ele era de 1967, de tão atual que o suspense parecia. Tenso

Para o outro lado – Kishibe no tabi

Acho que posso dizer que, de todos os filmes desta lista, este é o meu favorito. Um homem que estava sumido há três anos volta para sua mulher e juntos eles vivem uma jornada delicada e surreal. A sensação que mais ficou foi de inquietação. Acho muito difícil um filme tratar da morte sem cair na pieguice, mas Para o outro lado passa longe do sentimento barato enquanto retrata uma história linda sobre a morte. E ele vai bem numas coisas que todo mundo que já perdeu alguém reconhece: uns detalhes da vida íntima, as marcas que o corpo da gente deixa nas coisas, os objetos e os gostos de uma pessoa que morreu, e o mundo seguindo seu curso sem ela. É como se ele tivesse conseguido filmar o vazio que uma pessoa deixa, sem precisar colocar o sentimento em palavras. Parece que este filme não é um dos melhores do diretor Kiyoshi Kurosawa, e isso só me deixa empolgada para ver mais filmes dele.

Deus da Carnificina – Carnage

Não sou muito fã do Roman Polanski, e o motivo nem é só a polêmica do estupro cometido por ele em uma menina de treze anos na década de setenta. Apenas não gosto de seus filmes. Deus da Carnificina é o primeiro que me agrada. Sempre me empolguei com tramas de muitos diálogos e poucos cenários. Deus da Carnificina se passa o tempo todo no apartamento de um casal que recebe os pais do menino que bateu no filho deles. Quatro pessoas de classe média alta, muito civilizadas, que precisam resolver a questão dos filhos. Não demora muito e  a cortesia começa a ser desmontada, e o que eles pensam uns dos outros começa a vir à tona. Os problemas não ficam reduzidos ao embate dos casais, até marido e mulher discutem enquanto o véu da civilidade vai caindo. A desunião acontece de forma lenta, mas depois que ela aparece só o que fica é o caos. É um filme bem pessimista e meio cínico.

Eu já volto com outros seis filmes.