A mulher na janela

a mulher na janelaÉ muito bom engatar em uma leitura e esquecer do resto do mundo. Acho que nunca vou me cansar da sensação de prazer que um livro proporciona, porque ela é diferente de tudo. A mulher na janela nem é o melhor exemplo, porque no fim das contas a empolgação foi diminuindo no fim, mas mesmo assim eu engatei nele e por boa parte do tempo eu pensei “talvez (provavelmente!) eu nem lembre da história em alguns meses, mas que história envolvente!”.

O livro de A. J. Finn é mais um thriller com mulher (ou garota) no título e que, em um primeiro momento lembra A garota no trem, de Paula Hawkins: uma mulher destruída por um evento do passado, que testemunha um crime e precisa lutar para provar que o que ela viu realmente aconteceu. Mas as semelhanças ficam apenas na sinopse. A mulher na janela é um livro intenso, em que você se perde nas ruminações da protagonista e luta para tentar desvendar o que está acontecendo antes do fim da história.

Anna é uma mulher triste. Ela não consegue sair de casa por conta de um transtorno psicológico conhecido como agorafobia. A tristeza é fácil de perceber: ela nunca sai de casa, não toma banho sempre, vive sozinha, sente falta do marido e da filha e passa os dias bisbilhotando os vizinhos pela janela. A casa é gigante, com quatro andares mais um super porão, o que deixa tudo mais atraente: você sabe que um crime vai acontecer em algum momento e que a casona, como cenário principal, só vai fazer a imaginação trabalhar mais.

Quando vizinhos novos se mudam para a propriedade mais próxima, Anna, munida de uma câmera com ótimo zoom, passa a sondar a nova família aparentemente normal. Em pouco tempo o adolescente surge na porta de Anna, com um presente oferecido pela mãe. Eles conversam e Anna se sente mais próxima da família. Mais tarde é a vez de a mãe visitá-la. Elas estabelecem uma ligação rapidamente e então Anna se vê consumida pela vida dos vizinhos.

É aí que um assassinato acontece, e Anna, que vive em meio a vinhos e remédios fortes, vê tudo através das janelas de sua casa. Como ela vai conseguir provar para a polícia que o que ela viu não foi uma alucinação quando a pessoa que ela achava estar morta surge, com outro rosto, dizendo que nunca a conheceu?

A protagonista é uma mulher que, sim, em muitos momentos parece delirante, mas que tem uma confiança inabalável no que vê. Como confiar em uma narradora assim? Não dá. E é justo nessas horas que A mulher na janela é empolgante. Em um momento você quer, junto com Anna, descobrir o que está acontecendo; depois você já acha que todo o problema está nela, mesmo que não do jeito que o autor quer fazer você pensar.

Mas falando assim fica parecendo que eu me apaixonei pelo livro. As coisas começaram a desandar na minha leitura quando o fim foi se descortinando. O autor recheia o romance com referências aos filmes antigos de suspense, com destaque para os de Hitchcock. A história da mulher na janela espionando os vizinhos é uma homenagem declarada a Janela Indiscreta. Anna assiste a muitos filmes clássicos de suspense, e o autor consegue colocar no papel o clima tão único do cinema em preto e branco, o que faz a expectativa crescer. A menção ao clima tenso e de certa forma sedutor dos filmes do Hitchcock me deixou inebriada, esperando por algo que eu imaginava que nunca adivinharia, mas quando o final surgiu, me senti caindo de novo na realidade de um livro mediano e sem muita graça.

O fim me lembrou dos remakes dos filmes do Hitchcock que surgiram ao longo do tempo. A mesma sensação que me daria uma versão, plano a plano, de Janela Indiscreta, tão sem vida quanto Psicose com o Vince Vaughn, da década de 1990. A história, por mais da metade do tempo, me fez pensar em um bom filme do diretor: com um desenvolvimento magnético, complexo e intrincado, mas a decepção veio quando no fim, em vez de continuar como Hitchcock faria e finalizar com um desfecho simples e genial, A. J. Finn optou por dobrar a aposta e deixar tudo maior e mais confuso, recheado de coisas explicadas em excesso. Para mim, não deu certo.

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A senhora de Wildfell Hall, de Anne Brontë

a senhora de wildfell hall

Uma mulher se apaixona por um homem bonito, radiante e impulsivo. Parece uma linda história de amor, mas em pouco tempo tudo vira um pesadelo. A impulsividade do homem vira escárnio: ele não se importa com nada e ninguém, bebe, trai a esposa e só sabe tratá-la com desdém em seus modos egoístas. Isso é o tema de um livro na era vitoriana, em 1848. Ousado, não? Parece que cada irmã Brontë tinha um papel na literatura e, se Anne Brontë tivesse conseguido viver um pouco mais, teria ocupado já em vida o papel de transgressora da família.

Como uma jovem que nunca viveu um romance e que viveu tão pouco tempo consegue contar uma história com desdobramentos tão reais? Dizem que ela queria dar uma resposta a O morro dos ventos uivantes, romance da irmã mais velha; além disso, havia inspirações na história da família: o irmão era alcoólatra e morreu em consequência disso, ainda jovem, depois de gastar boa parte do dinheiro da família. Deixando as especulações de lado, Anne Bronte conseguiu escrever um texto feminista numa época em que a palavra mal engatinhava.

A senhora de Wildfell Hall começa com as cartas de um homem (Gilbert) que se surpreende com a chegada de uma nova moradora na vizinhança. Ela é Helen, uma viúva que se mudou para o casarão com o filho. Helen é estranha para o padrão dos moradores da região. Ela é arredia e não faz questão de ser sociável com a vizinhança. Gilbert, em um primeiro momento, também se sente como os outros e censura Helen, mas com o passar do tempo ele se vê cada vez mais atraído pela estranha moradora de Wildfell Hall. Em poucas semanas a amizade deles engata e o homem não entende por que Helen é tão prudente em querer casar de novo.

O livro pode ser dividido em três momentos: as cartas de Gilbert narrando como conheceu Helen; o diário de Helen, com a protagonista narrando os eventos principais; e a volta de Gilbert para finalizar a história. Helen precisa explicar por que não pode se envolver romanticamente mais uma vez e entrega o diário em que conta toda sua história antes de chegar a Wildfell Hall: ela se apaixonou perdidamente por um jovem alegre, mas inconsequente. Uma tia a alertou, mas Helen achava charmoso o jeito imprudente de viver de Arthur. Eles se casam e vivem uma boa vida até os sinais de que Arthur ainda pretende levar sua rotina desregrada mesmo casado. Por vários meses ele viaja para Londres e continua sua vida de solteiro, deixando Helen sozinha com o filho recém-nascido. Helen se agarra na religião para tentar melhorar o comportamento do marido, mas a situação só piora. Ela vê que seu filho cresce e tenta imitar as atitudes do pai, então uma decisão é tomada. Uma decisão que não é a que se espera de nenhuma mulher daquela classe social, naquele lugar, naquele tempo.

Anne Brontë propõe uma reflexão feita por não muitas mulheres célebres de sua época: qual é o papel da mulher na sociedade? Até que ponto a submissão feminina vai ser aceitável? Essas questões não foram bem aceitas, lá atrás, nem mesmo pela família da autora. Charlotte Brontë foi a irmã que ficou responsável pelas obras de Emily e Anne Brontë depois de suas mortes precoces, e não demorou para tirar de circulação A senhora de Wildfell Hall, proibindo sua reedição enquanto viveu. A coragem de Anne Brontë em denunciar a servidão feminina e a dependência financeira na era vitoriana é motivo suficiente para a mais jovem das irmãs Brontë ser lida com entusiasmo nos dias de hoje. O romance ganhou duas edições brasileiras quase simultaneamente, o que prova que seus temas não são anacrônicos nem foram esgotados com o passar dos anos.

Meta de leitura 2017 – 2018

O ano já começou há uma semana e aos poucos eu vou me acostumando com 2018. Aqui no blog o primeiro post de janeiro vai ser sobre a minha meta de leitura. Fiquei devendo os últimos três livros da meta de 2017 (o texto no blog, porque a leitura de todos os livros eu concluí a tempo) e resolvi juntar tudo por aqui: os três livros que faltavam da última meta e o começo de outra, novinha em folha. Minha meta de doze livros continua firme e forte. Ano passado os escolhidos foram na maioria clássicos e minha impressões sobre cada leitura foram publicadas aqui, aqui e aqui. Para finalizar faltava o romance de estreia da Virginia Woolf: A Viagem; um livro-reportagem brasileiro: Abusado, de Caco Barcellos; e por último um clássico russo: Pais e Filhos, de Ivan Turguêniev.

a viagem

A Viagem foi o que eu esperava. Eu li algumas opiniões agressivas e achei que talvez o livro fosse descomplicado demais para o gosto das pessoas acostumadas com as coisas que Virginia Woolf acabou fazendo em sua fase mais madura. Mas eu gostei muito da leitura. A Viagem foi o romance mais tranquilo de se ler da Virginia Woolf. Por tranquilo quero dizer que a história segue reta, sem as inovações técnicas que fizeram a fama da autora. A simplicidade do dia a dia dos personagens e dos acontecimentos faz deste um livro perfeito para começar a ler Virginia Woolf. Para um leitor brasileiro há uma pequena complicação adicional, que é a visão que Woolf tinha do Brasil (país que ela não chega a nomear, mas nem precisa). Se você conseguir dar esse desconto, tudo segue muito bem. A Viagem vale muito a pena, principalmente tendo em perspectiva todo o desenvolvimento posterior da autora.

abusado

Abusado foi o penúltimo livro da meta, e talvez a pior escolha. Um dos meus gêneros preferidos é o livro-reportagem (principalmente os de jornalismo investigativo), mas quando a reconstituição dos fatos faz uma história de não ficção virar praticamente ficção eu fico incomodada. Meu autor preferido no segmento é o Jon Krakauer porque ele consegue navegar com desenvoltura ali onde não se admite ficção em excesso: ele enche o livro de dados através de uma apuração perfeita e mesmo assim não deixa a história engessada; o Caco Barcellos pode ser um ótimo jornalista, mas em Abusado esteve longe de conseguir escrever uma história sem romantizá-la (no pior sentido da palavra). O lado bom foi que pelo menos eu tirei da lista uma leitura que eu adiava há muito tempo.

pais e filhos

Pais e Filhos, de Turguêniev é lindo. O protagonista é um dos personagens mais odiáveis do mundo da literatura, mas mesmo assim o envolvimento é inevitável. Eu praticamente devorei o romance em poucos dias e a sensação foi a de sempre com os russos que atravessaram meu caminho: que livro incrível! A experiência só não foi melhor porque eu me excedi e li três clássicos russos no ano. Tenho a impressão de que mais espaço entre um e outro me faria aproveitar melhor a leitura, então fica a lição para o futuro.

2018

meta de leitura 2018

Depois de dois anos em que as metas envolviam ler doze livros que estavam parados por aqui há um tempo, eu resolvi mudar. Em 2018 eu vou reler alguns dos livros que me empolgaram tanto que acabaram me fazendo tomar gosto pela leitura. A principal razão é a saudade. Para confirmar que a minha ideia foi boa eu acabei lendo o do mês de janeiro em um dia. Acho que a nova meta vai ser a mais fácil de concluir. Vou tentar seguir o cronograma de eleger um livro para cada mês do ano, mas vamos ver o que acontece. Quer saber quais são? Olha a foto aí em cima, só faltaram Crime e Castigo, de Dostoiévski, que eu ainda não tenho (li numa edição bem velhinha de que me desfiz há um tempo); e A Ventura de Amar, de Danielle Steel, e O outro lado da meia-noite, de Sidney Sheldon, que estão na casa dos meus pais. Cada livro escolhido aqui tem uma história sentimental comigo. Alguns são clássicos e outros… nem tanto(?). Dom Casmurro foi o primeiro que eu tirei da pilha. Eu só peguei a edição para dar aquela olhadinha, mas foi irresistível. Sabe como é apertar um cachorrinho? Foi assim para mim. Eu não conseguia parar. Essa foi a minha terceira passagem por Dom Casmurro e eu tenho que dizer que tinha a impressão de que a coisa de Capitu ter ou não traído o Bentinho era mais central para gostar do livro. Mas não. Bom, esse assunto fica para outro texto. Que este seja um ano bom.

Minhas melhores leituras de 2017

Se em 2016 eu fiz uma lista de melhores leituras com muita variedade, em 2017 ela vai ser enxuta; e essa é uma decisão consciente. Ano passado eu não consegui me controlar e botei tudo quanto era livro entre os melhores do ano, mas neste ano o esquema vai ser o mesmo das séries: apenas cinco melhores. Em 2016 eu separei por gênero. Não gosto de colocar um policial e um clássico na mesma lista, como se assim eu estivesse comparando-os e o policial estivesse levando a pior. Mas se eu consigo ser concisa na lista de séries e filmes, por que não na de livros? Em 2017 vou embolar tudo. Lembrando que, assim como na categoria de séries do Baby de Ouro, aqui o que vale é o ano em que eu li o livro, não o de seu lançamento.

Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar

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Eu falei rapidamente sobre o livro aqui, há meses, mas o sentimento segue inalterado: foi de longe a melhor leitura de 2017. Eu não consigo nem imaginar o tamanho da dificuldade em escrever um livro partindo do ponto de vista de um imperador romano, e nem entendo direito como é que a autora conseguiu fazer para manter essa história ao mesmo tempo verossímil e particularmente tocante para uma pessoa nascida no século XX, mas durante a leitura de Memórias de Adriano só o que vinha na minha cabeça era a naturalidade daquela voz que a autora conseguiu criar. Pretendo reler muitas outras vezes, virou um daqueles livros que eu quero que envelheçam comigo.

Vida e Destino, de Vassili Grossman

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O mês de julho de 2017 vai sempre me fazer lembrar de Vida e Destino. Uma daquelas leituras que são uma verdadeira jornada. Ainda esses dias eu reli um dos trechos que eu marquei no livro e fiquei feliz por ter passado por tudo aquilo. De onde eu estou sentada consigo enxergá-lo na estante e a sensação me ocorre de novo. Se quiser saber mais da obra, eu fiz um texto com algumas impressões aqui.

Ressurreição, de Liev Tolstói

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Uma das primeiras publicações do ano no blog no ano tratava de Ressurreição. Confesso que demorou para me cair a ficha de que essa leitura havia me tocado em particular. Mas eu vi o livro surgindo em uma conversa ou outra, ou na minha cabeça quando alguma notícia me fazia lembrar de uma passagem. E assim eu comecei a valorizá-lo mais e mais com o passar dos dias. Quando me lembro da história e das reflexões que ela traz eu sinto um aperto no peito. Ainda fico admirada com o poder que uma boa leitura tem na vida da gente, e um livro como Ressurreição só renova este sentimento.

Indesejadas, de Kristina Ohlsson

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O gênero que eu mais li em 2017 foi o romance policial. Até fiz um post falando deste e de outro livro e do meu amor por histórias de detetive e afins. Indesejadas é tenso, e até tem cara de thriller, mas é bem mais lento. Os protagonistas são cativantes e o clima deixa a história acolhedora mesmo com assassinatos e desaparecimentos de crianças. Pra quem gosta do gênero a leitura é irresistível, para quem quer começar é um bom ponto de partida.

Mr. Romance, de Leisa Rayven

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O único livro da lista sem texto aqui no blog. Falar sobre o amor entre duas pessoas e criar um ambiente adequado para isso parece fácil, mas não é. Parece tão fácil que há toneladas de livros por aí propagando essa ideia, tentando causar aquela sensação única que uma história de amor consegue provocar. Só que quem gosta dessas leituras sabe que vai precisar ler uns dez livros para achar três razoáveis e um ótimo. Mr. Romance é aquele ótimo que só aparece bem de vez em quando. A autora brinca com as possibilidades do romance (o relacionamento amoroso entre duas pessoas, não o gênero literário) e constrói personagens que fazem você querer devorar o livro. Não vejo a hora de ler o próximo da série.

Então é isso. Daqui de casa eu consigo até ouvir o estouro do champanhe dos editores por terem conquistado um prêmio tão valioso quanto o Baby de Ouro. Para a semana que vem preparem seus vestidos porque as premiações de cinema são sempre muito chiques.

Três livros da meta de 2017 – parte 2

Anteriormente em Meta de Leitura 2017:

“Ano passado eu tive a brilhante ideia de criar uma meta de leitura com 12 livros que estavam encostados aqui na prateleira de casa. Um para cada mês, fora os outros que fossem aparecendo durante o ano. Um outro objetivo era escrever um texto para cada livro aqui no blog. 2016 acabou, eu dei conta da tarefa e fiquei muito feliz. É tão difícil finalizar uma coisa, qualquer coisa, que eu pulo de alegria quando consigo. Empolgada, em 2017 eu resolvi dificultar um pouco mais e incluí livros que acabaram exigindo uma leitura mais lenta, seja por conta do número de páginas ou das características de tal e tal obra.

O que eu vou ter que fazer é rearranjar todo o esquema, já que (1) não estava prático escrever os textos sobre os livros, (2) ninguém se importava mesmo e (3) mesmo gostando de alguma coisa, nem sempre eu tenho o que dizer sobre ela. Daí eu resolvi fazer a metade da tarefa, ou seja: vou em frente, terminando livro a livro quando conseguir, e agora, em vez de escrever um texto para cada um e publicá-lo no começo do mês seguinte, vou agrupar três livros de cada vez, escrever quando for possível e postar quando der vontade”.

(Essas são cenas do último capítulo, postado em julho).

Se eu estou dando conta da meta? A resposta é complicada. Os livros estão lidos. Mas será que fiz a melhor leitura possível, aproveitei cada aspecto de cada livro e saí transformada de cada experiência? Esta pergunta vai ficar no ar.

doutor jivago

Em julho mesmo eu finalmente terminei Doutor Jivago. Adiciono o “finalmente” porque em 2010, talvez, eu havia tentado terminá-lo mas o momento não favoreceu. Para falar a verdade não me lembro do que me fez desistir, mas o certo é que a primeira tentativa foi boa o bastante para não impossibilitar uma próxima. Agora em 2017, por alguns dias a minha leitura de Doutor Jivago coincidiu com a de Vida e Destino, e eu me lembro de ter pensado que não era muito inteligente me empenhar em dois longos livros russos que, no fim das contas, tratam de repercussões da guerra (a Primeira Guerra Mundial no livro de Pasternak, a Segunda no de Grossman) na vida de pessoas mais ou menos comuns. Isso fez com que eu comparasse os dois livros constantemente e, para a minha surpresa, Doutor Jivago perdeu por pouco, mas perdeu.

A história de Jivago é bonita e triste, e quando começamos o livro com ele ainda menino, percebemos que lá vem uma jornada que vai fazer a gente sentir de tudo. E foi mesmo uma jornada. Dura e triste de um jeito que a gente só encontra na literatura russa, mas mesmo com mais de 600 páginas, a impressão que ficou em mim foi de que nem tudo teve o tempo de que precisava. A história é bonita e vale a leitura, mas se um dia alguém te ameaçar com um revolver e te obrigar a escolher entre Vida e Destino e Doutor Jivago, pode ficar com o primeiro.

clarice contos

Em agosto eu comecei a ler Todos os Contos, da Clarice Lispector, naquele volume da Rocco que saiu recentemente. De novo uma má ideia: ter que ler num mês um livro daquele tamanho. E não era só o tamanho: contos têm uma fluidez que não é a mesma do romance. Há ocasiões em que, terminando um bem pequeno, já é necessário parar para poder absorver o que se passou. De positivo, fica a minha releitura de A Legião EstrangeiraFelicidade Clandestina (que foi livro obrigatório quando eu fiz vestibular e é uma obra que eu adoro) e também a sensação de que a leitura corrida pode (e deve, se duvidar) ser apenas um primeiro contato com uma obra. O volume já foi feito muito forte, bonito e completo para que a gente possa passar muito tempo com ele. Aconteceu de este entrar na meta porque me angustiava tê-lo comprado e sempre adiar o início. Agora, quebrado o gelo, quero ver se eu consigo reler um livro de contos de Lispector por ano. Aliás, preciso montar uma meta só para ela porque já faz tempo que li Perto do Coração Selvagem e sinto saudades.

Por falar em planos de longo prazo, sério, desde a minha adolescência eu me enrolava para começar os livros de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust. Sabe quando uma obra ganha todos aqueles adjetivos genéricos que acabam deixando a gente na expectativa? (Tipo: genial, importante, fundamental, obra-prima, difícil-mas-recompensador, obrigatório, incontornável, canônico, etc., etc., etc.) Hoje em dia eu estou um pouco mais escolada e não me empolgo tão facilmente, já entendi mais ou menos qual é a minha e não me desespero se deixar passar um “gigante da literatura”, mas quando eu tinha 17 ou 18 anos, uma simples menção a Em busca do tempo perdido me deixava ansiosa. Primeiro porque eu não sabia por onde começar. A resposta simples (a única resposta) é começar pelo começo, mas aqueles adjetivos encheram a minha cabeça e, sempre que a ocasião se apresentava, eu adiava um pouquinho por achar que não era a hora. Mas agora eu aprendi que a melhor hora é sempre quando o entusiasmo bater e o tempo for propício. Isso porque não há leitor no mundo, professor-doutor ou blogueiro, que consiga tirar tudo o que uma obra tem a oferecer, vai sempre faltar alguma coisa e, incompleta por incompleta, a minha leitura também vai valer. Ninguém precisa da autorização de ninguém.

no caminho de swann

Com esse espírito eu li No Caminho de Swann em setembro e tive sentimentos conflitantes. Cheguei a pensar que seria um dos meus favoritos da vida inteira, cheguei a achar que era tudo neurose de um autor recalcado pela liberdade de uma mulher. No fim, eu consegui encontrar um meio termo. Gostei muito, entendo a empolgação dos críticos e a reputação que o livro tem. No caminho de Swann é a história de um sujeito torturado por si mesmo, por seus pensamentos tortos de posse e paranoia. Uma história sobre o reflexo da nossa cabeça na imagem que a gente faz dos outros. Mas dizer só isso seria reduzir o romance. A primeira parte é irresistível: nela um menino narra sua infância na casa de verão de sua família. Os desdobramentos dessa infância são narrados com riqueza de detalhes, com um poder muito grande de criar imagens e dar vida ao texto. Eu saí encantada e achando que perdi tempo (opa, trocadilho involuntário) por não ter começado antes.

Que mais? Por hoje é só. Hoje é dia 30 de outubro e eu me declaro em dia com a minha meta. Terminei o livro de outubro na semana passada, mas vou guardá-lo para o texto de dezembro, que é tradicionalmente o mês em que a gente revê nossas escolhas. Andei pensando numa meta para o ano que vem, e acho que essa ela vai ter relação com o fim de todas as metas.

Dois anos de blog e uma comemoração contida

adorariaNesta semana o blog comemora dois anos de vida (eu acho que é nesta semana, mas é em setembro sem dúvida!), e como o negócio aqui é meio parado, não teremos sorteios, brindes, nem nada dessas coisas que os blogs legais têm. Ano passado, como comemoração, eu expliquei no post de aniversário a origem do nome do blog, mas agora já queimei esse cartucho e não consegui pensar em nada assim tão legal. Por isso resolvi apenas falar das últimas coisas que andei lendo e assistindo. Ok, eu sei que para isso nem precisava avisar do aniversário, mas deixar passar em branco também não é do meu feitio.

Tudo bem. Eu andei lendo alguns livros bem legais, assistindo a muita série ruim (e a outras boazinhas) e poucos filmes que valeram a pena. Não tenho tido tempo de ir ao cinema, por isso tenho vivido na ilegalidade. Sempre acho que um dia o governo vai me pegar e meu azar vai ser tão grande que eles vão querer me fazer de exemplo: cadeia nela!

Minha meta de leitura de 2017 está indo bem graças a um novo método: eu agora calculo antecipadamente quantas páginas preciso ler por dia, durante o mês inteiro, e anoto num papel (que acaba virando marcador) as datas e as páginas a que tenho que chegar a cada dia. No momento estou lendo No caminho de Swann e minha média é de 15 páginas por dia, um número perfeito para ler bem de manhãzinha antes de começar a labuta. Com o mesmo método eu terminei Vida e destino, Doutor Jivago e Todos os Contos da Clarice Lispector. Fico feliz com esse método porque finalmente estou dando conta de ler a meta sem me embananar com tudo o que me aparece fora dela. Parece neurose, mas facilita muito e me ajuda a ter constância.

Só que minhas últimas leituras não foram clássicos. Continuo lendo Outlander e sigo atrasada com a infinidade de livros da série. Terminei Os tambores de outono – Parte 1, mas a segunda parte ainda me espera. Me empolgo só de olhar a pilha de livros aqui de casa e saber que ainda tenho muito a aproveitar na companhia de Claire e Jamie. Também li dois thrillers bem bacanas: O casal que mora ao lado e Por trás dos seus olhos. O primeiro é curtinho e traz o suspense do desaparecimento de um bebê que fica sozinho em casa enquanto os pais jantam na casa ao lado. Dá para ler em uma sentada e, mesmo que não tenha um fim tão surpreendente, nos deixa ligados do começo ao fim. O segundo livro é um pouco mais longo e narra a história de uma mulher que fica amiga da esposa do chefe. Acontece que ela teve um flerte com ele (beijou o sujeito, para falar a verdade). O fim é bem louco, mas bem diferente, e me deixou de queixo caído. No Skoob quase todo mundo que leu ficou da mesma forma.

Animada com esses dois acabei lendo outros thrillers bem ruins: Um pequeno favor e A desconhecida. Os dois contam histórias de mulheres mentalmente perturbadas e desinteressantes. Também li (finalmente!) Agora e para sempre, Lara Jean e Mr. Romance. Ambos foram bem fofos.

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Mike e Harvey lindos

Agosto e início de setembro são sempre meio parados para as séries de televisão, mas mesmo assim encontrei algumas interessantes. Comecei a ver Suits sem acreditar que investiria muito do meu tempo, mas agora estou viciada em Mike e Harvey. Esses dois eu shippo muito (e acabo de descobrir que já existe um nome para o ship deles: Marvey). Falando em shippar, terminei por estes dias a segunda temporada de Animal Kingdom e, se na primeira temporada eu não tinha certeza de que a série iria vingar, a segunda temporada veio para me dizer que sim, os meninos Cody são especiais e merecem ser acompanhados. Pena que são apenas 13 episódios.

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Jessica Biel em The Sinner

Quanto aos suspenses, se eu não gostei de Mr. Mercedes, The Sinner foi bem diferente. Tem a Jessical Biel e o Bill Pulman. O piloto da série me surpreendeu por um evento que pareceu muito aleatório (não dá para ser mais específica sem estragar tudo), mas que foi bem costurado nos outros sete episódios. Strike, aquele da J. K. Rowling, estreou e já acabou (foi tudo muito rápido mesmo) em apenas cinco partes. Uma terceira temporada vai chegar em 2018, mas os capítulos são tão curtos que sinto que, se eu não tivesse lido os livros, não teria entendido coisa nenhuma. Mas a música da abertura é ótima! (só que não vale a pena assistir só por isso, dá para ver a abertura pelo Youtube).

Nas últimas semanas comecei a assistir a The Deuce, que parece bem promissora. É do mesmo criador de The Wire (de que meu marido tentou me fazer gostar, sem sucesso) e tem no elenco James Franco e Maggie Gyllenhaal. A série é lenta e talvez entusiasme mais os fãs de cinema do que os de televisão, mas ainda é cedo para tirar conclusões. Liar e Star Trek: Discovery são outras duas que comecei a assistir por esses dias e ainda não sei aonde vão chegar. Por enquanto foram dois episódios de cada, vale acompanhar mais um pouco.

Ultimamente os filmes estão meio ausentes dos meus dias. Sempre tenho que escolher à noite entre livro, filme e série e os filmes têm levado a pior. Mas eu vi Baby Driver que foi muito bom, cheio de ação e com cenas de carro melhores que as de Velozes e Furiosos (mentira, não posso comparar; nunca vi a franquia do Vin Diesel, que todo mundo ou ama ou odeia). Também vi The Big Sick, uma comédia romântica que tinha tudo para ser boa mas se perdeu na baboseira de tentar dar um final feliz (e chato) para todo mundo.

Bom, o post de comemoração é este. Não parece muito comemorativo, mas estou bem feliz de ter um cantinho há dois anos para falar das minhas paixões mais antigas. Para celebrar um pouquinho mais, segura esse vídeo do Johnny Castle ensinando a Baby a dançar:

Legião, de William Peter Blatty

Legião darkside

Quando William Peter Blatty escreveu Legião, ele já era famoso por O Exorcista, o livro, e pelo roteiro de sua adaptação ao cinema. O filme não precisa de introduções. Deve ter gente que nunca o viu e mesmo assim pode dizer tudo o que acontece, tamanha a permanência dessa franquia na cultura popular. Partindo daí Legião tenta duas coisas bem difíceis: contar uma história totalmente nova e, ao mesmo tempo, reclamar para ela o renome e a distinção da história antiga.

O problema é que o romance original não precisava de sequência. O Exorcista é uma história de redenção, de expiação e, por fim, da luta do bem contra o mal. Depois de uma jornada terrível, o bem vence – mas a vitória é tão custosa que a sensação que fica, tanto no romance quanto no filme, é a de que o mal estará para sempre à espreita, ou seja, de que a batalha é eterna. Só que a história daquelas pessoas, da menina Regan, da mãe dela, dos padres Damien Karras e Lankester Merrin, já havia sido contada.

Para não deixar a chama se apagar, William Peter Blatty fez de Legião (que saiu no Brasil pela Darkside, na tradução de Eduardo Alves) um romance policial com todos os ingredientes a que a gente já se acostumou e, como que por obrigação, deu um jeito de costurar nele o pano de fundo sobrenatural que o liga a O Exorcista. Um assassinato ritualístico e um detetive em crise existencial são ingredientes de metade dos romances policiais que já se fez. O detetive Kinderman, que no primeiro livro investigava uma morte suspeita, é agora um homem amargurado (embora amoroso) e desiludido com (literalmente) Deus e o mundo. Veterano, ele já viu muita coisa feia, muita maldade e loucura, mas quando o encontramos ele está na cena de um crime que não acontece todo dia. Um menino foi crucificado. Ao que tudo indica, ele passou consciente por dor e sofrimento. Isso leva Kinderman a pensar.

E quando Kinderman pensa o livro fica um pouco chato. Legião tem algumas das mesmas qualidades que fizeram de O Exorcista uma história inesquecível. Blatty cria cenas memoráveis, todas sob uma espécie de horror ao mesmo tempo sobrenatural e mundano; seus personagens são sombrios e deprimidos, todos com cruzes a carregar, mas, enquanto o sucesso do primeiro livro se deve em parte à simplicidade da batalha do bem contra o mal, a maior fraqueza de Legião está em tentar esmiuçar essa luta em digressões que vão das meio bobas às bastante constrangedoras, ditas sempre através de Kinderman, seja em fluxos de consciência, seja em diálogos extremamente mastigados e um pouco caricatos. O detetive está à beira da loucura, tudo bem, mas isso não o exime de ser um verdadeiro apanhado de todos os clichês de detetive já feitos.

Isso significa que Legião é ruim? De jeito nenhum, mas vale avisar que há umas oitenta ou cem páginas, mais ou menos no meio do livro, sobre as quais é necessário passar correndo: as sacadas de Kinderman quebram verossimilhança, deixam evidente a voz do autor (com isso esvaziando o personagem), parecem saídas diretamente da enciclopédia Barsa, às vezes são só bobinhas, às vezes bem pretensiosas. Ter que remeter essa história de um detetive no rastro de um serial killer ao exorcismo do primeiro livro também não ajuda. Blatty precisou ressuscitar um personagem, rearrumar certas circunstâncias, explicar eventos que não só não precisavam de explicações como ainda saem prejudicados por elas.

Essa bagunça é triste porque alguns dos elementos novos são muito bons: a história de origem do Geminiano, o serial killer em questão, é de gelar a alma; o hospital em que boa parte da ação se passa cria vida através das histórias bizarras de seus muitos internos; as mortes são intrigantes e criativas. Para não cometer injustiça, mesmo que boa parte da construção de Kinderman seja prejudicada por aquele palavrório aborrecedor, a personalidade do detetive consegue ganhar força nas cenas em que ele se concentra em sua família, e no capítulo final, que me parece mais otimista e menos apressado que o do primeiro livro.

Por último, vale lembrar que Legião inspirou o filme O Exorcista III, com direção do próprio William Peter Blatty. É assistir e não dormir por uns três dias.

Vida e Destino

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Viktor Chtrum é um cientista judeu que vive na União Soviética. Ele segue trabalhando em plena Segunda Guerra Mundial. Com ele moram a esposa, a filha e a sogra. A vida não está fácil, mas há muitos soviéticos em situação pior. A mãe dele, por exemplo, que nunca se entendeu com a nora e mora em outra cidade, vive na pele a pior época para ser uma senhora judia na Europa. Em outro lugar, no mesmo período, alguns prisioneiros de guerra vivem uma vida tão difícil quanto a dos prisioneiros dos campos de concentração. Há também os presos longe da guerra, aqueles que cometeram crimes políticos ou comuns; para eles a situação também é ruim. Enquanto tudo isso acontece, mais judeus estão dentro de vagões de trem em direção ao extermínio. O clima é de sujeira, fome, frio, aperto e profunda desesperança.

Vida e Destino, de Vassili Grossman, fala sobre essas e outras pessoas, mas trata principalmente de uma era negra na União Soviética. Na altura da Segunda Guerra os líderes soviéticos travavam duas batalhas: uma com os alemães, que eram o inimigo externo, e outra com seu próprio povo. O Estado totalitário fazia com que todos desconfiassem uns dos outros; em busca da própria salvação, não era raro que um camarada denunciasse o outro como traidor da revolução. A suspeita pairava acima da cabeça de todos e frases bobas ou piadas infames acabavam em penas longas e reputações arruinadas. Mas Vida e Destino é mais que um compilado minucioso da vida sob o totalitarismo. O livro consegue analisar profundamente o mal através de vários pontos; o extermínio sem sentido, a paranoia mesmo entre amigos de longa data, a fome e a miséria: tudo é parte de um quadro em que o que se analisa é a humanidade e o que significa estar vivo e fazer o bem.

São 900 páginas de muito sofrimento e de passagens que me deixavam ora com desgosto, ora com desânimo. Eu podia sentir aquela maldade entranhada nas picuinhas políticas, mas inerente às pessoas. Admito que chorei em mais de um momento muito difícil, e acho que é impossível não sair cambaleando da leitura de Vida e Destino. São muitos os livros sobre as brutalidades e a barbárie das guerras, mas eu ainda não havia experimentado esse sentimento de perplexidade diante da tragédia que encontrei no livro de Vassili Grossman.

Vai ver o impacto acontece porque o autor viveu aquilo de perto, como correspondente de guerra. Mas o realismo das descrições da vida em um lugar, em uma determinada época, não foi o que mais me comoveu. O que me deixou espantada foram as intervenções de Grossman, a maneira como seu narrador se debruça sobre os acontecimentos para refletir sobre eles. Meu exemplar está todo rabiscado e minha vontade era transcrever aqui tudo o que me emocionou, como se com isso fosse possível convencer alguém a tirar o livro de uma prateleira e começar a leitura na mesma hora.

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Qualquer livro sobre guerra não seria a minha primeira escolha de leitura. A quantidade de nomes de lugares e personagens deu um nó na minha cabeça. Eu comecei sem ter certeza de que iria até o final, mas aí bati o olho nesse parágrafo:

Os olhos dela, que tinham lido Homero, o jornal Izvéstia, Huckleberry Finn, Mayne Reid, a Lógica de Hegel, que haviam visto gente boa e gente má, os gansos nos prados verdes de Kursk, as estrelas no telescópio de Púlkovo, o brilho do aço cirúrgico, a Gioconda no Louvre, os tomates e nabos nas gôndolas dos mercados, o azul do lago Issik-Kul, agora não lhe eram mais necessários. Se alguém a cegasse naquele instante ela não sentiria a perda.

Foi ali que eu percebi que às vezes o que a gente tem que fazer é abrir o livro que não parece ter muito a ver com o que a gente quer de uma leitura. Eu não conhecia Vassili Grossman. Meu marido comprou o livro em 2015 e, assim que o terminou, começou uma campanha para eu lê-lo logo. Só agora em 2017, acompanhando o canal Lido Lendo, foi que eu soube que Vida e Destino havia sido escolhido para uma leitura compartilhada durante o mês de julho. Achei que era a hora de dar uma chance. Segui o cronograma estabelecido e adorei avançar no livro enquanto acompanhava a opinião dos outros.

Às vezes quando eu leio um livro de gênero eu penso naquela velha história de que sempre precisamos de uma dose de pré-disposição para encarar qualquer ficção. Afinal, é preciso boa vontade para comprar uma história e ler a respeito de monstros, vampiros, zumbis, magnatas de 25 anos solteiros e amorosos, fantasmas e toda a coleção de coisas que não aconteceram e nunca vão acontecer. Não importa o gênero. Se há muita invencionice, é preciso que a gente esteja disposta a encarar a leitura e fazer a tal viagem. Isso é uma das melhores coisas que a literatura proporciona, mas às vezes é bom e importante ler um livro que não demanda esforço da imaginação para que a gente entenda profundamente o que há de melhor e pior no mundo. O melhor e o pior estão ali representados, de um jeito preciso e profundo. Grossman investigou e revelou situações que não eram de conhecimento geral naquela época. Tanto quanto um livro como Doutor Jivago, Vida e Destino mostrou para o resto do mundo o tamanho do desastre que era a União Soviética. Se para encontrar isso um leitor precisa de certa dose de coragem, o que dizer do trabalho de quem escreve?

É impressionante a empreitada de escrever com tanta sinceridade em um momento tão perigoso. Para terminar, eu só queria deixar um trechinho desses que renovam o amor da gente pela literatura (lembrando que a tradução do russo é de Irineu Franco Perpétuo):

A história dos homens não é a batalha do bem tentando vencer o mal. A história do ser humano é a batalha do grande mal para reduzir a pó a semente do humanismo. Mas se nem agora o humano foi morto dentro do homem, então o mal não há de triunfar.