Três livros da meta de 2017

Ano passado eu tive a brilhante ideia de criar uma meta de leitura com 12 livros que estavam encostados aqui na prateleira de casa. Um para cada mês, fora os outros que fossem aparecendo durante o ano. Um outro objetivo era escrever um texto para cada livro aqui no blog. 2016 acabou, eu dei conta da tarefa e fiquei muito feliz. É tão difícil finalizar uma coisa, qualquer coisa, que eu pulo de alegria quando consigo. Empolgada, em 2017 eu resolvi dificultar um pouco mais e incluí livros que acabaram exigindo uma leitura mais lenta, seja por conta do número de páginas ou das características de tal e tal obra.

Mas o ano está super corrido e é claro que agora, depois da metade de julho, eu me encontro arrependida e atrasada. É que eu me embolei com alguns romances e ainda resolvi ler outros bem exigentes (em tempo, disposição, atenção…), coisas que nem estavam nos planos. E aí me esforço para lembrar que isso aqui é um hobby, um dos prazeres da vida. É tão bom achar livros empolgantes, lê-los e descobrir mais e continuar nesse ciclo infinito (nem tão infinito porque um dia a gente morre e acaba o tempo para ler e deixa tudo para trás, mas acho que me fiz entender).

Não estou querendo dizer que abandonei a meta. Um dia eu gostaria de ser outra pessoa e ter esse desprendimento para dizer que não deu e paciência. O que eu vou ter que fazer é rearranjar todo o esquema, já que (1) não estava prático escrever os textos sobre os livros, (2) ninguém se importava mesmo e (3) mesmo gostando de alguma coisa, nem sempre eu tenho o que dizer sobre ela. Daí eu resolvi fazer a metade da tarefa, ou seja: vou em frente, terminando livro a livro quando conseguir, e agora, em vez de escrever um texto para cada um e publicá-lo no começo do mês seguinte, vou agrupar três livros de cada vez, escrever quando for possível e postar quando der vontade.

Né? Que pessoa liberada, sensata, despreocupada.

Três dos que eu já terminei (os outros três da meta já lidos foram resenhados aqui, aqui e aqui):

memórias de adriano

Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, foi o melhor livro que eu li em 2017. Não acho que isso vá mudar até o fim do ano. Não foi uma surpresa porque toda a aura do romance me dizia que ele seria especial. Também foi um dos livros mais contemplativos que eu já li. Eu só conseguia ler poucas páginas por dia e em total silêncio, sem música, vozes, passarinhos cantando. O livro é como uma autobiografia do imperador Adriano. São memórias de um homem que viveu coisas perversas, mas que ainda era uma pessoa. É fácil aceitar as palavras de Yourcenar e acreditar que você está lendo os pensamentos de um imperador. O que aparece na página são as memórias de um homem poderoso. Nada parece ficar de fora: há meditações sobre guerras, namoricos, inimigos, amizades, desafios. Tudo soa verdadeiro, tudo parece real. Acho que ninguém chegaria mais perto disso do que ela. Acho incrível que Marguertite Yourcenar não seja mais comentada e lida. Memórias de Adriano é muito poético, mas de uma profundidade honesta, sem artificialidade. Nunca li nada como esse livro.

a força das coisas

O próximo livro da meta foi A Força das Coisas, de Simone de Beauvoir. Nem me lembro de quando li Memórias de uma moça bem-comportada, que é o primeiro desta série autobiográfica. Só lembro que a edição era velha e a leitura foi tocante: me identifiquei e até ri muito com os relatos dela. Um dia encontrei num sebo esse A força das coisas, novinho e por um ótimo preço. Mas desde que li Tête-à-Tête: Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre eu peguei um pouco de má vontade com a dupla. Por isso, por achar que se não me forçasse eu demoraria muito para ler novamente alguma coisa de um deles, coloquei na meta do ano A força das coisas. Nele encontramos Beauvoir madura, no alto dos seus cinquenta e poucos anos, e por isso um tanto mais soturna. Eu não consegui repetir o sentimento daquele primeiro livro. As questões políticas discutidas no livro não me impressionaram, Sartre foi a palavra mais repetida página por página, a ponto de eu pegar bronca. Mas ela é a Simone de Beauvoir e apenas ler suas reflexões sobre os romances que escreveu já faz valer a leitura. Eu daria tudo para que todo autor bom tivesse a mesma disposição para revisitar o que escreveu, e nesse volume Beauvoir nos presenteia com isso. Ah, o livro também vale para ver o Brasil pelos olhos dela, já que há muita coisa a respeito de sua visita ao Brasil e as coisas e pessoas que viu por aqui: Jorge Amado, o Rio de Janeiro, Zélia Gattai, Rubem Braga.

evelina frances burney

Na sequência veio Evelina. É o livro que consta na meta para o mês de junho, e eu só terminei por esses dias. Em algum lugar e há muito tempo eu li que Frances Burney era uma das escritoras preferidas de Jane Austen. Daí surgiu esta edição publicada pela Pedrazul. Foi uma das minhas primeiras compras pelo site da editora, há muito tempo, e só agora eu tive a decência de ler. Para quem espera algo parecido com Jane Austen: não espere. Enquanto eu lia Evelina não pude deixar de pensar: ah, sim, por isso que Jane Austen e Charlotte Brontë são tão festejadas até hoje. Elas eram diferentes e seus romances fogem muito do que era padrão. Não é o caso de Evelina. Assim como outros romances da época (a primeira edição é de 1778), esse de Burney tem uma mocinha delicada e de caráter, mas sem voz. O livro não se sustenta fora de seu contexto editorial. É a história de uma moça sem muitos recursos financeiros que se vê enrolada no meio de personagens de má índole. Num mar de gente incivilizada, uma pessoa se destaca: o mocinho. A leitura emperrou um pouco, mas a imersão foi possível, o valor histórico é grande. Evelina me lembrou de A intrusa, de Júlia Lopes de Almeida, um romance brasileiro que veio ao mundo mais de 100 anos depois. O que fica é o estudo dos costumes, essas coisas. A edição estava um pouco truncada, a diagramação estava difícil, mas vale a pena para entender o contexto que pôde gerar, poucos anos depois, os sensacionais romances de Austen e das Brontë.

Com a missão parcialmente cumprida, eu dou tchau.

Dois romances policiais que valem a pena

Uma das minhas primeiras leituras foi um romance da Agatha Christie que eu comprei numa banquinha de revistas. Isso foi em 1997. O livro era Morte no Nilo. Eu só me lembro disso porque ainda guardo o exemplar. Na primeira página escrevi o meu nome completo e a data, com a minha letra ainda infantil, só para atestar que aquele livro era meu (quem tem irmãos mais velhos sabe que é necessário marcar com o nome os objetos mais queridos). De lá para cá eu li uns bons livros dela e do Conan Doyle. Dificilmente passo dois meses sem ler um romance policial. A oferta tem sido muito grande, mas alguns elementos estão em falta.

Sinto que há ondas no mundo editorial. Crepúsculo trouxe consigo uma infinidade de outros romances sobrenaturais. Aos poucos, a chama foi se apagando. Jogos Vorazes veio em seguida e vimos as livrarias inundadas por distopias de variada qualidade. Mas isso já faz tempo. Agora em 2017 quando eu vago o Skoob atrás de novidades e boas histórias, chego a me cansar de ver livros de fantasia young adult e romances policiais das mais variadas origens – tem os escandinavos, tem os ingleses, e tem também, como não poderia deixar de ser, os americanos. O problema é que eles têm muita coisa em comum. Acho que Garota Exemplar, embora não seja um policial no sentido estrito, trouxe uma nova onda de thrillers meio adultos e de temática relativamente pesada. Sob a influência do sucesso do livro de Gillian Flynn, muito do que surge parece ter o mesmo tom.

indesejadas

É muito difícil, nesse mar de livros, nessa verdadeira bola de neve, escolher o que ler. As editoras estão cada vez mais especializadas em nos enganar com capas lindas e sinopses esquivas. Muita coisa parece legal e, se a gente se deixar levar, sai comprando tudo e cai até em crise existencial por não saber o que tirar da prateleira. Eu queria falar sobre dois romances que li recentemente, e que fogem um pouquinho da regra por apresentarem personagens excelentes. Um é Indesejadas, o primeiro da série Fredrika Bergman & Alex Recht, da sueca Kristina Ohlsson. Aqui no Brasil a série vai pelo terceiro livro. Fredrika e Alex são os investigadores da vez. Em Indesejadas eles precisam desvendar um desaparecimento que logo se revela assassinato. Não há muito o que contar sem soltar spoilers. O caso é complicado e de deixar o leitor sentado na ponta do sofá (ou da cadeira, da cama, do que for de preferência). Só que, para mim, o diferencial desse livro é o carisma dos personagens. Os protagonistas são um ponto fundamental. Quando o detetive é ruim, o romance policial parece durar uma eternidade. Não é o caso aqui. Há rixas, ciúmes, desavenças. O livro é longo. São quase 400 páginas, então o foco fica bem dividido entre o crime que precisa ser solucionado e a vida de Alex, Fredrika e Peder. Discórdia entre policiais é um clichê nem sempre bem vindo, mas aqui não há enfrentamentos irritantes. O lugar-comum dá espaço a crises que parecem genuínas. Eu me senti na pele de uma policial ferrada durante a leitura de Indesejadas. Um outro ponto bacana é que em Indesejadas o frio, que obviamente é marca registrada da Escandinávia, sai de cena para a chegada do verão. Não é muito comum sentir calor ao ler um romance sueco.

A garota no gelo

O segundo livro é A Garota no Gelo, que também é o primeiro de vários, dessa vez pelo autor britânico Robert Bryndza. Ele nos apresenta a série da detetive Erika Foster, com dois volumes publicados no Brasil até agora. A detetive está deprimida e acaba de voltar a trabalhar. Seu marido foi morto em uma ação policial que a tinha como comandante. Ela se sente culpada, e todo mundo acha que ela tem culpa mesmo. Atrás de novos ares, ela vai para Londres investigar um assassinato. Um recomeço. Mas não para uma jovem rica que foi achada morta em um bairro decadente. O caso cai nas mãos de Erika. Ela não conhece ninguém da equipe e vai se desentender com muita gente para conseguir juntas as peças. A detetive é chata (mas a gente simpatiza com ela), intransigente e ranzinza: meu tipo preferido de personagem. De novo, como é de praxe, o livro fica bem dividido entre a vida da protagonista e o caso a ser solucionado.

Sempre me alegro quando vejo uma protagonista como Erika, com esse gostinho amargo de rabugice e com brio. Uma pessoa com espírito resistente, mas cheia de manias bizarras. A Fredrika de Indesejadas não fica atrás. Quando elas pegam os assassinos fica aquela sensação de justiça feita e missão cumprida.

É importante que a trama seja intrigante e que as pontas não fiquem soltas, mas isso não é tudo. Eu adoro me apegar aos protagonistas, mas isso tem ficado cada vez mais difícil. Todo personagem parece igual, com tiques, costumes e mensagens parecidos. Esses dois romances que eu destaco não trazem novidades, e para falar a verdade eles têm muito em comum com o bolo de coisas parecidas que a gente encontra nas livrarias, mas, se você é como eu e é capaz de seguir um personagem bom aonde quer que ele vá, vale a pena passar umas horas investigando esses casos esquisitos.

Deixei você ir

Deixei você ir

Uma mulher luta para seguir a vida depois de um acidente terrível. Um detetive com problemas familiares se vê às voltas com o caso de um menino morto. Deixei Você Ir, de Clare Mackintosh, é a história de duas pessoas corroídas pelos fatos de um acidente trágico. Em um dia chuvoso o menino Jacob é atropelado por um carro em alta velocidade. O motorista foge do local, deixando o menino morto na rua. A mãe  presenciou tudo. A equipe do detetive Ray Stevens começa a investigar o ocorrido, mas as provas são poucas e parece impossível descobrir quem faria tamanha crueldade. Jenna precisa recomeçar, mas não tem como superar aquela morte. Ela se muda para uma praia isolada, aluga uma cabana e tenta viver.

A sinopse de Deixei você ir entrega um clima de romance policial, mas depois de poucas páginas já notamos que a investigação e a busca pelo assassino não são o ponto crucial da história. Os capítulos são alternados entre a investigação (com lampejos da vida particular do detetive Ray) e o recomeço mais do que complicado de Jenna. O detetive e sua equipe trabalham no caso do atropelamento, mas ele também está com muitos problemas em casa. O filho mais velho está estranho, com alguns problemas na escola; o relacionamento com a esposa também não parece o mesmo, e sua companheira de trabalho, a jovem Kate, parece ser exatamente aquilo que ele precisa para fugir dos problemas.  Dessa forma, a investigação fica permeada pelos dilemas  de Ray e por causa disso, ainda que este seja um recurso comum em romances policiais, aqui vai uma reclamação: achei tudo o que envolvia o detetive bem desinteressante.

As partes de Jenna, pelo contrário, são o ponto alto do livro.  Os capítulos na praia, em que ela tenta começar de novo, me fizeram continuar a leitura. Mas esqueça qualquer resquício de romance policial enquanto a história se concentra nela. O livro vira um romance reflexivo sobre uma mulher e sua vida estilhaçada, alguém que tem poucos amigos e conhece um homem, por quem se apaixona. A primeira metade de Deixei você ir se dá assim. É na segunda parte que acontece uma reviravolta. O livro deixa de ser morno e nos ajuda a entender melhor a personagem de Jenna. Clare Mackintosh me enganou direitinho com um desses recursos que estão na moda nos thrillers de hoje em dia.

Para mim, Deixei você ir não foi uma das melhores leituras do ano, mas está longe de ser maçante. A reviravolta coloca a história inteira sob outra perspectiva, e por causa disso a segunda metade do livro ganha fôlego. Além disso, Mackintosh me fez torcer por Jenna, e isso sempre requer uma dose de identificação não só com a tristeza gerada pela tragédia, mas com os pensamentos que surgem dela.

Deixei você ir intrinseca

Para quem já leu ou para quem quer spoilers

Como eu não consigo me controlar, preciso contar mais dessa segunda metade do romance. Saber de alguns detalhes não atrapalha, mas tem coisa que anula um livro inteiro. Acho que fica impossível ler Deixei você ir sabendo da reviravolta. Seria outra experiência. Fica o aviso.

Jenna passa todos os capítulos da primeira metade do livro se sentindo culpada. Jacob morreu e ela, claro, não consegue lidar com isso. O leitor sabe que a mãe de Jacob não segurou a mão dele ao atravessar a rua, e que ela se culpa por isso. A autora nos induz a acreditar que Jenna é a mãe de Jacob. Por que ela estaria com culpa e precisaria reaprender a viver se não fosse a mãe? Porque ela é a assassina, a atropeladora! No fim, a polícia descobre que o carro que atropelou o menino é de Jenna e a prende. Ela assume toda a responsabilidade, dando um nó na cabeça do leitor (pelo menos na minha, vai que você é mais inteligente e percebeu rapidamente tudo o que acontecia?).

Jenna é uma boa pessoa que tomou más decisões, mas ela tem um motivo. Na segunda metade do livro um novo personagem é inserido. Ian era marido de Jenna, um sujeito abusivo e violento. Ele narra todo o relacionamento dos dois desde que se conheceram. É incrível ver fatos horríveis pelos olhos de uma pessoa que acha normal fazer a namorada engolir água sanitária. Aos poucos nós vamos entendendo por que Jenna se isolou numa cabana no meio do nada e por que ela tem medo de tudo. Ian é violento e está atrás dela. Só aí o livro fica com cara de thriller, só a essa altura entendemos que o tema central da história é a violência doméstica e não as consequências do assassinato do menino Jacob.

Meu único problema com Deixei você ir? Bom, se você ainda não leu o livro e aguentou todos esses spoilers vai aguentar mais este choque: Ian atropelou Jacob enquanto Jenna estava no banco do passageiro. Foi ele. Foi mais uma das vilezas dele. Mas ela assume a culpa, sozinha, pois acha que alguém precisa pagar pelo sofrimento da mãe de Jacob. Eu entendo que uma vítima de violência doméstica pode não conseguir delatar seu agressor por puro medo, mas simplesmente não me caiu bem que Jenna tenha deixado um abusador assassino escapar impune. Achei que esse foi um grande furo, mas isso não estraga o livro.

Quatro livros de Alessandra Torre

livrosDepois de terminar uma leitura longa, de um romance um pouco complicado, eu gosto de me dedicar a livros que parecem novelas de televisão. Pode parecer estranho terminar O Vermelho e o Negro e já pegar um livro em que não acontece nada, um desses para os quais as pessoas fazem careta, mas foi assim que eu peguei gosto pela leitura: misturando todo tipo de coisa. Eu nunca conseguiria ler apenas clássicos, porque me faltaria aquela sensação de prazer que só um sentimento banal mas genuíno pode nos dar. Ao mesmo tempo, também nunca conseguiria ler apenas romances levíssimos, pois aí o vazio tomaria conta de mim. Foi assim que, depois de terminar O Vermelho e o Negro, eu engatei em um livro atrás do outro de Alessandra Torre. Eu não a conhecia e o o nome me levou a pensar que se tratava de uma brasileira, mas não: ela não só é gringa como também nenhuma editora brasileira se interessou em publicá-la, o que é uma pena porque a popularidade de Torre entre brasileiras só aumenta.

love chloe

Rodando pela internet eu encontrei Love, Chloe e adorei tanto a capa quanto o  título. Decidi tentar a sorte. O livro é legalzinho, mas não empolga. Chloe é uma garota rica e mimada que nunca precisou trabalhar na vida. As coisas mudam quando seus pais perdem todo o dinheiro, mas ela acaba mostrando que consegue se virar muito bem. Tem um triângulo amoroso entre ela, o ex-namorado e um cara que ela acabou de conhecer. O livro parece querer ser um chick lit. A protagonista é meio desmiolada, mas não de um jeito muito legal. Talvez por querer dar um ar leve para tudo, a autora erra a mão e todos os personagens parecem destituídos de vida. Mas isso não foi o suficiente para me fazer desistir de Alessandra Torre. No Skoob e no Goodreads eu li opiniões tão positivas sobre seus outros romances que resolvi continuar.

O segundo livro lido foi Tight. Fiquei espantada que a mesma autora tenha escrito Love, Chloe e Tight. Para quem gosta do gênero dark, que aliás eu nem me arrisco a definir, aqui está uma ótima escolha. O que eu mais gosto nesses livros é o tamanho da loucura das autoras: cada história é o roteiro de uma novela mexicana acrescido de pirações pelos submundos do sexo e da psicopatia. Para explicar melhor do que trata Tight, não vou conter os spoilers, então se você se interessou a ponto de querer lê-lo, o texto acaba aqui. Brett é um homem apaixonado que perdeu seu grande amor para o tráfico de mulheres. Como ele é um cara muito rico (isso é pré-requisito para todo mocinho) ele decide dedicar sua vida a resgatar meninas raptadas e vendidas para homens que querem apenas abusá-las de todas as formas imagináveis. Riley é a mocinha que aparece na vida dele. Ela não tem a menor ideia de toda essa história de tráfico de mulheres e não sabe o que acontece na vida de Brett. Um dia os dois se esbarram e se apaixonam. O livro é isso, mas os capítulos são intercalados por Riley e Brett se apaixonando e pela narrativa de uma garota que vive em cativeiro, esperando que um dia Brett a salve.

tight alessandra torre

Acho que, como todo mundo que leu Tight, eu passei o livro inteiro tendo certeza de que a garota que aparece nos capítulos contando seus dias no cativeiro era o grande amor da vida de Brett, aquela que ele amava antes de conhecer Riley e que sumira para sempre. Como em qualquer outro livro do gênero eu sabia que uma grande reviravolta aconteceria, mas não imaginava sua magnitude. Se você ainda está lendo, vou avisar novamente: vou dar o spoiler que vai destruir Tight para quem ainda pretende começar. Riley parece desconfiar que Brett está envolvido em negócios ilegais e resolve segui-lo. O negócio ilegal é a compra de meninas raptadas, mas ela não sabe que ele é bonzinho e que as compra para libertá-las. Acontece que Riley é raptada, afinal, ela o seguiu de forma imprudente, alguém a viu e a oportunidade falou mais alto. Então quem é a moça no cativeiro, que aparece em capítulos alternados? Ninguém menos que Riley, ela mesma, que ficou nove meses presa em um quartinho, vivendo com seu raptor, até ser finalmente vendida, é claro, para o grande amor de sua vida, aquele que compra escravas para ser humanitário. Mas e o grande amor do passado? O grande amor que Brett perdeu no tráfico de mulheres é sua irmã que foi morta pouco tempo depois de ser sequestrada. Super reviravolta em um livro bem louco.

Empolgada com os delírios de Alessandra Torre, parti para o próximo. Black Lies prometia uma super reviravolta no fim, mas eu entendi o grande mistério da história bem no começo da leitura e isso arruinou tudo. Nessa hora tive certeza de que, sem o mistério da reviravolta, esses livros perdem a razão de ser. Por isso me senti uma guerreira por terminar a leitura. A sinopse conta que há um triângulo amoroso: a protagonista + um cara rico mauricinho + um jardineiro rude. Agora aqui vai o spoiler que destrói a leitura: não há dois caras, há apenas o mesmo maluco com transtorno dissociativo  de identidade. Ele é o cara rico e o jardineiro ao mesmo tempo. Por isso a protagonista, que parecia tão apaixonada por um, consegue se envolver rapidamente com o outro. Eu concordo que esse foi bem fraco, mas tinha potencial. Alguma vez, na vida real, alguém com o raríssimo transtorno de dupla personalidade causou tanto estrago quanto se causa na ficção? Totalmente novela mexicana.

hollywood dirt alessandra torre

Por último, resolvi tentar um sem reviravoltas malucas e, olha, foi uma boa ideia, porque encontrei o que talvez seja o melhor livro de Alessandra Torre. Hollywood Dirt é leve, fofo e bem romântico. Summer é uma garota do interior e Cole é um ator de Hollywood, super famoso e badalado. Ele acaba indo filmar na cidadezinha dela. Ela é teimosa e orgulhosa e ele logo se apaixona, mas não admite. Eles vão brigar, vão se estranhar e por fim vão se entregar ao amor. O clima de cidade pequena foi o que mais me empolgou, muito porque é covardia fazer essas coisas comigo já que a minha memória afetiva está ligada a lugares assim. Fui fisgada, adorei ver a autora em um universo ligeiramente menos bizarro, mas não sei: nada como aquela sensação de que a Maria do Bairro acabou indo parar num filme policial dos anos 1990 e agora precisa se livrar de um serial killer por quem vai acabar se apaixonando.

O vermelho e o negro

o vermelho e o negro

Durante boa parte dos meses de março e abril eu me dediquei a O vermelho e o negro e, para falar a verdade, sei lá. Se eu não tivesse me obrigando a fazer um texto por livro da meta (a minha meta, os doze obrigatórios que estavam parados aqui em casa) nem tentaria juntar duas palavras sobre o que acabei de ler. O romance de Stendhal estava há muito tempo na prateleira, e desde sempre na minha lista mental de clássicos para ler. Eu achava que a leitura seria densa e tensa, e que os sentimentos aflorariam tão logo eu começasse a percorrer as páginas, mas não foi bem o que aconteceu. Foi uma leitura suave e tranquila, sem qualquer estardalhaço ou sacrifício, mas que me serviu para muito pouco. Acho que o verbo servir é um crime quando se fala de literatura, porque empresta um caráter utilitarista ao ato de ler, mas não posso deixar de usá-lo aqui: não é que o livro não tenha me servido para qualquer coisa posterior à leitura, não – o que me aconteceu é que a leitura não foi proveitosa. E qual é o proveito que se tira de uma leitura? Sei lá, vontade de realizar mais leituras, de pesquisar sobre o autor ou o assunto ou a época – esses seriam proveitos posteriores, mas e aqueles proveitos imediatos como a imersão total em um mundo alheio, o indescritível sentimento de estar dentro de uma sala no século XIX com móveis do século XIX, pensando como alguém do século XIX? O vermelho e o negro deve ser o livro da vida de milhares (centenas?) de pessoas ao redor do mundo, tem quase 200 anos nas costas e eu, do alto da minha falta de familiaridade com o autor, gostei mas não fui pessoalmente tocada, não encontrei o que estava buscando.

O vermelho e o negro é uma crônica dos acontecimentos históricos que se desenrolavam no começo do século XIX. Aquela lembrancinha da escola é muito bem-vinda: tem a Revolução Francesa, tem Napoleão como que sequestrando a revolução e virando imperador, daí tem uma espécie de guerra europeia de todos contra Napoleão, depois disso tem uma tentativa de restaurar a monarquia que havia sido literalmente guilhotinada – tudo isso se dá antes dos acontecimentos de O vermelho e o negro, mas sem essa colinha fica difícil entender os sentimentos que movem os personagens principais porque todos eles se comportam baseados em interesses de classe.

Julien Sorel, o protagonista, é mesquinho, ardiloso e frio. Não tem como simpatizar com um homem que dá toda a pinta de querer ascender socialmente, enquanto despreza os valores aristocráticos. Ele odeia aquela aristocracia, mas ela exerce sobre ele uma estranha atração. Ele é filho de um marceneiro e o que sobrou foi o caminho da batina, na falta de qualquer outro. Por ser muito culto ele consegue a chance de trabalhar como preceptor na casa do prefeito da cidade. Durante o tempo em que vive na casa do prefeito, Julien demonstra desdém pelos ricos e nobres e se apaixona, como não poderia deixar de ser, pela primeira dama. A paixão é recíproca. O prefeito desconfia. Essa é a primeira parte do livro. A jornada de Julien vai continuar em outro pedaço da França. Ele consegue entrar no seminário e é lá que conhece um padre com boas conexões, que o auxilia em um novo emprego: agora vai ser secretário de um marquês com ótimos contatos em Paris. Assim Julien conhece os La Mole e toda a nobreza que visita e venera esta família. Ele se sente rejeitado e ao mesmo tempo seduzido pela vida que nunca teve e nunca admitiu querer. Napoleão Bonaparte é tudo o que Julien desejava ser: alguém que veio de baixo e tomou o mundo de assalto. Mathilde, a filha do marquês, uma jovem entediada com a vida que leva, se apaixona pela frieza e indiferença de Julien – só para a gente perceber que não é de hoje essa atração que os esquisitos despertam. Depois de muito vaivém os dois estão perdidamente apaixonados. Desgraçadamente ela engravida e os planos de Julien parecem ruir. Em um rompante de loucura, ele decide cometer um assassinato e as consequências desse ato são a prisão e a guilhotina, e aí é como se ele fosse um pequeno Napoleão que esteve muito perto da glória e viu tudo descambar num fim melancólico e inevitável.

Para ser bem sincera, eu não tenho do que reclamar. Uma segunda leitura talvez me levasse a uma relação mais complexa com O vermelho e o negro, mas eu não vou tentar soterrar toda a leviandade desse meu texto com a promessa de que vou tentar me importar mais da próxima vez. Sinceramente, acho que Stendhal não precisa de mim.

Ressurreição

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Quase um mês sem texto no blog. Sabe, nem uma boa desculpa eu tenho para ter ficado esse tempinho sem escrever. Não foi o trabalho, a vida corrida etc, etc. Eu poderia dizer que março foi um mês com pouco tempo para o lazer, o que seria verdade, mas mesmo assim eu achei um espacinho para assistir a alguns filmes e séries. A leitura, sim, ficou meio parada e a minha meta dos doze livros para ler este ano virou uma bagunça. Estou na metade de O vermelho e o negro, que é o do mês de março. Mas admito que se eu tivesse me esforçado eu teria conseguido ler melhor, e ainda teria escrito aqui no blog. Então, o que faltou mesmo, de verdade, foi o esforcinho para fazer essas coisas quando o tempo aperta. Mas nada disso tem importância. Senti saudade desse layout tão organizado e funcional e cá estou, com a resenha do livro do mês de fevereiro da minha meta de leitura: Ressurreição, de Liev Tolstói.

Se eu tivesse que ler um autor pro resto da minha vida ou precisasse escolher um livro para levar para uma ilha deserta, as minhas respostas seriam Tolstói e qualquer livro dele. Ressurreição é um dos poucos romances do autor, e foi o último que eu li, não porque ele seja pior que Anna Kariênina e Guerra e Paz, mas porque só agora (na última década) saiu uma edição de respeito. Eu li Anna Kariênina pela primeira vez na edição feia e velha da Abril, uma com capa dura, vermelha, numa coleção dos grandes clássicos da literatura – sim, eu sou velha, quando eu era adolescente não se encontrava uma edição decente da Jane Austen ou do Tolstói – e mesmo que eu tenha chorado muito e amado aquele livro com todas as minhas forças, eu não queria repetir a experiência de ler um livro com tradução envelhecida ou vinda do francês. Por isso demorei tanto para ler Ressurreição. Valeu a espera, o livro é muito bom.  Agora eu tenho meus 31 anos de sabedoria – ou demência, já que meus episódios de descolamento total da realidade estão ficando mais frequentes – e senti que eu tinha mesmo o que aproveitar de um livro do Tolstói. Eu não saberia avaliar a tradução do Rubens Figueiredo, mas  segurei na mão dele e fui.

A história de Ressurreição é bem simples: uma prostituta está sendo julgada pela morte de um cliente. Ele foi envenenado e a última pessoa vista com ele foi ela, a cansada Máslova. Não tem mistério, ela está presa e a condenação é questão de tempo. Um dos jurados é Nekhliúdov, um aristocrata que percebe tê-la conhecido ainda jovem, quando ela era apenas uma criada na casa de um parente. Nekhliúdov, rico, teve um romance com Máslova, pobre, e isso resultou na mulher grávida e sozinha. Ele seguiu com a vida de nobre respeitável.

Acontece que de lá até a prostituição Máslova passou por maus bocados, e Nekliúdov sente isso assim que bate os olhos nela, na sala do tribunal. A culpa e a vontade de retratação levam-no a questionar as injustiças da sociedade em que vive, e isso faz com que ele abdique de suas terras e sua posição social.

Pelo título já é possível perceber que o protagonista busca redenção e vai passar por uma espécie de transformação depois de encarar a realidade. Isso não é exclusividade de Ressurreição. O mesmo sentimento de repúdio à injustiça já estava presente em Anna Kariênina e Guerra e Paz, mas em Ressurreição ele é mais politizado porque ataca mais diretamente as instituições e as pessoas por trás delas. Se nos outros romances encontrávamos aqueles elementos literários que seduzem pela forma ou pelo suspense,  em Ressurreição Tolstói vai secamente direto ao ponto. Se em Anna Kariênina muitas das cenas se passam dentro de casas da alta sociedade ou em jantares e festas glamourosas, Ressurreição meio que se divide entre a prisão e lugares burocráticos como o fórum. É um romance político, claro, Tólstoi diz durante todo o livro: como podemos julgar os outros e determinar quem deve passar uma vida atrás das grades?

Foi especial ler esse romance em 2017, quando a polarização política no Brasil deixa cada pessoa num lado já pré-estabelecido. Às vezes eu tinha a certeza de que Tolstói só podia ter começado o livro refletindo sobre aquela frase muito brasileira: “Tá com pena do bandido? Leva pra casa”. Porque o protagonista implodiu a vida inteira por uma criminosa, querendo casar-se com ela, quando percebeu que o que ele tinha feito também era criminoso. Quer dizer: ele ficou com pena (e remorso) e quis levá-la para casa. Mas, claro, o esqueleto político do romance de Tolstói não tem ligação direta com a especificidade dos problemas brasileiros. O que ele discute, entre outras coisas, é um tipo particular de cristianismo e os resultados da aplicação dele à vida em sociedade.

Como eu falei ali em cima, Nekhliúdov abre mão de suas terras e decide que precisa se casar com a prisioneira para reparar o erro de tê-la abandonado a uma vida de miséria. Máslova é considerada culpada pela morte de seu cliente, e por isso ela é levada à Sibéria para trabalhos forçados. O protagonista a segue, e durante esta jornada ele conhece alguns outros prisioneiros que também precisam de ajuda, e como um homem que procura redenção ele se dispõe a ajudar. Ele vai terminar esta jornada como uma pessoa diferente, mas não necessariamente redimida.

Ressurreição foi lançado em 1899, quando Tolstói já era simpático às ideias que negam a igreja, a violência e o direito à propriedade. Em cenas memoráveis do romance, o narrador questiona a hipocrisia da parafernália religiosa, os santos, os rituais infrutíferos e supersticiosos. Tolstói invalida a igreja como instituição. O juri representa o estado russo – ele mesmo criminoso e em falta com o povo, julgando-se ainda em condição de dizer o que é certo e errado. Essa posição radical faz de Ressurreição um livro mais do que especial, mas se eu dei a entender que o romance se parece mais com um panfleto político a culpa foi toda minha. Estão lá, ainda, aqueles momentos sublimes que fazem dos livros de Tolstói uma experiência transcendente. Se aquele primeiro parágrafo, por exemplo, não conseguir te convidar para a leitura, nada mais consegue.

Shirley

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Shirley, para mim, simboliza da melhor forma possível o gênero romance. A história é um retrato da época e da classe social de Charlotte Brontë, e mesmo sendo a mais realista possível, também é uma invenção. Quase um século depois da publicação de Pamela, de Samuel Richardson, Shirley expressa um conceito de amor e moral mais  alinhavado aos dias de hoje (e ainda assim discrepante, lógico) . Acho que isso por si só já é um ótimo motivo para ler o livro, porque se você não se importa com as idiossincrasias morais das pessoas do século XVIII e XIX, pelo menos a história de amor e o panorama político podem ser bem interessantes.

Shirley Keeldar e Caroline Helstone são as protagonistas desse romance edificante. Caroline é uma jovem órfã que vive com o tio no presbitério. Apaixonada por seu primo Robert Moore, ela vê seus dias passarem enquanto espera ter o amor correspondido. Quando Shirley, que é uma rica herdeira, chega à cidade as duas logo viram amigas. Uma é o oposto da outra, mas mesmo assim elas se afeiçoam rapidamente. Numa espécie de falso triângulo amoroso, Caroline gosta de Robert, Robert pode gostar tanto de Caroline quanto de Shirley e Shirley parece gostar de Robert. A dúvida dura um bom tempo, mas no fim, lógico, tudo se resolve e todos ficam felizes.

Caroline é a mocinha clássica da época: discreta, pura, sensível, impressionável e bondosa. Shirley é o oposto em muitos aspectos: destemida, temperamental e forte, mas tão bondosa quanto a amiga. Ninguém está ali para ser desprezível, elas são as mocinhas, e nesse aspecto há até uma posição bem feminista: são duas  personagens no século XIX, que não estão em confronto, e que conseguem ser o oposto em quase tudo enquanto se mostram pessoas de valor e companheiras uma da outra. Deixa eu me explicar: numa época em que qualidades desejáveis para uma mulher eram os traços atribuídos a  Caroline, colocar uma segunda protagonista no rolo, não para rivalizar, mas para demonstrar que o oposto também pode ser considerado desejável é desafiador ao leitor. Por isso, mesmo que Shirley apareça quase na metade da história, eu entendo por que o livro carrega seu nome.

E como acontece até hoje nos romances contemporâneos, as duas protagonistas estão rodeadas de outros tantos personagens, que dão início a várias discussões. Robert Moore é dono de uma fábrica de tecidos que precisa despedir seus funcionários para substituí-los por máquinas. A história se passa no começo do século XIX, época em que as guerras napoleônicas acabavam e a revolução industrial estava em curso. O momento não poderia ser pior para a população britânica. Fome e desemprego eram constantes e Charlotte Brontë fez questão de descrever tudo isso através de uma disputa de ex-funcionários e donos de fábricas, com o clima tenso entre todos.

Shirley é um romance significativo. Admito que em muitos momentos a personagem da Caroline Helstone me desafiou a continuar a leitura. É que ela é mais do que magnânima: é quase a idealização do sacro. Isso pode ser sim muito irritante, mas o valor histórico dos detalhes que o livro traz (vistos com uma diferença de décadas porque afinal de contas o romance é de 1849) se sobrepõe a um princípio de chatice que permeia certas passagens. Eu coloquei na cabeça que estava lendo um livro escrito na era Vitoriana, do gênero mais popular de então, contando uma história que à época era recente, e com isso eu alimentei a ilusão de que havia captado melhor o sentimento daqueles tempos. Acho que essa é uma das funções da leitura, acho que é por isso que até hoje as pessoas leem clássicos.

Meta de leitura: adeus ano velho, feliz ano novo

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Olá, 2017. Pessoalmente, 2016 foi um ano bom. Eu fico até me sentindo um pouco fria e desalmada ao dizer isso mas, tirando dois terços de dezembro, quando o meu cachorro teve uma doença neurológica, para mim o ano veio e foi sem as atribulações que chocaram a todos. Foi um período esquisito para o Brasil, em que aconteceram coisas boas e interessantes para quem gosta de ver o circo pegar fogo. Não é o meu caso, mas eu acho que tive relativo sucesso em manter-me longe da solidão, da paranoia e do tesão descontrolado (cortesia de Fausto Fanti) que pairaram como uma nuvem sobre as cidades do mundo inteiro. Para isso eu tive uma ajudinha dos livros.

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Adeus, 2016

2016 foi um ano de leituras muito boas. Não foi o primeiro em que eu fiz uma meta de leituras, mas foi o primeiro em que a meta teve um sentido: eu escolhi 12 livros que estavam parados em casa, daqueles que a gente compra na neurose e joga para o fim da fila por preguiça. O objetivo era combater uma tendência que eu vejo em mim e em muita gente: comprar livros, ter compulsão por comprar livros, fazer coleção deles, tratá-los como coisinhas preciosas – aumentar a pilha. O objetivo da minha meta era diminuir a pilha. Eu li aqueles 12 dos que estavam aqui parados há mais tempo, e li outros 124. Entre estes, alguns ebooks, outros que também estavam na estante, quatro que eu li em voz alta para o meu marido (que não é cego, mas às vezes joga videogame enquanto eu leio em voz alta). Eu também comprei alguns, não vou mentir, mas foram menos de 20. Eu evitei livros físicos e guardei os lançamentos para o Kobo. Fiz um post para cada livro da meta, e ao todo foram 25 os textos sobre livros aqui no blog. Nesse quesito, fui uma boa menina. A pilha diminuiu, portanto?

Sim, mas ainda temos trabalho pela frente. Já em outubro eu começava a planejar uma nova meta para 2017. Minha primeira ideia era ler doze romances históricos brasileiros. Eu havia descoberto uns três ou quatro que me interessavam, e comecei a pensar que esse gênero é muito largadinho. Meu marido botou uma pilha e eu cheguei a esboçar uma lista, mas desisti quando percebi que teria que comprar um ou dois bem caros, e tentar a sorte em outros pela Estante Virtual. Olhei para as estantes e percebi que ainda tenho muita coisa para ler antes de ir às compras. Por isso, resolvi repetir o critério de 2016 em 2017. Catei os que mais me agoniavam da casa e fiz uma lista muito boa, uma que me deixou feliz e que faz sentido. Olha só.

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Olá, 2017

Tem três russos, dois livros da Pedrazul, um livro reportagem brasileiro, O Vermelho e o Negro naquela edição da Abril (que está aqui em casa há milhares de anos, eu acho), o primeiro volume de Em Busca do Tempo Perdido (que eu estou para começar desde que me entendo por leitora), Virginia Woolf, Clarice Lispector, Marguerite Yourcenar, Simone de Beauvoir. São livros que eu leria mais cedo ou mais tarde e que, com a rigidez da meta, eu resolvi ler mais cedo. Do ano passado ficam alguns aprendizados, entre eles o principal: não deixar para dezembro um livro muito longo, porque dezembro geralmente é um mês de pouca rotina, e todo mundo sabe que a rotina é muito amiga da leitura.