Três livros da meta de 2017 – parte 2

Anteriormente em Meta de Leitura 2017:

“Ano passado eu tive a brilhante ideia de criar uma meta de leitura com 12 livros que estavam encostados aqui na prateleira de casa. Um para cada mês, fora os outros que fossem aparecendo durante o ano. Um outro objetivo era escrever um texto para cada livro aqui no blog. 2016 acabou, eu dei conta da tarefa e fiquei muito feliz. É tão difícil finalizar uma coisa, qualquer coisa, que eu pulo de alegria quando consigo. Empolgada, em 2017 eu resolvi dificultar um pouco mais e incluí livros que acabaram exigindo uma leitura mais lenta, seja por conta do número de páginas ou das características de tal e tal obra.

O que eu vou ter que fazer é rearranjar todo o esquema, já que (1) não estava prático escrever os textos sobre os livros, (2) ninguém se importava mesmo e (3) mesmo gostando de alguma coisa, nem sempre eu tenho o que dizer sobre ela. Daí eu resolvi fazer a metade da tarefa, ou seja: vou em frente, terminando livro a livro quando conseguir, e agora, em vez de escrever um texto para cada um e publicá-lo no começo do mês seguinte, vou agrupar três livros de cada vez, escrever quando for possível e postar quando der vontade”.

(Essas são cenas do último capítulo, postado em julho).

Se eu estou dando conta da meta? A resposta é complicada. Os livros estão lidos. Mas será que fiz a melhor leitura possível, aproveitei cada aspecto de cada livro e saí transformada de cada experiência? Esta pergunta vai ficar no ar.

doutor jivago

Em julho mesmo eu finalmente terminei Doutor Jivago. Adiciono o “finalmente” porque em 2010, talvez, eu havia tentado terminá-lo mas o momento não favoreceu. Para falar a verdade não me lembro do que me fez desistir, mas o certo é que a primeira tentativa foi boa o bastante para não impossibilitar uma próxima. Agora em 2017, por alguns dias a minha leitura de Doutor Jivago coincidiu com a de Vida e Destino, e eu me lembro de ter pensado que não era muito inteligente me empenhar em dois longos livros russos que, no fim das contas, tratam de repercussões da guerra (a Primeira Guerra Mundial no livro de Pasternak, a Segunda no de Grossman) na vida de pessoas mais ou menos comuns. Isso fez com que eu comparasse os dois livros constantemente e, para a minha surpresa, Doutor Jivago perdeu por pouco, mas perdeu.

A história de Jivago é bonita e triste, e quando começamos o livro com ele ainda menino, percebemos que lá vem uma jornada que vai fazer a gente sentir de tudo. E foi mesmo uma jornada. Dura e triste de um jeito que a gente só encontra na literatura russa, mas mesmo com mais de 600 páginas, a impressão que ficou em mim foi de que nem tudo teve o tempo de que precisava. A história é bonita e vale a leitura, mas se um dia alguém te ameaçar com um revolver e te obrigar a escolher entre Vida e Destino e Doutor Jivago, pode ficar com o primeiro.

clarice contos

Em agosto eu comecei a ler Todos os Contos, da Clarice Lispector, naquele volume da Rocco que saiu recentemente. De novo uma má ideia: ter que ler num mês um livro daquele tamanho. E não era só o tamanho: contos têm uma fluidez que não é a mesma do romance. Há ocasiões em que, terminando um bem pequeno, já é necessário parar para poder absorver o que se passou. De positivo, fica a minha releitura de A Legião EstrangeiraFelicidade Clandestina (que foi livro obrigatório quando eu fiz vestibular e é uma obra que eu adoro) e também a sensação de que a leitura corrida pode (e deve, se duvidar) ser apenas um primeiro contato com uma obra. O volume já foi feito muito forte, bonito e completo para que a gente possa passar muito tempo com ele. Aconteceu de este entrar na meta porque me angustiava tê-lo comprado e sempre adiar o início. Agora, quebrado o gelo, quero ver se eu consigo reler um livro de contos de Lispector por ano. Aliás, preciso montar uma meta só para ela porque já faz tempo que li Perto do Coração Selvagem e sinto saudades.

Por falar em planos de longo prazo, sério, desde a minha adolescência eu me enrolava para começar os livros de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust. Sabe quando uma obra ganha todos aqueles adjetivos genéricos que acabam deixando a gente na expectativa? (Tipo: genial, importante, fundamental, obra-prima, difícil-mas-recompensador, obrigatório, incontornável, canônico, etc., etc., etc.) Hoje em dia eu estou um pouco mais escolada e não me empolgo tão facilmente, já entendi mais ou menos qual é a minha e não me desespero se deixar passar um “gigante da literatura”, mas quando eu tinha 17 ou 18 anos, uma simples menção a Em busca do tempo perdido me deixava ansiosa. Primeiro porque eu não sabia por onde começar. A resposta simples (a única resposta) é começar pelo começo, mas aqueles adjetivos encheram a minha cabeça e, sempre que a ocasião se apresentava, eu adiava um pouquinho por achar que não era a hora. Mas agora eu aprendi que a melhor hora é sempre quando o entusiasmo bater e o tempo for propício. Isso porque não há leitor no mundo, professor-doutor ou blogueiro, que consiga tirar tudo o que uma obra tem a oferecer, vai sempre faltar alguma coisa e, incompleta por incompleta, a minha leitura também vai valer. Ninguém precisa da autorização de ninguém.

no caminho de swann

Com esse espírito eu li No Caminho de Swann em setembro e tive sentimentos conflitantes. Cheguei a pensar que seria um dos meus favoritos da vida inteira, cheguei a achar que era tudo neurose de um autor recalcado pela liberdade de uma mulher. No fim, eu consegui encontrar um meio termo. Gostei muito, entendo a empolgação dos críticos e a reputação que o livro tem. No caminho de Swann é a história de um sujeito torturado por si mesmo, por seus pensamentos tortos de posse e paranoia. Uma história sobre o reflexo da nossa cabeça na imagem que a gente faz dos outros. Mas dizer só isso seria reduzir o romance. A primeira parte é irresistível: nela um menino narra sua infância na casa de verão de sua família. Os desdobramentos dessa infância são narrados com riqueza de detalhes, com um poder muito grande de criar imagens e dar vida ao texto. Eu saí encantada e achando que perdi tempo (opa, trocadilho involuntário) por não ter começado antes.

Que mais? Por hoje é só. Hoje é dia 30 de outubro e eu me declaro em dia com a minha meta. Terminei o livro de outubro na semana passada, mas vou guardá-lo para o texto de dezembro, que é tradicionalmente o mês em que a gente revê nossas escolhas. Andei pensando numa meta para o ano que vem, e acho que essa ela vai ter relação com o fim de todas as metas.

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Dois anos de blog e uma comemoração contida

adorariaNesta semana o blog comemora dois anos de vida (eu acho que é nesta semana, mas é em setembro sem dúvida!), e como o negócio aqui é meio parado, não teremos sorteios, brindes, nem nada dessas coisas que os blogs legais têm. Ano passado, como comemoração, eu expliquei no post de aniversário a origem do nome do blog, mas agora já queimei esse cartucho e não consegui pensar em nada assim tão legal. Por isso resolvi apenas falar das últimas coisas que andei lendo e assistindo. Ok, eu sei que para isso nem precisava avisar do aniversário, mas deixar passar em branco também não é do meu feitio.

Tudo bem. Eu andei lendo alguns livros bem legais, assistindo a muita série ruim (e a outras boazinhas) e poucos filmes que valeram a pena. Não tenho tido tempo de ir ao cinema, por isso tenho vivido na ilegalidade. Sempre acho que um dia o governo vai me pegar e meu azar vai ser tão grande que eles vão querer me fazer de exemplo: cadeia nela!

Minha meta de leitura de 2017 está indo bem graças a um novo método: eu agora calculo antecipadamente quantas páginas preciso ler por dia, durante o mês inteiro, e anoto num papel (que acaba virando marcador) as datas e as páginas a que tenho que chegar a cada dia. No momento estou lendo No caminho de Swann e minha média é de 15 páginas por dia, um número perfeito para ler bem de manhãzinha antes de começar a labuta. Com o mesmo método eu terminei Vida e destino, Doutor Jivago e Todos os Contos da Clarice Lispector. Fico feliz com esse método porque finalmente estou dando conta de ler a meta sem me embananar com tudo o que me aparece fora dela. Parece neurose, mas facilita muito e me ajuda a ter constância.

Só que minhas últimas leituras não foram clássicos. Continuo lendo Outlander e sigo atrasada com a infinidade de livros da série. Terminei Os tambores de outono – Parte 1, mas a segunda parte ainda me espera. Me empolgo só de olhar a pilha de livros aqui de casa e saber que ainda tenho muito a aproveitar na companhia de Claire e Jamie. Também li dois thrillers bem bacanas: O casal que mora ao lado e Por trás dos seus olhos. O primeiro é curtinho e traz o suspense do desaparecimento de um bebê que fica sozinho em casa enquanto os pais jantam na casa ao lado. Dá para ler em uma sentada e, mesmo que não tenha um fim tão surpreendente, nos deixa ligados do começo ao fim. O segundo livro é um pouco mais longo e narra a história de uma mulher que fica amiga da esposa do chefe. Acontece que ela teve um flerte com ele (beijou o sujeito, para falar a verdade). O fim é bem louco, mas bem diferente, e me deixou de queixo caído. No Skoob quase todo mundo que leu ficou da mesma forma.

Animada com esses dois acabei lendo outros thrillers bem ruins: Um pequeno favor e A desconhecida. Os dois contam histórias de mulheres mentalmente perturbadas e desinteressantes. Também li (finalmente!) Agora e para sempre, Lara Jean e Mr. Romance. Ambos foram bem fofos.

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Mike e Harvey lindos

Agosto e início de setembro são sempre meio parados para as séries de televisão, mas mesmo assim encontrei algumas interessantes. Comecei a ver Suits sem acreditar que investiria muito do meu tempo, mas agora estou viciada em Mike e Harvey. Esses dois eu shippo muito (e acabo de descobrir que já existe um nome para o ship deles: Marvey). Falando em shippar, terminei por estes dias a segunda temporada de Animal Kingdom e, se na primeira temporada eu não tinha certeza de que a série iria vingar, a segunda temporada veio para me dizer que sim, os meninos Cody são especiais e merecem ser acompanhados. Pena que são apenas 13 episódios.

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Jessica Biel em The Sinner

Quanto aos suspenses, se eu não gostei de Mr. Mercedes, The Sinner foi bem diferente. Tem a Jessical Biel e o Bill Pulman. O piloto da série me surpreendeu por um evento que pareceu muito aleatório (não dá para ser mais específica sem estragar tudo), mas que foi bem costurado nos outros sete episódios. Strike, aquele da J. K. Rowling, estreou e já acabou (foi tudo muito rápido mesmo) em apenas cinco partes. Uma terceira temporada vai chegar em 2018, mas os capítulos são tão curtos que sinto que, se eu não tivesse lido os livros, não teria entendido coisa nenhuma. Mas a música da abertura é ótima! (só que não vale a pena assistir só por isso, dá para ver a abertura pelo Youtube).

Nas últimas semanas comecei a assistir a The Deuce, que parece bem promissora. É do mesmo criador de The Wire (de que meu marido tentou me fazer gostar, sem sucesso) e tem no elenco James Franco e Maggie Gyllenhaal. A série é lenta e talvez entusiasme mais os fãs de cinema do que os de televisão, mas ainda é cedo para tirar conclusões. Liar e Star Trek: Discovery são outras duas que comecei a assistir por esses dias e ainda não sei aonde vão chegar. Por enquanto foram dois episódios de cada, vale acompanhar mais um pouco.

Ultimamente os filmes estão meio ausentes dos meus dias. Sempre tenho que escolher à noite entre livro, filme e série e os filmes têm levado a pior. Mas eu vi Baby Driver que foi muito bom, cheio de ação e com cenas de carro melhores que as de Velozes e Furiosos (mentira, não posso comparar; nunca vi a franquia do Vin Diesel, que todo mundo ou ama ou odeia). Também vi The Big Sick, uma comédia romântica que tinha tudo para ser boa mas se perdeu na baboseira de tentar dar um final feliz (e chato) para todo mundo.

Bom, o post de comemoração é este. Não parece muito comemorativo, mas estou bem feliz de ter um cantinho há dois anos para falar das minhas paixões mais antigas. Para celebrar um pouquinho mais, segura esse vídeo do Johnny Castle ensinando a Baby a dançar:

Legião, de William Peter Blatty

Legião darkside

Quando William Peter Blatty escreveu Legião, ele já era famoso por O Exorcista, o livro, e pelo roteiro de sua adaptação ao cinema. O filme não precisa de introduções. Deve ter gente que nunca o viu e mesmo assim pode dizer tudo o que acontece, tamanha a permanência dessa franquia na cultura popular. Partindo daí Legião tenta duas coisas bem difíceis: contar uma história totalmente nova e, ao mesmo tempo, reclamar para ela o renome e a distinção da história antiga.

O problema é que o romance original não precisava de sequência. O Exorcista é uma história de redenção, de expiação e, por fim, da luta do bem contra o mal. Depois de uma jornada terrível, o bem vence – mas a vitória é tão custosa que a sensação que fica, tanto no romance quanto no filme, é a de que o mal estará para sempre à espreita, ou seja, de que a batalha é eterna. Só que a história daquelas pessoas, da menina Regan, da mãe dela, dos padres Damien Karras e Lankester Merrin, já havia sido contada.

Para não deixar a chama se apagar, William Peter Blatty fez de Legião (que saiu no Brasil pela Darkside, na tradução de Eduardo Alves) um romance policial com todos os ingredientes a que a gente já se acostumou e, como que por obrigação, deu um jeito de costurar nele o pano de fundo sobrenatural que o liga a O Exorcista. Um assassinato ritualístico e um detetive em crise existencial são ingredientes de metade dos romances policiais que já se fez. O detetive Kinderman, que no primeiro livro investigava uma morte suspeita, é agora um homem amargurado (embora amoroso) e desiludido com (literalmente) Deus e o mundo. Veterano, ele já viu muita coisa feia, muita maldade e loucura, mas quando o encontramos ele está na cena de um crime que não acontece todo dia. Um menino foi crucificado. Ao que tudo indica, ele passou consciente por dor e sofrimento. Isso leva Kinderman a pensar.

E quando Kinderman pensa o livro fica um pouco chato. Legião tem algumas das mesmas qualidades que fizeram de O Exorcista uma história inesquecível. Blatty cria cenas memoráveis, todas sob uma espécie de horror ao mesmo tempo sobrenatural e mundano; seus personagens são sombrios e deprimidos, todos com cruzes a carregar, mas, enquanto o sucesso do primeiro livro se deve em parte à simplicidade da batalha do bem contra o mal, a maior fraqueza de Legião está em tentar esmiuçar essa luta em digressões que vão das meio bobas às bastante constrangedoras, ditas sempre através de Kinderman, seja em fluxos de consciência, seja em diálogos extremamente mastigados e um pouco caricatos. O detetive está à beira da loucura, tudo bem, mas isso não o exime de ser um verdadeiro apanhado de todos os clichês de detetive já feitos.

Isso significa que Legião é ruim? De jeito nenhum, mas vale avisar que há umas oitenta ou cem páginas, mais ou menos no meio do livro, sobre as quais é necessário passar correndo: as sacadas de Kinderman quebram verossimilhança, deixam evidente a voz do autor (com isso esvaziando o personagem), parecem saídas diretamente da enciclopédia Barsa, às vezes são só bobinhas, às vezes bem pretensiosas. Ter que remeter essa história de um detetive no rastro de um serial killer ao exorcismo do primeiro livro também não ajuda. Blatty precisou ressuscitar um personagem, rearrumar certas circunstâncias, explicar eventos que não só não precisavam de explicações como ainda saem prejudicados por elas.

Essa bagunça é triste porque alguns dos elementos novos são muito bons: a história de origem do Geminiano, o serial killer em questão, é de gelar a alma; o hospital em que boa parte da ação se passa cria vida através das histórias bizarras de seus muitos internos; as mortes são intrigantes e criativas. Para não cometer injustiça, mesmo que boa parte da construção de Kinderman seja prejudicada por aquele palavrório aborrecedor, a personalidade do detetive consegue ganhar força nas cenas em que ele se concentra em sua família, e no capítulo final, que me parece mais otimista e menos apressado que o do primeiro livro.

Por último, vale lembrar que Legião inspirou o filme O Exorcista III, com direção do próprio William Peter Blatty. É assistir e não dormir por uns três dias.

Vida e Destino

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Viktor Chtrum é um cientista judeu que vive na União Soviética. Ele segue trabalhando em plena Segunda Guerra Mundial. Com ele moram a esposa, a filha e a sogra. A vida não está fácil, mas há muitos soviéticos em situação pior. A mãe dele, por exemplo, que nunca se entendeu com a nora e mora em outra cidade, vive na pele a pior época para ser uma senhora judia na Europa. Em outro lugar, no mesmo período, alguns prisioneiros de guerra vivem uma vida tão difícil quanto a dos prisioneiros dos campos de concentração. Há também os presos longe da guerra, aqueles que cometeram crimes políticos ou comuns; para eles a situação também é ruim. Enquanto tudo isso acontece, mais judeus estão dentro de vagões de trem em direção ao extermínio. O clima é de sujeira, fome, frio, aperto e profunda desesperança.

Vida e Destino, de Vassili Grossman, fala sobre essas e outras pessoas, mas trata principalmente de uma era negra na União Soviética. Na altura da Segunda Guerra os líderes soviéticos travavam duas batalhas: uma com os alemães, que eram o inimigo externo, e outra com seu próprio povo. O Estado totalitário fazia com que todos desconfiassem uns dos outros; em busca da própria salvação, não era raro que um camarada denunciasse o outro como traidor da revolução. A suspeita pairava acima da cabeça de todos e frases bobas ou piadas infames acabavam em penas longas e reputações arruinadas. Mas Vida e Destino é mais que um compilado minucioso da vida sob o totalitarismo. O livro consegue analisar profundamente o mal através de vários pontos; o extermínio sem sentido, a paranoia mesmo entre amigos de longa data, a fome e a miséria: tudo é parte de um quadro em que o que se analisa é a humanidade e o que significa estar vivo e fazer o bem.

São 900 páginas de muito sofrimento e de passagens que me deixavam ora com desgosto, ora com desânimo. Eu podia sentir aquela maldade entranhada nas picuinhas políticas, mas inerente às pessoas. Admito que chorei em mais de um momento muito difícil, e acho que é impossível não sair cambaleando da leitura de Vida e Destino. São muitos os livros sobre as brutalidades e a barbárie das guerras, mas eu ainda não havia experimentado esse sentimento de perplexidade diante da tragédia que encontrei no livro de Vassili Grossman.

Vai ver o impacto acontece porque o autor viveu aquilo de perto, como correspondente de guerra. Mas o realismo das descrições da vida em um lugar, em uma determinada época, não foi o que mais me comoveu. O que me deixou espantada foram as intervenções de Grossman, a maneira como seu narrador se debruça sobre os acontecimentos para refletir sobre eles. Meu exemplar está todo rabiscado e minha vontade era transcrever aqui tudo o que me emocionou, como se com isso fosse possível convencer alguém a tirar o livro de uma prateleira e começar a leitura na mesma hora.

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Qualquer livro sobre guerra não seria a minha primeira escolha de leitura. A quantidade de nomes de lugares e personagens deu um nó na minha cabeça. Eu comecei sem ter certeza de que iria até o final, mas aí bati o olho nesse parágrafo:

Os olhos dela, que tinham lido Homero, o jornal Izvéstia, Huckleberry Finn, Mayne Reid, a Lógica de Hegel, que haviam visto gente boa e gente má, os gansos nos prados verdes de Kursk, as estrelas no telescópio de Púlkovo, o brilho do aço cirúrgico, a Gioconda no Louvre, os tomates e nabos nas gôndolas dos mercados, o azul do lago Issik-Kul, agora não lhe eram mais necessários. Se alguém a cegasse naquele instante ela não sentiria a perda.

Foi ali que eu percebi que às vezes o que a gente tem que fazer é abrir o livro que não parece ter muito a ver com o que a gente quer de uma leitura. Eu não conhecia Vassili Grossman. Meu marido comprou o livro em 2015 e, assim que o terminou, começou uma campanha para eu lê-lo logo. Só agora em 2017, acompanhando o canal Lido Lendo, foi que eu soube que Vida e Destino havia sido escolhido para uma leitura compartilhada durante o mês de julho. Achei que era a hora de dar uma chance. Segui o cronograma estabelecido e adorei avançar no livro enquanto acompanhava a opinião dos outros.

Às vezes quando eu leio um livro de gênero eu penso naquela velha história de que sempre precisamos de uma dose de pré-disposição para encarar qualquer ficção. Afinal, é preciso boa vontade para comprar uma história e ler a respeito de monstros, vampiros, zumbis, magnatas de 25 anos solteiros e amorosos, fantasmas e toda a coleção de coisas que não aconteceram e nunca vão acontecer. Não importa o gênero. Se há muita invencionice, é preciso que a gente esteja disposta a encarar a leitura e fazer a tal viagem. Isso é uma das melhores coisas que a literatura proporciona, mas às vezes é bom e importante ler um livro que não demanda esforço da imaginação para que a gente entenda profundamente o que há de melhor e pior no mundo. O melhor e o pior estão ali representados, de um jeito preciso e profundo. Grossman investigou e revelou situações que não eram de conhecimento geral naquela época. Tanto quanto um livro como Doutor Jivago, Vida e Destino mostrou para o resto do mundo o tamanho do desastre que era a União Soviética. Se para encontrar isso um leitor precisa de certa dose de coragem, o que dizer do trabalho de quem escreve?

É impressionante a empreitada de escrever com tanta sinceridade em um momento tão perigoso. Para terminar, eu só queria deixar um trechinho desses que renovam o amor da gente pela literatura (lembrando que a tradução do russo é de Irineu Franco Perpétuo):

A história dos homens não é a batalha do bem tentando vencer o mal. A história do ser humano é a batalha do grande mal para reduzir a pó a semente do humanismo. Mas se nem agora o humano foi morto dentro do homem, então o mal não há de triunfar.

Três livros da meta de 2017

Ano passado eu tive a brilhante ideia de criar uma meta de leitura com 12 livros que estavam encostados aqui na prateleira de casa. Um para cada mês, fora os outros que fossem aparecendo durante o ano. Um outro objetivo era escrever um texto para cada livro aqui no blog. 2016 acabou, eu dei conta da tarefa e fiquei muito feliz. É tão difícil finalizar uma coisa, qualquer coisa, que eu pulo de alegria quando consigo. Empolgada, em 2017 eu resolvi dificultar um pouco mais e incluí livros que acabaram exigindo uma leitura mais lenta, seja por conta do número de páginas ou das características de tal e tal obra.

Mas o ano está super corrido e é claro que agora, depois da metade de julho, eu me encontro arrependida e atrasada. É que eu me embolei com alguns romances e ainda resolvi ler outros bem exigentes (em tempo, disposição, atenção…), coisas que nem estavam nos planos. E aí me esforço para lembrar que isso aqui é um hobby, um dos prazeres da vida. É tão bom achar livros empolgantes, lê-los e descobrir mais e continuar nesse ciclo infinito (nem tão infinito porque um dia a gente morre e acaba o tempo para ler e deixa tudo para trás, mas acho que me fiz entender).

Não estou querendo dizer que abandonei a meta. Um dia eu gostaria de ser outra pessoa e ter esse desprendimento para dizer que não deu e paciência. O que eu vou ter que fazer é rearranjar todo o esquema, já que (1) não estava prático escrever os textos sobre os livros, (2) ninguém se importava mesmo e (3) mesmo gostando de alguma coisa, nem sempre eu tenho o que dizer sobre ela. Daí eu resolvi fazer a metade da tarefa, ou seja: vou em frente, terminando livro a livro quando conseguir, e agora, em vez de escrever um texto para cada um e publicá-lo no começo do mês seguinte, vou agrupar três livros de cada vez, escrever quando for possível e postar quando der vontade.

Né? Que pessoa liberada, sensata, despreocupada.

Três dos que eu já terminei (os outros três da meta já lidos foram resenhados aqui, aqui e aqui):

memórias de adriano

Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, foi o melhor livro que eu li em 2017. Não acho que isso vá mudar até o fim do ano. Não foi uma surpresa porque toda a aura do romance me dizia que ele seria especial. Também foi um dos livros mais contemplativos que eu já li. Eu só conseguia ler poucas páginas por dia e em total silêncio, sem música, vozes, passarinhos cantando. O livro é como uma autobiografia do imperador Adriano. São memórias de um homem que viveu coisas perversas, mas que ainda era uma pessoa. É fácil aceitar as palavras de Yourcenar e acreditar que você está lendo os pensamentos de um imperador. O que aparece na página são as memórias de um homem poderoso. Nada parece ficar de fora: há meditações sobre guerras, namoricos, inimigos, amizades, desafios. Tudo soa verdadeiro, tudo parece real. Acho que ninguém chegaria mais perto disso do que ela. Acho incrível que Marguertite Yourcenar não seja mais comentada e lida. Memórias de Adriano é muito poético, mas de uma profundidade honesta, sem artificialidade. Nunca li nada como esse livro.

a força das coisas

O próximo livro da meta foi A Força das Coisas, de Simone de Beauvoir. Nem me lembro de quando li Memórias de uma moça bem-comportada, que é o primeiro desta série autobiográfica. Só lembro que a edição era velha e a leitura foi tocante: me identifiquei e até ri muito com os relatos dela. Um dia encontrei num sebo esse A força das coisas, novinho e por um ótimo preço. Mas desde que li Tête-à-Tête: Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre eu peguei um pouco de má vontade com a dupla. Por isso, por achar que se não me forçasse eu demoraria muito para ler novamente alguma coisa de um deles, coloquei na meta do ano A força das coisas. Nele encontramos Beauvoir madura, no alto dos seus cinquenta e poucos anos, e por isso um tanto mais soturna. Eu não consegui repetir o sentimento daquele primeiro livro. As questões políticas discutidas no livro não me impressionaram, Sartre foi a palavra mais repetida página por página, a ponto de eu pegar bronca. Mas ela é a Simone de Beauvoir e apenas ler suas reflexões sobre os romances que escreveu já faz valer a leitura. Eu daria tudo para que todo autor bom tivesse a mesma disposição para revisitar o que escreveu, e nesse volume Beauvoir nos presenteia com isso. Ah, o livro também vale para ver o Brasil pelos olhos dela, já que há muita coisa a respeito de sua visita ao Brasil e as coisas e pessoas que viu por aqui: Jorge Amado, o Rio de Janeiro, Zélia Gattai, Rubem Braga.

evelina frances burney

Na sequência veio Evelina. É o livro que consta na meta para o mês de junho, e eu só terminei por esses dias. Em algum lugar e há muito tempo eu li que Frances Burney era uma das escritoras preferidas de Jane Austen. Daí surgiu esta edição publicada pela Pedrazul. Foi uma das minhas primeiras compras pelo site da editora, há muito tempo, e só agora eu tive a decência de ler. Para quem espera algo parecido com Jane Austen: não espere. Enquanto eu lia Evelina não pude deixar de pensar: ah, sim, por isso que Jane Austen e Charlotte Brontë são tão festejadas até hoje. Elas eram diferentes e seus romances fogem muito do que era padrão. Não é o caso de Evelina. Assim como outros romances da época (a primeira edição é de 1778), esse de Burney tem uma mocinha delicada e de caráter, mas sem voz. O livro não se sustenta fora de seu contexto editorial. É a história de uma moça sem muitos recursos financeiros que se vê enrolada no meio de personagens de má índole. Num mar de gente incivilizada, uma pessoa se destaca: o mocinho. A leitura emperrou um pouco, mas a imersão foi possível, o valor histórico é grande. Evelina me lembrou de A intrusa, de Júlia Lopes de Almeida, um romance brasileiro que veio ao mundo mais de 100 anos depois. O que fica é o estudo dos costumes, essas coisas. A edição estava um pouco truncada, a diagramação estava difícil, mas vale a pena para entender o contexto que pôde gerar, poucos anos depois, os sensacionais romances de Austen e das Brontë.

Com a missão parcialmente cumprida, eu dou tchau.

Dois romances policiais que valem a pena

Uma das minhas primeiras leituras foi um romance da Agatha Christie que eu comprei numa banquinha de revistas. Isso foi em 1997. O livro era Morte no Nilo. Eu só me lembro disso porque ainda guardo o exemplar. Na primeira página escrevi o meu nome completo e a data, com a minha letra ainda infantil, só para atestar que aquele livro era meu (quem tem irmãos mais velhos sabe que é necessário marcar com o nome os objetos mais queridos). De lá para cá eu li uns bons livros dela e do Conan Doyle. Dificilmente passo dois meses sem ler um romance policial. A oferta tem sido muito grande, mas alguns elementos estão em falta.

Sinto que há ondas no mundo editorial. Crepúsculo trouxe consigo uma infinidade de outros romances sobrenaturais. Aos poucos, a chama foi se apagando. Jogos Vorazes veio em seguida e vimos as livrarias inundadas por distopias de variada qualidade. Mas isso já faz tempo. Agora em 2017 quando eu vago o Skoob atrás de novidades e boas histórias, chego a me cansar de ver livros de fantasia young adult e romances policiais das mais variadas origens – tem os escandinavos, tem os ingleses, e tem também, como não poderia deixar de ser, os americanos. O problema é que eles têm muita coisa em comum. Acho que Garota Exemplar, embora não seja um policial no sentido estrito, trouxe uma nova onda de thrillers meio adultos e de temática relativamente pesada. Sob a influência do sucesso do livro de Gillian Flynn, muito do que surge parece ter o mesmo tom.

indesejadas

É muito difícil, nesse mar de livros, nessa verdadeira bola de neve, escolher o que ler. As editoras estão cada vez mais especializadas em nos enganar com capas lindas e sinopses esquivas. Muita coisa parece legal e, se a gente se deixar levar, sai comprando tudo e cai até em crise existencial por não saber o que tirar da prateleira. Eu queria falar sobre dois romances que li recentemente, e que fogem um pouquinho da regra por apresentarem personagens excelentes. Um é Indesejadas, o primeiro da série Fredrika Bergman & Alex Recht, da sueca Kristina Ohlsson. Aqui no Brasil a série vai pelo terceiro livro. Fredrika e Alex são os investigadores da vez. Em Indesejadas eles precisam desvendar um desaparecimento que logo se revela assassinato. Não há muito o que contar sem soltar spoilers. O caso é complicado e de deixar o leitor sentado na ponta do sofá (ou da cadeira, da cama, do que for de preferência). Só que, para mim, o diferencial desse livro é o carisma dos personagens. Os protagonistas são um ponto fundamental. Quando o detetive é ruim, o romance policial parece durar uma eternidade. Não é o caso aqui. Há rixas, ciúmes, desavenças. O livro é longo. São quase 400 páginas, então o foco fica bem dividido entre o crime que precisa ser solucionado e a vida de Alex, Fredrika e Peder. Discórdia entre policiais é um clichê nem sempre bem vindo, mas aqui não há enfrentamentos irritantes. O lugar-comum dá espaço a crises que parecem genuínas. Eu me senti na pele de uma policial ferrada durante a leitura de Indesejadas. Um outro ponto bacana é que em Indesejadas o frio, que obviamente é marca registrada da Escandinávia, sai de cena para a chegada do verão. Não é muito comum sentir calor ao ler um romance sueco.

A garota no gelo

O segundo livro é A Garota no Gelo, que também é o primeiro de vários, dessa vez pelo autor britânico Robert Bryndza. Ele nos apresenta a série da detetive Erika Foster, com dois volumes publicados no Brasil até agora. A detetive está deprimida e acaba de voltar a trabalhar. Seu marido foi morto em uma ação policial que a tinha como comandante. Ela se sente culpada, e todo mundo acha que ela tem culpa mesmo. Atrás de novos ares, ela vai para Londres investigar um assassinato. Um recomeço. Mas não para uma jovem rica que foi achada morta em um bairro decadente. O caso cai nas mãos de Erika. Ela não conhece ninguém da equipe e vai se desentender com muita gente para conseguir juntas as peças. A detetive é chata (mas a gente simpatiza com ela), intransigente e ranzinza: meu tipo preferido de personagem. De novo, como é de praxe, o livro fica bem dividido entre a vida da protagonista e o caso a ser solucionado.

Sempre me alegro quando vejo uma protagonista como Erika, com esse gostinho amargo de rabugice e com brio. Uma pessoa com espírito resistente, mas cheia de manias bizarras. A Fredrika de Indesejadas não fica atrás. Quando elas pegam os assassinos fica aquela sensação de justiça feita e missão cumprida.

É importante que a trama seja intrigante e que as pontas não fiquem soltas, mas isso não é tudo. Eu adoro me apegar aos protagonistas, mas isso tem ficado cada vez mais difícil. Todo personagem parece igual, com tiques, costumes e mensagens parecidos. Esses dois romances que eu destaco não trazem novidades, e para falar a verdade eles têm muito em comum com o bolo de coisas parecidas que a gente encontra nas livrarias, mas, se você é como eu e é capaz de seguir um personagem bom aonde quer que ele vá, vale a pena passar umas horas investigando esses casos esquisitos.

Deixei você ir

Deixei você ir

Uma mulher luta para seguir a vida depois de um acidente terrível. Um detetive com problemas familiares se vê às voltas com o caso de um menino morto. Deixei Você Ir, de Clare Mackintosh, é a história de duas pessoas corroídas pelos fatos de um acidente trágico. Em um dia chuvoso o menino Jacob é atropelado por um carro em alta velocidade. O motorista foge do local, deixando o menino morto na rua. A mãe  presenciou tudo. A equipe do detetive Ray Stevens começa a investigar o ocorrido, mas as provas são poucas e parece impossível descobrir quem faria tamanha crueldade. Jenna precisa recomeçar, mas não tem como superar aquela morte. Ela se muda para uma praia isolada, aluga uma cabana e tenta viver.

A sinopse de Deixei você ir entrega um clima de romance policial, mas depois de poucas páginas já notamos que a investigação e a busca pelo assassino não são o ponto crucial da história. Os capítulos são alternados entre a investigação (com lampejos da vida particular do detetive Ray) e o recomeço mais do que complicado de Jenna. O detetive e sua equipe trabalham no caso do atropelamento, mas ele também está com muitos problemas em casa. O filho mais velho está estranho, com alguns problemas na escola; o relacionamento com a esposa também não parece o mesmo, e sua companheira de trabalho, a jovem Kate, parece ser exatamente aquilo que ele precisa para fugir dos problemas.  Dessa forma, a investigação fica permeada pelos dilemas  de Ray e por causa disso, ainda que este seja um recurso comum em romances policiais, aqui vai uma reclamação: achei tudo o que envolvia o detetive bem desinteressante.

As partes de Jenna, pelo contrário, são o ponto alto do livro.  Os capítulos na praia, em que ela tenta começar de novo, me fizeram continuar a leitura. Mas esqueça qualquer resquício de romance policial enquanto a história se concentra nela. O livro vira um romance reflexivo sobre uma mulher e sua vida estilhaçada, alguém que tem poucos amigos e conhece um homem, por quem se apaixona. A primeira metade de Deixei você ir se dá assim. É na segunda parte que acontece uma reviravolta. O livro deixa de ser morno e nos ajuda a entender melhor a personagem de Jenna. Clare Mackintosh me enganou direitinho com um desses recursos que estão na moda nos thrillers de hoje em dia.

Para mim, Deixei você ir não foi uma das melhores leituras do ano, mas está longe de ser maçante. A reviravolta coloca a história inteira sob outra perspectiva, e por causa disso a segunda metade do livro ganha fôlego. Além disso, Mackintosh me fez torcer por Jenna, e isso sempre requer uma dose de identificação não só com a tristeza gerada pela tragédia, mas com os pensamentos que surgem dela.

Deixei você ir intrinseca

Para quem já leu ou para quem quer spoilers

Como eu não consigo me controlar, preciso contar mais dessa segunda metade do romance. Saber de alguns detalhes não atrapalha, mas tem coisa que anula um livro inteiro. Acho que fica impossível ler Deixei você ir sabendo da reviravolta. Seria outra experiência. Fica o aviso.

Jenna passa todos os capítulos da primeira metade do livro se sentindo culpada. Jacob morreu e ela, claro, não consegue lidar com isso. O leitor sabe que a mãe de Jacob não segurou a mão dele ao atravessar a rua, e que ela se culpa por isso. A autora nos induz a acreditar que Jenna é a mãe de Jacob. Por que ela estaria com culpa e precisaria reaprender a viver se não fosse a mãe? Porque ela é a assassina, a atropeladora! No fim, a polícia descobre que o carro que atropelou o menino é de Jenna e a prende. Ela assume toda a responsabilidade, dando um nó na cabeça do leitor (pelo menos na minha, vai que você é mais inteligente e percebeu rapidamente tudo o que acontecia?).

Jenna é uma boa pessoa que tomou más decisões, mas ela tem um motivo. Na segunda metade do livro um novo personagem é inserido. Ian era marido de Jenna, um sujeito abusivo e violento. Ele narra todo o relacionamento dos dois desde que se conheceram. É incrível ver fatos horríveis pelos olhos de uma pessoa que acha normal fazer a namorada engolir água sanitária. Aos poucos nós vamos entendendo por que Jenna se isolou numa cabana no meio do nada e por que ela tem medo de tudo. Ian é violento e está atrás dela. Só aí o livro fica com cara de thriller, só a essa altura entendemos que o tema central da história é a violência doméstica e não as consequências do assassinato do menino Jacob.

Meu único problema com Deixei você ir? Bom, se você ainda não leu o livro e aguentou todos esses spoilers vai aguentar mais este choque: Ian atropelou Jacob enquanto Jenna estava no banco do passageiro. Foi ele. Foi mais uma das vilezas dele. Mas ela assume a culpa, sozinha, pois acha que alguém precisa pagar pelo sofrimento da mãe de Jacob. Eu entendo que uma vítima de violência doméstica pode não conseguir delatar seu agressor por puro medo, mas simplesmente não me caiu bem que Jenna tenha deixado um abusador assassino escapar impune. Achei que esse foi um grande furo, mas isso não estraga o livro.

Quatro livros de Alessandra Torre

livrosDepois de terminar uma leitura longa, de um romance um pouco complicado, eu gosto de me dedicar a livros que parecem novelas de televisão. Pode parecer estranho terminar O Vermelho e o Negro e já pegar um livro em que não acontece nada, um desses para os quais as pessoas fazem careta, mas foi assim que eu peguei gosto pela leitura: misturando todo tipo de coisa. Eu nunca conseguiria ler apenas clássicos, porque me faltaria aquela sensação de prazer que só um sentimento banal mas genuíno pode nos dar. Ao mesmo tempo, também nunca conseguiria ler apenas romances levíssimos, pois aí o vazio tomaria conta de mim. Foi assim que, depois de terminar O Vermelho e o Negro, eu engatei em um livro atrás do outro de Alessandra Torre. Eu não a conhecia e o o nome me levou a pensar que se tratava de uma brasileira, mas não: ela não só é gringa como também nenhuma editora brasileira se interessou em publicá-la, o que é uma pena porque a popularidade de Torre entre brasileiras só aumenta.

love chloe

Rodando pela internet eu encontrei Love, Chloe e adorei tanto a capa quanto o  título. Decidi tentar a sorte. O livro é legalzinho, mas não empolga. Chloe é uma garota rica e mimada que nunca precisou trabalhar na vida. As coisas mudam quando seus pais perdem todo o dinheiro, mas ela acaba mostrando que consegue se virar muito bem. Tem um triângulo amoroso entre ela, o ex-namorado e um cara que ela acabou de conhecer. O livro parece querer ser um chick lit. A protagonista é meio desmiolada, mas não de um jeito muito legal. Talvez por querer dar um ar leve para tudo, a autora erra a mão e todos os personagens parecem destituídos de vida. Mas isso não foi o suficiente para me fazer desistir de Alessandra Torre. No Skoob e no Goodreads eu li opiniões tão positivas sobre seus outros romances que resolvi continuar.

O segundo livro lido foi Tight. Fiquei espantada que a mesma autora tenha escrito Love, Chloe e Tight. Para quem gosta do gênero dark, que aliás eu nem me arrisco a definir, aqui está uma ótima escolha. O que eu mais gosto nesses livros é o tamanho da loucura das autoras: cada história é o roteiro de uma novela mexicana acrescido de pirações pelos submundos do sexo e da psicopatia. Para explicar melhor do que trata Tight, não vou conter os spoilers, então se você se interessou a ponto de querer lê-lo, o texto acaba aqui. Brett é um homem apaixonado que perdeu seu grande amor para o tráfico de mulheres. Como ele é um cara muito rico (isso é pré-requisito para todo mocinho) ele decide dedicar sua vida a resgatar meninas raptadas e vendidas para homens que querem apenas abusá-las de todas as formas imagináveis. Riley é a mocinha que aparece na vida dele. Ela não tem a menor ideia de toda essa história de tráfico de mulheres e não sabe o que acontece na vida de Brett. Um dia os dois se esbarram e se apaixonam. O livro é isso, mas os capítulos são intercalados por Riley e Brett se apaixonando e pela narrativa de uma garota que vive em cativeiro, esperando que um dia Brett a salve.

tight alessandra torre

Acho que, como todo mundo que leu Tight, eu passei o livro inteiro tendo certeza de que a garota que aparece nos capítulos contando seus dias no cativeiro era o grande amor da vida de Brett, aquela que ele amava antes de conhecer Riley e que sumira para sempre. Como em qualquer outro livro do gênero eu sabia que uma grande reviravolta aconteceria, mas não imaginava sua magnitude. Se você ainda está lendo, vou avisar novamente: vou dar o spoiler que vai destruir Tight para quem ainda pretende começar. Riley parece desconfiar que Brett está envolvido em negócios ilegais e resolve segui-lo. O negócio ilegal é a compra de meninas raptadas, mas ela não sabe que ele é bonzinho e que as compra para libertá-las. Acontece que Riley é raptada, afinal, ela o seguiu de forma imprudente, alguém a viu e a oportunidade falou mais alto. Então quem é a moça no cativeiro, que aparece em capítulos alternados? Ninguém menos que Riley, ela mesma, que ficou nove meses presa em um quartinho, vivendo com seu raptor, até ser finalmente vendida, é claro, para o grande amor de sua vida, aquele que compra escravas para ser humanitário. Mas e o grande amor do passado? O grande amor que Brett perdeu no tráfico de mulheres é sua irmã que foi morta pouco tempo depois de ser sequestrada. Super reviravolta em um livro bem louco.

Empolgada com os delírios de Alessandra Torre, parti para o próximo. Black Lies prometia uma super reviravolta no fim, mas eu entendi o grande mistério da história bem no começo da leitura e isso arruinou tudo. Nessa hora tive certeza de que, sem o mistério da reviravolta, esses livros perdem a razão de ser. Por isso me senti uma guerreira por terminar a leitura. A sinopse conta que há um triângulo amoroso: a protagonista + um cara rico mauricinho + um jardineiro rude. Agora aqui vai o spoiler que destrói a leitura: não há dois caras, há apenas o mesmo maluco com transtorno dissociativo  de identidade. Ele é o cara rico e o jardineiro ao mesmo tempo. Por isso a protagonista, que parecia tão apaixonada por um, consegue se envolver rapidamente com o outro. Eu concordo que esse foi bem fraco, mas tinha potencial. Alguma vez, na vida real, alguém com o raríssimo transtorno de dupla personalidade causou tanto estrago quanto se causa na ficção? Totalmente novela mexicana.

hollywood dirt alessandra torre

Por último, resolvi tentar um sem reviravoltas malucas e, olha, foi uma boa ideia, porque encontrei o que talvez seja o melhor livro de Alessandra Torre. Hollywood Dirt é leve, fofo e bem romântico. Summer é uma garota do interior e Cole é um ator de Hollywood, super famoso e badalado. Ele acaba indo filmar na cidadezinha dela. Ela é teimosa e orgulhosa e ele logo se apaixona, mas não admite. Eles vão brigar, vão se estranhar e por fim vão se entregar ao amor. O clima de cidade pequena foi o que mais me empolgou, muito porque é covardia fazer essas coisas comigo já que a minha memória afetiva está ligada a lugares assim. Fui fisgada, adorei ver a autora em um universo ligeiramente menos bizarro, mas não sei: nada como aquela sensação de que a Maria do Bairro acabou indo parar num filme policial dos anos 1990 e agora precisa se livrar de um serial killer por quem vai acabar se apaixonando.