Filha da Floresta

Comecei a ler fantasia há pouco tempo. Nos últimos dois anos, para falar a verdade. De alguns livros eu gostei muito e houve outros que eu nem consegui terminar. O Nome do Vento e O Olho do Mundo foram alguns que abandonei. Eu sei que são séries com muitos fãs e muito amadas, apenas senti que não eram para mim. Eu tenho problema com um tipo de herói que acaba sendo muito poderoso, quase que a troco de nada. Eu sei que não é apenas em livro de fantasia que isso acontece, mas falo precisamente deste tipo de trajetória em que um protagonista precisa encarar todo tipo de problema durante um percurso tortuoso, tudo para chegar ao fim e ser recompensado – como uma pessoa melhor na maioria da vezes. 

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Jornada do herói

Nesses dois livros que abandonei, achei tudo muito exagerado. Tudo era tão grande que me fez perder o entusiasmo. Parecia que eu via o autor, em cada frase, tentando fazer com que as coisas naquele universo ocorressem sempre numa escala grandiosa. Quando isso acontece eu não consigo me identificar com o personagem e às vezes nem chego a encontrar ali um personagem, mas apenas um autor com um ego gigante.

Por isso a jornada do herói é algo tão delicado: porque alguns autores megalomaníacos estragaram-na para mim. Sem contar que certas histórias parecem ser contadas de homem para homem. É o caso de O Senhor dos Anéis, Star Wars, e de boa parte do que a gente entende como cultura pop. Felizmente é muito fácil encontrar livros de fantasia onde a protagonista é mulher, e tenho que admitir que esse é um dos motivos que me fazem continuar lendo esse gênero.

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Toda essa introdução, claro, para falar de um livro escrito por uma mulher: Filha da Floresta, de Juliet Marillier. Ali não tem uma autora com um ego maior que o livro. A jornada da protagonista se dá da forma mais simples e sem autopiedade possível. Sim, ela vai sofrer muito. Mas em nenhum momento vemos autocompaixão.

Acompanhamos a menina Sorcha. Assim como Luke Skywalker, o herói principal de Star Wars, ela tem a força dentro de si, mas, diferente dele, não tem superpoderes. E isso só deixa tudo mais legal. A força, aqui, vem da comunhão com a floresta. Sorcha vai precisar passar por maus bocados para mantê-la. Depois que uma maldição é jogada sobre os seus seis irmãos, ela precisará de muita dedicação para desfazer o mal e libertá-los.

Sofri muito com a dor da Sorcha, mas em nenhum momento me senti desanimada com a leitura. Em Filha da Floresta o sofrimento nunca é à toa e está sempre a serviço do que está sendo contado. Aquela força que eu citei acima é sentida a todo momento. Outra proeza de Juliet Marillier é conseguir transmitir tamanha vivacidade através de uma menina recém saída da infância sem fazer com que elementos da trama pareçam falsos ou artificiais. Sorcha começa a história com doze anos e, no final, tem dezesseis. São quatro anos de sofrimento.

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Mapinha importante

Mas calma, o livro não é só desgraça. No meio de todo esse sofrimento ela conhece o amor. E esse amor é contado de forma autêntica. O relacionamento é construído aos poucos, devagar, sem estardalhaço – sem aquela grandiloquência que eu não gostei nos livros que acabei abandonando. Nesse momento, ao conhecer o protagonista masculino, Red, eu me lembrei de Outlander, uma série de livros que adoro. Red lembra muito o Jamie de Outlander. Ambos são homens que não precisam ser autoritários e grosseiros, são amigáveis e prestam atenção na protagonista. Com eles, o companheirismo vem antes da tensão sexual.

Por esses e outros motivos, Filha da Floresta é lindo. Mesmo durante as provações de Sorcha, o sentimento que mais encontramos é o amor. Primeiro com a família, depois com Red e seu irmão Simon, e também com muitas pessoas que não fizeram nenhum bem para ela. Sorcha é uma personagem inspiradora. Tenho certeza que nunca vou esquecê-la. O livro é daqueles favoritos para a vida. Para levar juntinho do coração. Dá vontade de ter essa força – não a que vem com superpoderes, ou com triunfos injustificados, mas a que vem com muita calma e serenidade para enfrentar os piores momentos.

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