Ressurreição

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Quase um mês sem texto no blog. Sabe, nem uma boa desculpa eu tenho para ter ficado esse tempinho sem escrever. Não foi o trabalho, a vida corrida etc, etc. Eu poderia dizer que março foi um mês com pouco tempo para o lazer, o que seria verdade, mas mesmo assim eu achei um espacinho para assistir a alguns filmes e séries. A leitura, sim, ficou meio parada e a minha meta dos doze livros para ler este ano virou uma bagunça. Estou na metade de O vermelho e o negro, que é o do mês de março. Mas admito que se eu tivesse me esforçado eu teria conseguido ler melhor, e ainda teria escrito aqui no blog. Então, o que faltou mesmo, de verdade, foi o esforcinho para fazer essas coisas quando o tempo aperta. Mas nada disso tem importância. Senti saudade desse layout tão organizado e funcional e cá estou, com a resenha do livro do mês de fevereiro da minha meta de leitura: Ressurreição, de Liev Tolstói.

Se eu tivesse que ler um autor pro resto da minha vida ou precisasse escolher um livro para levar para uma ilha deserta, as minhas respostas seriam Tolstói e qualquer livro dele. Ressurreição é um dos poucos romances do autor, e foi o último que eu li, não porque ele seja pior que Anna Kariênina e Guerra e Paz, mas porque só agora (na última década) saiu uma edição de respeito. Eu li Anna Kariênina pela primeira vez na edição feia e velha da Abril, uma com capa dura, vermelha, numa coleção dos grandes clássicos da literatura – sim, eu sou velha, quando eu era adolescente não se encontrava uma edição decente da Jane Austen ou do Tolstói – e mesmo que eu tenha chorado muito e amado aquele livro com todas as minhas forças, eu não queria repetir a experiência de ler um livro com tradução envelhecida ou vinda do francês. Por isso demorei tanto para ler Ressurreição. Valeu a espera, o livro é muito bom.  Agora eu tenho meus 31 anos de sabedoria – ou demência, já que meus episódios de descolamento total da realidade estão ficando mais frequentes – e senti que eu tinha mesmo o que aproveitar de um livro do Tolstói. Eu não saberia avaliar a tradução do Rubens Figueiredo, mas  segurei na mão dele e fui.

A história de Ressurreição é bem simples: uma prostituta está sendo julgada pela morte de um cliente. Ele foi envenenado e a última pessoa vista com ele foi ela, a cansada Máslova. Não tem mistério, ela está presa e a condenação é questão de tempo. Um dos jurados é Nekhliúdov, um aristocrata que percebe tê-la conhecido ainda jovem, quando ela era apenas uma criada na casa de um parente. Nekhliúdov, rico, teve um romance com Máslova, pobre, e isso resultou na mulher grávida e sozinha. Ele seguiu com a vida de nobre respeitável.

Acontece que de lá até a prostituição Máslova passou por maus bocados, e Nekliúdov sente isso assim que bate os olhos nela, na sala do tribunal. A culpa e a vontade de retratação levam-no a questionar as injustiças da sociedade em que vive, e isso faz com que ele abdique de suas terras e sua posição social.

Pelo título já é possível perceber que o protagonista busca redenção e vai passar por uma espécie de transformação depois de encarar a realidade. Isso não é exclusividade de Ressurreição. O mesmo sentimento de repúdio à injustiça já estava presente em Anna Kariênina e Guerra e Paz, mas em Ressurreição ele é mais politizado porque ataca mais diretamente as instituições e as pessoas por trás delas. Se nos outros romances encontrávamos aqueles elementos literários que seduzem pela forma ou pelo suspense,  em Ressurreição Tolstói vai secamente direto ao ponto. Se em Anna Kariênina muitas das cenas se passam dentro de casas da alta sociedade ou em jantares e festas glamourosas, Ressurreição meio que se divide entre a prisão e lugares burocráticos como o fórum. É um romance político, claro, Tólstoi diz durante todo o livro: como podemos julgar os outros e determinar quem deve passar uma vida atrás das grades?

Foi especial ler esse romance em 2017, quando a polarização política no Brasil deixa cada pessoa num lado já pré-estabelecido. Às vezes eu tinha a certeza de que Tolstói só podia ter começado o livro refletindo sobre aquela frase muito brasileira: “Tá com pena do bandido? Leva pra casa”. Porque o protagonista implodiu a vida inteira por uma criminosa, querendo casar-se com ela, quando percebeu que o que ele tinha feito também era criminoso. Quer dizer: ele ficou com pena (e remorso) e quis levá-la para casa. Mas, claro, o esqueleto político do romance de Tolstói não tem ligação direta com a especificidade dos problemas brasileiros. O que ele discute, entre outras coisas, é um tipo particular de cristianismo e os resultados da aplicação dele à vida em sociedade.

Como eu falei ali em cima, Nekhliúdov abre mão de suas terras e decide que precisa se casar com a prisioneira para reparar o erro de tê-la abandonado a uma vida de miséria. Máslova é considerada culpada pela morte de seu cliente, e por isso ela é levada à Sibéria para trabalhos forçados. O protagonista a segue, e durante esta jornada ele conhece alguns outros prisioneiros que também precisam de ajuda, e como um homem que procura redenção ele se dispõe a ajudar. Ele vai terminar esta jornada como uma pessoa diferente, mas não necessariamente redimida.

Ressurreição foi lançado em 1899, quando Tolstói já era simpático às ideias que negam a igreja, a violência e o direito à propriedade. Em cenas memoráveis do romance, o narrador questiona a hipocrisia da parafernália religiosa, os santos, os rituais infrutíferos e supersticiosos. Tolstói invalida a igreja como instituição. O juri representa o estado russo – ele mesmo criminoso e em falta com o povo, julgando-se ainda em condição de dizer o que é certo e errado. Essa posição radical faz de Ressurreição um livro mais do que especial, mas se eu dei a entender que o romance se parece mais com um panfleto político a culpa foi toda minha. Estão lá, ainda, aqueles momentos sublimes que fazem dos livros de Tolstói uma experiência transcendente. Se aquele primeiro parágrafo, por exemplo, não conseguir te convidar para a leitura, nada mais consegue.

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