The Handmaid’s Tale é desesperadora(mente boa)

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Você já deve ter ouvido falar desta série no último mês. Todos os textos que eu li falavam bem de The Handmaid’s Tale, e por aqui não vai ser diferente. A produção que estreou no Hulu tem sido muito bem cotada por todo mundo e já teve uma segunda temporada confirmada. Inspirada num livro de Margaret Atwood (O conto de Aia, publicado pela Rocco aqui no Brasil), a série conta o que acontece depois que uma nova liderança assume o poder nos Estados Unidos. A história tem todos os elementos de uma distopia: um poder tirânico que não aceita a desobediência, pessoas comuns lutando para fugir, pessoas comuns lutando para mudar a situação, repressão e injustiça.

Offred, vivida por Elisabeth Moss, é a aia a que o título se refere. Antes de o mundo virar de cabeça para baixo, o nome dela era June e ela levava uma vida pacata com marido, filha e trabalho. As coisas começam a se desintegrar quando a taxa de natalidade diminui, mulheres e homens deixam de conseguir conceber bebês e a taxa de aborto espontâneo cresce loucamente. Um poder religioso aproveita a oportunidade de desespero para se infiltrar na vida pública. De repente mulheres perdem seus empregos e deixam de ter acesso a dinheiro. Acontecem protestos, mas não tem jeito, em pouco tempo o que antes eram os Estados Unidos agora é República de Gilead. A principal função das aias nessa distopia é entrar no período fértil e copular com os patrões num bizarríssimo ritual em presença das esposas ricas e inférteis –  um estupro travestido de ritual religioso. As aias, essas poucas mulheres que ainda são férteis, perdem a cidadania e o comando das próprias vidas, perdendo com isso até o nome próprio. Offred vem de “of + Fred” porque June agora pertence a um homem poderoso, figura de destaque na nova nação.

June/Offred tenta com todas as forças não entrar em desespero. Mas é difícil. Levaram sua filha, o marido sumiu, a melhor amiga desapareceu e só há inimigos e estranhos por todos os lados. A repressão é pesada e o clima é de paranoia religiosa. É a força da personagem que faz com que The Handmaid’s Tale não seja só uma enorme lista de desgraças. June é resiliente, esperta, jamais conformada. Quando eu vi Elisabeth Moss em Mad Men pela primeira vez, eu achei que era questão de tempo até que ela entrasse no clubinho seleto das atrizes que são unanimidade. Fazendo June/Offred, Moss consegue imprimir intensidade em cenas emocionalmente pesadas, mas de poucos diálogos. Não é todo elenco que conta com alguém assim. O olhar de desafio da personagem está ali. Vê-se que ela está inconformada e revoltada e que busca uma oportunidade para dar o troco. Na mão de uma atriz pior, o dramalhão poderia ser insuportável. Esses pequenos detalhes que fazem parte da composição de Moss dão um tom distinto para a série. Assim, The Handmaid’s Tale não busca explicações esmiuçadas em longos diálogos porque confia no poder de comunicação de sua atriz principal. E o que ela mais comunica é uma raiva muito grande porque a situação é muito ruim.

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Eu li alguns textos relacionando a história das aias ao momento atual. O livro foi escrito na década de 1980 e, agora,  a repercussão da série tem dado conta de Margaret Atwood como uma visionária, alguém que previu certas tendências e criou um cenário irreal e assustador. Ela imaginou um mundo distópico em que as mulheres não têm vez. Eu ainda não li o livro, faz muito tempo que estou para ler alguma coisa de Atwood, mas os episódios que eu vi até aqui me fazem pensar em Persépolis, de Marjane Satrapi. É uma coisa que não me sai da cabeça. Persépolis conta a história de uma moça, criada no Irã, que viu o sucesso da revolução islâmica quando ainda era menina. Até aquela altura, 1979, o Irã era um país relativamente aberto. Não havia lei obrigando o uso do hijab. Quem leu Persépolis sabe do que eu estou falando. Satrapi fala do dia-a-dia do aferrenhamento do regime iraniano, das diferenças entre o que a família dela desejava para a sua criação (louvando independência, criatividade, curiosidade) e o que os valores de um Estado mergulhado em religião exigiam para todas as meninas e mulheres. Além de  Persépolis, tem uma foto que ficou grudada na minha memória. É de uma fotógrafa iraniana que documentou a marcha contra a obrigatoriedade do uso do hijab, em março de 1979. Foi um protesto enorme, foi um momento de resistência e acabou sendo, também, o último dia em que se permitiu que uma mulher saísse à rua com a cabeça descoberta. Quer dizer: tanto esse momento histórico quanto uma obra como Persépolis mostram que isso já aconteceu recentemente no mundo, que já houve um dia em que se decretou que todo um grupo de pessoas teria status rebaixado, em que um poder religioso retirou direitos de mulheres. Isso deixa The Handmaid’s Tale mais assustador e sufocante.

Além de incutir desespero, a série consegue contar uma história impactante com ótimas atuações (Elisabeth Moss não está sozinha: o elenco é de primeira) e com um certo cinismo, ainda que na medida certa para não deixar a gente perder a esperança. O último episódio que eu assisti foi revelador e focou em um personagem que tinha aparecido pouco. A história tem aventura, vilania e muito mistério. Esta primeira temporada tem sido daquelas que claramente plantam raízes para uma longa jornada. Posso estar com grandes esperanças e pode ser que alguém que já tenha lido o livro as ache injustificadas, porque as melhores histórias dificilmente têm finais felizes, mas tenho que dizer que não vejo a hora de me sentir vingada. Eu queria que June dissesse que Offred é o cacete e matasse todo mundo a tiros. Mas vamos ver.

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4 comentários sobre “The Handmaid’s Tale é desesperadora(mente boa)

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