Dois romances policiais que valem a pena

Uma das minhas primeiras leituras foi um romance da Agatha Christie que eu comprei numa banquinha de revistas. Isso foi em 1997. O livro era Morte no Nilo. Eu só me lembro disso porque ainda guardo o exemplar. Na primeira página escrevi o meu nome completo e a data, com a minha letra ainda infantil, só para atestar que aquele livro era meu (quem tem irmãos mais velhos sabe que é necessário marcar com o nome os objetos mais queridos). De lá para cá eu li uns bons livros dela e do Conan Doyle. Dificilmente passo dois meses sem ler um romance policial. A oferta tem sido muito grande, mas alguns elementos estão em falta.

Sinto que há ondas no mundo editorial. Crepúsculo trouxe consigo uma infinidade de outros romances sobrenaturais. Aos poucos, a chama foi se apagando. Jogos Vorazes veio em seguida e vimos as livrarias inundadas por distopias de variada qualidade. Mas isso já faz tempo. Agora em 2017 quando eu vago o Skoob atrás de novidades e boas histórias, chego a me cansar de ver livros de fantasia young adult e romances policiais das mais variadas origens – tem os escandinavos, tem os ingleses, e tem também, como não poderia deixar de ser, os americanos. O problema é que eles têm muita coisa em comum. Acho que Garota Exemplar, embora não seja um policial no sentido estrito, trouxe uma nova onda de thrillers meio adultos e de temática relativamente pesada. Sob a influência do sucesso do livro de Gillian Flynn, muito do que surge parece ter o mesmo tom.

indesejadas

É muito difícil, nesse mar de livros, nessa verdadeira bola de neve, escolher o que ler. As editoras estão cada vez mais especializadas em nos enganar com capas lindas e sinopses esquivas. Muita coisa parece legal e, se a gente se deixar levar, sai comprando tudo e cai até em crise existencial por não saber o que tirar da prateleira. Eu queria falar sobre dois romances que li recentemente, e que fogem um pouquinho da regra por apresentarem personagens excelentes. Um é Indesejadas, o primeiro da série Fredrika Bergman & Alex Recht, da sueca Kristina Ohlsson. Aqui no Brasil a série vai pelo terceiro livro. Fredrika e Alex são os investigadores da vez. Em Indesejadas eles precisam desvendar um desaparecimento que logo se revela assassinato. Não há muito o que contar sem soltar spoilers. O caso é complicado e de deixar o leitor sentado na ponta do sofá (ou da cadeira, da cama, do que for de preferência). Só que, para mim, o diferencial desse livro é o carisma dos personagens. Os protagonistas são um ponto fundamental. Quando o detetive é ruim, o romance policial parece durar uma eternidade. Não é o caso aqui. Há rixas, ciúmes, desavenças. O livro é longo. São quase 400 páginas, então o foco fica bem dividido entre o crime que precisa ser solucionado e a vida de Alex, Fredrika e Peder. Discórdia entre policiais é um clichê nem sempre bem vindo, mas aqui não há enfrentamentos irritantes. O lugar-comum dá espaço a crises que parecem genuínas. Eu me senti na pele de uma policial ferrada durante a leitura de Indesejadas. Um outro ponto bacana é que em Indesejadas o frio, que obviamente é marca registrada da Escandinávia, sai de cena para a chegada do verão. Não é muito comum sentir calor ao ler um romance sueco.

A garota no gelo

O segundo livro é A Garota no Gelo, que também é o primeiro de vários, dessa vez pelo autor britânico Robert Bryndza. Ele nos apresenta a série da detetive Erika Foster, com dois volumes publicados no Brasil até agora. A detetive está deprimida e acaba de voltar a trabalhar. Seu marido foi morto em uma ação policial que a tinha como comandante. Ela se sente culpada, e todo mundo acha que ela tem culpa mesmo. Atrás de novos ares, ela vai para Londres investigar um assassinato. Um recomeço. Mas não para uma jovem rica que foi achada morta em um bairro decadente. O caso cai nas mãos de Erika. Ela não conhece ninguém da equipe e vai se desentender com muita gente para conseguir juntas as peças. A detetive é chata (mas a gente simpatiza com ela), intransigente e ranzinza: meu tipo preferido de personagem. De novo, como é de praxe, o livro fica bem dividido entre a vida da protagonista e o caso a ser solucionado.

Sempre me alegro quando vejo uma protagonista como Erika, com esse gostinho amargo de rabugice e com brio. Uma pessoa com espírito resistente, mas cheia de manias bizarras. A Fredrika de Indesejadas não fica atrás. Quando elas pegam os assassinos fica aquela sensação de justiça feita e missão cumprida.

É importante que a trama seja intrigante e que as pontas não fiquem soltas, mas isso não é tudo. Eu adoro me apegar aos protagonistas, mas isso tem ficado cada vez mais difícil. Todo personagem parece igual, com tiques, costumes e mensagens parecidos. Esses dois romances que eu destaco não trazem novidades, e para falar a verdade eles têm muito em comum com o bolo de coisas parecidas que a gente encontra nas livrarias, mas, se você é como eu e é capaz de seguir um personagem bom aonde quer que ele vá, vale a pena passar umas horas investigando esses casos esquisitos.

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