Novembro de 63

IMG_20160201_171353

Pra quem está acompanhando, fiz uma meta diferente este ano. Vou ler os que forem chegando, mas pré-selecionei apenas um livro por mês. O de janeiro é esse da foto.

Escolhi ler Novembro de 63 para fugir das histórias que todo mundo conhece de trás para frente. Este é apenas o segundo livro de Stephen King que eu termino mas, por causa dos milhares de filmes baseados em obras dele, a sensação de familiaridade que aparece em qualquer coisa que tenha a assinatura de King é enorme.  Busquei o livro que mais me parecia fugir do horror fantástico. Acabei percebendo que, mesmo na falta do horror, não faltou o fantástico. Acho que pela sinopse já dá pra ter uma ideia: Jake Epping é um professor de literatura inglesa que vive – adivinha onde? – no Maine. Divorciado e sem filhos, ele vive uma vida comum e um pouco solitária. Jake se torna a pessoa perfeita para pôr em prática os planos de Al, um homem com câncer e com poucos dias de vida, que descobriu uma passagem secreta para voltar no tempo. Essa passagem secreta é apelidada de toca do coelho, e ela vai dar precisamente no dia 9 de setembro de 1958. A ideia mirabolante de Al é que Jake vá até 1958 para impedir o assassinato de John Kennedy, em novembro de 1963. Depois de um pouco de persuasão, Jake chega em 1958 com essa missão, mas não com tanta pressa: esse é só o começo de uma aventura que vai durar mais de 700 páginas.

It, o outro livro de King que eu li, era mais devagar, e investia profundamente na construção de personagens. Em Novembro de 63 eu encontrei um Stephen King mais ágil, com um ótimo senso de aventura, mas nem por isso menos disposto a se dedicar a seus personagens. Jake Epping é muito carismático. Eu lia o tempo todo imaginando os traços físicos do James Franco por causa da adaptação do romance em série de tevê, já anunciada, que vai estrear em fevereiro no site de streaming Hulu. No livro, Jake é bem alto e magro, e o James Franco não é tão alto assim. Então na minha cabeça ficou um James Franco muito mais alto e mais magro. Não ficou muito bonito, mas funcionou. Acho Franco uma escolha acertada para captar a curiosidade e o bom humor de Jake. Gostei muito do relacionamento amoroso de Jake com  Sadie. Não foi muito enrolador, e também nem um pouco baboso. Foi bem fofo, mas de certa forma discreto. Aos poucos, sem muito anúncio prévio, o amor deles estava lá, grandão e bonito. E aí Jake que era um personagem meio que sozinho na vida – e no livro, sem ninguém fixo com quem interagir – achou alguém com quem dividir os holofotes. Sadie acaba sendo importante na trama, e carismática do jeito dela.

Por causa de Sadie, achei que as mulheres são parte fundamental dos temas que o livro busca tratar. Afinal, não pode ser coincidência que todas as mulheres na história tenham sofrido de um jeito ou de outro nas mãos dos homens. E os homens em questão eram bem crápulas mesmo. Não digo que o livro seja “feminista” porque o herói destas mulheres era sempre, é claro, um homem: Jake Epping. Mas o resultado foi bom, pois ilustra a realidade da mulher, naquele lugar e naquela época, sofrendo e sem ter para onde fugir.

IMG_20160201_170808

Por se passar no fim dos anos 1950 e início dos anos 1960, época em que Stephen King era novinho, Novembro de 63 me fez sentir certo carinho por todos aqueles cenários e por estilos de vida que ficaram no passado – e que nós, no Brasil, só conhecemos através de filmes, tevê e livros. Esse carinho é derivado do tom nostálgico com que o narrador de King nos conta a história. Imagino que para quem nasceu e vive nos Estados Unidos, a chance de sentir mais do que carinho deve ser ainda maior. Mais do que esboçar um pano de fundo político, em Novembro de 63 King consegue mostrar o dia a dia de uma pessoa comum daquela época – uma época transformadora, meio que um fim de festa de um país que já estava em vias de se transformar. O assassinato de Kennedy sempre aparece na ficção, seja em qualquer mídia, como uma linha divisória, um evento que acabou com certas esperanças e começou uma fase nova, menos inocente. Sem grandes artifícios e com recursos aparentemente simples, Stephen King me fez ver por  dentro uma das realidades mais distantes da minha: a de um homem com trinta e tantos anos vivendo em Dallas, no Texas, em 1960.

Eu sabia que ia gostar deste livro muito antes de lê-lo. Gostei por conta do afeto que a gente acaba criando por estranhos que não conhecemos mas sentimos que conhecemos, ou pode ser que eu tenha gostado por causa da capacidade que um bom escritor tem de contar uma boa história. Para mim, esse é um mérito muito grande, e já faz com que Novembro de 63 seja, de fato, uma espécie de viagem no tempo.

Anúncios

2 comentários sobre “Novembro de 63

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s