Manchester à Beira-Mar

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Um homem à beira da vida, esse é o Casey Affleck em Manchester à Beira-Mar. Os meus filmes tristes preferidos sempre esbarram em histórias contadas num tom quase jocoso, mas não leviano, e este filme é exatamente isso: triste de doer a alma, mas com certo humor, ou melhor: um filme com temperamento mórbido, mas leve. Acho que estou me enrolando, não? Melhor começar pela história.

Lee Chandler é um homem que vive o luto. Ele mora sozinho, trabalha como um faz-tudo numa cidade fria. No início do filme ele recebe um telefonema dizendo que seu irmão, que sofre de um problema no coração, não está nada bem. Por isso ele volta correndo à cidade natal de onde tentara fugir, mas não chega a tempo de encontrar o irmão com vida. Ele recebe a notícia da morte de forma apática, mas polida.

Lee é um homem bom e atormentado, e nós conseguimos sentir isso desde a primeira cena graças à ótima atuação de Casey Affleck. Affleck interpreta alguém que parece viver em um transe, nunca se importando com nada e ninguém, numa indiferença tão grande que ele não tenta nem exibir nem disfarçar sua tristeza. O único familiar vivo dele, agora, é o sobrinho Patrick. Vale dizer que Patrick e o tio não são completos desconhecidos e têm uma certa intimidade apesar da distância. Com o irmão morto, Lee vira o tutor do sobrinho. Só que os dois têm interesses contrários. Enquanto o tio não quer permanecer na cidadezinha que só lhe traz más recordações, o sobrinho tem uma vida social movimentada e não quer sair dali.

O motivo de Lee ter saído da cidade onde cresceu é a culpa por um acontecimento terrível do passado. O que nós testemunhamos é um homem sofrendo por várias perdas, mas acima disso atormentado pela culpa. Lee não quer a ajuda de ninguém, ele não quer ser salvo. Sua punição é sentir todos os dias que não há escapatória para o que fez. Nada de seguir em frente. O limbo onde ele vive é o castigo que ele merece. É muito triste sentir junto com o personagem a tortura que é sua vida. Na cena que eu imagino que vá ser a amostra grátis do filme durante o Oscar – quando o nome de Casey Affleck for citado como um dos concorrentes ao prêmio de melhor ator – Michelle Williams e Casey Affleck se trombam e travam uma conversa levemente inarticulada. Lee gagueja e ali o seu sofrimento é palpável. Sim, eu chorei um pouquinho, doeu meu coração de verdade ver tudo o que eles não conseguiam dizer.

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Agora que eu já assisti a 98% dos filmes que concorrem nas categorias mais importantes do Oscar, posso dizer que minha torcida é pelo Casey Affleck. Eu o conheci no ótimo Medo da verdade, dirigido pelo Affleck mais famoso. Ali a atuação dele me chamou a atenção: ele é contido fala para dentro, parece um Marlon Brando feio. Mas não acho que Manchester à Beira-Mar seja mérito apenas de Casey Affleck. Michelle Williams aparece pouco, mas a passagem que eu já citei, em que os dois se esbarram, mostra que eles trabalharam juntos. Ali há as expressões de um casal que não deu certo, naquele misto de carinho mal disfarçado e sofrimento profundo. Ela tem apenas uma chance para mostrar que está tão arrebentada quanto ele, e o resultado é a cena que é o momento alto do filme.

O diretor Kenneth Lonergan, que era um nome desconhecido para mim até o mês passado, é a figura por trás de todo o sucesso de Manchester à Beira-Mar. Assisti a Margaret, também dirigido por ele, há algumas semanas, e passei um bom tempo pensando no que tinha visto. É outro filme longo que trata de pessoas traumatizadas, com motivações que elas mesmas mal conseguem entender. O que é que mantém Lee vivo? O desejo de se autoflagelar? Depois de Margaret e Manchester à Beira-Mar eu admito que vou assistir a tudo que o Kenneth Lonergan dirigir e escrever.

Manchester à Beira-Mar é um filme sóbrio, Lee é um homem comedido em suas palavras, em seus gestos, mas o longa não toma para si a tristeza de seu protagonista, e o responsável por isso é o sobrinho Patrick, vivido por Lucas Hedges, que aparece fazendo uma espécie de contraste de lutos. É na oposição da leveza de espírito de Patrick, que acabou de perder o pai, à melancolia constante de Lee e seu luto perene que a história se costura. O rapaz traz situações que normalmente não caberiam num filme tão pesado, e isso reforça o caráter aleatório dos sofrimentos que as pessoas precisam enfrentar. Para mim esta é a pequena marca que faz de Manchester à Beira-Mar um filme especial.

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