Jane the Virgin

Jane, a Virgem

Jane, a Virgem

Jane the Virgin é uma comédia leve, mas sua construção é tão diferente das outras séries, que ela é no mínimo original. Tem uma cara de novela mexicana – e isso não é sem querer. Quando eu era criança era viciada na teledramaturgia mexicana. Tinha uma comunidade no orkut – olha eu entregando a idade – que era algo como SBT formou o meu caráter. Comigo foi bem isso. Assistia Chaves, Carrossel, Maria do Bairro, Mari Mar, Maria Mercedez, depois Chiquititas e, mais pro fim, A Usurpadora. Ainda poderia citar outras produções mexicanas, como Chispita… mas minha memória não é das melhores, então vou ficar com as mais famosas. Some-se a isso o monte de novelas brasileiras que qualquer uma que nasceu ainda no século XX teve que ver, quase que compulsoriamente, e pronto: eu tenho certa experiência como espectadora para gostar da pegada de Jane the Virgin.

A série consegue brincar com todos os clichês previsíveis deste tipo de telenovela, mas em nenhum momento vira uma paródia, ou fica arrogante ou até mesmo trata seu espectador de forma condescendente. Tudo é muito divertido, despretensioso, mas não podemos nos enganar. Jane é uma personagem forte, como está em voga no momento. É a mulher corajosa, que enfrenta com bravura as adversidades. E é de origem latina.

Diferente do que acontece em outras produções, em Jane the Virgin isso não é um detalhe. Lembro de Viver a Vida, novela das oito do Manoel Carlos. A protagonista era Helena, como sempre. Mas a novidade é que esta Helena era negra. Era a primeira protagonista negra numa novela no horário nobre. Era um marco, era importante. Claro que dediquei um pouco do meu tempo para ver a novela, já que prometia. Pra quem não sabe, as Helenas do Manoel Carlos são sempre mulheres que vivem no Leblon e tomam vinho ouvindo jazz. São mulheres brancas da elite. Queria ver onde essa nova Helena iria se encaixar.

Minha surpresa foi que não houve mudança nenhuma. A Helena da Taís Araújo era insuportável como todas as outras. Era uma mulher frívola, sem carisma. Ela não representava nada, não dizia coisa alguma sobre qualquer tema. Era apenas uma personagem oca, como todas as outras. Não quero dizer que uma mulher negra não vai tomar vinho ou ouvir jazz ou morar no Leblon, mas quando as pessoas falam em representatividade, elas estão falando apenas em colocar uma negra ou latina no lugar usual de uma branca e manter tudo exatamente igual ao que era antes? Acho que não. Claro, pra uma pessoa que não se sinta representada ver no horário nobre alguém que se pareça consigo já é um avanço.

Um exemplo: recentemente ouvi falar de uma história sobre a Uhura, a mulher negra que dividia as cabines de controle com o capitão Kirk em Star Trek, vivida pela atriz Nichelle Nichols. Na época em que Whoopi Goldberg era criança, ela viu Uhura na televisão e saiu correndo para contar aos pais: “acabei de ver uma mulher negra na televisão e ela não é empregada doméstica!”. Ninguém pode negar que isso é importante. A Uhura, porém, é uma personagem pequena ali naquele universo, e isso aconteceu na década de 1960. Era um passo pequeno, o mínimo do mínimo, mas foi importante. De lá pra cá, mesmo em 2015, ao assistir televisão tem-se a impressão de que ninguém nunca vai além disso, de uma troca simples de um corpo branco por um negro ou latino. Mas isso é contar histórias? Isso é mesmo representar as pessoas?

Nesse sentido, acho que Jane vai um passo além. Quer dizer: ela não é só latina na pele, nem na língua, mas a maneira como ela se comporta e os temas que são explorados pela personagem dela têm relação com essas origens.

Alba, Jane e Xiomara

Alba, Jane e Xiomara

É uma mulher no inícios dos vinte anos que se mantém virgem por princípios católicos. Jane namora há um bom tempo Michael, e vive com a mãe e a avó. As coisas mudam quando num exame de rotina na ginecologista ela acaba ficando grávida. Como? A ginecologista confundiu seu exame de papanicolau com uma fertilização. O sêmen desta fertilização vem a ser de Rafael, uma antiga paixão de Jane. A história se desenvolve a partir daí, e posso dizer que agora na segunda temporada muita coisa aconteceu. Coisas mirabolantes típicas de novelas mexicanas.

O romance, por incrível que pareça, não é o principal. Ele está ali, bem presente, mas o ponto forte da série é Jane, sua mãe e sua avó. O relacionamento das três é mais importante do que Rafael e Michael, os mocinhos da história. O vínculo familiar é a estrela da série. Esse elo é muito importante, pois diz o que a série é. Já vi muita série americana que se diz séria e que acaba sendo muito mais dramalhão que Jane the Virgin, uma   série da CW com os dois pés na telenovela. Quer um exemplo? Qualquer série com um drama familiar de classe média. Em algum momento o filho vai fugir de casa, a mulher vai trair o marido, e tudo acontece com uma carga dramática alta, com encenações para lá de exageradas, com muito choro e grito. Em Jane, choro e grito são casuais, tão casuais que quase não dão as caras. O drama fica só nas reviravoltas do roteiro – como isso de ela ser engravidada sem querer, ou nas maquinações do vilão Sin Rostro (aliás, que nome para um vilão!), daquelas típicas de novelão – pois a atuação é normal, sem grito e choradeira. O drama é inerente à telenovela, mas a mistura feita em Jane the Virgin faz com que ele não afaste a série das coisas que a gente vive no dia a dia. As ideias são mirabolantes, mas as crises e tensões são verossímeis porque os personagens parecem verdadeiros.

Se você gosta de histórias excêntricas e engraçadas que não se desliguem da realidade vai amar Jane the Virgin.

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