O que aconteceu até agora na nona temporada de RuPaul’s Drag Race

rupauls drag race 9 temporada

Já vi oito episódios da nona temporada de RuPaul’s Drag Race e ainda não tenho uma drag preferida. Acho que a Trinity vai ganhar. Eureka saiu num acidente infeliz. Valentina não tem cacife. Alexis Michelle pensa que é melhor do que é de verdade. Sasha Velour precisa dar uma boa arrancada se quiser brilhar desse ponto em diante. O mesmo vale para Peppermint, embora ela tenha feito a melhor coreografia de lipsync da história do programa. Shea Couleé parece uma ótima concorrente, mas só mostrou lapsos  de brilho e não um brilho intenso.

Vimos pouco de todas, mas não acho que o nível das competidoras esteja ruim, tenho uma outra hipótese: a temporada se concentrou, até agora, em quem nunca esteve nem um pouquinho perto de ganhar nada de jeito nenhum. No talento, Jaymes, Kimora Black, Charlie Hides, Cynthia Lee Fountaine, Aja e Farrah Moan, somadas, não dão meia Courtney Act. Só que elas são personagens excelentes e eu tenho certeza de que lá na produção de Drag Race ninguém pôde resistir a contar essas histórias.

A primeira a sair foi a esquisitíssima Jaymes Mansfield. Quem acampanha o reality há muito tempo sabe que os patinhos feios despertam a curiosidade e que o patinho não é feio porque é feio,  mas porque não se encaixa. Na primeira temporada havia Tammie Brown, uma drag que parece ter como missão de vida deixar o público desconfortável. Mas era de propósito que ela fazia assim. Ficou claro que o estilo de Tammie Brown não era bem o do tipo de participante que Drag Race coroava. As temporadas seguintes também tiveram gente excêntrica, até que Sharon Needles conseguiu esculpir a esquisitice e levar o troféu para casa na quarta edição do programa.

Só que o problema de Jaymes Mansfield era outro. Nada do que ela fez deu certo. No Untucked, ela parecia deslocada e desconfortável. Seu ponto de partida era a comédia, mas a parte engraçada não apareceu. Ela estava nervosa, não demonstrava traquejo nem versatilidade. As outras competidoras perceberam e demorou minutos para que, tanto elas como a edição do programa, começassem a tratar Mansfield como café-com-leite. A história dela, como ali não poderia deixar de ser, foi a de alguém que encontrou uma barreira intransponível bem na hora em que precisava se livrar de todos os limites. Essa história é necessariamente verdadeira ou faz justiça à vida  da participante? Não importa. O que importa é que, no universo que se revela em Drag Race, Jaymes Mansfield foi a primeira a sair e virou um símbolo para todas as que já perderam feio.

Kimora Black não é muito interessante. Acho que toda temporada tem aquela drag que só quer ser bonita, e com essas eu implico. No caso de Kimora, era até engraçado ver a diferença entre o que ela pensava de si (em estilo, carisma, essas coisas) e a realidade do que conseguiu demonstrar.  Ela nem teve muito tempo de tela. Charlie Hides, a terceira a sair, não acrescentou muito no que diz respeito ao propósito da competição, mas o arco dela também teve um aceno ao que talvez seja o tema principal de Drag Race desde o começo, a autoestima. Com mais de 50 anos, nem ela nem a edição deixaram de destacar as diferenças que a idade traz.

Para mim, a saída de Charlie foi a mais marcante. Ela foi a que se negou a dublar [lipsyncar?haha] pela própria vida. Quer dizer: Charlie ficou respeitosamente no palco, sem dar um passo para a frente ou para trás e dublou sem nem fingir entusiasmo. No ideário das participantes do programa, que é aquele conjunto feito das ideias que são marteladas por todas elas desde a primeira temporada, o que Charlie fez foi um verdadeiro crime. Todas falam em deixar a vida no palco, dizem que aquela é a oportunidade de uma vida, que se fosse para fazer pela metade seria melhor ficar em casa. Eu acho que essa tem que ser a postura de quem quer competir, é claro, mas também entendo o que Charlie Hides fez. Sempre tem uma certa classe em quem se nega a fazer o que todo mundo faz, principalmente quando isso é garantia de suicídio social. De certa forma, a desistência de Charlie quebra um pouco a história que o programa quer contar e vira um contraponto ao que aconteceu com Jaymes Mansfield na primeira eliminação. Jaymes saiu chorando porque estar fora de Drag Race era uma espécie de morte, enquanto Charlie, do alto de sua experiência, foi embora como quem afirma que vai continuar fazendo o que já fazia antes do reality show. E isso é muito legal porque, sem negar a importância de RPDR, assim como The Voice não é dono da música, Drag Race também não deve ser dono da arte drag. “Eu sei cantar”, Charlie disse, “dublar é uma coisa que eu não faço”.  Ué, mas ela sabia que teria que dublar! Sim, e quando a hora chegou, ela virou as costas e saiu andando. Esse é um orgulho que eu compreendo.

O que eu não entendo é o apelo do drag de Cynthia Lee Fountaine. É verdade que ela parece uma das pessoas mais queridas do planeta, mas pouca gente fez coisas tão sem sentido. Na oitava temporada Cynthia foi eliminada com um shortinho bem abaixo da competição. Teve uma segunda chance e mostrou que não tinha o que mostrar. Pôde fazer a Kim Kardashian, e o resultado foi… triste. Mas vocês a viram no Untucked ou naqueles momentos de descontração (meio ensaiados, mas tudo bem) enquanto as meninas se pintam? Ela não só tem histórias boas para contar, como ainda por cima oferece aquele tipo de companheirismo que é um dos pilares do discurso de Drag Race. Essa participação grande que Cynthia Lee Fountaine teve, mesmo quando não tinha a menor chance de vencer, mostra que o programa parece mais preocupado com personagens do que com competidoras. Por não ser boa no jogo e não ter uma história destacada, alguém como Farrah Moan passa sem deixar rastros.

You look like Linda Evangelista

Para mim, o que esta nona edição teve de melhor, até agora, foi o potencial mêmico de mais uma competidora que não teve a menor chance: Aja. Eu acho que Aja é do nível de Shangela, quando Shangela era recém chegada. Aja não sabe se maquiar, nem se vestir, nem atuar, nem cantar e, pelo que demonstrou no Untucked, não era lá um poço de bondade. Seu melhor momento foi  quando descarregou sua frustração em Valentina, no que até agora é o meme mais engraçado de 2017.

A raiva de Aja foi uma das coisas mais gostosas que eu já vi na vida. É um momento que só RPDR é capaz de produzir. Eu tenho certeza de que aquele diálogo não foi previamente escrito porque ator nenhum poderia fingir toda aquela variedade de sentimentos. Tem inveja? Aham. Tem indignação por injustiça? Sim. Tem tensão sexual? Também tem. Ainda por cima, Aja declama  tudo com uma sinceridade que eu só tinha visto em crianças, especificamente aquelas sem filtro algum e insensíveis ao subtexto que pode aparecer em qualquer frase que uma pessoa fala. Só alguém completamente despreparado para ter um surto assim, para demonstrar tudo o que sente enquanto diz só uma parte do que queria dizer.

Por tudo isso, a nona temporada fica na média. Não vai ser a melhor. Não tem gente brilhante e carismática como Bianca Del Rio, Raja ou Jinx Monsoon, mas também não é um mar de drags pouco interessantes como foi a sétima edição (e eu digo isso em retrospecto, porque na época eu me lembro de ter gostado até de Violet Chachki). O programa vai continuar tendo seu apelo por causa de suas histórias universais e porque, entre outras coisas, RuPaul Charles é a elegância em pessoa.

Kimi no Na wa.

kimi no na wa

Eu estou apaixonada pelo Japão. Acho que isso ia acabar acontecendo. Sem muito alarde, e já faz tempo, o Japão é o segundo maior polo exportador de cultura pop do mundo. Nos últimos tempos coincidiu de eu assistir a vários bons filmes japoneses e ouvir uma banda japonesa, a Galneryus, e pronto: kawaii pra tudo que é lado. Eu vi Kimi no Na wa. no último fim de semana, logo depois de uma overdose de uma música só: “Destiny”. Foi a gota que faltava.

Kimi no Na wa. – que também tem um título mais fácil: Your name. – é um filme perfeito. Tem aventura, romance e é visualmente lindo. É difícil falar do anime sem esbarrar em spoilers. Mitsuba vive no interior do Japão. Ela tem uma rotina simples: vai para a escola, vive com a avó e a irmãzinha e sonha em morar em Tóquio. Taki é o jovem que parece ter a vida que Mitsuba quer: ele mora na capital, é universitário e trabalha como garçom em um restaurante. Os dois não se conhecem, mas por conta do destino suas vidas acabam entrelaçadas. De um jeito inexplicado, eles acordam um no corpo do outro pelos menos duas vezes por semana. Daí um passa pelo que o outro passaria, só para acordar como se nada tivesse acontecido no dia seguinte. Isso dura alguns meses, até que, do nada, para de acontecer e Taki decide ir atrás de Mitsuba para investigar o que houve, e também para conhecer a garota que faz parte dos seus pensamentos.

O ponto de partida é meio juvenil, mas isso não quer dizer nada. Os japoneses são especialistas em conseguir transformar temas que são típicos da juventude em objeto de reflexão mais profunda. É só ver qualquer história (no anime, no mangá) que pareça ser “menina conhece menino” para notar que isso será só o começo de uma aventura mais complexa: no mínimo os personagens serão excêntricos, com atitudes extravagantes vivendo em um mundo bizarro. Isso é muito empolgante. Kimi no Na wa. não chega a ter uma história de amor atípica, mas ele tem muito mais facetas que uma história de amor de um filme americano com os mesmos temas.

Kimi no Na wa. é apaixonante. As cores são usadas de um jeito ridiculamente bonito, são como uma explosão linda na nossa cara. Cada frame é uma pintura. Os protagonistas são cativantes e a história se desenrola de um jeito contagiante. Eles se detestam, eles se amam, eles não entendem o que está acontecendo, eles lutam para arrumar a bagunça, eles querem ficar juntos, eles  não sabem se vão ficar juntos, eles se apaixonam mesmo sem se conhecer. É uma história arrebatadora para ficar para sempre na minha memória. Eu amei. Acho que este blog corre o sério risco de ficar monotemático, acho que eu corro o risco de virar otaku depois de velha.

Get Out – Corra! (mentira, não corra:o filme é bom)

get out

Get Out é muito legal. De uns tempos para cá ficou difícil repetir aquela ladainha de que falta criatividade aos filmes de terror/suspense, já que surgiram vários memoráveis nos últimos anos, mas não dá para negar que o gênero investe muito em nostalgia, referências, homenagens e todas essas coisas que deixam, às vezes, um filme novo com cara de produto reciclado. Não é o caso aqui. Get Out tem o esqueleto obrigatório do suspense, mas encontra um ponto de vista particular.

Imagine que você tem um relacionamento de quatro meses e agora vai conhecer os pais da namorada  ou namorado, em um fim de semana em que você vai dormir na casa deles. Para piorar, você vive num país em que a proibição ao casamento inter-racial, dependendo do estado, era comum na geração de seus avós e muito recente na de seus pais. Vocês formam um casal inter-racial. Você é a parte mais discriminada da história. Essa é a premissa do diretor e roteirista Jordan Peele.

Quando Get Out introduz Chris Washington, vivido por Daniel Kaluuya, o rapaz está fazendo as malas com uma expressão preocupada. Chris quer saber se a namorada contou aos pais que ele é negro. Ela diz que não e que isso pouco importa. Diz que eles são democratas, eleitores de Obama, que têm pavor de racismo e jamais se oporiam a uma pessoa por conta da cor de sua pele. Só que Chris é escolado – e isso é um dos pontos mais legais do filme,  que é conduzido pelos olhos de seu personagem principal. Percebemos logo que ele não vê o mundo com o otimismo de sua namorada, que qualquer discriminação que venha a sofrer não será a primeira e que, na opinião dele, um branco americano de classe alta pode ser racista e eleitor de Obama ao mesmo tempo. Chris não precisa dizer nada disso porque a câmera acompanha suas expressões e reações em todos os diálogos, do começo ao fim. Então é com uma espécie de resignação pessimista que ele parte para a casa dos pais da namorada. Faz isso por ela, apesar da própria vontade; faz porque aposta no relacionamento.

Já que o filme segue Chris em tudo, é claro que ele estava certo. Não demora e a gente percebe que a família da namorada é racista, sim. Só que racista, ali, todo mundo é. O maior problema desse pessoal é ainda mais complicado: a família vai parecendo mais e mais bizarra, e logo Chris começa a temer por sua segurança. Daí em diante, Get Out fica divertidíssimo, um filme sóbrio e dono de uma atmosfera sufocante, e que, ao mesmo tempo, não perde certa veia de comédia de costumes. Ele retrata relações sociais em um país que não conseguiu resolver sua desigualdade e as contradições que brotam dela, sem deixar de ser uma espécie de depoimento pessoal. Por isso, por ter um olhar particular sobre a questão racial americana, Get Out não esbarra no discurso político já pronto para agradar uma plateia de adeptos, bem ao contrário: o filme é muito contundente quando satiriza o racismo justo por não fazer concessões. É como se a premissa tivesse nascido de um comentário levado ao extremo: e se o terror que é conhecer os pais racistas de uma namorada fosse interpretado literalmente e virasse terror de verdade? Jordan Peele nunca se afasta desse ponto de partida.

GetOut corra

Mas o mais legal nem é isso. Para contar o que é mais legal eu vou precisar falar um pouquinho mais do que acontece quando Chris chega à propriedade dos pais da namorada e, para ser sincera, eu acho que saber desses detalhes vai piorar a experiência de quem ainda não assistiu ao filme. É que tem um certo desafio em saber exatamente o que vai acontecer, e o desafio é levado a sério, ou seja: Get Out é mesmo um filme de suspense em que o desenrolar tem importância. Fica o meu aviso, então, de que daqui em diante o texto contém spoilers até que grandinhos.

Pois bem. Os pais da namorada são traficantes de pessoas. O que eles fazem é sequestrar um afro-americano, fazer nele uma lavagem cerebral e leiloar seu corpo a uma clientela formada por brancos ricos. A mãe da menina é psiquiatra, sua especialidade é deixar as vítimas com a mente oca; o pai é neuro-cirurgião, e quando ele encontra um afro-americano com as características que um cliente quer, ele prepara uma cirurgia de transferência de uma parte do cérebro do cliente ao corpo da vítima. Com que finalidade? Ah, sim, transfere-se a consciência de alguém em vias de morrer para o corpo de um americano negro no auge da forma. Essa foi a metáfora que Jordan Peele encontrou para tratar das contradições de um país racista que não deixa de consumir a cultura negra com voracidade. No filme, os negros que tinham recebido o transplante de um cérebro branco perdiam todas as marcas da identidade afro-americana. Vocabulário, roupas, costumes, gostos: na cabeça das vítimas só sobrava uma lembrança distante de quem foram. Eu deixo toda a discussão que isso desperta para alguém que tenha mais familiaridade com os Estados Unidos do que eu (e aproveito para recomendar o documentário vencedor do Oscar, O.J.: Made in America), mas não dá para negar o tamanho da bola de neve que uma premissa dessas pode formar.

Antes de terminar eu queria falar de três coisas. Duas razoáveis e uma besteira muito grande. Razoáveis: (1) Jordan Peele, que é ator e comediante, estreou na direção com uma firmeza que só perde para aquela do sujeito também novato que dirigiu A Bruxa, no ano passado; (2) a julgar por seu desempenho em Get Out, Daniel Kaluuya, que esteve em Black Mirror, tem muito carisma e é um nome para todo mundo guardar. Agora, uma besteira muito grande: Jordan Peele, que dirigiu e também roteirizou Get Out, é casado com Chelsea Peretti, aquela de Brooklyn Nine-Nine e das comédias stand-up. Alguém tem coragem de chegar nele e perguntar se a família dela é assim horrível? Nessas horas faz falta uma Fabiola Reipert.

Família Soprano

familia soprano

A quinta temporada de Mad Men tem uma morte que me levou a abandonar meus sentimentos ambíguos por Don Draper. Dali em diante eu não consegui ver bondade nele. Mas a quinta temporada é bem longe. Antes disso, para cada falha de caráter ou compulsão pela mentira, Don Draper demonstrava uma fragilidade compreensível ou um gesto generoso e nobre. Neste mês de abril eu venci a minha resistência e comecei a ver Família Soprano. Não me enrolei com a primeira temporada, vi dois episódios por noite e até agora venho achando que todos os elogios que a série ganha são merecidos. Mas tem uma coisa que me espanta. Já pela metade da jornada dá para perceber que Tony Soprano não é aquele sujeito com altos e baixos, como são Draper e o Walter White de Breaking Bad. Descontada a complexidade que um personagem bem escrito e vivido por um ótimo ator sempre vai ter, Tony Soprano é ruim de dar medo. Ele é um monstro.

Os Sopranos são uma família complicada. Tony até gosta dos filhos mas, pelo menos nesse começo de série, eles são a penúltima prioridade em sua cabeça. Tudo é um aborrecimento. Carmela, a esposa, é a hipocrisia em forma de dona de casa rica. Livia, a mãe de Tony, é um bom argumento para quem acha que um fruto não cai muito longe da árvore. A velha é tão, mas tão malvada que trama a morte do próprio filho por pouco mais que um capricho. De dar pena são as crianças: uma menina, às vésperas de terminar a high school, e um menino fofinho e confuso, bem naquela fase bizarra da puberdade. À primeira vista eles são secundários, mas com o desenrolar da temporada fica claro que fazem parte de um argumento central da série, que é: insalubridade gera insalubridade, loucura gera loucura, bagunça gera bagunça.

Esse argumento é tão bem costurado que fica difícil discordar daqueles que dizem que Família Soprano fez parte de uma revolução na maneira de contar histórias na tevê. Os treze episódios reforçam todos os mesmos pontos, não há aquelas sobras para testar a opinião do público aqui e ali, nem personagens chatos que inspirem aquela ojeriza que roteirista gosta de alimentar.  Essa primeira temporada não tem falso problema e a produção ainda não precisava se preocupar com ganchos sem sentido que são uma maneira de levantar falatório em redes sociais. Não tem como negar que as séries muito premiadas dos anos 2000 e 2010 aprenderam bastante com Família Soprano. A história tem um centro nítido e indiscutível: aquele monstro de que eu falei no primeiro parágrafo.

Não faz muito tempo que eu comecei a perceber que há atores capazes de tirar sentido de uma produção capenga. No fim de março eu tentei ver Sons of Anarchy e não consegui. Eu ficava frustrada com a história se concentrar em alguém tão desinteressante como Jax, vivido por um ator tão fraco como Charlie Hunnam. Eu queria acompanhar Ron Perlman, ator dez vezes melhor num personagem muito mais complexo, mas a série não me deixava. Claro que tem coisa impossível de salvar, mas tem gente que justifica o salário altíssimo. James Gandolfini era um desses atores, e eu nem sei se ele ganhava assim tão bem. Tony Soprano é assustador. Sem ele a série perderia muito. Numa expressão de Gandolfini, ele pode parecer bonzinho e frágil, mas você já assistiu a O Homem Urso, de Werner Herzog? Tony Soprano parece um daqueles ursos fofões, atabalhoados, com um jeito de personagem de desenho, e aí na sequência seguinte ele está enchendo alguém de socos ou chegando muito perto da cara de um outro enquanto respira pesadamente pela boca e pelo nariz ao mesmo tempo. Esse tipo de violência-surpresa é um clássico dos filmes de máfia, basta lembrar de Joe Pesci em Os Bons Companheiros, mas Família Soprano leva a tensão para fora do ambiente de trabalho: não é só nos negócios que Tony parece prestes a matar um, ele leva a mesma agressividade para casa, ou para a terapia. Os filmes de máfia mais celebrados já investiam na construção desse personagem que não consegue levar a vida  do lado de fora de um ciclo de brutalidade e confusão mental, mas o formato de série faz com que Tony Soprano seja o mafioso que a gente pode ver mais de perto.

família soprano

E isso também tem a ver com o espaço que a terapia ocupa na série. Assim como em A Máfia no Divã, a premissa inicial de Família Soprano é de que o chefe de uma família criminosa italiana está nervoso e deprimido a ponto de explodir. A época não é boa para os negócios, os lucros já não são os mesmos porque há muita concorrência no ofício do crime; a notoriedade dos mafiosos, que nunca foi positiva, agora ganhou um verniz de caricatura e galhofa. Soterrado pelo tamanho das responsabilidades que assumiu e desiludido com o despropósito da vida adulta, Tony começa a ter ataques de pânico. Isso está no piloto. A partir daí, as sessões de terapia viram um recurso para desenvolver os temas da série. Mas é um recurso, não uma muleta. Não é que a terapia vá explicar tudo.

Há ocasiões em que discurso e prática vão para lados diferentes. A certa altura há uma tensão sexual entre Tony Soprano e Jennifer Melfi, a terapeuta, mas ele trata de sepultar  qualquer possibilidade de intimidade com seus apelos à violência e total falta de modos. Apesar disso, ela persevera. É por causa dos insights dela que conseguimos entender a história dos Sopranos de trás para a frente. Cada lembrança ou flashback tem sua importância ressaltada para o momento presente, e assim Melfi funciona também como a consciência do espectador, dizendo educadamente coisas que poderiam se resumir a um “Tony, meu querido, você não tinha como dar certo tendo sido criado por esse bando de malucos”. Isso quer dizer que ele é humano, ou seja, os defeitos não vieram do nada. Mas ele não é menos monstruoso por ser humano. Nessa primeira temporada eu tive a impressão de que Tony Soprano não gosta de ninguém. Não tem um arco para mostrar que ele foi obrigado a agir como age, e a série não se preocupa em fazer malabarismos para relativizar as falhas de seu protagonista.

Família Soprano tem uma aura de infelicidade pairando sobre todo mundo. Às vezes nem o humor negro e a qualidade cinematográfica conseguem dissipar esse sentimento. O resultado é um clima de melancolia e inevitabilidade da desgraça, somado à sensação de que ninguém presta. Até aqui a série tem sido de um pessimismo bem corajoso, mas ficam bem óbvios os motivos do sucesso tão grande e de sua permanência na memória coletiva: tem muito personagem carismático por m², uma história de crimes conduzida gota a gota, tudo do bom e do melhor. Se meus planos derem certo, eu termino a segunda temporada ainda antes de maio chegar.

Quatro livros de Alessandra Torre

livrosDepois de terminar uma leitura longa, de um romance um pouco complicado, eu gosto de me dedicar a livros que parecem novelas de televisão. Pode parecer estranho terminar O Vermelho e o Negro e já pegar um livro em que não acontece nada, um desses para os quais as pessoas fazem careta, mas foi assim que eu peguei gosto pela leitura: misturando todo tipo de coisa. Eu nunca conseguiria ler apenas clássicos, porque me faltaria aquela sensação de prazer que só um sentimento banal mas genuíno pode nos dar. Ao mesmo tempo, também nunca conseguiria ler apenas romances levíssimos, pois aí o vazio tomaria conta de mim. Foi assim que, depois de terminar O Vermelho e o Negro, eu engatei em um livro atrás do outro de Alessandra Torre. Eu não a conhecia e o o nome me levou a pensar que se tratava de uma brasileira, mas não: ela não só é gringa como também nenhuma editora brasileira se interessou em publicá-la, o que é uma pena porque a popularidade de Torre entre brasileiras só aumenta.

love chloe

Rodando pela internet eu encontrei Love, Chloe e adorei tanto a capa quanto o  título. Decidi tentar a sorte. O livro é legalzinho, mas não empolga. Chloe é uma garota rica e mimada que nunca precisou trabalhar na vida. As coisas mudam quando seus pais perdem todo o dinheiro, mas ela acaba mostrando que consegue se virar muito bem. Tem um triângulo amoroso entre ela, o ex-namorado e um cara que ela acabou de conhecer. O livro parece querer ser um chick lit. A protagonista é meio desmiolada, mas não de um jeito muito legal. Talvez por querer dar um ar leve para tudo, a autora erra a mão e todos os personagens parecem destituídos de vida. Mas isso não foi o suficiente para me fazer desistir de Alessandra Torre. No Skoob e no Goodreads eu li opiniões tão positivas sobre seus outros romances que resolvi continuar.

O segundo livro lido foi Tight. Fiquei espantada que a mesma autora tenha escrito Love, Chloe e Tight. Para quem gosta do gênero dark, que aliás eu nem me arrisco a definir, aqui está uma ótima escolha. O que eu mais gosto nesses livros é o tamanho da loucura das autoras: cada história é o roteiro de uma novela mexicana acrescido de pirações pelos submundos do sexo e da psicopatia. Para explicar melhor do que trata Tight, não vou conter os spoilers, então se você se interessou a ponto de querer lê-lo, o texto acaba aqui. Brett é um homem apaixonado que perdeu seu grande amor para o tráfico de mulheres. Como ele é um cara muito rico (isso é pré-requisito para todo mocinho) ele decide dedicar sua vida a resgatar meninas raptadas e vendidas para homens que querem apenas abusá-las de todas as formas imagináveis. Riley é a mocinha que aparece na vida dele. Ela não tem a menor ideia de toda essa história de tráfico de mulheres e não sabe o que acontece na vida de Brett. Um dia os dois se esbarram e se apaixonam. O livro é isso, mas os capítulos são intercalados por Riley e Brett se apaixonando e pela narrativa de uma garota que vive em cativeiro, esperando que um dia Brett a salve.

tight alessandra torre

Acho que, como todo mundo que leu Tight, eu passei o livro inteiro tendo certeza de que a garota que aparece nos capítulos contando seus dias no cativeiro era o grande amor da vida de Brett, aquela que ele amava antes de conhecer Riley e que sumira para sempre. Como em qualquer outro livro do gênero eu sabia que uma grande reviravolta aconteceria, mas não imaginava sua magnitude. Se você ainda está lendo, vou avisar novamente: vou dar o spoiler que vai destruir Tight para quem ainda pretende começar. Riley parece desconfiar que Brett está envolvido em negócios ilegais e resolve segui-lo. O negócio ilegal é a compra de meninas raptadas, mas ela não sabe que ele é bonzinho e que as compra para libertá-las. Acontece que Riley é raptada, afinal, ela o seguiu de forma imprudente, alguém a viu e a oportunidade falou mais alto. Então quem é a moça no cativeiro, que aparece em capítulos alternados? Ninguém menos que Riley, ela mesma, que ficou nove meses presa em um quartinho, vivendo com seu raptor, até ser finalmente vendida, é claro, para o grande amor de sua vida, aquele que compra escravas para ser humanitário. Mas e o grande amor do passado? O grande amor que Brett perdeu no tráfico de mulheres é sua irmã que foi morta pouco tempo depois de ser sequestrada. Super reviravolta em um livro bem louco.

Empolgada com os delírios de Alessandra Torre, parti para o próximo. Black Lies prometia uma super reviravolta no fim, mas eu entendi o grande mistério da história bem no começo da leitura e isso arruinou tudo. Nessa hora tive certeza de que, sem o mistério da reviravolta, esses livros perdem a razão de ser. Por isso me senti uma guerreira por terminar a leitura. A sinopse conta que há um triângulo amoroso: a protagonista + um cara rico mauricinho + um jardineiro rude. Agora aqui vai o spoiler que destrói a leitura: não há dois caras, há apenas o mesmo maluco com transtorno dissociativo  de identidade. Ele é o cara rico e o jardineiro ao mesmo tempo. Por isso a protagonista, que parecia tão apaixonada por um, consegue se envolver rapidamente com o outro. Eu concordo que esse foi bem fraco, mas tinha potencial. Alguma vez, na vida real, alguém com o raríssimo transtorno de dupla personalidade causou tanto estrago quanto se causa na ficção? Totalmente novela mexicana.

hollywood dirt alessandra torre

Por último, resolvi tentar um sem reviravoltas malucas e, olha, foi uma boa ideia, porque encontrei o que talvez seja o melhor livro de Alessandra Torre. Hollywood Dirt é leve, fofo e bem romântico. Summer é uma garota do interior e Cole é um ator de Hollywood, super famoso e badalado. Ele acaba indo filmar na cidadezinha dela. Ela é teimosa e orgulhosa e ele logo se apaixona, mas não admite. Eles vão brigar, vão se estranhar e por fim vão se entregar ao amor. O clima de cidade pequena foi o que mais me empolgou, muito porque é covardia fazer essas coisas comigo já que a minha memória afetiva está ligada a lugares assim. Fui fisgada, adorei ver a autora em um universo ligeiramente menos bizarro, mas não sei: nada como aquela sensação de que a Maria do Bairro acabou indo parar num filme policial dos anos 1990 e agora precisa se livrar de um serial killer por quem vai acabar se apaixonando.

Ghost in the Shell

Ghost-In-The-Shell

Eu nem comentei aqui que acertei, sem querer e com uns quinze dias de antecedência, a escalação de Kristen Wiig para o remake americano de Toni Erdmann. Não sou o Walter Mercado, nem tenho contatos em Hollywood: é que às vezes as coisas são previsíveis no mundo. Por exemplo: quem não sabe, antes de sair de casa, tudo o que vai acontecer num filme como esse Ghost in the Shell, com a Scarlett Johansson? Assim como o mundo inteiro, eu queria ver uns tiros, uns aparatos tecnológicos e a cara da Scarlett. Fui presenteada, porém, com um filme ruim a ponto de dar raiva. O problema é que a indignação fica ainda maior quando a gente está pagando o ingresso.

Eu também fiz a minha lição de casa antes de ir ao cinema e fiquei sabendo de todas aquelas informações que os resenhistas colocam no primeiro parágrafo: do mangá pro anime, Japão, ciborgues, serei eu um ser humano ou um robô?, será que não era melhor ter uma japonesa para um papel de uma japonesa?, tudo isso. O que me empolgou foi fazer um percurso que eu já estava devendo há um tempinho. Eu nunca tinha visto Blade Runner, não me lembrava de Matrix, não conhecia o Ghost in the Shell de 1995, então tirei uns dois dias para eles e tenho que dizer, que essa espécie de jornada cyberpunk até que vale a pena. Matrix é sensacional. Os filmes de ação de hoje em dia seriam muito diferentes se não houvesse Matrix. Keanu Reeves consegue ser totalmente insosso e ao mesmo tempo ter muito, muito carisma. Já Blade Runner não me comoveu. Eu sempre fico incomodada quando um filme (ou livro ou série) tem mulher mal escrita, mas para assistir a qualquer coisa anterior à semana passada é necessário ter uma carapaça dura. Em Matrix eu tolerei, por exemplo, o fato de a Trinity ter se apaixonado pelo Neo por motivo nenhum: os sentimentos dela não importavam, importava só que ela fosse para ele um porto seguro. Paciência: as cenas de ação são irretocáveis. Já em Blade Runner, as duas mulheres, as duas androides principais, são um horror e simplesmente não há papel para as duas. Porque eu estava incomodada com isso, o clima e a ambientação não conseguiram me pegar. Nem fiquei assim tão fã de Ghost in the Shell, o filme animado de 1995, mas deixa eu falar um pouquinho melhor a respeito deste antes de chegar no da Scarlett.

ghost in the shell

Não dá nem para dizer que a major de Ghost in the Shell é durona. Ela cumpre suas tarefas, a princípio sem hesitar. Ela reflete discretamente sobre sua condição meio humana, meio ciborgue e não me lembro de ela ter requerido a atenção emocional de outros personagens. Ela fica confusa com a própria natureza e tudo, mas quando tem que agir a impressão que deixa é de que está até um pouco maravilhada com o que pode fazer. Esses sentimentos discretos, bem como a quase total falta de conexão que a major demonstra com o resto do mundo, só fazem jogar na cabeça do espectador a ideia de que ela não é bem humana. Por causa disso, não raro a animação deixa os olhos dela bem abertos e sem vida, e as expressões intensas não são frequentes. Mas falando assim tem-se a impressão de que Ghost in the Shell pode ter alguma coisa de estudo de personagem. Eu acho que não. Eu acho que o que mais conta é a cidade, um lugar no futuro que a animação se empenha muito para construir em detalhes. É uma cidade desgraçada, de pobreza (e riqueza) material e de espírito, e é um lugar onde todo mundo poderia ser aquela mesma protagonista: todos desconectados, perdidos, vagando sem propósito. Para demonstrar isso, a cidade de Ghost in the Shell tem que ser um território estranho a quem está vendo o filme: uma parte essencial dessa experiência é que não se saiba muito bem, de partida, o que é que está acontecendo.

E aí o Ghost in the Shell de 2017 começa explicando, quase que em pormenor, onde é que estamos, quem é importante, no que prestar atenção, e quais são as lições que o filme quer tirar do que está acontecendo. Não dá, sinceramente. A major vivida por Scarlett Johansson é uma criança grande que tem que ser amparada e receber explicações – daquelas explicações que não fazem sentido em texto de filme, a não ser como um power point verbal destinado ao espectador. Isso só faz com que o esforço da atriz para parecer forte, gélida e determinada se torne patético. Nada irrita mais do que um filme em que os diálogos dizem uma coisa e todo o resto fica gritando outra. Além disso, Ghost in the Shell faz aquelas escolhas padronizadas, que dão a impressão de que todo filme é o mesmo filme: se tem um homem e uma mulher, deve haver um romance, e se tem um romance uma das partes (ou as duas) tem que ser desesperadamente superprotetora. E aí lá se vai a esquisitice da protagonista – ela não é nem humana, nem robô: é só uma mocinha de Hollywood.

Por coincidência, eu fui ao cinema no mesmo dia em que me apareceu, numa playlist, a música “Love Bites” da banda Def Leppard. Eu demorei uns trinta segundos para me lembrar de onde eu a conhecia, mas o Google ajudou. No Brasil, “Love Bites” virou “Mordida de Amor” do conjunto Yahoo e a moral da história é que adaptações são complicadas.

O vermelho e o negro

o vermelho e o negro

Durante boa parte dos meses de março e abril eu me dediquei a O vermelho e o negro e, para falar a verdade, sei lá. Se eu não tivesse me obrigando a fazer um texto por livro da meta (a minha meta, os doze obrigatórios que estavam parados aqui em casa) nem tentaria juntar duas palavras sobre o que acabei de ler. O romance de Stendhal estava há muito tempo na prateleira, e desde sempre na minha lista mental de clássicos para ler. Eu achava que a leitura seria densa e tensa, e que os sentimentos aflorariam tão logo eu começasse a percorrer as páginas, mas não foi bem o que aconteceu. Foi uma leitura suave e tranquila, sem qualquer estardalhaço ou sacrifício, mas que me serviu para muito pouco. Acho que o verbo servir é um crime quando se fala de literatura, porque empresta um caráter utilitarista ao ato de ler, mas não posso deixar de usá-lo aqui: não é que o livro não tenha me servido para qualquer coisa posterior à leitura, não – o que me aconteceu é que a leitura não foi proveitosa. E qual é o proveito que se tira de uma leitura? Sei lá, vontade de realizar mais leituras, de pesquisar sobre o autor ou o assunto ou a época – esses seriam proveitos posteriores, mas e aqueles proveitos imediatos como a imersão total em um mundo alheio, o indescritível sentimento de estar dentro de uma sala no século XIX com móveis do século XIX, pensando como alguém do século XIX? O vermelho e o negro deve ser o livro da vida de milhares (centenas?) de pessoas ao redor do mundo, tem quase 200 anos nas costas e eu, do alto da minha falta de familiaridade com o autor, gostei mas não fui pessoalmente tocada, não encontrei o que estava buscando.

O vermelho e o negro é uma crônica dos acontecimentos históricos que se desenrolavam no começo do século XIX. Aquela lembrancinha da escola é muito bem-vinda: tem a Revolução Francesa, tem Napoleão como que sequestrando a revolução e virando imperador, daí tem uma espécie de guerra europeia de todos contra Napoleão, depois disso tem uma tentativa de restaurar a monarquia que havia sido literalmente guilhotinada – tudo isso se dá antes dos acontecimentos de O vermelho e o negro, mas sem essa colinha fica difícil entender os sentimentos que movem os personagens principais porque todos eles se comportam baseados em interesses de classe.

Julien Sorel, o protagonista, é mesquinho, ardiloso e frio. Não tem como simpatizar com um homem que dá toda a pinta de querer ascender socialmente, enquanto despreza os valores aristocráticos. Ele odeia aquela aristocracia, mas ela exerce sobre ele uma estranha atração. Ele é filho de um marceneiro e o que sobrou foi o caminho da batina, na falta de qualquer outro. Por ser muito culto ele consegue a chance de trabalhar como preceptor na casa do prefeito da cidade. Durante o tempo em que vive na casa do prefeito, Julien demonstra desdém pelos ricos e nobres e se apaixona, como não poderia deixar de ser, pela primeira dama. A paixão é recíproca. O prefeito desconfia. Essa é a primeira parte do livro. A jornada de Julien vai continuar em outro pedaço da França. Ele consegue entrar no seminário e é lá que conhece um padre com boas conexões, que o auxilia em um novo emprego: agora vai ser secretário de um marquês com ótimos contatos em Paris. Assim Julien conhece os La Mole e toda a nobreza que visita e venera esta família. Ele se sente rejeitado e ao mesmo tempo seduzido pela vida que nunca teve e nunca admitiu querer. Napoleão Bonaparte é tudo o que Julien desejava ser: alguém que veio de baixo e tomou o mundo de assalto. Mathilde, a filha do marquês, uma jovem entediada com a vida que leva, se apaixona pela frieza e indiferença de Julien – só para a gente perceber que não é de hoje essa atração que os esquisitos despertam. Depois de muito vaivém os dois estão perdidamente apaixonados. Desgraçadamente ela engravida e os planos de Julien parecem ruir. Em um rompante de loucura, ele decide cometer um assassinato e as consequências desse ato são a prisão e a guilhotina, e aí é como se ele fosse um pequeno Napoleão que esteve muito perto da glória e viu tudo descambar num fim melancólico e inevitável.

Para ser bem sincera, eu não tenho do que reclamar. Uma segunda leitura talvez me levasse a uma relação mais complexa com O vermelho e o negro, mas eu não vou tentar soterrar toda a leviandade desse meu texto com a promessa de que vou tentar me importar mais da próxima vez. Sinceramente, acho que Stendhal não precisa de mim.

Para quem vai passar o feriado na Netflix

Serão três feriados em um intervalo bem curto. Não é uma maravilha? Para mim, feriado no outono e no inverno é sinônimo de filme, série e uma mantinha no sofá. Quando faz calor eu só dispenso a mantinha, mas tudo bem. Empolgada para os próximos dias, resolvi fazer uma lista de coisas para assistir na Netflix porque a Netflix é um recanto muito confortável da internet. É para quem tem preguiça de baixar torrent e para quem nem lembra se ainda existe uma locadora aberta na cidade inteira. Então aqui vão as minhas dicas: Stranger Things, Os 13 porquês e as séries da Marvel. Que tal? Aposto que você nunca havia ouvido falar de nada disso. Boa diversão e depois venha me agradecer. MENTIRA: para fugir das coisas que geram mais burburinho, o que eu fiz foi tentar organizar uma lista (bem pequenininha) para ajudar alguém (alguém hipotético e com interesse em trocar figurinhas) a se organizar dentro da Netflix.

Filmes que você pode ter deixado passar

frank

Frank

Aqueles que são meio largadinhos, mas muito bons. Às vezes a gente os deixa passar porque perde o período no cinema (acontece também de um filme jamais estrear perto de casa). É difícil acompanhar tudo que sai, daí um dia, quando a gente já até esqueceu e tá rodando a Netflix para ver o que é que tem, BUM!, lá está o filme. Um assim é Frank, de 2014, com o Michael Fassbender e Maggie Gyllenhaal. A história é sobre um cara (Domhnall Gleeson, de Questão de tempo) que entra numa banda indie, a The Soronprfbs, pensando que aquela é a oportunidade de sua vida. O vocalista é Frank (Michael Fassbender), que usa uma máscara o tempo todo. Ele canta, come, toma banho e dorme com a máscara. Não é pose, é doença: ninguém nunca viu o rosto dele. Frank é quieto e estranho, e me fez pensar no cantor e compositor Daniel Johnston, um artista especial mas de difícil enquadramento. Por causa da excentricidade de Frank a banda faz certo sucesso, mas depois de um tempo tudo começa a degringolar. O fim é delicado de um jeito bizarro e, diferentemente de muitos outros filmes indies, não acontece de o mundo todo se entortar para se enquadrar à visão de mundo do protagonista. É uma boa lição. Também na Netflix está Amantes Eternos, ou Only Lovers Left Alive. Tom Hiddleston e Tilda Swinton formam um casal de vampiros bem dark. A prioridade que eles dão à autenticidade, o espaço que a arte ocupa na vida dos dois, e a maneira como eles vivem apaixonadamente fazem deste um filme meio que tematicamente ligado a Frank. Num caso há um artista indie atormentado e no outro dois vampiros românticos, os únicos amantes que restaram.

Especiais de stand-up cínicos e autodepreciativos

louis ck

Louis C. K.

Eu sei, eu sei, eu sei: o Brasil pegou trauma de comédia stand-up desde o auge do finado CQC. Teve gente reclamando de cerceamento à liberdade de expressão, quando tudo o que rolou foi um pessoal reclamando que a piada não tinha graça e que o comediante era burro. Mas o stand-up foi um produto importado à força por aqui. Nos Estados Unidos a tradição é longa e os melhores comediantes são os que não se agarram àquilo que é consenso. Para a nossa alegria, há alguns deles na Netflix. Louis C. K. é o primeiro nome que me vem à cabeça. Adoro assisti-lo e pensar “é, isso aí mesmo” ou “putz, é verdade, putz, eu também” ou “caramba, cara, você é maluco” enquanto rio sem parar. Ele sempre começa a falar de algum assunto delicado como se ele fosse a pessoa mais rude e desrespeitosa que existe, então de repente ele dá uma volta e você entende que o assunto é só o pano de fundo para ele criticar pessoas mesquinhas, detestáveis e por aí vai. Eu sempre rio. Acho que o catálogo da Netflix tem três ou quatro especiais dele, incluindo um que saiu em 2017. Bill Burr também tem um humor parecido com o de Louis C. K., mas acho que ele consegue ser mais radical e ter mais cara de maluco. A Netflix tem dois dos dele. Por último, gostei muito do show da Chelsea Peretti, que eu só descobri na Netflix recentemente. Ri muito em um dia que eu estava bem gripada e sem forças para fazer o que fosse. Além da cara de maluca e da voz esganiçada, ela tem uma visão particular sobre relacionamentos e tem um jeito neurótico de ver as regrinhas de educação e convivência.

Comédias bizarras para quem quer maratonar

chewing gum

Chewing Gum

Ainda pensando em comédia, mas com um humor mais leve: duas séries curtinhas perfeitas para o feriado. Chewing Gum é uma série inglesa escrita e protagonizada por Michaela Coel. São duas temporadas com seis episódios cada e duração de uns 20 minutos. Eu pretendia assistir a um episódio, mas tudo era tão bizarro que quando notei já tinha acabado com a série. Tracey é a protagonista. Ela vive com a mãe e a irmã, duas fanáticas religiosas. Tracey é virgem e decidiu que já passou da hora de isso mudar. As situações são hilárias e todo o elenco é carismático, não tem como não rir. Uma outra série com uma protagonista descarada é Haters Back Off. Protagonizada e escrita por Colleen Ballinger, a série bebe na fonte de Napoleon Dynamite: gente louca e sem  noção do ridículo, situações embaraçosas, essas coisas que a gente adora. Miranda Sings acha que é a pessoa mais perfeita que já existiu no mundo. Sua aparência, sua voz, sua família, tudo está ali para mostrar que ela é o oposto do que pensa ser. Quanto mais ela pensava que estava sendo plena, mais era desprezível. Tudo é muito absurdo, o elenco todo é excelente.

Séries fofas sem compromisso com a realidade

dramaworld

Dramaworld

Se você não gosta de comédias escrachadas, também há duas séries muito fofas e com um pé (ou os dois) no surreal. Dramaworld é uma minissérie norte-americana e sul-coreana. A protagonista vive em Los Angeles e é obcecada por novelas coreanas. Um dia ela entra no mundo da sua novela preferida e aí está a história: ela vai viver todas as aventuras junto com os protagonistas coreanos. Achei bem fofinha e é legal para quem quer entrar no mundo do K-drama. Ainda pensando em novela: Jane the virgin. Se você gosta de muito drama e cenas incoerentes (e já viu Rubi, Maria do Bairro, Marimar) vai amar Jane the Virgin. Eu falei da primeira temporada bem no início do blog, e posso dizer que a série da CW já está na terceira temporada e continua firme e divertida.

Clássicos para quem não pretende cochilar

o rei da comédia

O rei da comédia

É considerado ofensivo cochilar durante um clássico? Não, né? A Netflix é um convite ao soninho, mas a autoestima dá uma travada se a gente se dispõe a ver um filme que todo mundo considera obrigatório e dorme. Por isso, se você não quer ver nada muito leve e tem dormido oito horas por dia, eu posso te indicar dois filmes que são clássicos do cinema, mas que andam meio esquecidinhos, sem conquistar novos corações. Amadeus, que foi um dos melhores filmes que eu vi em 2016, é longo, lento e primoroso. Fiquei feliz de encontrá-lo no catálogo da Netflix. O outro é o meu preferido do Martin Scorsese: O rei da comédia. Estrelado por Robert De Niro, o filme é divertido e angustiante, com passo de thriller. Quer dizer: se você dormir, vai ficar chato. Robert De Niro é um fã louco de um grande comediante interpretado por Jerry Lewis, e será capaz de tudo para se aproximar de seu ídolo. Eu tenho a impressão de que O rei da comédia não é tão badalado quanto outros sucessos da dupla Scorsese e De Niro, o que me deixa um pouco indignada e confusa.