Alguns documentários e a minha necessidade de montar listas

Daqui a pouco começam as listas de fim de ano. Eu estou preparando as minhas. Foi muito bom fazer as do ano passado. Mais do que dizer o que vale ou não vale a pena, o proveito que eu tiro desse balanço é poder ver, com um mínimo de distância, o que é que chamou a minha atenção, quando, e que relação isso vai ter com as outras coisas que eu li e assisti durante 2017. Dá pra criar uma espécie de mapa dos meus interesses (ahaha). É um hábito que eu recomendo muito.

Eu acabei deixando algumas coisas de fora quando separei os melhores filmes que vi em 2016. A ausência mais sentida (por mim, é claro) não foi a de um filme em especial, mas a de um gênero. Acabei não falando dos documentários. E eu tenho um fraco por documentário. Com exceção de Faces da Morte e que tais, sou capaz de ver qualquer coisa sobre qualquer tema ou pessoa. Expresso imensa curiosidade sobre assuntos pelos quais nunca me interessei, e isso acaba produzindo alguns caminhos difíceis de explicar lá no tal “mapa dos meus interesses”.

rocco netflix

Em 2017 eu gostaria de saber, por exemplo, o que foi que me fez assistir a Rocco, o documentário sobre a vida e o trabalho do ator pornô italiano Rocco Siffredi. O que eu percebi é que Siffredi é uma das pessoas mais vaidosas sobre as quais qualquer um já apontou uma câmera. Então quer dizer que o filme é ruim? Muito pelo contrário. Quando o personagem principal é quase louco, tamanho o seu ego, não tem como o documentário ser desinteressante. Eu queria ver um documentário sobre os bastidores da indústria pornô (assim como Hot Girls Wanted) mas acabei acompanhando um filme sobre gente obsessiva e desequilibrada.

Falando em obsessão e desequilíbrio, na mesma madrugada eu vi Gaga: Five Foot Two, o documentário da Lady Gaga. Eu acho que posso dizer que eu tinha sentimentos neutros a respeito dela. Nunca parei para ouvir um álbum, mas também nunca pulava quando uma de suas músicas começava a tocar. Eu tenho todo um respeito por quem faz sucesso nesse nível planetário da Gaga, e as histórias por trás desse tipo de sucesso nunca decepcionam. Quase nunca. Quer dizer: eu tenho certeza de que Lady Gaga não virou Lady Gaga sem ter virado o mundo de cabeça para baixo, mas Five Foot Two não trata exatamente disso. Até aí tudo bem. O problema é que estamos falando do rei de todos os documentários de egotrip. Ridiculamente reverente a sua personagem principal, todo supervisionado por ela (mesmo que ela negue, fala sério!), Five Foot Two mostra meio sem querer uma cantora cheia de si, falando platitudes como se fossem pílulas de sabedoria, tentando fazer o espectador acreditar numa ideia romântica e velha daquilo que é arte e do papel que os artistas têm no mundo. O filme é tosco e piegas e abusa de uns recursos visuais toscos e piegas, e ainda por cima acredita firmemente em tudo o que ela fala, sem ironia aparente. Five Foot Two deixa a desejar na investigação que faz a respeito de Gaga. Eu espero que este não seja visto como o documentário definitivo a respeito dessa figura mais ou menos central da cultura pop dos últimos anos, porque caso contrário a gente vai começar a confundir documentário com vídeo institucional.

Mas por que tratar, numa pré-lista de fim de ano, de um filme que mais me deixou com raiva do que outra coisa? Não sei. Talvez para recomendar que você também veja ambos, Rocco e Five Foot Two, na mesma noite, prestando atenção nas semelhanças entre o ator pornô e a diva pop.

Além desses eu também vi Eis os delírios do mundo conectado, que não está entre as melhores coisas que o Werner Herzog já fez.

bright lights

O primeiro documentário digno a entrar numa lista de melhores do ano foi Bright Lights, sobre as espetaculares Carrie Fisher e Debbie Reynolds. Nunca fui fã de Star Wars, mas isso não me impediu de gostar da Carrie Fisher. A mulher era o carisma em pessoa. O documentário, no que diz respeito a tratar de seus personagens principais, era o exato oposto daquele da Lady Gaga. Bright Lights mostrou com honestidade que Fisher era bem difícil. Expôs os defeitos dela, que se abriu sem muita reserva, e foi fundo na relação entre mãe e filha. Olhando agora, e comparando a franqueza de Carrie Fisher com as poses de Gaga, dá para dizer que Five Foot Two mostrava a “humanidade” de Gaga do mesmo jeito que um candidato a uma vaga responderia, numa entrevista de emprego, que seu maior defeito é ser “perfeccionista e muito organizado”. Já Bright Lights passou longe da reverência imoderada, mas fez um perfil doméstico da mãe e da filha, recapitulou duas vidas passadas diante das câmeras e mostrou o que é que sobra disso bem quando estava todo mundo em choque com as mortes tristíssimas das duas. É um filme interessado em mostrar um retrato familiar e deixar o espectador formar uma opinião, em vez de carregar você pela mão para mostrar quão poderosa uma celebridade é.

Olhando agora: o que foi que me fez querer ver Bright Lights, que eu já imaginava ser muito triste? Não sei. Acho que eu fui atraída pela tragédia. Carrie Fisher morreu depois de um tempo no hospital; Debbie Reynolds já estava fragilizada, não aguentou o baque e morreu. Mas me recuso a pensar que fui atraída pela tragédia como seria se estivesse lendo uma revista de fofoca ou fazendo um comentário maldoso. Por minha própria experiência com a minha mãe, acho que há com frequência uma espécie de simbiose entre mãe e filha. Acho que foi a imersão nesse relacionamento que me interessou, acho que foi isso o que me tocou em especial.

Que mais? Se essa fosse uma lista dos melhores documentários que eu vi em 2017, e se eu tivesse algum insight a respeito do racismo em solo norte-americano, eu teria que falar sobre I am not your negro. É revoltante, como não poderia deixar de ser, e é especialmente poderoso porque conta com a inteligência de James Baldwin – sua voz, sua vida, e o que ele tem a dizer. Além do mais, esse filme é muito bem editado, montado, roteirizado ou o que o valha. Tanto assim que ele empalidece outro doc da mesma época, e com o mesmo tema, que é aquele A 13ª Emenda.

Para engatar no ativismo político americano do século XX, só para ter um gancho, eu também assisti a American Anarchist. Outro perfil bastante complexo, este aqui conta a história do sujeito que escreveu The Anarchist Cookbook, aquele livro que ensina qualquer leigo a preparar uma bomba caseira (utilizado, por exemplo, pelos assassinos de Columbine). Onde é que esse filme se situa no “mapa dos meus interesses”? Não sei. Eu poderia dizer que me interesso especialmente por Columbine e assassinatos de massa desde esse texto aqui, mas acho que meu marido escolheu nesse dia e eu estava com preguiça de sugerir alguma outra coisa. Não sei. Vale a pena? Sim. Eu me lembro de ficar pensando “gente, as voltas que a vida dá” a cada cinco minutos.

Caramba, cheguei a 1201 palavras no parágrafo anterior. Ninguém vai ler isso, nem por interesse nem por bondade. Vou encerrar com algumas sugestões, no estilo bate-bola/jogo rápido da Marília Gabriela (entregando a idade). Um documentário para pensar que só tem abobado no mundo? Extraordinary – The Stan Romanek Story; um documentário para pensar que o tabu mata e deixa a gente infeliz? Whitney Houston – Can I Be Me; outro documentário que foi muito menor que a figura que o inspirou? Laerte-se; um documentário para matar saudade do Jerry Seinfeld? Comedian; um documentário para fazer diminuir um pouco a sua inveja dos japoneses e a sua vontade de morar no Japão? Tokyo Idols.

(Lembrando que este não foi um post com uma lista de melhores do ano. Todos esses documentários foram becos sem saída no “mapa dos meus interesses” [gente, que termo ridículo!].)

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Meus 5 personagens preferidos de séries

Sempre que eu vejo ou experimento alguma coisa muito boa eu imediatamente penso em listas, minha cabeça sempre funcionou assim. Por exemplo: comi um bolo delicioso de chocolate – quais são os cinco bolos de chocolate mais deliciosos que eu comi na minha vida?; acabei de ouvir pela centésima vez o mesmo álbum do Angra – quais são minha cinco músicas preferidas do Angra? Quem sofre com isso é o meu marido, porque para cada lista minha eu preciso ouvir a dele, e claro, quase sempre ele não sabe me responder, porque é difícil definir rapidamente as coisas de que você mais gosta.

Um dia vendo a nova temporada de Twin Peaks eu me peguei pensando no agente Dale Cooper, e percebi que ele é o meu personagem preferido de todos os tempos entre todas as séries que eu já vi. Não demorou para surgir a questão “e quais são os meus outros quatro personagens favoritos de séries de todos os tempos?”.

Pois é, falando assim minha cabeça não parece um lugar muito empolgante, mas garanto que pensamentos mais nobres aparecem por aqui de vez em quando.

Meus cinco personagens preferidos são necessariamente aqueles com quem eu gostaria de conviver? Aquela pessoa que você gostaria que saísse da tela e fosse de verdade? Veremos.

Dale Cooper – Twin Peaks

dale cooper

Twin Peaks é minha série preferida, então nada mais normal do que meu personagem preferido vir dela. Eu vi e revi a primeira temporada, acho que foram quatro vezes, e posso dizer que o agente especial Dale Cooper (Kyle MacLachlan) é uma pessoa que deveria existir. Alguém que melhoraria o mundo. Na história ele precisa resolver o assassinato de Laura Palmer na cidadezinha de Twin Peaks. Ele trabalha para o FBI, mas o perfil de agente metido não combina com ele. Cooper é amistoso, generoso e gentil. Estas características acabam transparecendo no jeito de encarar o trabalho, sem deixar de ser profissional. Seus métodos pouco convencionais impressionam os cidadãos de Twin Peaks na mesma medida em que seu bom coração os conquista. Acho que eu gosto tanto deste personagem porque ele é a síntese de uma pessoa que me atrairia (não romanticamente). Eu prezo muito a honestidade de uma pessoa que se conhece e não usa de subterfúgios para se relacionar, é quase como se a pessoa voltasse a ser criança de tão clara que ela é. Esse é o Dale Cooper, um personagem mais do que especial. Acho que Kyle MacLachlan é responsável por pelo menos metade do apelo que Twin Peaks tem comigo. Lembrando que a terceira temporada, lançada agora em 2017, foi o auge da série até agora.

Elaine Benes – Seinfeld

elaine benes

Que surpresa! Mais uma que vem de uma das séries favoritas. Seinfeld é uma sitcom da década de 1990 que conta a história (vá lá: contar a história não faz jus ao que acontece porque o objetivo, às vezes, é não contar história nenhuma) de quatro amigos em Nova York (se você pensou em Friends, saiba que Seinfeld chegou antes e que os friends são seis). Jerry Seinfeld, Jason Alexander e Michael Richards são talentosos e engraçadíssimos, e por isso o trabalho de Julia Louis-Dreyfus era difícil. Não é que ela seja menos talentosa e brilhante, mas naquela época, numa série quase inteirinha feita por homens, não seria uma surpresa se a única protagonista mulher fosse colocada de escanteio. E a razão de isso não acontecer não foi a pressão do público ou a boa consciência dos produtores, não: foi porque Julia Louis-Dreyfus é muito, muito, muito boa atriz, muito carismática e muitíssimo engraçada. Mesmo sem humor físico ou caricato ao extremo ela conseguiu, logo no começo, estabelecer uma sintonia que é rara – tão rara que não foram poucas as comparações, ao longo dos anos, entre os quatro de Seinfeld e os quatro Beatles.

Quando Seinfeld começa, Elaine Benes é uma garota comum que convive com três caras bizarros. Em uma época em que poucos levantavam a bandeira das mulheres fortes e decididas na tevê, Elaine era tudo isso, e com a maior naturalidade: ela tinha tantos relacionamentos quantos os homens da série, era cheia de opiniões, nunca deixava um desaforo barato. Aos poucos ela foi se revelando deliciosamente mesquinha e egoísta. Todo mundo é mesquinho em Seinfeld, mas mesmo assim você torce por eles e a identificação acaba acontecendo. Acho que eu me daria muito bem com uma amiga como Elaine Benes. Não sei bem em que posição isso me coloca, mas não tem problema.

Felicity Porter – Felicity

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Para falar em amizade, ninguém melhor do que Felicity Porter. Ela acabou de chegar em Nova York para estudar, totalmente despreparada para viver tudo o que vai precisar viver – inclusive porque, se preparada estivesse, não haveria série. Fiz uma declaraçãozinha de amor ao seriado aqui. Por agora é suficiente dizer que aquelas que não se identificam com Felicity estão mortas por dentro. Ela é desajeitada e erra muito, mas também é confiável, querida. Ela se importa de verdade com os problemas dos amigos. Mesmo que seja a protagonista, não é daquelas que fazem o mundo todo girar em ao redor delas. Quem nunca se irritou com aquela mocinha que tem uma melhor amiga e enche as orelhas dela com seus problemas? A Felicity é o oposto disso. Ela para, senta, ouve, tenta resolver. É ao mesmo tempo frágil e corajosa, daquele tipo que tira a valentia de onde não pensava que haveria. Acho que existem muitos outros personagens assim, mas a atriz (Keri Russell, que todo mundo conhece agora em The Americans) fez de Felicity um retrato de muito do que a gente quer ser, e também de alguém que a gente gostaria de conhecer. Quem não queria uma amiga como a Felicity?

Eric Northman – True Blood

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True Blood é um exemplo de série que desandou e acabou de um jeito bem feio, mas antes de isso acontecer já estava sedimentada a minha paixão pelo Eric, interpretado por Alexander Skarsgård. Eric é um personagem de livro (True Blood foi baseada nos romances de Charlaine Harris) mas foi na tevê que ele virou o que virou. É um personagem irreal? Bom, se você acha que um vampiro bonitão e capaz de tudo pelo seu amor é uma coisa irreal, então ele é. Mas existir apenas na imaginação às vezes é a graça de uma história. E de um bom personagem. No começo a pinta de bad boy convencia, mas depois Eric vira um sujeito (mais ou menos) leal e um herói com sangue quente. Ele entra aqui na lista para representar os galãs, que geralmente são meio chatinhos. Chatinho, inclusive, era o Bill, que era o par romântico inicial da Sookie. Este era insuportável. Torci muito para que Sookie ficasse com o Eric, mas confesso que lá pelas tantas a série estava tão perdida e mal feita que já não fazia diferença.

Cristina Yang – Grey’s Anatomy

cristina yang

Sim, Cristina Yang também é my person. É muito triste continuar assistindo a uma série sem sua personagem preferida (pelo menos a Meredith continua). Cristina Yang também é aquela pessoa que você quer ser ou ter ao seu lado. Ninguém mete medo nela. Ela é uma personagem incomum. É agressiva e chega a beirar a grosseria, mas sua franqueza não passa de honestidade. É uma pessoa bruta com um coração enorme, interpretada por Sandra Oh, uma atriz que mereceria uma carreira de muito mais destaque. Foi impossível desgostar de uma personagem assim, principalmente porque ela era justo aquilo de que a Meredith precisava. Juntas elas eram imbatíveis naquele hospital. Eu sinceramente achei que não conseguiria continuar acompanhando Grey’s Anatomy quando Sandra Oh deu adeus. Foi um baque muito grande. Maior, sinceramente, do que o de quando certo marido de certa protagonista morreu.

Um dia eu ainda apareço com a lista das minhas pessoas preferidas com quem eu convivo no mundo real. Um spoiler: mamãe está na lista.

Um balanço final da primeira temporada de The Deuce

the deuce

Teria sido frustrante se a HBO não houvesse confirmado uma segunda temporada de The Deuce. Isso porque a série teve a ambição de construir um quadro enorme do mercado do sexo na Nova York dos anos 1970, e porque este quadro mal começou a ganhar vida. Ao mesmo tempo, como ninguém é bobo, a primeira temporada acabou sendo uma história completa – pouco ficaria em aberto se mais episódios não fossem encomendados.

The Deuce ganhou elogios de veículos especializados e já saiu com a expectativa lá no alto por causa do renome de seus criadores. David Simon é o sujeito por trás de The Wire. George Pelecanos, além de ter trabalhado em The Wire, é um reconhecido autor de romances policiais. Richard Price, um dos produtores executivos, foi responsável por The Night Of e também é um romancista importante. No elenco estão James Franco e Maggie Gyllenhaal, além de um monte de rostos conhecidos para quem viu qualquer coisa nos últimos quinze anos.

Ainda assim – e como acontece com frequência – o burburinho não durou muito. A série não é daquelas de colocar a internet inteira em colapso quando alguma coisa vai acontecer. Pelo que eu vi a recepção no Brasil foi meio morna. The Deuce não pegou de jeito aquele pessoal que é louco por séries, nem entusiasmou bastante a turma cinéfila. Da minha parte, ah, eu achei que fosse me entusiasmar mais. Acho que houve algumas concessões bobas ao que se pensa ser o gosto do público. Vou tentar explicar.

Um exemplo é o arco de Eileen, interpretada por Maggie Gyllenhaal. Talvez em tempo de tela não dê para perceber o tamanho da centralidade da personagem dela, mas é ela quem conduz tudo. As mulheres de The Deuce estão ou em conflito para perceber que um novo lugar no mundo é possível, ou em luta para construir este novo lugar. Eileen é uma prostituta que não tem cafetão. Os cafetões exploram as meninas, sob a desculpa de protegê-las, mas Eileen não é o perfil comum de uma prostituta. Ao longo dos oito episódios a gente descobre que ela apelou para a prostituição para fugir de um pai repressivo, mas que vem de uma família mais abastada que as das demais. Nas ruas ela corre tanto perigo quanto as outras mas, diferentemente das outras, resolveu administrar sozinha o que ganha e como trabalha. Eileen é bem resolvida com sua sexualidade. É madura, liberada, inteligente, conhece bem o próprio corpo. Acontece que o ambiente de trabalho é muito, muito insalubre. Não é de espantar que algumas meninas queiram proteção. Ela apanha de mais de um cliente, o perigo vem como que em escalada. O fim da década de 1970 é um dos períodos mais violentos da história de Nova York. A polícia não liga se algum maluco enforca, esfaqueia ou estripa uma garota de programa. A situação fica insustentável e Eileen precisa parar de trabalhar. Por sorte os tempos estão mudando e, por competência, ela consegue se envolver num negócio que só vai crescer: o cinema pornográfico.

Não tenho nem como negar que isso é muito legal. Eileen é uma personagem central porque serve como símbolo da mudança dos tempos. Na juventude ela foi reprimida pelas limitações sociais, os tabus sexuais a marginalizaram – com uma revolução nos costumes ela vai encontrar seu lugar. A princípio Eileen fica na frente das câmeras, transando, mas depois ela começa a usar a criatividade e mostrar que é capaz, e aí a oportunidade surge. Quando a temporada termina ela já está dirigindo seu primeiro filme, um pouco por acaso e um pouco por obstinação. Para mim isso é quase um modelo de arco. Ela foi do ponto A ao B e tudo se encaixa com o grande panorama histórico. Onde estão as concessões bobas? Na hora de colocar essa jornada na tela.

DEUCE - THE

O roteiro traz uma personagem cheia de complexidades, mas ao mesmo tempo quer contar essa história como se estivesse falando com uma criança, como se The Deuce fosse um telefilme edificante. Um exemplo pontual está numa cena do último capítulo. O lugar é um set de filmagens. Maggie Gyllenhaal está usando meias 7/8 e um robe de seda. Eileen está pronta para rodar sua próxima cena. Mas o telefone toca. Uma assistente atende. O diretor não vai conseguir chegar a tempo. O que resta a fazer a não ser ir para casa? Mais do que obstinada, Eileen parece predestinada a assumir aquela posição: já que o diretor não vem, quem dirige sou eu. Faz sentido? Na vida real, eu não tenho dúvida nenhuma de que uma atriz pornô consiga dirigir um filme. Eu sei que isso acontece bastante. Muitas atrizes juntam dinheiro e abrem suas próprias companhias com o objetivo de ter controle sobre tudo o que fazem ou de ganhar dinheiro ao produzir conteúdo num meio que já conhecem. Só que The Deuce tratou esse processo de um jeito simplificador em excesso. O set é grande. Há um assistente de iluminação, uma contra-regra, vários atores, cenário, figurino, dinheiro envolvido: tudo isso para uma pessoa com zero experiência tomar as regras só porque se dispôs a aprender fazendo. O desenrolar da cena não é só inverossímil para qualquer um que já tenha trabalhado com qualquer coisa: ele também é feito com o máximo apego a fórmulas muito conhecidas de quem acompanha, por exemplo, o Supercine. Eileen compreende o trabalho do diretor, dá pitaco na direção de arte, trabalha o lado psicológico das atrizes menos experientes. Maggie Gyllenhaal faz tudo isso com a sutileza de um trator: cara de boazinha, cara de compreensiva, cara de quem está exercitando a criatividade.

Seria legal ver mais novidades em uma série com as pretensões de The Deuce. A sensação de déjà vu também bate forte quando se acompanha alguns dos personagens secundários: a jovem rica que largou a faculdade para virar garçonete, desafiar os pais e viver a “vida real”; a prostituta sonhadora que lê e vê filmes entre um programa e outro; o trabalhador assalariado que se encanta com as possibilidades da vida do crime; o trabalhador honesto que se vê seduzido pela máfia ao reafirmar sua masculinidade; o casal gay em crise porque um tem mais reservas que o outro a respeito de demonstrar intimidade em público e sair do armário. De novo: tenho certeza de que essas pessoas existem na vida real, mas acho que não precisamos vê-las no cinema e na tevê, para sempre, sob as mesmas luzes.

Mas todo esse didatismo não chega a estragar a série, que tem um fio condutor bem interessante. No fim das contas, o antagonista principal em The Deuce é o homem que contrata prostitutas. Ele aparece pouco, mas é a escrotidão em forma de criatura. Mais vil que os cafetões, mais hipócrita que os mafiosos e policiais, muito mais problemático que as prostitutas, o homem que contrata prostitutas é quem as submete à violência, quem solicita o sexo e quem as reprime por terem fornecido aquilo que ele solicitou. Trocando em miúdos: em The Deuce o homem que contrata é o símbolo de uma doença social. Ele vai ferrar todo mundo porque quer sexo, ele vai fazer de tudo para esconder suas preferências, ele vai pagar o que for preciso para ter o que quer. Quando a sociedade e a tecnologia permitem que essa obsessão seja levada adiante sob a proteção da privacidade é que surge a milionária pornografia moderna.

(Eu não sei se essas hipóteses correspondem exatamente à realidade, mas não custa lembrar que o Brasil, por exemplo, é ao mesmo tempo o país que mais mata transexuais e o que mais consome pornografia trans.)

De qualquer forma, em The Deuce os personagens servem para levar uma tese adiante: a de que uma revolução nos costumes e na tecnologia tirou o sexo pago das ruas e o levou para dentro das casas. Às vezes essa tese chega até a gente de um jeito meio simplista e quadradinho, mas o resultado final é bom. O tema fica mais e mais interessante na medida em que a gente conhece mais ângulos, e isso não é um feito que toda série consegue realizar. Pelo jeito a segunda temporada vai querer investigar se essas grandes mudanças na indústria do sexo e na sociedade serão necessariamente boas.

P.S.1: A recriação da época, em cenários e figurinos, está impecável.

P.S.2: Eu não sei julgar se James Franco é bom ator, mas eu adoro a participação dele em The Deuce. Ele faz irmãos gêmeos: um é malandro, o outro é ainda mais malandro. Os dois só se beneficiam do jeito canastrão de Franco.

Você não precisa de um guia para acompanhar Star Trek: Discovery

Si Vis Pacem, Para Bellum

Você estará perdendo uma das estreias mais gostosinhas de 2017 se, por algum motivo, não estiver acompanhando Star Trek: Discovery. Se o seu motivo for preguiça de ter que se inteirar a respeito de mais de 50 anos de conteúdo, preguiça de ter que começar lá de trás e ficar em dia com todas as séries e filmes e ainda ler uns livros, eu tenho uma novidade boa: não precisa, deixa isso pra lá. Foi o que eu fiz e está dando certo até agora.

Sei que há todo um exército de fãs que me desprezariam por dizer que acompanhar uma série de tevê não requer prática nem habilidade, mas também sei que televisão é sempre um produto feito para o máximo possível de consumidores. Acho que esse é o conceito maior por trás da produção de Discovery. Claro que eles precisam justificar a série como um componente da franquia Star Trek, mas eles também precisam fazê-la sobreviver num ambiente muito competitivo que oferece novidades semanalmente em vários segmentos.

Toda vez que eu me lembro disso, fico com muita raiva de sites ou cadernos de cultura que oferecem guias ou verdadeiros cursos para quem quer começar essa ou aquela franquia. Já falei disso aqui no blog quando saiu Star Wars: The Force Awakens. Evidente que ter mais informação é quase sempre melhor do que ter menos, mas há veículos de mídia que precisam que a gente se intimide para que eles possam justificar sua existência e há, também, muitos fãs que tomam para si aquilo que amam e não querem que ninguém encoste naquele objeto precioso que os ajuda a moldar sua identidade. Isso é um porre e eu sei que toda mulher que já se meteu a tratar de cultura pop já se viu na situação de ter que provar que é tão apaixonada por aquilo quanto o nerdão que sentou em cima e não quer levantar de jeito nenhum. Pior que isso: provar sua paixão não deveria ser pré-condição para nada, porque não é sinal de hipocrisia conhecer superficialmente alguma coisa (a não ser que você seja um neurocirurgião falando de cérebro, ou algo assim). Pelo contrário: é sinal de que você conheceu, se engajou ou não, e andou para frente. Nem todo mundo se apaixona perdidamente pelas mesmas coisas.

Discovery tem sido uma surpresa para mim. Como eu disse, achei que não valia o esforço de fazer uma pós-graduação lato sensu para entender o que estava acontecendo na tela, mas me dispus a ver o piloto, vi o segundo e o terceiro episódios com um pé atrás e agora, desde mais ou menos o sétimo, ando achando que a série vai entrar na minha lista de favoritos do ano. Todas as referências à série clássica ou às derivadas são laterais, quer dizer: elas não atrapalham a linha principal e o desenvolvimento da história, nem o entrelaçamento da trama. Dá para começar do zero com Discovery. Mas isso a gente percebe nos primeiros cinco minutos do piloto. O que me fez querer acompanhar para valer foi a evolução episódio a episódio.

Os produtores optaram por um caminho arriscado. O capítulo inicial e o segundo, que foram ao ar no mesmo dia, contaram praticamente uma história de origem da personagem principal. Michael Burnham é vivida por Sonequa Martin-Green – e ela, a atriz, era uma das razões a me deixar com um pé atrás: é que a personagem dela em The Walking Dead era chatíssima, fazendo tudo num tom ridiculamente dramático. Mas já no terceiro capítulo de Discovery Martin-Green me fez esquecer de TWD. Eu mordi minha língua e vi que ela é razão de, sei lá, quase metade do sucesso até agora. Michael Burnham deixou de ser chata, outros personagens rapidamente ganharam importância e o trem andou. Jason Isaacs, que interpreta o capitão Gabriel Lorca, por exemplo, tem sido o grande ator da série. Ele consegue parecer louco, dissimulado, simpático, leal, desleal, inteligente e inconsequente ao mesmo tempo. E nem tudo está nos roteiros, muita coisa vem do trabalho do ator. Saru, o oficial de alta patente que é de uma espécie esquisitíssima, é interpretado por Doug Jones, outro desses atores que se mostram capazes de carregar uma série nas costas. Tilly (Mary Wiseman), a melhor amiga da protagonista, deu muito certo como um complemento bastante humano ao jeito necessariamente frio de Burnham.

Tudo isso me faz pensar que o seriado está muito legal, e legal para quem gosta de televisão, de ver série enquanto come bolacha, não só necessariamente pra quem é fã de longa data de uma marca importante. Quando alguém fizer um daqueles textos do tipo “tudo o que você precisa para começar Tal Franquia” eu quero me lembrar de responder que preciso de um sofá, tempo livre e/ou do dinheiro para o ingresso.

Três livros da meta de 2017 – parte 2

Anteriormente em Meta de Leitura 2017:

“Ano passado eu tive a brilhante ideia de criar uma meta de leitura com 12 livros que estavam encostados aqui na prateleira de casa. Um para cada mês, fora os outros que fossem aparecendo durante o ano. Um outro objetivo era escrever um texto para cada livro aqui no blog. 2016 acabou, eu dei conta da tarefa e fiquei muito feliz. É tão difícil finalizar uma coisa, qualquer coisa, que eu pulo de alegria quando consigo. Empolgada, em 2017 eu resolvi dificultar um pouco mais e incluí livros que acabaram exigindo uma leitura mais lenta, seja por conta do número de páginas ou das características de tal e tal obra.

O que eu vou ter que fazer é rearranjar todo o esquema, já que (1) não estava prático escrever os textos sobre os livros, (2) ninguém se importava mesmo e (3) mesmo gostando de alguma coisa, nem sempre eu tenho o que dizer sobre ela. Daí eu resolvi fazer a metade da tarefa, ou seja: vou em frente, terminando livro a livro quando conseguir, e agora, em vez de escrever um texto para cada um e publicá-lo no começo do mês seguinte, vou agrupar três livros de cada vez, escrever quando for possível e postar quando der vontade”.

(Essas são cenas do último capítulo, postado em julho).

Se eu estou dando conta da meta? A resposta é complicada. Os livros estão lidos. Mas será que fiz a melhor leitura possível, aproveitei cada aspecto de cada livro e saí transformada de cada experiência? Esta pergunta vai ficar no ar.

doutor jivago

Em julho mesmo eu finalmente terminei Doutor Jivago. Adiciono o “finalmente” porque em 2010, talvez, eu havia tentado terminá-lo mas o momento não favoreceu. Para falar a verdade não me lembro do que me fez desistir, mas o certo é que a primeira tentativa foi boa o bastante para não impossibilitar uma próxima. Agora em 2017, por alguns dias a minha leitura de Doutor Jivago coincidiu com a de Vida e Destino, e eu me lembro de ter pensado que não era muito inteligente me empenhar em dois longos livros russos que, no fim das contas, tratam de repercussões da guerra (a Primeira Guerra Mundial no livro de Pasternak, a Segunda no de Grossman) na vida de pessoas mais ou menos comuns. Isso fez com que eu comparasse os dois livros constantemente e, para a minha surpresa, Doutor Jivago perdeu por pouco, mas perdeu.

A história de Jivago é bonita e triste, e quando começamos o livro com ele ainda menino, percebemos que lá vem uma jornada que vai fazer a gente sentir de tudo. E foi mesmo uma jornada. Dura e triste de um jeito que a gente só encontra na literatura russa, mas mesmo com mais de 600 páginas, a impressão que ficou em mim foi de que nem tudo teve o tempo de que precisava. A história é bonita e vale a leitura, mas se um dia alguém te ameaçar com um revolver e te obrigar a escolher entre Vida e Destino e Doutor Jivago, pode ficar com o primeiro.

clarice contos

Em agosto eu comecei a ler Todos os Contos, da Clarice Lispector, naquele volume da Rocco que saiu recentemente. De novo uma má ideia: ter que ler num mês um livro daquele tamanho. E não era só o tamanho: contos têm uma fluidez que não é a mesma do romance. Há ocasiões em que, terminando um bem pequeno, já é necessário parar para poder absorver o que se passou. De positivo, fica a minha releitura de A Legião EstrangeiraFelicidade Clandestina (que foi livro obrigatório quando eu fiz vestibular e é uma obra que eu adoro) e também a sensação de que a leitura corrida pode (e deve, se duvidar) ser apenas um primeiro contato com uma obra. O volume já foi feito muito forte, bonito e completo para que a gente possa passar muito tempo com ele. Aconteceu de este entrar na meta porque me angustiava tê-lo comprado e sempre adiar o início. Agora, quebrado o gelo, quero ver se eu consigo reler um livro de contos de Lispector por ano. Aliás, preciso montar uma meta só para ela porque já faz tempo que li Perto do Coração Selvagem e sinto saudades.

Por falar em planos de longo prazo, sério, desde a minha adolescência eu me enrolava para começar os livros de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust. Sabe quando uma obra ganha todos aqueles adjetivos genéricos que acabam deixando a gente na expectativa? (Tipo: genial, importante, fundamental, obra-prima, difícil-mas-recompensador, obrigatório, incontornável, canônico, etc., etc., etc.) Hoje em dia eu estou um pouco mais escolada e não me empolgo tão facilmente, já entendi mais ou menos qual é a minha e não me desespero se deixar passar um “gigante da literatura”, mas quando eu tinha 17 ou 18 anos, uma simples menção a Em busca do tempo perdido me deixava ansiosa. Primeiro porque eu não sabia por onde começar. A resposta simples (a única resposta) é começar pelo começo, mas aqueles adjetivos encheram a minha cabeça e, sempre que a ocasião se apresentava, eu adiava um pouquinho por achar que não era a hora. Mas agora eu aprendi que a melhor hora é sempre quando o entusiasmo bater e o tempo for propício. Isso porque não há leitor no mundo, professor-doutor ou blogueiro, que consiga tirar tudo o que uma obra tem a oferecer, vai sempre faltar alguma coisa e, incompleta por incompleta, a minha leitura também vai valer. Ninguém precisa da autorização de ninguém.

no caminho de swann

Com esse espírito eu li No Caminho de Swann em setembro e tive sentimentos conflitantes. Cheguei a pensar que seria um dos meus favoritos da vida inteira, cheguei a achar que era tudo neurose de um autor recalcado pela liberdade de uma mulher. No fim, eu consegui encontrar um meio termo. Gostei muito, entendo a empolgação dos críticos e a reputação que o livro tem. No caminho de Swann é a história de um sujeito torturado por si mesmo, por seus pensamentos tortos de posse e paranoia. Uma história sobre o reflexo da nossa cabeça na imagem que a gente faz dos outros. Mas dizer só isso seria reduzir o romance. A primeira parte é irresistível: nela um menino narra sua infância na casa de verão de sua família. Os desdobramentos dessa infância são narrados com riqueza de detalhes, com um poder muito grande de criar imagens e dar vida ao texto. Eu saí encantada e achando que perdi tempo (opa, trocadilho involuntário) por não ter começado antes.

Que mais? Por hoje é só. Hoje é dia 30 de outubro e eu me declaro em dia com a minha meta. Terminei o livro de outubro na semana passada, mas vou guardá-lo para o texto de dezembro, que é tradicionalmente o mês em que a gente revê nossas escolhas. Andei pensando numa meta para o ano que vem, e acho que essa ela vai ter relação com o fim de todas as metas.

O Exorcista: segunda temporada é muito melhor que a primeira

o exorcista

A primeira temporada de O Exorcista foi uma confusão tão grande que quase fez o demônio pedir as contas e ir embora. Eu também cheguei a desistir já no episódio piloto, mas alguma coisa, algum poder sobrenatural (ou uma quedinha por entretenimento de baixa qualidade…) enfiou na minha cabeça a disposição para dar uma segunda chance à série e, sei lá quanto tempo depois, aqui estou eu, animada o bastante para falar que a segunda temporada (na altura do quarto episódio quando escrevo) encontrou um caminho promissor, conseguiu se livrar de boa parte do entulho que atrapalhava a primeira e fez valer a minha paciência.

Para quem não acompanhou, O Exorcista não é uma adaptação do filme ou do livro ao formato seriado para televisão. O filme de William Friedkin ficou no passado. A primeira temporada acompanhou uma família afligida pelo mesmo mal que se alojou na menina Regan nos anos 1970, mas a história é atual. Bom, para falar com sinceridade: a história não tem nada a ver com o material original – só que, para a minha surpresa, isso não é um defeito. Ter que voltar à fonte e fazer as conexões com o passado é o que atrapalha a temporada. Por boa parte dos episódios as referências ao filme clássico não passam de uns acenos visuais aqui e ali, até a hora da grande reviravolta, que é quando a gente percebe que, pois é!, a série se seguraria melhor sem precisar costurar, remendar e fazer de tudo para tentar carregar o nome “O Exorcista”.

Mas os dois ou três últimos episódios da primeira temporada já anunciaram o que viria pela frente. A verdade é que O Exorcista é uma antologia que tenta misturar Supernatural com American Horror Story com um tiquinho assim de The Vampire Diaries. Os padres Marcus Keane e Tomas Ortega são personagens que jamais caberiam no universo do filme original. Mas o demônio também mudou. Se antes ele queria a destruição pela destruição, agora o mal faz planos e conspira pelo controle da humanidade. Há uma seita demoníaca dentro da Igreja Católica e não faltam rituais, tramoias e emboscadas. Fiel ao estilo das séries que a inspiraram, O Exorcista coloca os padres no meio da ação. As batalhas não são apenas espirituais e os servos de Deus não raro caem no soco, apontam armas e participam de perseguições automotivas. Vale tudo para salvar uma alma pois o embate entre o bem e o mal é uma guerra declarada.

As intrigas do grupo satanista no seio do Vaticano são o fio condutor entre as duas temporadas. A segunda, que começou no finzinho de setembro, trouxe uma penca de gente nova e uma outra entidade a ser combatida. As novidades só fizeram bem. Em vez de uma tentativa toda atrapalhada de encaixar a série nas rédeas da mitologia original, O Exorcista agora tem uma história própria com um monte de elementos mais ou menos fresquinhos.

Andy Kim – interpretado pelo subestimado John Cho – é um sujeito bacana e sobrecarregado que cuida sozinho de um lar para jovens que perderam a família. Eles vivem numa ilha bonita, isolada e um pouco macabra. A mulher de Andy morreu num incidente mal explicado, um suicídio até que se prove o contrário. No primeiro episódio, coisas estranhas estão acontecendo e as crianças estão inquietas. Enquanto isso, os padres estão em outro lado do país levando a vida normal daqueles que combatem as forças das trevas, isto é: sequestrando uma endemoniada e caindo na porrada com o marido caipira dela e os amigos caipiras dele.

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Acho que vale a pena dar uma chance a essa série, mesmo se você não teve paciência para Geena Davis e companhia na primeira temporada. Algumas surpresas estão dando as caras. Um exemplo: no S02E04, pela primeira vez, eu fiquei até arrepiada de medo. Diminuíram os esforços de conversar visualmente com o filme clássico, mas a ação ininterrupta da temporada inicial deu lugar a um passo mais lento, e por isso mais capaz de assustar. O terror agora se inspira em coisas como Invocação do Mal e Sobrenatural e tem uma trama que, a princípio, lembra um pouco a de Annabelle 2.

Até agora pouca coisa aconteceu. Claro que o vulnerável Andy Kim e suas crianças mais vulneráveis ainda vão cruzar o caminho dos padres, claro que o mal vai encarnar em alguém; mas um ponto positivo, a essa altura, é que não se pode prever muito do que acontecerá daqui em diante. Eu ainda tenho muitas perguntas. Esse demônio isolado na ilha faz parte do grande plano satanista? Como? Os padres vão ter que exorcizar quem? Cadê o interesse amoroso do padre Tomas Ortega, aquela chatinha que se arrastava nele? Será que mais alguém está shippando os dois padres? Será que isso é considerado pecado?

Mindhunter é uma das melhores séries que a Netflix já fez

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As décadas de 1990 e 2000 foram muito boas para quem gosta de filmes de serial killers. O Silêncio dos Inocentes ganhou o Oscar de melhor filme em 1991 e cimentou esse filão do suspense. Depois disso surgiram muitas produções com resultados variados e, ultimamente, a fórmula tem mostrado cansaço. O diretor David Fincher estreou no gênero com Seven, em 1995, depois fez o meu preferido, Zodíaco, em 2007, e agora leva Mindhunter à Netflix.

A televisão americana tem uma quedinha especial por mistério e por quem-matou-fulano-de-tal e, para tentar combinações diferentes, inventou de tudo (inclusive o serial killer condicionado a só matar quem merece morrer). Por isso é muito legal perceber que Mindhunter consegue trazer muito daquilo que a gente conhece, de um ponto de vista ligeiramente diferente (que é o que todo mundo quer fazer), mas sem enfiar os dois pés na jaca.

A história é, como acontece com frequência, a de um agente do FBI. Até aí não há novidade. Acontece que esse agente não quer necessariamente desvendar um caso especial e intrigante. O que ele faz é estudar o crime como um fenômeno maior. É esse ponto de vista que abre todas as sacadas legais de Mindhunter, e o que permite esse ângulo é o material original. A série foi baseada num livro de John E. Douglas e Mark Olshaker. Douglas é um ex-agente do FBI, a carreira e as descobertas dele são as inspirações para o personagem principal. Ele trabalhava no bureau bem na época em que o grande público e as instituições foram obrigados a tentar entender o que significavam os assassinatos em série – uma coisa talvez tão antiga quanto a roda, mas um conceito relativamente novo àquela altura.

O ano é 1977. Os americanos ainda estão perplexos com os crimes do Filho de Sam, um serial killer que dizia agir sob os comandos de um cachorro falante. A reconstrução de época que Mindhunter faz não serve só para que a gente sinta o clima do final da década de 1970. O próprio conceito de serial killer vai sendo apresentado aos poucos, sempre em confronto com a época e com as pessoas que então tentavam entender e combater o crime. O Filho de Sam não era o único, e as pessoas tinham a sensação de que o mundo ia ficando mais e mais difícil de se compreender.

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Essa recriação é fantástica. Para quem acompanha o noticiário em 2017, para quem viu a penca de suspenses lançados desde O Silêncio dos Inocentes, a importância, por exemplo, de perfilar um criminoso pode parecer óbvia. O trabalho de Mindhunter é demonstrar como é que essa obviedade se estabeleceu. Ao mesmo tempo, não há só a questão de dar nome a um crime antigo, ou de entender a mente dos seres humanos capazes de cometer as maiores e mais assassinas maluquices. A série parece dizer que, com a mudança dos tempos, também mudou o tipo de loucura que se precisa enfrentar.

Nesse sentido, Mindhunter é de apavorar. Há um diálogo constante entre o choque representado pela novidade de cada crime, lá em 1977, e a nossa incapacidade, em 2017, de ver qualquer atrocidade como novidade. A escalada dessa loucura coletiva é o principal tema da série. O personagem central, vivido por Jonathan Groff, parece não se abalar com o que vê. A princípio ele entrevista psicopatas e reflete sobre a natureza do que eles fazem em nome de nada além de sua própria ascensão profissional. Só depois ele vai perceber o verdadeiro peso daquilo com que está lidando. Nessa hora o espectador é convidado a se espantar de novo com a violência e a desumanidade, a sair de um certo estado de torpor.

Eu não tenho nem vergonha de dizer que terminei os 10 episódios dessa primeira temporada de Mindhunter no fim de semana de seu lançamento. Acho que David Fincher e companhia entregaram uma das melhores coisas que a Netflix já fez. Vi algumas pessoas reclamando de lentidão ou falta de objetividade, mas acho que essas críticas não valem quando uma série tenta ver em detalhes um panorama tão grande. Além disso, seria difícil pensar em um elenco melhor do que o que Mindhunter tem, com destaque para Anna Torv (aquela de Fringe) e Holt McCallany (que eu não conhecia de nome).

Não sei se uma segunda temporada já está garantida, mas até me empolgo com o que ela tem a apresentar. Na vida real, John E. Douglas entrevistou Ted Bundy, Charles Manson, O Filho de Sam, John Wayne Gacy, Richard Speck, Edmund Kemper e vários outros. Até agora, dessa lista só apareceram Speck e Kemper. E quem chegou até o final sabe o efeito que esses dois tiveram nas vidas dos personagens principais. Agora é esperar.

Dois anos de blog e uma comemoração contida

adorariaNesta semana o blog comemora dois anos de vida (eu acho que é nesta semana, mas é em setembro sem dúvida!), e como o negócio aqui é meio parado, não teremos sorteios, brindes, nem nada dessas coisas que os blogs legais têm. Ano passado, como comemoração, eu expliquei no post de aniversário a origem do nome do blog, mas agora já queimei esse cartucho e não consegui pensar em nada assim tão legal. Por isso resolvi apenas falar das últimas coisas que andei lendo e assistindo. Ok, eu sei que para isso nem precisava avisar do aniversário, mas deixar passar em branco também não é do meu feitio.

Tudo bem. Eu andei lendo alguns livros bem legais, assistindo a muita série ruim (e a outras boazinhas) e poucos filmes que valeram a pena. Não tenho tido tempo de ir ao cinema, por isso tenho vivido na ilegalidade. Sempre acho que um dia o governo vai me pegar e meu azar vai ser tão grande que eles vão querer me fazer de exemplo: cadeia nela!

Minha meta de leitura de 2017 está indo bem graças a um novo método: eu agora calculo antecipadamente quantas páginas preciso ler por dia, durante o mês inteiro, e anoto num papel (que acaba virando marcador) as datas e as páginas a que tenho que chegar a cada dia. No momento estou lendo No caminho de Swann e minha média é de 15 páginas por dia, um número perfeito para ler bem de manhãzinha antes de começar a labuta. Com o mesmo método eu terminei Vida e destino, Doutor Jivago e Todos os Contos da Clarice Lispector. Fico feliz com esse método porque finalmente estou dando conta de ler a meta sem me embananar com tudo o que me aparece fora dela. Parece neurose, mas facilita muito e me ajuda a ter constância.

Só que minhas últimas leituras não foram clássicos. Continuo lendo Outlander e sigo atrasada com a infinidade de livros da série. Terminei Os tambores de outono – Parte 1, mas a segunda parte ainda me espera. Me empolgo só de olhar a pilha de livros aqui de casa e saber que ainda tenho muito a aproveitar na companhia de Claire e Jamie. Também li dois thrillers bem bacanas: O casal que mora ao lado e Por trás dos seus olhos. O primeiro é curtinho e traz o suspense do desaparecimento de um bebê que fica sozinho em casa enquanto os pais jantam na casa ao lado. Dá para ler em uma sentada e, mesmo que não tenha um fim tão surpreendente, nos deixa ligados do começo ao fim. O segundo livro é um pouco mais longo e narra a história de uma mulher que fica amiga da esposa do chefe. Acontece que ela teve um flerte com ele (beijou o sujeito, para falar a verdade). O fim é bem louco, mas bem diferente, e me deixou de queixo caído. No Skoob quase todo mundo que leu ficou da mesma forma.

Animada com esses dois acabei lendo outros thrillers bem ruins: Um pequeno favor e A desconhecida. Os dois contam histórias de mulheres mentalmente perturbadas e desinteressantes. Também li (finalmente!) Agora e para sempre, Lara Jean e Mr. Romance. Ambos foram bem fofos.

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Mike e Harvey lindos

Agosto e início de setembro são sempre meio parados para as séries de televisão, mas mesmo assim encontrei algumas interessantes. Comecei a ver Suits sem acreditar que investiria muito do meu tempo, mas agora estou viciada em Mike e Harvey. Esses dois eu shippo muito (e acabo de descobrir que já existe um nome para o ship deles: Marvey). Falando em shippar, terminei por estes dias a segunda temporada de Animal Kingdom e, se na primeira temporada eu não tinha certeza de que a série iria vingar, a segunda temporada veio para me dizer que sim, os meninos Cody são especiais e merecem ser acompanhados. Pena que são apenas 13 episódios.

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Jessica Biel em The Sinner

Quanto aos suspenses, se eu não gostei de Mr. Mercedes, The Sinner foi bem diferente. Tem a Jessical Biel e o Bill Pulman. O piloto da série me surpreendeu por um evento que pareceu muito aleatório (não dá para ser mais específica sem estragar tudo), mas que foi bem costurado nos outros sete episódios. Strike, aquele da J. K. Rowling, estreou e já acabou (foi tudo muito rápido mesmo) em apenas cinco partes. Uma terceira temporada vai chegar em 2018, mas os capítulos são tão curtos que sinto que, se eu não tivesse lido os livros, não teria entendido coisa nenhuma. Mas a música da abertura é ótima! (só que não vale a pena assistir só por isso, dá para ver a abertura pelo Youtube).

Nas últimas semanas comecei a assistir a The Deuce, que parece bem promissora. É do mesmo criador de The Wire (de que meu marido tentou me fazer gostar, sem sucesso) e tem no elenco James Franco e Maggie Gyllenhaal. A série é lenta e talvez entusiasme mais os fãs de cinema do que os de televisão, mas ainda é cedo para tirar conclusões. Liar e Star Trek: Discovery são outras duas que comecei a assistir por esses dias e ainda não sei aonde vão chegar. Por enquanto foram dois episódios de cada, vale acompanhar mais um pouco.

Ultimamente os filmes estão meio ausentes dos meus dias. Sempre tenho que escolher à noite entre livro, filme e série e os filmes têm levado a pior. Mas eu vi Baby Driver que foi muito bom, cheio de ação e com cenas de carro melhores que as de Velozes e Furiosos (mentira, não posso comparar; nunca vi a franquia do Vin Diesel, que todo mundo ou ama ou odeia). Também vi The Big Sick, uma comédia romântica que tinha tudo para ser boa mas se perdeu na baboseira de tentar dar um final feliz (e chato) para todo mundo.

Bom, o post de comemoração é este. Não parece muito comemorativo, mas estou bem feliz de ter um cantinho há dois anos para falar das minhas paixões mais antigas. Para celebrar um pouquinho mais, segura esse vídeo do Johnny Castle ensinando a Baby a dançar: