Missoula

IMG_20160829_201701

Jon Krakauer é o responsável por eu gostar de livro-reportagem. Quando cursei jornalismo, precisei ler alguns livros muito bons, como  A sangue frio, do Truman Capote, mas foi apenas com o estilo de escrever do Jon Krakauer que eu me apeguei ao gênero. Ele sempre apura muito bem os fatos, o que mantém seus livros distantes daquele efeito “romance da vida real”, e toma cuidado ao mesmo tempo para não deixar o texto chato e sem vida. Acho que todo mundo conhece ou leu Na natureza selvagem, seu trabalho mais famoso. Ali, Jon Krakauer conseguiu narrar uma história triste e comovente sem apelar emocionalmente em nenhum momento (coisa que o Sean Penn não conseguiu ao transformar a história em filme), enquanto desvendava uma trama complicada através de investigação e de uma cabeça bastante sóbria para refletir a respeito do que se passou.

Em Missoula, seu mais novo livro, ele conseguiu de novo. Aproveitando como exemplo uma cidade com menos de 70 mil habitantes, Jon Krakauer expôs um grande problema que atinge os Estados Unidos: o estupro, e em particular o estupro nas universidades. Aqui é o momento em que eu digo que o problema também atinge o Brasil e muitos outros países, o que é verdade, mas adianto que prefiro restringir este texto ao livro, que está repleto de dados e informações verificadas.

O cenário que Krakauer escolheu é nosso velho conhecido. Quem nunca assistiu a um filme americano com muitos jovens universitários bebendo naqueles copinhos vermelhos em alguma festa? Todo mundo louco para socializar, hormônios à flor da pele. Missoula tem muitas histórias que parecem saídas de um destes filmes, todas com finais bem mais sombrios. Krakauer descreve detalhadamente algumas histórias que se equivalem nas circunstâncias. Uma jovem universitária que bebeu muito na festa do amigo, confiou nele, resolveu dormir ali para não dirigir bêbada e acordou com as calças abaixadas e um homem de mais de 100kg, o amigo, tentando penetrá-la. Outra universitária levou um cara para o quarto mas desistiu de fazer sexo, e mesmo assim ele achou razoável colocar três dedos nela, depois de ela haver apagado, e agressivamente cutucá-la até sair sangue. São várias relatos de meninas que disseram não e mesmo assim não foram ouvidas. O elemento que une a maioria dos casos retratados em Missoula: o agressor quase sempre era um jogador do time de futebol americano da universidade.

Missoula é uma cidade pequena, e sua economia depende muito da Universidade de Montana. Como é uma cidade universitária, os jovens são boa parte da população. Todos eles, universitários ou não, idolatram o time de futebol americano: os Grizzlies. Krakauer explica detalhadamente o status privilegiado dos rapazes que jogam pelo time da universidade ao perfilar alguns deles. Meninos que ainda são estudantes, mas que carregam o peso do orgulho de uma população. Um peso que é extravasado com muita bebida e sexo. E o sexo nem sempre é consensual.

Por uma combinação de decisões lamentáveis (dos estupradores e das autoridades políticas e policiais), a cidade e a universidade viraram palco de uma onda de estupros. De 2008 a 2012 foram 350 casos de agressões contra mulheres investigados pela promotoria da cidade. Desses casos, graças a uma burocracia disposta a grandes esforços para não perturbar os atletas, apenas um pequeno número foi a julgamento. Depois que as notícias chegaram à imprensa, a cidade virou notícia nacional. Através de depoimentos das vítimas, familiares, alguns agressores e policiais, de muitos dados coletados e de uma pesquisa bibliográfica empenhada em tratar do que há de mais recente e pertinente no tema, Krakauer faz da onda de estupros em Missoula um microcosmo da situação das vítimas de crimes sexuais em todo o país.

Avançando no livro é possível perceber que depois de violentadas, as garotas que venciam a barreira do constrangimento e do medo não conseguiam usufruir de seus direitos. O processo todo era desgastante e inútil. O primeiro passo era ir ao hospital, o segundo passo era falar com os policiais. Se os policiais conseguissem juntar provas suficientes para incriminar o acusado, o caso era passado para a promotoria. Ali, eles precisavam juntar ainda mais provas contra o acusado. Se eles conseguissem, o caso poderia ir a julgamento. Então o acusado poderia ser finalmente julgado, e se ele fosse realmente condenado, ele poderia recorrer e diminuir sua pena, que poderia variar de dois a cem anos de prisão, mas que todos sabiam que no máximo seria o mínimo. Falando assim, todo o processo parece desgastante mas necessário. Todo ser humano deve ter direito à presunção de inocência e isso pouca gente séria questiona. O grande mérito de Krakauer, ao recontar minuciosamente as experiências das vítimas, é ver que cada etapa da burocracia é feita de pequenas contribuições de pessoas que não têm o menor interesse em alterar o estado de coisas, nem qualquer preparo para lidar com as complexidades de um crime tão hediondo como o estupro. Um milhão de concepções erradas – sem falar em clara má-fé – ficam no caminho da pessoa que quer justiça.

Minha maior sensação durante a leitura foi de frustração. Era desapontador ver que muitas meninas tinham testemunhas, evidências coletadas de exames feitos logo após o estupro e mesmo assim seus casos eram barrados na promotoria por “falta de provas”. Os argumentos usados pela promotoria ou pela delegacia eram tão ilógicos que a vontade de jogar o livro longe me acompanhou durante toda a leitura.

Krakauer me fez sentir toda a angústia de pessoas que claramente não foram ouvidas por quem deveria zelar por elas – e não falo só dos agentes da lei, mas da sociedade como um todo. Um exemplo: em um caso específico, o jogador acusado confessou o estupro, por isso ele foi a julgamento não para saber se ele era inocente, mas para que a juíza determinasse qual o tamanho da pena que seria dada a ele. Mesmo com uma confissão e um monte de provas, a maior parte da população da cidade não acreditava que ele fosse um estuprador por ser um “menino bom com a família”. Eles achavam que a menina mentiu para chamar a atenção. Se esse tipo de mentalidade ficasse restrito àqueles que acompanham as notícias de longe já seria ruim o suficiente, mas e quando advogados, policiais e autoridades universitárias partilham das mesmas concepções erradas (que Krakauer faz questão de combater ao comentar estudos recentes) e mal intencionadas? Frustrante ou não?

Depois de terminar Missoula decidi que preciso de um tempo longe de livros com tantas histórias de arbitrariedade e injustiça. Eu venho de uma sequência que teve Um de nós e O acerto de contas de uma mãe. Preciso de um tempo. Missoula é desgastante, mas é impossível não se comover com as histórias. O livro é muito útil por jogar luz sobre um território que geralmente fica nebuloso, todo ele atravessado por tabus e questões morais. Um aviso: se você for um universitário jogador de futebol americano amado pela cidade inteira, não leia o livro, pois você vai achar que existem pessoas por aí querendo denegrir a sua imagem para conseguir cinco minutos de fama. A parte boa é que a polícia e o resto do mundo vão estar ao seu lado.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s