O hype de Star Wars e eu – uma defesa de ir ao cinema pelo evento

Num dia qualquer, já faz tempo, eu me lembro de ter dito ao meu namorado (agora marido – acho que nunca vou me acostumar): “Então vamos lá, coloca aí o primeiro Star Wars, vou dar uma chance já que todo mundo fala”. E eu dormi. Não foi nem na maldade. Não lembro de ter sentido desgosto, mas dormi. Sei que isso deixaria muita gente muito brava. Mas peço calma.

Num dia de novembro deste ano, nesse mês agora, eu fiquei com inveja de ter visto um casal de conhecidos que já tinha ingressos para o Star Wars do J. J. Abrams. Pré-venda é ao mesmo tempo um instrumento do hype e uma defesa contra ele. Na inveja eu fui lá e… comprei ingressos. Eu sabia que não ia conseguir me esconder da febre de Star Wars que está tomando conta de tudo, mas a boa notícia é a seguinte: mesmo tendo visto uns 14 minutos de um filme só, numa franquia que tem seis, eu quero muito ir e não estou pedindo, nem vou pedir, licença para ninguém.

Todos esses grandes nomes da cultura pop têm muitos donos por aí. Gente que, por amor a um filme ou livro ou série ou artista, é capaz de te dar um soco se você disser que não liga muito para aquilo ali que é a razão da vida de alguém. Esse pessoal, ao mesmo tempo em que pode ter uma dedicação simpática e cativante, pode também afastar quem é um observador casual, geralmente com umas acusações de insinceridade, do tipo: “Se você não viu todos os filmes, as séries animadas, se não leu todos os quadrinhos e todos os livros e discutiu tudo isso num fórum com gente exatamente como você, então você não tem o direito de comprar um ingresso para a pré-estreia, não tem o direito de ir lá se divertir”.

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Esse filme eu também veria

Bom, ninguém me falou isso. Ainda. Mas eu tenho certeza que alguém já ouviu a frase na íntegra. Eu teria a resposta perfeita: “Posso sim”. Claro que posso. E digo mais: posso ir lá, assistir sem ter a menor ideia de quem é pai de quem, e ainda assim me divertir. A franquia Star Wars – e todas as franquias, a bem da verdade – não é um fim em si, desconectada do mundo ou de outros elementos da cultura popular. Eu posso estar enquadrada em trezentas outras categorias. Do tipo: já vi quatro filmes do J. J. Abrams no cinema, e quero ver o quinto porque acho que os filmes dele devem ser vistos no cinema, já que ele não só se alimenta de toda a cultura do blockbuster, como repete, também, umas fórmulas interessantes dos blockbusters do passado – por exemplo: todo filme dele piora muito sem a ação frenética e o espetáculo da tela grande, e quando você para pra pensar no que viu, em casa, sempre se sente culpada por não ter visto os rombos gigantes (não confundir com robôs gigantes) que estão por todo o roteiro. Esta é uma categoria. Eu posso me interessar pelo Star Wars de J. J. Abrams só por esse motivo. Trocando em miúdos: ou eu vejo no cinema ou não vejo nunca.

Acho muito curioso quando alguém fica com medo de entrar em algum universo que não conhece, e fica querendo curso iniciatório, listas explicativas, guias, mapas. É um filme. Eu posso sentar lá e tentar entendê-lo com o que eu tenho, sem precisar passar por nenhuma prova de múltipla escolha para tanto. Se eu achar que preciso, ou que quero, ou que isso me deixaria contente, posso voltar e assistir qualquer filme ou ler qualquer coisa na ordem que for da minha vontade, e aí o que eu entender do todo vai ser só meu, vai ser particular – não vou precisar usar isso para ser aceita em grupo nenhum, nem para parecer mais cool e mais inteligente.

Então, pera, acho que me excedi. Deixa eu recapitular o meu argumento: se por algum motivo você não está querendo se deixar levar pela vontade de ir ao cinema, como todo mundo vai, no dia 17, só porque há 6 filmes na frente e você tem que dar conta de todos ou tem que ler  algum texto que te explique tudo como se o negócio fosse a equação que prova a existência de deus, então saiba que você não só está sendo boba, como tem muita gente por aí fazendo questão de te deixar sendo boba. Só pra te excluir de um tipo de clube ou pra parecer muito mais sabido e mais adequado que você. Tem gente ganhando dinheiro com esse sentimento de inadequação.

É isso: veja o filme. Boicote o filme. Nunca é só um filme, mas ao mesmo tempo é sempre só um filme.

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