Love & Mercy

Paul Dano como Brian Wilson: me apaixonei por você!

Paul Dano como Brian Wilson: me apaixonei por você!

Uma cinebiografia sobre os Beach Boys – ou melhor, sobre Brian Wilson. Eu não sou muito fã de cinebiografias, que sempre me soam como um documentário dramatizado para a televisão. E eu nunca me senti bem assistindo um documentário com dramatização. Bom, apesar da implicância eu sei que uma cinebiografia não é isso. E por isso eu me dispus a assistir a esse filme sobre o Brian Wilson. Pra se ter uma ideia, eu nem sabia o nome dele até ontem. Eu conhecia God Only Knows. E também Wouldn’t it be nice. Já tinha lido em algum lugar sobre uma certa rivalidade com os Beatles – que eu descobri ser uma rivalidade não correspondida. E assim entrei no filme, sem saber nada e não esperando muito.

O que me incomoda na maior parte das cinebiografias que vi é a forma como a história é contada. “Vamos contar a vida deste cantor? Vamos. Como? Desde o nascimento até a morte, lógico”. E então lá se vão 2h30 no mínimo da sua vida, e você termina esgotada depois de ver todos os dramas e injustiças que esta pessoa tão famosa viveu. Falando assim nem parece algo tão ruim, a experiência pode até ser boa. Num livro sempre funciona, mas em um filme você não pode se dar intervalos longos, precisa embarcar na história e terminar ali, no mesmo dia. Eu posso citar de cabeça dois filmes que foram assim, experiências boas que não tenho vontade de repetir. Ray, sobre o Ray Charles e Elvis – de 2005. Serviram para eu saber um pouco mais dos dois artistas, mas não assistiria novamente. Vale dizer que eu adoro os dois.

Love & Mercy não tem nada disso, não quer contar a história “corrida” da vida toda. São dois momentos bem distintos da vida do Brian Wilson, vividos pelo Paul Dano e pelo John Cusack. No primeiro momento, Paul Dano vive um Brian Wilson já famoso, que passou pelo início da carreira construída pelo pai tirano e conseguiu um pouco de liberdade junto com os irmãos – a banda nessa altura é formada por ele, dois irmãos e um primo. É o momento da criação do disco mais famoso dos Beach Boys: Pet Sounds. Em um segundo momento quem aparece é o John Cusack, no fim dos anos 80, totalmente lelé. E assim o filme nos conta, intercalando os momentos do Paul Dano aos do John Cusack , a história do Brian Wilson sem ser A história do Brian Wilson.

Brian Wilson no estúdio. Obstinado, fofinho e surtadinho.

Brian Wilson no estúdio. Obstinado, fofinho e surtadinho.

Sou uma total ignorante sobre a obra dos Beach Boys, mas acho que as músicas estavam no ponto certo. O filme não foi totalmente preenchido por elas, ocupando todo o espaço, mas elas estavam bem presentes. Um dos melhores momentos mostra o Brian Wilson, na versão do Paul Dano, no estúdio, dizendo o que os músicos fariam em cada parte da música. Era ele criando, e ver isso recriado foi bem legal. Foi bem legal pois ali deu pra ver um pouco mais da música da banda – será que dá pra chamar de banda quando os outros integrantes nem participam desta etapa no estúdio?

Quando escutamos a música – e aqui eu digo alguém totalmente leigo como eu -, não conseguimos pegar todos os instrumentos que estão tocando. Se pegamos, é quando encontramos uma guitarra, um baixo e uma bateria. Agora, este disco dos Beach Boys tinha um mundo inteiro de instrumentistas. Esse foi um ponto alto e só isso já valeria a experiência.

Ali deu pra ver toda a criatividade do Brian Wilson, e também toda a falta de função dos irmãos e integrantes da banda. Foi um disco totalmente autoral, pelo que o filme diz, bem diferente do que se costumava ver em bandas como os Beach Boys na época. Essa é a parte que o filme não narra, e nem precisaria. O pai criou a banda, criou o estilo, inventou os garotos surfistas praianos. Isso eles não eram, e só depois de um tempo conseguiram se livrar, seja do pai, seja do estilo.

Isso tudo eu descobri vendo o filme, eu não sei nada de Beach Boys, lembra? E pra isso o filme não precisou contar tudo desde o nascimento. E aí aparece a beleza do cinema. Em conseguir contar tanta coisa sem ter que dizer tim tim por tim tim.

Na outra parte, descobri que o Brian Wilson estava bem louquinho no começo dos anos 90. Ele já mostrava alguns sinais de esquizofrenia na fase jovem, mas depois tudo piorou muito. E o John Cusack conseguiu mostrar muito bem isso. Parecia alguém com sérios problemas, mas não um Tonho da Lua. Esse pulo na história é bem climatizado no fim do filme, quando o Brian Wilson menino, o Brian Wilson jovem e o Brian Wilson adulto aparecem deitados na cama. Uma hora ele diz que ficou alguns anos na cama (drogas, remédios, bebidas?), e foram justamente os anos do fim da parte do Paul Dano para o começo do John Cusack.

Não sei, não estou na vibe de surfar.

Não sei, não estou na vibe de surfar.

Um outro rosto famoso que está no filme é o da Elizabeth Banks. Mas deixei para falar dela só aqui porque senti que ela não fez diferença. Seu personagem é importante, é a mulher de verdade do Brian Wilson. A mulher que o resgatou de uma fase longa e péssima de autodestruição. Mais do que uma autodestruição, uma fase em que ele estava praticamente sequestrado. Eu achei a Elizabeth Banks tão fraca no papel, parecia que ela estava sempre parodiando alguma cena dramática. Por isso senti que ela não fez diferença, ou melhor, fez diferença pra pior.

Aposto que eu não consigo te convencer a comprar esse carro.

Aposto que eu não consigo te convencer a comprar esse carro.

O bom de tudo isso é o final feliz. Pelo menos ali no filme. Depois de momentos abusivos por parte do homem que na altura era seu guardião legal (pois é! isso dá uma medida da fragilidade dele nessa etapa da vida) John Cusack/Brian Wilson consegue se libertar – com ajuda da família, amigos e da nova mulher. Minha impressão foi muito boa.

Foi um filme sensível pra não botar defeito. E de quebra ainda descobri mais sobre o Brian Wilson. Pelo menos agora não fico (muito) perdida em uma conversa sobre os Beach Boys. Uma cinebiografia também serve pra isso. Hehe.

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