Amantes – Love Streams

Eu fico me sentindo um pouco suspeita para falar de um filme do John Cassavetes. Não por ser a entendedora dos filmes dele, mas sim por ter um crush gigante por ele, ou melhor: pelo casal que ele forma com a Gena Rowlands. Desde o primeiro dele que eu vi (Minnie and Moskowitz) eu me apaixonei. E olha que só agora eu vi os dois atuando juntos. Sendo irmãos. É, eles são irmãos, e tenho que dizer que foi meio decepcionante na hora. Esperava um filme onde o casal seria histérico, gritaria e se esmurraria. Imaginava ver isso entre os dois.

Casal lindo demais!

Casal lindo demais!

Li uma vez que eles falavam grego. Quando eles estavam em alguma situação da qual queriam escapar, a Gena Rowlands dizia o equivalente a “Vamos vazar” nessa língua que mais ninguém em volta conhecia. Não sei se isso é verdade, mas achei tão simbólico. Uma forma de sumir, de haver no mundo apenas os dois. Talvez eu esteja indo longe demais (será?), mas isso de certa forma também representa o meu sentimento com todos os filme que eu vi até agora do John Cassavetes. A sensação de existir um código para aquele relacionamento, e de que o filme é um testemunho daquele código.

Sobre eles serem irmãos. Só percebi isso na metade do filme, mas se eu tivesse lido a sinopse saberia desde o início. Sarah está se divorciando do marido, com quem tem uma filha. Robert é solteiro, com um filho (pelo que vemos, talvez tenha mais) e uma vida boêmia. Por mais de uma hora de filme os dois não se encontram, por isso a minha expectativa.

Como assim irmãos? E essa tal da química, minha gente?

Como assim irmãos? E essa tal da química, minha gente?

Esta primeira metade serve pra gente conhecer bem cada um. Aí, no momento em que eles finalmente se encontram, já estamos familiarizados (pelo menos um pouco) com o jeito de agir dos dois. Sempre gostei dessa “procrastinação” com os personagens. Uma forma de enrolar sem enrolar de verdade, com a qual temos tempo para conhecer os personagens. Num livro que estou lendo vi que a Charlotte Brontë fazia isso, principalmente em seus escritos da juventude – ela demorava para desenvolver a ética de seu personagem, mas se preocupava em desenvolvê-lo profundamente. Neste filme (e pra falar a verdade em tudo que vi do John Cassavetes) foi exatamente o que eu senti. Nada de moral da história, apenas as coisas como ela são. Personagens mesquinhos, egoístas, solitários, tristes. Nada de bom ou mal, certo ou errado.

Os filmes do John Cassavetes têm uma certa teatralidade, não sei como chamar. Fica a sensação de que a coisa está acontecendo na sua frente. Este de agora não teve grandes sequências autorais, mas a sensação de estar naquele lugar com os personagens continua. Uma coisa intimista.

Boliche? Eu quero sexo!

Boliche? Eu quero sexo!

O melhor momento do filme para mim acontece já pela segunda metade. Sarah vai ao boliche atrás de sexo – pelo menos é o que ela diz. O diálogo que ela trava com o atendente é fantástico. Nunca presenciei algo assim, mas senti que de certa forma aquilo era muito real. Uma pessoa perguntando o tudo bem tradicional, e a outra respondendo sobre vários detalhes da vida em vez de responder com o “tudo bem” usual. Nessa hora me senti cúmplice. Acho que veio daí o meu crush pelo casal. A sensação de cumplicidade que o John Cassavetes nos presenteia em todas as suas histórias.

Um dos melhores filmes do ano.

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