Flesh and Bone

Sempre me interessei por musicais, filmes e séries com dança. Quando eu vi a sinopse de Flesh and Bone eu sabia que ia precisar assistir. É uma minissérie com oito epísódios, criada por uma das produtoras de Breaking Bad, Moira Walley-Beckett. A trama gira em torno de Claire, uma garota do interior, que depois de passar por alguns problemas, resolve voltar ao balé. Ela consegue entrar para uma prestigiada companhia de dança em Nova Iorque, e aí a história começa. Pelo clima no trailer e pelo canal que ia exibir, o Starz, eu pude imaginar uma produção mais séria. 

Mas admito que mesmo achando que a minissérie tinha tudo para ser mais sóbria, a ideia de um enredo mais “Disney” me passou pela cabeça. Afinal, a Disney adora esse tema, parece até que eles patentearam dança e balé. Eu não podia estar mais enganada. Flesh and Bone passa muito longe de algo para toda a família.

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Preciso dizer aqui que vou soltar alguns spoilers leves, que talvez façam você se interessar e assistir, se ainda não foi o caso. No primeiro episódio, Claire consegue a vaga na companhia de balé do Paul Grayson – e talvez aqui entre o único clichê, Paul é o professor tirano. O início engana um pouco, pois Claire nos faz pensar em uma menina tímida, que não sabe viver neste mundo cruel e competitivo do balé. Parece que a história será a de uma menina com grande potencial que ainda não sabe disso, e que vai conseguir crescer depois de muitos tropeços. Mas o clichê parou ali atrás. Não tem nenhum tropeço para Claire, pelo menos não no mundo do balé. Ela já está pronta. Em nenhum momento ela vai errar um passo ou não conseguir fazer algo da coreografia. Flesh and Bone não trata disso, não fala exatamente do mundo da dança. Fala apenas de Claire. Dá pra notar isso quando ela vai fazer o teste, e não a vemos dançando: a câmera se concentra apenas no rosto de Paul, e em como ele se transforma vendo a performance da novata. É como testemunhar alguém assombrado diante da perfeição.

Além de ser excelente no que faz, Claire é uma boa pessoa. Durante os oito episódios, temos alguns exemplos disso – não são muitos, mas estão lá. O que acontece é que ela tem sérios problemas, e isso dá pra notar desde o começo. Rapidamente descobrimos o motivo e percebemos que ele tem nome: Bryan, o irmão dela. Um irmão que a princípio não sabemos se é um abusador ou se chega a viver um romance incestuoso com Claire. Essa relação no mínimo bizarra é o motivo de tanto retraimento.

Mas ao longo da minissérie, a protagonista nos confunde. Sim, Bryan é um abusador. Sim, os irmãos vivem uma relação incestuosa. Será Claire apenas uma vítima? Não sei. O que eu sei é que Claire não se sente uma pessoa sem a presença do irmão, mas ao mesmo tempo ela se odeia cada vez que está com ele. Em um dos últimos episódios, conseguimos entender um pouco o silêncio da protagonista, e também a sua solidão.

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No fim das contas, acho que fazia muito tempo que eu não via algo tão triste na televisão. Bryan é triste, Claire é triste, Paul também é muito triste, todos os personagens secundários são tristes e solitários. Parece impossível escapar desta solidão, não importa o tipo do problema. E esse tipo de exílio é representado e transparece na dança, principalmente para Claire. Sua perfeição no balé vem de todas as deficiências da sua vida. Quanto mais destruída ela fica, mais ela abraça a totalidade da dança.

Recomendo muito Flesh and Bone, mas apenas se você estiver em um bom dia. Um dos espisódios me deixou tão abatida que eu quase precisei abandonar.  No último capítulo, porém, quando finalmente vemos Claire dançando como primeira bailarina, muito desse peso vai embora e fica claro que a série vale a pena. No fim das contas, independentemente da natureza da relação dos dois, Clarie e o irmão são como carne e osso: um é a substância do outro.

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