La La Land

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La La Land é um musical que acabou de ganhar infinitos prêmios no Globo de Ouro, estrelado por dois atores que devem estar entre os maiores salários de Hollywood no momento e que, trailer atrás de trailer, deixaram o público sedento pelas músicas lindíssimas que eles cantavam e dançavam, numa bela homenagem à era de ouro dos musicais hollywoodianos dirigida e escrita por um jovem de nome badalado. Minha expectativa só poderia ser alta porque eu gosto muito de musicais. No primeiro acorde, ou melhor, no primeiro frame, eu senti que o filme seria comovente. Música, dançarinos bem ensaiados e um casal apaixonante. O que poderia dar errado?

Nada, pelo menos por um tempo. Emma Stone é uma jovem que sonha  ser atriz. Ela trabalha em uma cafeteria dentro de um estúdio de cinema em Los Angeles. Ryan Gosling é um músico que sonha ter seu próprio clube de jazz. Os dois estão longe de alcançar seus sonhos no início do filme, mas são duas pessoas românticas e apaixonadas pelo que fazem. Eles se conhecem. Em um primeiro momento parecem se odiar, mas aí a paixão vence e eles acabam se entregando. Imagine tudo isso e mais referências a clássicos do cinema, com uma excelente trilha sonora, e você vai ter imaginado La La Land com certa precisão.

A cena em que Mia (Stone) e Seb (Gosling) se apaixonam é a melhor do filme, e (agora fica claro que justamente por isso) foi muito divulgada nos trailers. Em um aceno a Cantando na Chuva, Seb gira em um poste enquanto começa a cantar que ele e Mia não têm nada em comum. Então eles sapateiam com a cidade ao fundo, um cenário ao mesmo tempo lindo e com aquela inegável cara de estúdio que aparece nos filmes das décadas de 1940 e 1950. A coreografia poderia facilmente ter saído de um musical antigo, e é espantoso ver como um grandalhão como Ryan Gosling consegue mostrar leveza, apesar da óbvia concentração, e não parecer nem um pouco estabanado durante todo o número. Foi lindo de ver e ali meu coração se encheu de amor por La La Land. Seria um dos meus filmes favoritos, estaria na lista de melhores do ano e melhores da vida. Não havia nada de corriqueiro em La La Land, apesar da história de sempre; tudo gritava que esse filme era especial e único.

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E aí a segunda metade do filme começou. Eles eram um casal, e como qualquer casal de filme grande americano, eles precisavam de algum problema para superar. Seb e Mia deixam de se entender e se separam, numa cena que parece ter sido escrita para outros personagens de tão deslocada do resto, num daqueles movimentos de roteiro que só se explicam porque… estavam no roteiro. Quando me dei conta eu estava assistindo ao terceiro ato de uma comédia romântica bem mediana.

Sem música e sem dança, e com fim do estoque de boas sacadas e inventividade, eu fui obrigada a prestar atenção em Mia e Seb. Eles são românticos e sonhadores incuráveis. Depois de muito tropeçarem por aí eles quase desistem dos seus sonhos, quase vencidos pela vida. Se você conhece bem a trama de um filme americano comercial você sabe que não é nenhum spoiler dizer que, no fim, eles conseguem vencer porque não desistem de seus sonhos. Eles persistem e conseguem tudo o que sempre sonharam. Chegam aonde queriam. Isso é contado no fim de um jeito meio infantil e preguiçoso. Foi frustrante. O diretor Damien Chazelle já tinha feito isso comigo em Whiplash. O início é impressionante, e então, como se o filme não se aguentasse até o fim, nos deparamos com personagens que são nada mais do que rasos.

No início de La La Land, a irmã de Seb diz que ele é um romântico, e que não é possível ser romântico quando se tem contas a pagar. Aquilo ficou na minha cabeça e, quanto mais o filme se aproximava do fim, mais eu percebia que o diretor queria dizer “não se deixe vencer pela vida, não seja uma pessoa sem sonhos, rancorosa e amarga,  seja um sonhador, é possível viver de arte”. Eu concordo com ele, e achei que Emma Stone quase salvou o filme quando cantou sobre isso já nos momentos finais, com um close no rosto e toda a emoção transparecendo em seus olhos. Mas Chazelle quer resolver uma oposição infantil, anacrônica e que já deu: ou você é um romântico e vive com a cabeça na lua ou você é pragmático e vive uma vida burocrática e chata. No fim das contas, a jornada de Seb não é mais do que uma tentativa de desmentir a irmã e dizer que sim, é possível ter a cabeça na lua e ainda assim pagar as contas. Nessa hora o filme me perde porque eu acho que é de todo ser humano ser tocado pela arte e pelos sonhos, e que a arte não é um meio para se chegar a um fim, ainda que ela possa pagar as contas de alguns bem aventurados pelo mundo. O que me incomoda é a necessidade de enquadrar a vocação artística de uma pessoa àquela ideia bem americana de sucesso financeiro pela força da individualidade e do talento. Qualquer um consegue citar, de cabeça, uma lista enorme de criadores geniais que morreram na pindaíba e sem reconhecimento.

Minha expectativa era alta, e por isso eu talvez tenha sido um pouco dura. Se você disser que o filme é pura poesia, nós não vamos nos entender; mas se você disser que é fofo e uma boa comédia romântica com alguns ótimos números musicais, então nós vamos nos entender muito bem. Ryan Gosling cantando City of Stars vale o ingresso.

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5 comentários sobre “La La Land

  1. Bruna de Oliveira disse:

    Eu detesto musicais. Sim, eu sei que isso é coisa de gente que está morta por dentro e eu abraço essa condição com orgulho!
    Agora, sobre La La Land, eu quero muito ver por conta dos cenários e da fotografia… Eu amei todo o esquema de cores e como elas parecem refletir exatamente a personalidade dos protagonistas e toda a “magia” do romance deles.
    Abraços, querida!

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    • talitatl disse:

      Hahahaha, “eu abraço essa condição com orgulho”. Eu discordo: acho que morreu por dentro quem vê Dança dos Famosos no Faustão (eu assistia direto!)

      Até esqueci de falar que tudo é visualmente lindo no filme. Luz, Ryan Gosling, figurino, cenário, Ryan Gosling, músicas, as letras das músicas, o Ryan Gosling.

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  2. Lai disse:

    Tive impressões parecidas com a sua. Todos os meus amigos já tinham visto o filme e me dito que era um filme ruim, então quando comecei a ver o filme qual a minha surpresa quando me encantei por ele!
    O filme foi esfriando de acordo com os sonhos dos protagonistas, e o fim me trouxe duas grandes impressões ruins: a primeira é de que o filme é uma resposta à esses filmes realistas que têm feito sucesso (um grande exemplo é o queridinho Closer); já a segunda veio de um comentário que o diretor fez sobre o filme. Ele disse que era um filme sobre se ter esperança, mas foi exatamente sem esperança que eu me senti no fim.
    Ainda assim, é um filme gostoso de assistir, uma fotografia linda, com figurinos incríveis e uma trilha sonora muito boa.

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    • talitatl disse:

      Closer, sim! Eu não tinha pensado nisso, mas agora que você falou, acho que há alguns pontos de contato entre os dois filmes. Preciso rever Closer. E isso do diretor de La La Land só me fez ter certeza de que o filme não é pra mim.

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