Loving

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Eu acho que resiliência é uma das coisas mais bonitas do mundo. Quando um filme trata disso já tem a minha atenção. Loving, do diretor Jeff Nichols, é uma história de amor em que o amor já foi resolvido desde o primeiro minuto. Mildred, uma mulher negra, e Richard, um homem branco, não colocam em dúvida o que sentem um pelo outro. Quando a história começa ela está grávida, eles fazem planos para o casamento, se casam. O que eles vão precisar aguentar é o racismo institucionalizado no estado  americano da Virginia. Eles casaram em Washington, estado vizinho, enquanto na Virginia o casamento inter-racial era proibido por violar as leis de Deus – esse tipo de coisa que dá até raiva de ler.

O filme é baseado na história real do casal que conseguiu levar seu caso à Suprema Corte, assim mudando em todo o país as leis que diziam que branco casa com branco e negro com negro. Ninguém aqui precisa da minha análise política, mas todo mundo sabe que o ano de 2016 foi bem esquisito também nos Estados Unidos. Quando Loving trata de uma história que ganhou a imprensa durante a luta por direitos civis nos anos 1960, está refletindo os anos mais recentes (e bem complicados) da luta por igualdade naquele país que é tão importante para o mundo.

Isso está dito: é um filme político e uma mensagem grande. Quando passa, quando a gente já absorveu aquelas informações e sentiu o clima da época, fica a impressão de que Loving não é muito mais do que um bom telefilme. O longa é previsível na maior parte do tempo mas, se eu não dormi nem fiquei inquieta foi porque os dois atores principais, Ruth Negga e Joel Edgerton, são muito bons.

Ele está irreconhecível (literalmente: só agora, enquanto escrevo, estou ligando o nome à pessoa) como Richard Loving. Richard mal fala, é um trabalhador pouco articulado e sem gestos expansivos, mas ainda assim Edgerton e o diretor conseguem demonstrar até o processo de pensamento do personagem. Sempre que recebe uma notícia ruim, quando o caminho à frente fica complicado, Richard ou trabalha ou rumina o que aconteceu até voltar com força renovada. Isso aparece na cara do ator, e um mérito da direção de Jeff Nichols é não ressaltar essa característica a ponto de ela se tornar um tique. Quanto ao trabalho de Ruth Negga, eu fico pensando em  coisas que poderiam ter estragado o que ela fez. Não era um papel fácil. Mildred Loving começa como uma jovem doce, com uma família muito carinhosa. Aos poucos, com o passar do tempo e o acúmulo de perrengues, seria de se esperar que a atriz optasse por uma expressão mais séria. Não é o que acontece. Mesmo infeliz, Mildred parece amorosa. A doçura não foi embora e, naquelas horas em que todo mundo arrefeceria, a cara de Ruth Negga é a de uma pessoa sonhadora. Isso empresta ao filme uma profundidade que me fez pensar em como existe gente forte pelo mundo.

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Ruth Negga e Joel Edgerton

A parte boa é que Loving conta a história de gente assim e consegue evitar certos vícios. Quando eu comecei a ver o filme fiz uma espécie de pacto comigo mesma: na primeira maldade horrível, ao primeiro sinal de violência extrema, mesmo que simbólica, eu desistiria e tentaria encontrar uma comédia. Não tenho muito estômago para aguentar esses calvários que são alguns filmes hollywoodianos, ainda mais aqueles em temporada de Oscar. Eu pensei que o longa se concentraria num núcleo bom, o daqueles que vão sofrer, e num malvado, aqueles que vão causar sofrimento. Felizmente, Loving não presta muita atenção nas mentes desses últimos. Tem um policial lá, que ganha a incumbência de falar as frases mais escrotas do filme e de fazer a gente passar raiva, mas ele é só um emblema da burocracia racista e não ganha muito tempo de tela. Claro que a violência simbólica apareceu, e logo no começo, mas aí eu já havia comprado a ideia do filme e desfeito meu pacto de segurança.

Eu achei que a sacada de concentrar a vilania no racismo institucionalizado foi o ponto mais inteligente de Loving. Seria fácil colocar a lente nas pessoas, escrever cenas de perseguição em que um vizinho branco humilha ou persegue um negro; e seria verdadeiro porque isso aconteceu muito e por muito tempo. Quando, porém, a história se concentra na tralha racista que a escravidão deixou nas leis e nas instituições dos Estados Unidos, fica mais fácil entender não só o nível de perseguição que havia na década de 1960, mas também todo o longo caminho para acabar com ela nas décadas seguintes. Para demonstrar isso, os perseguidores são quase sempre anônimos. Eles são o fantasma do racismo.

Por fim, Loving é uma história de resiliência e de amor, ou de como a resiliência transforma o amor numa força inacreditável e vice-versa.

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2 comentários sobre “Loving

  1. Bruna de Oliveira disse:

    Eu adoro seu blog! Leio sempre, mas nunca comento! Também acompanhava sua conta no issuu (que agora está com um formato horroroso), e, vendo suas resenhas de livros e filmes, quase sempre concordo com sua opinião e sempre leio os livros que vc recomenda! Quanto a Loving, eu queria assistir, mas fiquei com um pé atrás… Achei que seria o tipo de filme “sofrimento do começo ao fim”, mas confesso que agora bateu a curiosidade!
    Continue com o ótimo trabalho, querida!

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    • talitatl disse:

      Bruna, você não sabe o quanto eu fico feliz com um comentário assim! Dá até um calorzinho na alma. O que eu gostei de Loving é que tem bastante sofrimento, sim, mas o filme não quer torturar a gente, sabe? Eu estava pronta para sair destruída. Outra coisa: até hoje eu guardo mágoa por terem bloqueado a minha conta no issuu.

      Poxa, sempre que você quiser venha dar um alôzinho. Obrigada pelo carinho.

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