A Bruxa – The Witch

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Crédito da imagem: mattrobot.com

Quem não gostaria de viver deliciosamente? Thomasin tem uma vida de trabalho ininterrupto. Quando não está ocupada com as tarefas de uma colona na Nova Inglaterra do século 17, ela tenta expiar seus pecados. Puritana, a família dela não vive em situação fácil: os pais são recém chegados em terras americanas – a ponto de as crianças se lembrarem da Inglaterra -, acabaram de ser expulsos da colônia que os abrigava em uma comunidade e estão, agora, isolados do mundo à beira de uma floresta enorme e desconhecida.

Eles têm uma quantidade razoável de problemas: além de não dar trégua, o trabalho é infrutífero. Thomasin, seus pais e seus irmãos estão prestes a passar fome. A terra é ruim, a casa é frágil, os dias são cinzentos e silenciosos. Quando Thomasin, que é adolescente e já não parece ter lugar nessa família, senta para rezar ela tem em mente que o caminho do pecado leva o cristão a Satanás. E ela se sente culpada e pecadora por não gostar dessa vida de trabalho e sem gozos. A gente sabe o que acontece porque a gente viu no trailer: um irmão mais novo de Thomasin, ainda bebê, some ou quase literalmente evapora diante dos olhos dela, e sem explicação razoável. Claro, para essa família puritana, embora o pai insista sem convicção na hipótese de um lobo, um sumiço assim só pode ter sido obra do Mochila-de-Criança.

Agora, a coisa mais legal do filme inteiro, e o que pra mim foi o grande mérito do diretor Robert Eggers: não é porque você é um fanático religioso que Satanás não vai estar, realmente, atrás de você. (Cuidado, a partir daqui eu não consegui controlar os spoilers). Eggers poderia ter realizado um filme realista sobre família, educação e paranoia religiosa com um distante pano de fundo sobrenatural. Há centenas de filmes de terror que jogam com a ambiguidade: será que isso é um efeito psicológico ou é coisa do diabo? Sobrenatural ou humano? Não só estamos acostumados a isso, como público, como esse nem é um recurso ruim. Nesse gênero, tudo depende da atmosfera, das atuações e da capacidade de tirar o espectador da zona de conforto. Eggers, porém, em sua estreia na direção, resolveu pegar um caminho ligeiramente diferente, o que só fez bem ao filme: não há ambiguidade, e o suspense não é apenas um jogo de mostra-esconde.

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Quando o bebê some, ainda que a família não saiba o que aconteceu com ele, o filme nos mostra: uma carcomida mulher da floresta, nua e velha, roubou a criança e a matou para fazer um unguento. E isso acontece nas sequências iniciais. Desde aí ficamos aflitos com o que pode acontecer a essa família: eles começam uma caminhada rumo à insanidade, é verdade, ameaçados pelas próprias convicções e pelas condições em que vivem mas há, sim, uma entidade maligna espreitando seus passos.

O que mais impressiona em A Bruxa – além de ser lindo visualmente e ter excelentes atuações – é a precisão com que o filme resolve tratar de seus temas. Não tem espaço para dispersões ou construção de suspense ou personalidade que não diga respeito ao eixo principal. Nada fica fora de lugar. Se alguém me perguntasse do que trata o filme, assim na lata, precisando de uma definição de almanaque, eu diria se tratar de um conto sobre a norma e os desvios da norma. A norma, que é trabalhar e servir a uma ordem familiar que não parece trazer benefício individual, e o desvio da norma, que é viver livre, deliciosamente, sem preocupação com os efeitos disso na vida dos outros. A adolescente Thomasin não sabe que tem essa segunda opção, e nem teria se estivéssemos falando do lugar e do tempo em que ela se encontrava. Não tinha para onde fugir, estava condenada a uma vida de trabalho e submissão. Nesse sentido, o desvio da norma em A Bruxa oferece uma chance de emancipação quando Eggers resolve assumir, de vez, que o filme é uma fábula.

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É assim que surge a grande estrela dessa produção: o bode preto Black Phillip. Eu quase me distraí da história por conta da fofura desse bichinho, que na verdade está na tela para representar a tentação de tomar outro rumo, a possibilidade de um caminho diferente. Black Phillip passa o filme todo ali, animal de fazenda, perturbado pelas crianças mais novas. Mas no fim – como você já deve saber, porque eu não acho que você chegaria até aqui sem ter visto o filme – Black Phillip é o capeta em forma de bode preto. Não fica subentendido, sugerido, ambíguo: ele fala, ouvimos a voz dele e o que ele tem a oferecer a Thomasin: você gostaria de sentir o gosto da manteiga? de um bom vestido? de viver deliciosamente?

Claro, quando ele se revela mais do que um bode bravo, todos os acontecimentos do filme ganham outra dimensão: então ele ficou fazendo a cabeça das crianças, enlouquecendo aos poucos o pai e a mãe, amaldiçoando a colheita, invocando uma bruxa, ficou fazendo tudo isso para conseguir seduzir Thomasin para seu séquito ou para, como diziam no Hermes & Renato, tirá-la “do seio da família e colocar na teta da maldade”? Sim, foi isso. A Bruxa não deixa de ser um conto sobre uma jovem e o que ela teve que enfrentar para fazer prevalecerem suas vontades. Ninguém vende a alma a contragosto. Claro, acho que nenhuma de nós quer sangue de criancinha para fazer unguento, mas que a voz do bode era sedutora é inegável.

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