A Aventura

a aventura antonioni

Não é todo dia que eu me entusiasmo para assistir a um filme P&B com mais de duas horas. Quando eu acabo gostando muito, como aconteceu com A Aventura, dá aquela sensação de que eu deveria parar todo o resto e só ver coisas assim tão boas. Depois, claro – geralmente quando tem episódio novo de uma série que eu acompanho -, eu esqueço e volto para a minha zona de conforto – um lugar do qual eu não tenho a menor vergonha, que fique registrado!

Essa empolgação, porém, não esgota o sentimento que eu tive depois de terminar A Aventura: deve ter sido um dos filmes visualmente mais bonitos que eu já vi, e para falar a verdade não me lembro de um que o supere. Todo quadro é bonito, e ao mesmo tempo o filme nunca parece inebriado da própria beleza. Acho que isso acontece porque o Michelangelo Antonioni se esforça para encontrar umas cenas que, tenho certeza, não ocorreriam a todo cineasta. Tem também uma despretensão nos diálogos que parece sugerir duas coisas paradoxais: que aquilo ali é um filme e nada mais, e que aquilo ali é a vida, ou seja: não entrega grandes explicações e quase nunca se desenrola de uma forma mirabolante.

Agora, muito cuidado. Nisso de dizer que “não entrega grandes explicações” tem um perigo. Você também já deve ter visto pela internet: dizer que alguma coisa é ambígua, complexa ou plural é uma das maneiras mais fáceis de sair pela tangente sem revelar que não entendeu absolutamente nada. Em A Aventura uma mulher some durante uma viagem. Por vontade própria ou por um acidente, não se sabe. O filme faz parte da chamada Trilogia da Incomunicabilidade, e esse seria um ângulo para prestar atenção nele: é verdade, ali as pessoas não conseguem chegar umas às outras, falta sempre um pouquinho de comunicação, o contato é esquisito e imprevisível. Isso, porém, não aparece em A Aventura de forma ambígua, e nem me pareceu profundamente elaborado. Depois que a mulher some, uma amiga e o namorado dela começam um affair. Parece que ele está procurando em todas as mulheres não só a desaparecida, mas também aquela, digamos, ideal: que vá preencher certo vazio, ou com quem ele vá conseguir uma relação total, completa, sem falhas.

Claro que isso é impossível. Não tem aqui um “felizes para sempre”. Tem uma sugestão, que eu já vi aliás em muitos filmes e livros, de que aquele homem vai ser para sempre um meninão, incompleto, e que aquela mulher, apesar de também incompleta, é um ser mais consciente, inteligente, preparado, acolhedor. Disso eu não gostei justo por não ser novidade e por esbarrar no clichê. Achei, apesar dessa coisinha, que os personagens eram bastante elaborados, muito longe de qualquer esquema ou arquétipo simples. Mas juro que a trama não foi o que mais captou a minha atenção.

antonioni a aventura

Sabe quando você está, digamos, num passeio por uma cidade que não conhece, na companhia de alguém que é dali, e essa pessoa quer que você preste atenção num monumento grande ou numa paisagem maravilhosa, mas você, por algum motivo, começa a se ocupar mais do cachorrinho que é fofinho e está sendo guiado na coleira por uma velha de quase 100 anos? Sabe ou esse exemplo é muito específico?

Foi mais ou menos isso que me aconteceu com A Aventura: o filme queria me levar a observar as questões que eram importantes para ele, mas eu me concentrava em um milhão de pequenas coisinhas, tipo: como é lindo o mar naquela região; como é que ele conseguiu tanta naturalidade ao filmar o elenco inteiro dentro de um barco?; como pode um cachorro tão magro ser tão fofinho?; as mulheres italianas devem ser as mais bonitas do mundo (certeza que eu passei uns 45 minutos pensando nisso); o ator principal apesar de feio é muito charmoso, diferente dos atores americanos da mesma época que eram feios e não tinham charme; essa cidadezinha poderia ser Antonina; para alguém que fala português deve ser muito fácil aprender italiano.

Some-se a isso o desempenho fora do comum de Monica Vitti e será possível dizer que as mais de duas horas foram muito bem gastas. Foi num fim de tarde de sábado e começou a chover bem fininho. Achei que era importante dizer.

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