Pamela ou A Virtude Recompensada

 

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O Kin ainda não começou a leitura, mas eu já recomendei

A editora Pedrazul fez financiamento coletivo para lançar Pamela ou A Virtude Recompensada, de Samuel Richardson, com tradução de Rafael Tages. Eu colaborei assim que fiquei sabendo. É um romance epistolar de 1740, e é na verdade um pioneiro entre os romances. Isso seria o suficiente para chamar a atenção de muita gente, mas Pamela despertou minha atenção por Richardson ser, como diz a quarta capa, “um dos autores prediletos de Jane Austen”.

O livro conta a história de Pamela Andrews, que aos 15 anos, pobre, vira serva na casa de uma senhora rica e acaba sob a tutela do filho dela, um aristocrata que vai fazer de tudo para tê-la como amante. Mas o subtítulo não deixa dúvidas: a mocinha fará com que sua virtude prevaleça e vai lutar para que sua honra permaneça intacta. Eu estaria mentindo se dissesse que em algum momento consegui me importar com o destino da protagonista, mas isso não significa que não aproveitei a leitura.

Em sua época, Pamela foi um sucesso gigantesco, claramente influenciando autoras como Jane Austen, que eu já citei, e as irmãs Bronte. Mr. B, o homem que quer vencer a “virtude” de Pam (vou me permitir essa intimidade – é difícil não repetir esse nome 300x), é um protótipo do homem de personalidade difícil que aparece tanto em Austen como nas Bronte. É como se Mr. B. tivesse sido lapidado até virar Mr. Darcy, Heathcliff ou Mr. Rochester. Surge assim uma longa linhagem de homens acostumados a conseguir o que querem. Desse ponto de vista, foi muito divertido ver o escracho total em que nasceu esse modelo de homem: Mr. B é um tarado, é um fanfarrão escrachado, e às vezes quase um personagem que poderia ter saído do Monty Python.

Ri muito na cena em que ele se veste de mulher e finge dormir na cadeira do quarto de Pamela só para poder entrar na cama com ela – tenho certeza que esse lado meio comédia de costumes não passou despercebido nem a Samuel Richardson, nem ao público da época que, pelo menos é o que diz a Wikipedia, chegava a se reunir em pequenos grupos para ler Pamela em voz alta. Acho que o sucesso de Pamela em seu tempo era justamente por conseguir unir a diversão do folhetinesco, que era considerada reles, aos ensinamentos de honra e moral que tanto ordenam as atitudes e os modos da protagonista, considerados desejáveis. O que mais pode nos incomodar hoje em dia – essa moralidade difícil de engolir – parece ser exatamente o que fazia de Pamela um livro possível de ser lido por toda a família inglesa do século XVIII e do seguinte. Sem essa doutrina a orientar o livro, sobrariam apenas a aventura e o escracho do romance, o que, imagino, não seria muito bom nem edificante para as mocinhas da época.

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Não tem como repetir, agora, o impacto que Pamela tinha antes, mas ao mesmo tempo a gente não ganha nada se passar a leitura inteira apenas achando aqueles modos absurdos. Em um certo momento do livro, a irmã de Mr. B o confronta quando descobre que ele e sua serva estão casados – pois é, o casório é a recompensa pela virtude –  e pergunta o que ele faria se soubesse que ela, a irmã, se casou com um serviçal. Ele diz que são coisas diferentes,  e que uma mulher nobre que se casa com um servente está diminuindo o seu nível, enquanto uma mulher pobre que se casa com um aristocrata está se elevando. Quando, por exemplo, eu me lembro do contexto de Orgulho e Preconceito, publicado 73 anos depois de Pamela, penso que Mr.B ali, retrucando a irmã, não estava apenas sendo escroto, estava atestando um fato social – é só pensar que as irmãs Bennet, de Orgulho e Preconceito, precisavam casar porque, como mulheres, não tinham direito à herança do próprio pai, que ficaria para um primo distante. Quer dizer: a mulher foi, por muito tempo, social e politicamente inferior ao homem.

Claro, às vezes eu dei risada de nervoso ao lembrar de quão pior e mais machista o mundo já foi (e aí vem certa dose de pessimismo ao lembrar de quão ruim e machista ele ainda é), mas acho que Pamela acaba sendo uma interessante viagem ao passado, principalmente para quem já tem alguma familiaridade com aquelas autoras inglesas que eu citei. Esse livro foi um dos pontapés iniciais do gênero romance, que tanto nos agrada hoje em dia, e é interessante ver que ele passou por um longo caminho para chegar até aqui – tanto nas histórias quanto nos personagens, que, ainda bem, não precisam ser necessariamente exemplos de conduta.

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