Making a Murderer

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Uma evidência de DNA tira da cadeia um homem injustamente condenado por estupro. Steven Avery cumpriu 18 anos de pena por um crime que não cometeu. Essa história, sozinha, já é capaz de colocar muita gente em frente à televisão. Só que Making a Murderer, que chegou à Netflix recentemente, é uma série documental tão cheia de reviravoltas, e trata de um caso tão intrincado e complexo, que defini-la acaba se tornando uma tarefa muito complicada. Pior que isso: se é difícil dizer do que a série trata em 140 caracteres, ter uma opinião sólida a respeito do caso, depois dos 10 capítulos cada um com quase uma hora, é quase impossível.

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Steven jovem na sua primeira condenação

Vale a pena dizer, logo no começo, que se você deixar de ver Making a Murderer vai perder uma das coisas mais interessantes que a Netflix já fez em seu esforço para dominar o mercado de streaming e tirar, de vez, a televisão do aparelho de televisão. A Netflix tinha produzido documentários sobre temas tão distintos como o mercado americano de pornografia e a vida da cantora Nina Simone, mas, pelo menos entre as coisas que eu pude acompanhar, ainda não tinha feito nada tão absolutamente televisivo. Deixa eu me explicar: Making a Murderer tem aquela cara de produção de TV a cabo, dessas que você esbarra na tarde de um feriado e que te fazem ficar pensando: “meu deus, americano é tudo maluco, olha o tipo desse crime”.

Você pode ter certeza de que alguma coisa perto dessa última afirmação vai passar pela sua cabeça. A série começa com Steven Avery saindo da prisão em 2003. Exames possibilitados por novas tecnologias conseguem colocar outro homem na cena do crime: o espancamento e  estupro de uma mulher, Penny Beerntsen, em 1985. Fica comprovado que Steven não foi o responsável no caso de Penny, e ele sai da prisão abraçado por parentes e amigos, e com a benção da opinião pública. Mas o departamento de polícia da cidadezinha em que a família de Steven morou a vida inteira não tem nada a comemorar. Seja por negligência, incompetência ou mesmo má fé, os policiais passaram longe dos procedimentos e métodos recomendáveis para lidar com o caso em questão. Assim, logo após deixar a prisão, o antigo réu processa o estado.

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Esse é o ponto de partida e o lugar aonde você chega na primeira meia hora de Making a Murderder. Ou melhor dizendo: até aí, não tem spoiler nenhum – se é que é possível ter spoiler numa história real, mesmo que seja uma desconhecida por quem está assistindo. O que acontece depois de assentadas as informações básicas é que é de deixar todo mundo boquiaberto. Bom, deixa eu falar por mim: eu fiquei boquiaberta, não conhecia nada do caso. Fiquei num grau de perplexidade absurdo quando descobri o que você, a essas alturas, tendo vindo até aqui, já deve saber. Acontece um assassinato. Ossos de uma jovem desaparecida são encontrados no terreno de Steven – um ferro velho enorme, que está na família dele há gerações. Pior: aparentemente, Steven foi o último a ver a moça com vida. A partir daí, a opinião pública se volta contra ele. É nessa parte que Making a Murderer encontra sua questão mais forte: Steven Avery é um abusador e assassino frio, ou todo o departamento de polícia participa de um complô para condená-lo e não arcar com as responsabilidades pelos erros do passado?

A opinião das realizadoras (sim, são duas mulheres \o/) nos leva claramente para a segunda opção. Nessa hora é necessário entender a natureza desta produção. Estamos falando de uma série documental que tem uma causa: ver um caso real sob uma outra perspectiva. Quem já assistiu aos documentários sobre os crimes em West Memphis, ou quem já viu Na Captura dos Friedman, está acostumado com esse tipo de abordagem: as informações levantadas têm sempre a intenção de contestar as versões oficiais, e isso, do ponto de vista do espectador, deixa aquela sensação de que não estão te contando a história inteira.

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Steven atualmente

Em Making a Murderer essas lacunas incomodam. São muitas perguntas sem resposta, muitos desvios de atenção, muitas perguntas que a produção se recusa a fazer. Assim, pelo menos no meu caso, foi necessário pensar nos objetivos das realizadoras para não me irritar completamente e desconsiderar a série. Elas pretendem fazer um contraponto à opinião generalizada de quem já conhecia o caso, e com isso querem tirar Steven da prisão – pois é, ele está preso até hoje, foi julgado e condenado após apenas dois anos em liberdade. Por causa desse objetivo, coisas que eu queria ver (e provavelmente não vou estar sozinha) não estão lá. Um exemplo: a personalidade do réu. Ele é um sujeito complexo, com histórico de violência, detestado por alguns familiares, tem QI abaixo do normal, não usa cuecas (ficamos sabendo disso no momento mais engraçado da série inteira) e isso é basicamente tudo o que sabemos sobre ele. Uma cidade inteira o odeia e já parecia odiá-lo muito antes dos crimes. Por quê?Ficamos sabendo por alto, em informações mais ou menos genéricas.

Para encurtar um texto que vai ficando maior do que eu esperava: Making a Murderer vai tomar as suas horas livres, vai ser difícil não maratoná-la. Trata de um desses casos estrangeiros que fazem o mundo inteiro ficar parecido com o Brasil. Lá também tem corrupção e má conduta policial, pobreza, tristeza e falta de perspectiva. E, assim como no Brasil, também há personagens interessantíssimos. Os que vemos nessa série documental muitas vezes parecem saídos diretamente de um filme americano do tipo “crime e tribunal”. Tem a vítima jovem, bonita, com uma vida inteira interrompida; tem o réu ambíguo e misterioso; os advogados idealistas; os repórteres desumanos e ambiciosos; os parentes que fazem sacrifícios e parecem ter uma fé inabalável. Tudo isso está lá e, assustadoramente, com parcialidade ou não, é tudo verdade.

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