Aprender a Viver

Antes de falar sobre o livro, preciso dizer como cheguei até ele. Há um mês, mais ou menos, uma amiga me contou sobre um clube de leitura parecido com o Círculo do livro. Uma vez por mês você recebe um livro, com alguns mimos. O livro é indicado por alguém de renome. Pode ser um escritor, um pensador, ou uma personalidade de qualquer área. Achei isso a minha cara, me informei, paguei, me inscrevi e recebi o pacote. Vale dizer que eu não tô fazendo propaganda, só estou muito empolgada. Pra quem tiver interesse o nome é TAG Literária.

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Parece propaganda, mas não é. De verdade.

Eu não tinha ideia de qual livro seria. Esse é um aspecto legal. Todo mês uma surpresa. Abri a caixinha – linda, por sinal – e lá estava: Aprender a viver, de Luc Ferry. Fiquei meio assim. Nas minhas leituras dos últimos dois anos eu tenho saído muito pouco da minha zona de conforto, e filosofia, definitivamente, não está dentro dela. Nem saí das introduções ao tema. Eu li O mundo de Sofia, por exemplo, há muito, mas muito tempo. E tenho uma pequena noção de Nietzsche, Descartes, Kant e Rousseau. Noção do tipo: “ouvi falar” ou “tenho uma vaga ideia dos conceitos de que esse cara trata”. Lendo a contracapa percebi que esse livro era para alguém que, assim como eu, não sabe nada de filosofia.

O que eu mais gostei foi esse caráter de aula informal. Imagino que quem entenda de filosofia, estudante ou não, vai achar tudo fácil e talvez rasteiro. Claramente as informações que estão ali são básicas, o livro é como uma passeio pela história da filosofia, pegando os pontos mais marcantes. Mas o caráter didático que eu citei não atrapalha na leitura, pois é um didatismo bem simpático. Aprender a viver é quase como uma conversa – aqui está mais para monólogo mesmo – com alguém que sabe muito de uma coisa da qual você não sabe nada, conversa em que você sente a cada momento a paixão do seu interlocutor pelo tema. 

O legal foi que senti que aprendi algumas coisas que eu não tinha a menor ideia do que fossem, principalmente no início com os Antigos, os gregos que eram chamados de estoicos; para eles  a moral se baseava numa natureza perfeita, entendida como o cosmos; depois a chegada do cristianismo fez a moral mudar com a ideia da salvação através da obediência dos mandamentos divinos, com Deus.

Quando a gente aprende algo, a vontade de compartilhar é grande, mas acho que não preciso me alongar nos tópicos apresentados pelo Luc Ferry, pois diferente de um livro de ficção em que eu conto a sinopse e o que eu achei dos personagens, aqui vale mais o que cada um consegue tirar sozinho do aprendizado. Isso foi o mais prazeroso: refletir sobre coisas que eu tinha pensado e estavam esquecidas, e pensar em outras condições, que nunca tinha pensado. E como o Luc Ferry mesmo diz, quase todo ser humano é capaz da reflexão crítica, sem nem por isso ser filósofo.

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Toda a leitura me fez lembrar de um outro pensador, mais conhecido por sua contribuição como cientista e astrônomo. Assim como o Carl Sagan, Luc Ferry é um humanista secular. Carl Sagan foi um homem muito apaixonado pelo seu trabalho, e combateu toda uma fé cega na religião apenas com sua paixão pela ciência e pelo rigor das evidências. O trabalho de Sagan é muito lindo. Senti isso também no Luc Ferry. É uma empolgação contagiante. 

O mais importante é ler o livro sem preconceitos. É claro que não vamos concordar com todos os filósofos. Cada um viveu numa época, cada um com ideias bem contrárias ao outro. Mas acho que dá pra tirar um pouquinho de todos. Eu fiquei empolgada com a defesa da ideia de pensar no presente, não se prendendo ao passado e futuro, coisa que a gente sempre ouve falar, por exemplo, na publicidade, mas que é um conceito profundo para mais de um filósofo. 

Essa ideia de viver o presente me fez pensar em uma coisa de hoje em dia, que eu vejo muito em filmes americanos. O que eu entendi do conceito aqui dos estoicos, e mais tarde até mesmo de Nietzsche, é que precisamos nos libertar dessa má compreensão do tempo. Nos livrar de um remorso de algo feito no passado, algo que deveria ter sido feito de outra forma,  de um apego cego ao passado, e da preocupação irracional com o futuro. Esse é um conselho que deveria modificar completamente o aparato emocional dos filmes americanos atuais. A tal crise dos 20 e poucos, dos 30 e poucos, ou de qualquer idade, chega a dar nos nervos. Agora toda hora vejo pessoas jovens em séries e filmes reclamando que não fizeram nada, que não são nada porque não formaram família, não se realizaram em uma carreira, etc, etc, etc, numa lamentação triste e que não chega a lugar nenhum. Enquanto isso,  o presente está ali na nossa cara. 

Um outro pensamento importante: a noção de pensamento alargado, que o Luc Ferry defende apaixonadamente durante todo o livro. A ideia de alargar os horizontes. Por que não?

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