Ghost Rider: a Estrada da Cura

Recomendo ler este texto ouvindo Bravado do Rush. Confie em mim, você vai gostar. Ghost Rider – a estrada da cura, publicado aqui no Brasil pela editora BelasLetras, é um livro inesquecível. Principalmente se você é fã do Rush. Se você não é, aqui vai uma pequena explicação. Rush é uma banda de rock progressivo, formada pelos mesmos três integrantes desde a metade dos anos 1970: Geddy Lee (baixista, cantor e muitas outras coisas), Alex Lifeson (guitarrista e algumas outras coisas) e Neil Peart (baterista, letrista e escritor nas horas vagas). Eu só fui conhecer Rush depois de velha, através do Mozão, mas vi que eles tem muitos fãs super fiéis.

O livro perdido em alguns discos do Rush

O livro perdido em alguns discos do Rush

Acho que antes de falar do livro, preciso dizer qual era minha relação de verdade com a banda. Mesmo conhecendo há pouco tempo, ouvi muita música do Rush. Mozão é viciado, e consequentemente tive que consumir Rush. Eu gostava, as letras são legais, a voz do Geddy Lee é contagiante e eles são muito carismáticos. Mas era isso. Não era fã, não sentia nenhuma conexão de verdade com as letras. Até ler Ghost Rider.

Se você nunca ouviu falar de Rush, acho que a chance de esbarrar no livro é muito pequena. Os mais interessados, claro, são os fãs. Mas olha a sinopse: um homem perde a única filha, de dezenove anos, em um acidente de carro. Quase imediatamente,  ele também perde a mulher para um câncer. Então, como quem foge de casa, ele decide fazer uma viagem solitária pela América do Norte. De moto. Seria um romance interessante, mas é uma história real. Neil Peart passou por isso. Ghost Rider é formado por trechos do diário de viagem de Peart, e por cartas escritas por ele a amigos e familiares durante o período.

Por tudo isso, há dois tipos de pessoas que encontram esse livro: o tipo do qual eu já falei, os fãs, que leriam até a lista de supermercado de Peart, e um outro tipo de leitor, interessado nos temas principais do livro: luto, fé (ou ausência dela) e a necessidade de seguir em frente.

Minha sorte foi conhecer Rush, pois o livro é maravilhoso. E é só conhecer um pouquinho o Neil Peart pra saber que ele não é um cara religioso. Dá pra notar isso nas letras – sempre escritas por ele – e, por isso, o livro fica especialmente interessante para quem conhece a maneira de pensar do autor.

Neil Peart dando um rolêzinho

Neil Peart dando um rolêzinho

A pergunta principal do livro, porém, é por que um homem que perdeu a única filha e a mulher deveria continuar vivendo? Acho que o Neil Peart deve ter pensado um bocado nisso. No livro, nos deparamos em vários momentos com essa dúvida, mas nunca de forma explícita. Não tem o Neil Peart esperneando sobre a miséria que a vida dele virou – são sempre ruminações sobre como continuar, feitas por um homem muito triste, tentando recomeçar.

Talvez essa minha descrição traga a impressão errada: Ghost Rider também é engraçado. Em alguns momentos, na minha leitura, até esqueci o luto do Neil Peart. Me senti  participando da road trip com ele. Mérito dele como escritor. Foi real o sentimento de me sentir conhecendo as cidades do Canadá, Estados Unidos e México. Os restaurantes de beira de estrada e hotéis, a natureza sempre tão presente. Tudo acabou sendo bem real. Foi ali que eu senti a tal da conexão que eu não sentia com as músicas do Rush.

Foi lendo o livro que eu conheci uma das melhores músicas que já ouvi na vida. Eu já conhecia Bravado, do Rush, mas nunca tinha dado a devida importância. Enquanto lia o livro, a ouvi algumas boas vezes. E preciso dizer: Que música! A letra era tudo o que eu queria ouvir numa e nunca tinha ouvido. Lendo o livro e conhecendo o Neil Peart, ela fez muito mais sentido para mim. Bravado é muito otimista, mas ao mesmo tempo muito triste. Parece tanto com o Neil Peart do livro. 

Adivinha com qual música ele finaliza o livro

Adivinha com qual música ele finaliza o livro

São 511 páginas de solidão. Até nos momentos em que ele está com amigos ou familiares ele está sozinho. O mais próximo de ele não estar sozinho foram os momentos das cartas dele para Brutus. Brutus é o amigo de longa data do Neil Peart, o companheiro de outras viagens de moto. Ele até foi convidado para participar desta viagem – para ver como Brutus é importante, hein! – mas foi preso bem na época, por isso então as cartas. Todo o tempo da viagem, mais alguns aninhos, Brutus passou na cadeia. Mas posso adiantar que Brutus foi solto e eles já fizeram boas viagens depois disso. Incluindo uma pequena road trip aqui no Brasil, da época que o Rush fez shows no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Ghost Rider é mais do que uma história de perda, pois trata de conseguir juntar os cacos e continuar. Principalmente continuar. Parafrasenado Neil Peart em Bravado: If we keep our pride/Though paradise is lost/We will pay the price/But we will not count the cost.

Posso dizer sem medo: me apaixonei pelo Neil Peart.

 

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2 comentários sobre “Ghost Rider: a Estrada da Cura

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