Shirley

img_20170204_154234

Shirley, para mim, simboliza da melhor forma possível o gênero romance. A história é um retrato da época e da classe social de Charlotte Brontë, e mesmo sendo a mais realista possível, também é uma invenção. Quase um século depois da publicação de Pamela, de Samuel Richardson, Shirley expressa um conceito de amor e moral mais  alinhavado aos dias de hoje (e ainda assim discrepante, lógico) . Acho que isso por si só já é um ótimo motivo para ler o livro, porque se você não se importa com as idiossincrasias morais das pessoas do século XVIII e XIX, pelo menos a história de amor e o panorama político podem ser bem interessantes.

Shirley Keeldar e Caroline Helstone são as protagonistas desse romance edificante. Caroline é uma jovem órfã que vive com o tio no presbitério. Apaixonada por seu primo Robert Moore, ela vê seus dias passarem enquanto espera ter o amor correspondido. Quando Shirley, que é uma rica herdeira, chega à cidade as duas logo viram amigas. Uma é o oposto da outra, mas mesmo assim elas se afeiçoam rapidamente. Numa espécie de falso triângulo amoroso, Caroline gosta de Robert, Robert pode gostar tanto de Caroline quanto de Shirley e Shirley parece gostar de Robert. A dúvida dura um bom tempo, mas no fim, lógico, tudo se resolve e todos ficam felizes.

Caroline é a mocinha clássica da época: discreta, pura, sensível, impressionável e bondosa. Shirley é o oposto em muitos aspectos: destemida, temperamental e forte, mas tão bondosa quanto a amiga. Ninguém está ali para ser desprezível, elas são as mocinhas, e nesse aspecto há até uma posição bem feminista: são duas  personagens no século XIX, que não estão em confronto, e que conseguem ser o oposto em quase tudo enquanto se mostram pessoas de valor e companheiras uma da outra. Deixa eu me explicar: numa época em que qualidades desejáveis para uma mulher eram os traços atribuídos a  Caroline, colocar uma segunda protagonista no rolo, não para rivalizar, mas para demonstrar que o oposto também pode ser considerado desejável é desafiador ao leitor. Por isso, mesmo que Shirley apareça quase na metade da história, eu entendo por que o livro carrega seu nome.

E como acontece até hoje nos romances contemporâneos, as duas protagonistas estão rodeadas de outros tantos personagens, que dão início a várias discussões. Robert Moore é dono de uma fábrica de tecidos que precisa despedir seus funcionários para substituí-los por máquinas. A história se passa no começo do século XIX, época em que as guerras napoleônicas acabavam e a revolução industrial estava em curso. O momento não poderia ser pior para a população britânica. Fome e desemprego eram constantes e Charlotte Brontë fez questão de descrever tudo isso através de uma disputa de ex-funcionários e donos de fábricas, com o clima tenso entre todos.

Shirley é um romance significativo. Admito que em muitos momentos a personagem da Caroline Helstone me desafiou a continuar a leitura. É que ela é mais do que magnânima: é quase a idealização do sacro. Isso pode ser sim muito irritante, mas o valor histórico dos detalhes que o livro traz (vistos com uma diferença de décadas porque afinal de contas o romance é de 1849) se sobrepõe a um princípio de chatice que permeia certas passagens. Eu coloquei na cabeça que estava lendo um livro escrito na era Vitoriana, do gênero mais popular de então, contando uma história que à época era recente, e com isso eu alimentei a ilusão de que havia captado melhor o sentimento daqueles tempos. Acho que essa é uma das funções da leitura, acho que é por isso que até hoje as pessoas leem clássicos.

Anúncios

Juvenília – Jane Austen e Charlotte Brontë

Juvenília da Penguin

Juvenília da Penguin

Antes de falar da Jane Austen ou da Charlotte Brontë, preciso dizer que este livro é lindo. Eu até gosto de livros sem orelha, não dá pra negar que têm um certo charme. Mas, esquecendo o fato de que o volume é bonito, achei que a edição deixou a desejar. Eu li, e vi que a organizadora não é brasileira, a Penguin apenas traduziu. Parece que primeiramente esta Juvenília foi publicada na década de 80. Trata-se de uma coleção de textos iniciais das duas autoras, cada uma em seu espaço, reunidos num só volume. Tudo bem, eu sei que antes era mais complicado, mas poxa organizadora, você precisa mexer tanto assim no trabalho das duas meninas (elas eram meninas na época, não podemos esquecer)?. Frances Beer – a organizadora – diz: “Mudei pouca coisa nos textos de Austen; já nos de Brontë, às vezes me senti obrigada a tomar medidas que são sem dúvida extremas”. Isso já me deixou encucada, afinal, mexer em uns travessões e colchetes por mais invasivo que seja, não pode ser chamado de “medidas extremas”. Então leio isso: “a retirada (…) de exemplos ocasionais de verbosidade que distraem e cuja única função parece ser impedir o progresso da história”.

A organizadora mastigando tudo para a gente

A organizadora mastigando tudo para a gente

Aí chega. Para mim, a única pessoa impedindo o progresso da história é você, dona organizadora.

Isso me deixou tão chateada que meio que brochou a leitura para mim. Principalmente na parte da Charlotte Brontë. Seria melhor ser ignorante sobre isso, antes ela não tivesse contado nada. Mas passado o trauma, tenho que dizer que isso não diminuiu a importância do texto das autoras, que eram apenas meninas quando escreveram tudo o que há nessa Juvenília.

Impossível não amar

Brontë: impossível não amar

Todo o texto da Jane Austen é marcado por um ar infantil, claro, mas também pelo tom sarcástico tão característico dela. Dá para notar a piada chegando com sutileza. Em alguns textos eu ri e muito. Um deles é sobre uma garota que é tão bondosa que acaba prometendo a sua mão para dois jovens. Abalada com tamanha irresponsabilidade ela acaba se matando. Parece trágico, mas o jeito com que tudo é contado acaba sendo cômico. O universo é o mesmo de todos os romances de Austen: a sociedade de sua época com todos os casórios e intrigas. Eu me diverti muito com a maior parte dos textos, e nos outros em que o humor não estava tão presente, a curiosidade era grande, já que tudo era curto. Eu adoraria ler os eventuais romances que poderiam ter saído daqueles contos, até mesmo os mais bobinhos e infantis. Sempre me pego imaginando os romances que a Jane Austen poderia ter escrito se tivesse vivido mais. Bom, mas isso é assunto para um outro texto.

O reino de Angria, o lugar onde se passa toda a parte da Charlotte Brontë, é lindo. Por vários momentos me senti mais próxima dela, quase como se conseguisse entender o sentimento dela ali com aquele texto. Desde pequena os seus personagens são pessoas “desvirtuosas”. Aliás, não senti que era uma menina escrevendo, de tão intrincada que a história era. E os poemas são inesquecíveis. Fiquei muito feliz de ter acesso a tudo isso. Teria sido melhor, claro, se a cada capítulo a voz da organizadora não aparecesse na minha cabeça, me explicando o rumo da história de Arian. É como se me podasse, achando que não tenho capacidade de entender uma das minhas escritoras preferidas. Talvez eu não entendesse, talvez o texto dela seja difícil e complicado de entender, mas gostaria que me dessem esta escolha, pra eu descobrir se consigo dar conta dos primeiros textos da Charlotte Brontë. Mesmo assim prefiro acreditar que minha ligação com estas duas autoras vai além disso, que a organizadora não pode ficar no nosso caminho.