Vida e Destino

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Viktor Chtrum é um cientista judeu que vive na União Soviética. Ele segue trabalhando em plena Segunda Guerra Mundial. Com ele moram a esposa, a filha e a sogra. A vida não está fácil, mas há muitos soviéticos em situação pior. A mãe dele, por exemplo, que nunca se entendeu com a nora e mora em outra cidade, vive na pele a pior época para ser uma senhora judia na Europa. Em outro lugar, no mesmo período, alguns prisioneiros de guerra vivem uma vida tão difícil quanto a dos prisioneiros dos campos de concentração. Há também os presos longe da guerra, aqueles que cometeram crimes políticos ou comuns; para eles a situação também é ruim. Enquanto tudo isso acontece, mais judeus estão dentro de vagões de trem em direção ao extermínio. O clima é de sujeira, fome, frio, aperto e profunda desesperança.

Vida e Destino, de Vassili Grossman, fala sobre essas e outras pessoas, mas trata principalmente de uma era negra na União Soviética. Na altura da Segunda Guerra os líderes soviéticos travavam duas batalhas: uma com os alemães, que eram o inimigo externo, e outra com seu próprio povo. O Estado totalitário fazia com que todos desconfiassem uns dos outros; em busca da própria salvação, não era raro que um camarada denunciasse o outro como traidor da revolução. A suspeita pairava acima da cabeça de todos e frases bobas ou piadas infames acabavam em penas longas e reputações arruinadas. Mas Vida e Destino é mais que um compilado minucioso da vida sob o totalitarismo. O livro consegue analisar profundamente o mal através de vários pontos; o extermínio sem sentido, a paranoia mesmo entre amigos de longa data, a fome e a miséria: tudo é parte de um quadro em que o que se analisa é a humanidade e o que significa estar vivo e fazer o bem.

São 900 páginas de muito sofrimento e de passagens que me deixavam ora com desgosto, ora com desânimo. Eu podia sentir aquela maldade entranhada nas picuinhas políticas, mas inerente às pessoas. Admito que chorei em mais de um momento muito difícil, e acho que é impossível não sair cambaleando da leitura de Vida e Destino. São muitos os livros sobre as brutalidades e a barbárie das guerras, mas eu ainda não havia experimentado esse sentimento de perplexidade diante da tragédia que encontrei no livro de Vassili Grossman.

Vai ver o impacto acontece porque o autor viveu aquilo de perto, como correspondente de guerra. Mas o realismo das descrições da vida em um lugar, em uma determinada época, não foi o que mais me comoveu. O que me deixou espantada foram as intervenções de Grossman, a maneira como seu narrador se debruça sobre os acontecimentos para refletir sobre eles. Meu exemplar está todo rabiscado e minha vontade era transcrever aqui tudo o que me emocionou, como se com isso fosse possível convencer alguém a tirar o livro de uma prateleira e começar a leitura na mesma hora.

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Qualquer livro sobre guerra não seria a minha primeira escolha de leitura. A quantidade de nomes de lugares e personagens deu um nó na minha cabeça. Eu comecei sem ter certeza de que iria até o final, mas aí bati o olho nesse parágrafo:

Os olhos dela, que tinham lido Homero, o jornal Izvéstia, Huckleberry Finn, Mayne Reid, a Lógica de Hegel, que haviam visto gente boa e gente má, os gansos nos prados verdes de Kursk, as estrelas no telescópio de Púlkovo, o brilho do aço cirúrgico, a Gioconda no Louvre, os tomates e nabos nas gôndolas dos mercados, o azul do lago Issik-Kul, agora não lhe eram mais necessários. Se alguém a cegasse naquele instante ela não sentiria a perda.

Foi ali que eu percebi que às vezes o que a gente tem que fazer é abrir o livro que não parece ter muito a ver com o que a gente quer de uma leitura. Eu não conhecia Vassili Grossman. Meu marido comprou o livro em 2015 e, assim que o terminou, começou uma campanha para eu lê-lo logo. Só agora em 2017, acompanhando o canal Lido Lendo, foi que eu soube que Vida e Destino havia sido escolhido para uma leitura compartilhada durante o mês de julho. Achei que era a hora de dar uma chance. Segui o cronograma estabelecido e adorei avançar no livro enquanto acompanhava a opinião dos outros.

Às vezes quando eu leio um livro de gênero eu penso naquela velha história de que sempre precisamos de uma dose de pré-disposição para encarar qualquer ficção. Afinal, é preciso boa vontade para comprar uma história e ler a respeito de monstros, vampiros, zumbis, magnatas de 25 anos solteiros e amorosos, fantasmas e toda a coleção de coisas que não aconteceram e nunca vão acontecer. Não importa o gênero. Se há muita invencionice, é preciso que a gente esteja disposta a encarar a leitura e fazer a tal viagem. Isso é uma das melhores coisas que a literatura proporciona, mas às vezes é bom e importante ler um livro que não demanda esforço da imaginação para que a gente entenda profundamente o que há de melhor e pior no mundo. O melhor e o pior estão ali representados, de um jeito preciso e profundo. Grossman investigou e revelou situações que não eram de conhecimento geral naquela época. Tanto quanto um livro como Doutor Jivago, Vida e Destino mostrou para o resto do mundo o tamanho do desastre que era a União Soviética. Se para encontrar isso um leitor precisa de certa dose de coragem, o que dizer do trabalho de quem escreve?

É impressionante a empreitada de escrever com tanta sinceridade em um momento tão perigoso. Para terminar, eu só queria deixar um trechinho desses que renovam o amor da gente pela literatura (lembrando que a tradução do russo é de Irineu Franco Perpétuo):

A história dos homens não é a batalha do bem tentando vencer o mal. A história do ser humano é a batalha do grande mal para reduzir a pó a semente do humanismo. Mas se nem agora o humano foi morto dentro do homem, então o mal não há de triunfar.

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Submissão

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Na semana passada eu li um texto em que Luiz Schwarcz dizia: “o livro não reage bem a procedimentos absolutamente padronizados, a estratégias cheias de generalidades e sem espaço para surpresas. Dessa forma, muitos valores têm se perdido num ambiente que caminha para a bestselerização absoluta das estantes das livrarias”. O texto é uma reflexão de muito valor. É bem triste, ao mesmo tempo, porque se Schwarcz – que é fundador de uma das editoras de maior prestígio no Brasil – está naquele nível de desencanto, a situação não pode estar boa. Eu defendo best-sellers. Conheço gente que defende best-sellers sem lê-los, mas não é o meu caso. Aqui no blog eu já comentei uma dezena de livros que fariam Wilson Martins se revirar no túmulo.

O que eu não achava (e agora estou um pouco incerta pois quem o fala é um cara com muita experiência) era que esses livros feitos aos montes tirassem necessariamente o lugar de outros, daqueles que têm ritmo diferente, outro tempo etc. Eu gosto de pensar que circulo bem entre esses mundos, e achava, meio na intuição, que o público para aquilo que a gente entende por literatura séria sempre foi meio mirrado. Já vi (segura agora uma evidência anedótica!) gente fazer aquela famosa transição da maconha para as outras drogas, ou melhor: já vi uma pessoa que começou em Crepúsculo e foi parar em Anna Karenina num período de dois anos. Daí eu tirei a ideia de que toda leitura é capaz de levar uma pessoa de um ponto a outro. Mas isso não é necessariamente verdade. Quando a gente só lê um tipo de livro, o problema é da gente. Agora, quando só se produz um tipo de livro, que é o motivo da lamentação de Schwarcz, a coisa complica. Eu dou total razão ao editor da Companhia das Letras porque acabei de terminar Submissão, de Michel Houellebecq, na tradução brasileira de Rosa Freire d’Aguiar.

Para dificultar o meu argumento, Submissão foi um best-seller. Mas não vale. O livro trata de uma França, no futuro, em que um partido muçulmano chega ao poder e começa, bem distopicamente, a alterar as estruturas políticas e sociais do país. Mulheres perdem seus empregos, homens podem ter múltiplas esposas, a intelectualidade se rende ao dinheiro de bilionários sauditas. O romance já seria naturalmente polêmico e ainda para mais ajuda calhou de ser lançado no dia (no dia!) do atentado ao Charlie Hebdo. Não é desse tipo de best-seller que Luiz Schwarcz falava.

Submissão é um livro ambicioso. É fácil perceber que não foi feito do dia para a noite. Dá para ver que Houellebecq fez pesquisa e que ele vinha acompanhando de perto a situação política na França e na Europa. É um daqueles romances que pretendem refletir ou discutir, a partir de um personagem ínfimo, muitos aspectos da cultura de um lugar no tempo. A França fez vários deles, talvez tenha sido lá que se inventou a figura moderna do intelectual público, aquele escritor (na filosofia, na ficção) que surge para ser a voz de um grupo, ou de um momento ou de uma geração. Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre ocuparam essa posição, Albert Camus era adorado no final dos anos 1940, na internet circulam várias fotos de Michel Foucault com megafone na mão, político, público, célebre.

Michel Houellebecq não tem esse status, pelo jeito não tem uma obra da importância daquelas, mas o livro trata de uma questão complexa que interessa ao povo francês, ao continente europeu e, por vício nosso ou naturalmente mesmo, ao mundo inteiro. Vieram daí a celeuma e o lugar nas listas de mais vendidos. Polêmica vende muito e a gente sabe que a mídia grande geralmente trata as questões complexas de uma maneira bem simplista. Por causa disso, Houellebcq “foi acusado por uns de xenófobo, por outros de dar suporte à forte presença do Islã na França”, como diz a matéria com ele que o programa Milênio, da Globo News, fez no ano passado.

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Eu acho que essas duas afirmações são muito histéricas. Uma é mais. Eu não sei o que o jornalismo da Globo consultou para citá-las, mas não preciso de muito para acreditar que foram feitas. Houellebecq é xenófobo porque ele trata de muçulmanos franceses com origens fora da França e porque a inclinação política dele é à direita. Eu compreendo esta crítica, embora nesses termos ela não signifique nada. Agora, apoiador do Islã é um pouco mais difícil. E é aí que entra a parte do Luiz Schwarcz.

François, o narrador-personagem de Houellebecq, é um professor universitário de relativo sucesso. Ele é um intelectual pouco politizado, solteiro, emocionalmente distante das pessoas com quem se envolve. O detalhe mais gostoso é que ele é muito escroto. Ele é capaz de racionalizar qualquer coisa contanto que possa tirar proveito dela. Desconfia, por exemplo, que talvez não seja mesmo desejável que mulheres trabalhem. Quando lhe é conveniente, chega a pensar que a estrutura familiar da versão do Islã apresentada no livro é melhor e mais capaz de gerar bem estar do que essa versão moderna de família a que nos acostumamos no Ocidente e nos entornos dele. Reflete sobre a comodidade de ter várias esposas: uma mais velha para o serviço doméstico, outra adolescente para o sexo, e por aí vai. François se converte à nova religião oficial só porque a virada ideológica que vem com ela lhe garante uma vida de vantagens que ele não teria de outra maneira. Em Submissão Houellebecq sentou para escrever a história de um homem deslocado.

E a gente sabe que tem acontecido uma coisa estranha com o homem deslocado. Ele é, ao mesmo tempo, o cara que sai da periferia de uma cidade europeia para se juntar ao Estado Islâmico; o comentarista de portal; o cara que faz campanha por Donald Trump naquelas de “make America great again”; o cara que persegue feministas nas redes sociais; o cara que entra atirando numa escola; a lista é longa e talvez infinita. Uns são piores, outros são relativamente inofensivos.

A diferença fundamental é que esses homens surtam quando percebem que o mundo não vai marchar de acordo com suas convicções. Para François, essa fase já passou. Ele não tem tendência à violência nem é jovem. Sabe que é privilegiado, com rendimentos que a maioria da população não tem. Ele não se converte apaixonadamente, nem vai virar homem bomba. Ele vai com a maré porque é cínico, sujo e não consegue se colocar no lugar dos outros. Por habilidade de Houellebecq, porém, esse narrador não coloca as coisas nessas palavras superficiais que a gente usa para provar um argumento. Em Submissão narrador e autor dizem coisas bem diferentes. Houellebecq monta esse narrador-personagem como que pelas omissões e ausências no que ele diz. Quando François defende o indefensável, Houellebecq quer expor a desonestidade de uma classe inteira. Eu tive a impressão, por exemplo, de que ele tem verdadeiro nojo da esquerda contemporânea. Enquanto isso, François é apático e desapaixonado. Só se empolga quando trata de bundinhas e ppks (nessas horas dá para ver que Houellebecq se empolga junto) – o livro tem, aliás, uma das cenas de sexo mais horrorosas e constrangedoras que eu já li.

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Só que, voltando à parte do Luiz Schwarcz, livros não reagem bem a procedimentos absolutamente padronizados. Submissão não é um best-seller que se escreve consultando manuais de storytelling. O romance aponta em várias direções até contraditórias, tem coisas que não ganham explicação suficiente, outras que não se encaixam bem ao quadro geral. Naquela mesma entrevista para a Globo News, Houellebecq disse ter escrito um livro para expressar o pior medo de muita gente, à moda de 1984 ou Admirável Mundo Novo. Acontece que, para a felicidade do leitor que gosta de coisas esquisitas, a criação desse futuro próximo em que a França é dominada pelo Islã é bastante irregular. Tudo se dá num registro realista demais para que seja possível comprar a ideia da distopia à 1984, e isso acaba jogando esse futuro para o território estrito da sátira política, desses livros que querem ser mais comentário social do que literatura de ficção. Mas Submissão não é exatamente isso: o personagem principal não é quadrado o suficiente para representar só uma metáfora. Quando você compra a ideia de um futuro distópico, surge um elemento mundano para fazer lembrar que não é bem por aí; quando você acha que está apenas lendo uma análise política verossímil do cenário eleitoral francês, acontece algo absurdo o suficiente para ser inimaginável na vida real. Seria exagero dizer que o núcleo do romance é indefinível, mas é muito bom lembrar que faz mal demais simplificá-lo ao nível da polarização, tipo: ou ele é xenófobo ou é apoiador do Islã.

Submissão foi um best-seller graças a um banho de sangue e a um imbróglio cultural e político muito difícil de resolver. O livro não trouxe solução para nada, mas levantou questões profundas o bastante para que qualquer resposta rápida fique difícil. De repente, uma absoluta padronização dos livros que produzimos pode acabar criando uma incapacidade de reflexão sobre as coisas que não são exatamente padronizadas. Por enquanto, ainda tem muito livro por aí.

Caçando carneiros

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Parece que estou chegando atrasada para uma festa (ou sou a única que não conhece um meme famoso) quando penso que só agora li Caçando carneiros, de Haruki Murakami. O livro é de 1982, e  desde 2001 já existia uma edição brasileira, da Estação Liberdade. Depois de ler Norwegian Wood, lá por 2005, eu procurei Caçando carneiros e não achei – eu era apaixonada por aquela capa. Até aquele momento a culpa de estar em falta com o autor não era minha.  Tudo acabou bem em 2014, quando vi que a Alfaguara iria (re)lançar o primeiro grande sucesso de Murakami, com tradução de Leiko Gotoda. Acho que o comprei no primeiro dia. Yada yada yada… estou há dois anos com o livro na minha estante, e a culpa finalmente me alcançou no início deste ano quando montei minha meta de leitura.

E foi a meta que muito me ajudou a não desistir de Caçando carneiros. O livro não é ruim, mas quando comecei a lê-lo, topei com uma repetição de 1Q84 – sim, eu li na ordem errada e por isso acho que o velho repete o novo – e, com tantos livros no mundo e vida finita, estava para abandonar porque não me sinto na obrigação de ler nada que me faça empacar. Mas a meta e o blog (e os sintomas iniciais de transtorno obsessivo compulsivo? vai saber!) me fizeram ir até o fim. A surpresa foi que depois de umas cem páginas, quando um clima de romance policial tomou conta do livro, foi embora a sensação de que aquilo era mais do mesmo, e eu lembrei que as repetições e a atmosfera eram marca registrada de Murakami. Se elas não fazem deste romance um livro excelente, pelo menos ficaram lá, primeiro sem me atrapalhar e depois como parte fundamental do meu interesse.

Caçando carneiros tem um narrador protagonista sem nome. Ele é publicitário e leva uma vida pacata desprovida de grandes anormalidades. Namorando uma garota também sem nome, mas que possui um belo par de orelhas (um dos trabalhos dela é ser modelo de orelhas), ele se vê numa jornada aparentemente absurda quando fica encarregado de achar um carneiro específico. Ele e a namorada vão viajar o país atrás do tal carneiro, e é aí que o livro melhora.

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Destaco um momento especial. Num trem, o narrador está lendo um livro ruim sobre a história da cidade para onde ele está indo. De forma bem simples, sem nenhuma bizarrice na narração, surge um daqueles momentos que ajudam a desvendar o sentido do que se conta. O trecho fala de como um pedaço de terra virou vilarejo, e então cidade, para no fim – depois do processo intenso de industrialização por que o Japão passou depois da Segunda Guerra – virar uma cidade fantasma. Todos os ciclos de um lugar que nasceu e morreu em muito pouco tempo. Uma cidade moribunda por conta de um novo modo de vida, herdando apenas pessoas que trabalham oito horas por dia e “assistem quatro horas de televisão… uma vida tediosa”. Em momentos como este, senti que toda a história era apenas uma metáfora torta e desmontada da história do Japão no século XX. A idade do protagonista bate com a do autor, nascido no começo do pós-guerra, e a década em que o livro saiu era o apogeu do novo status do povo japonês, cada vez mais desapegado de certas tradições. Eles foram da abnegação e da obediência dos tempos de potência imperialista para o individualismo desconectado da era globalizada, em que a cultura japonesa encontrou de vez o ocidente. Até a bagagem intelectual de Murakami é prova da transição cultural do Japão: ele teve uma casa de jazz, verteu ao japonês Raymond Carver, Raymond Chandler, Truman Capote, J.D. Salinger.

Por isso, em Caçando carneiros, ver tudo o que acontecia com lentes capazes de distorcer a realidade é até uma espécie de obrigação. Deixa eu destacar outro momento:

“Tomei um banho de chuveiro, lavei os cabelos molhados da chuva, enrolei uma toalha nos quadris e assisti a um velho filme norte-americano de submarinos na TV. A trama era deprimente: o comandante e o subcomandante não se entendiam, o submarino era da idade da pedra, e tinha um personagem que sofria de claustrofobia, mas no fim tudo dava certo. O tipo de filme ‘a guerra não pode ser tão ruim, já que no fim tudo dá certo’. Daqui a pouco, vão fazer um filme em que a humanidade se envolve numa guerra nuclear e é exterminada, mas no fim tudo dá certo.”

Em outras passagens a narrativa extravagante (e pós-moderna, como lembra Bernardo Carvalho) de Caçando carneiros nem me fazia lembrar de metáfora. Pela sinopse, dá para ver que o estranho/fantástico faz parte do livro, e acho que isso está longe de deixar o texto maçante ou hermético, mas houve vezes, como eu disse lá em cima, em que incomodou a sensação de já ter visto muito disso. Claro que no fim eu comprei a história, e mesmo não sendo um livro especial nem obrigatório, a sensação não foi de tempo perdido.

Se você assim como eu está chegando atrasado a esse Murakami de 1982, mas conhece momentos mais, digamos, sólidos da carreira dele (como Norwegian Wood, que é mais realista e objetivo embora bastante romântico e melancólico, ou Minha querida Sputnik, que tem mais daquela energia juvenil dos livros que a gente precisa ler enquanto é jovem), vale a pena ler Caçando carneiros para matar saudades do estilo e da imaginação de Murakami, e do Japão que o autor desenha de um jeito tão gostoso. Agora, se você encontrou este texto querendo saber o que deve ler e por onde começar, eu posso dar minha opinião de palpiteira online: Norwegian Wood, sem sombra de dúvidas.