Ghost in the Shell

Ghost-In-The-Shell

Eu nem comentei aqui que acertei, sem querer e com uns quinze dias de antecedência, a escalação de Kristen Wiig para o remake americano de Toni Erdmann. Não sou o Walter Mercado, nem tenho contatos em Hollywood: é que às vezes as coisas são previsíveis no mundo. Por exemplo: quem não sabe, antes de sair de casa, tudo o que vai acontecer num filme como esse Ghost in the Shell, com a Scarlett Johansson? Assim como o mundo inteiro, eu queria ver uns tiros, uns aparatos tecnológicos e a cara da Scarlett. Fui presenteada, porém, com um filme ruim a ponto de dar raiva. O problema é que a indignação fica ainda maior quando a gente está pagando o ingresso.

Eu também fiz a minha lição de casa antes de ir ao cinema e fiquei sabendo de todas aquelas informações que os resenhistas colocam no primeiro parágrafo: do mangá pro anime, Japão, ciborgues, serei eu um ser humano ou um robô?, será que não era melhor ter uma japonesa para um papel de uma japonesa?, tudo isso. O que me empolgou foi fazer um percurso que eu já estava devendo há um tempinho. Eu nunca tinha visto Blade Runner, não me lembrava de Matrix, não conhecia o Ghost in the Shell de 1995, então tirei uns dois dias para eles e tenho que dizer, que essa espécie de jornada cyberpunk até que vale a pena. Matrix é sensacional. Os filmes de ação de hoje em dia seriam muito diferentes se não houvesse Matrix. Keanu Reeves consegue ser totalmente insosso e ao mesmo tempo ter muito, muito carisma. Já Blade Runner não me comoveu. Eu sempre fico incomodada quando um filme (ou livro ou série) tem mulher mal escrita, mas para assistir a qualquer coisa anterior à semana passada é necessário ter uma carapaça dura. Em Matrix eu tolerei, por exemplo, o fato de a Trinity ter se apaixonado pelo Neo por motivo nenhum: os sentimentos dela não importavam, importava só que ela fosse para ele um porto seguro. Paciência: as cenas de ação são irretocáveis. Já em Blade Runner, as duas mulheres, as duas androides principais, são um horror e simplesmente não há papel para as duas. Porque eu estava incomodada com isso, o clima e a ambientação não conseguiram me pegar. Nem fiquei assim tão fã de Ghost in the Shell, o filme animado de 1995, mas deixa eu falar um pouquinho melhor a respeito deste antes de chegar no da Scarlett.

ghost in the shell

Não dá nem para dizer que a major de Ghost in the Shell é durona. Ela cumpre suas tarefas, a princípio sem hesitar. Ela reflete discretamente sobre sua condição meio humana, meio ciborgue e não me lembro de ela ter requerido a atenção emocional de outros personagens. Ela fica confusa com a própria natureza e tudo, mas quando tem que agir a impressão que deixa é de que está até um pouco maravilhada com o que pode fazer. Esses sentimentos discretos, bem como a quase total falta de conexão que a major demonstra com o resto do mundo, só fazem jogar na cabeça do espectador a ideia de que ela não é bem humana. Por causa disso, não raro a animação deixa os olhos dela bem abertos e sem vida, e as expressões intensas não são frequentes. Mas falando assim tem-se a impressão de que Ghost in the Shell pode ter alguma coisa de estudo de personagem. Eu acho que não. Eu acho que o que mais conta é a cidade, um lugar no futuro que a animação se empenha muito para construir em detalhes. É uma cidade desgraçada, de pobreza (e riqueza) material e de espírito, e é um lugar onde todo mundo poderia ser aquela mesma protagonista: todos desconectados, perdidos, vagando sem propósito. Para demonstrar isso, a cidade de Ghost in the Shell tem que ser um território estranho a quem está vendo o filme: uma parte essencial dessa experiência é que não se saiba muito bem, de partida, o que é que está acontecendo.

E aí o Ghost in the Shell de 2017 começa explicando, quase que em pormenor, onde é que estamos, quem é importante, no que prestar atenção, e quais são as lições que o filme quer tirar do que está acontecendo. Não dá, sinceramente. A major vivida por Scarlett Johansson é uma criança grande que tem que ser amparada e receber explicações – daquelas explicações que não fazem sentido em texto de filme, a não ser como um power point verbal destinado ao espectador. Isso só faz com que o esforço da atriz para parecer forte, gélida e determinada se torne patético. Nada irrita mais do que um filme em que os diálogos dizem uma coisa e todo o resto fica gritando outra. Além disso, Ghost in the Shell faz aquelas escolhas padronizadas, que dão a impressão de que todo filme é o mesmo filme: se tem um homem e uma mulher, deve haver um romance, e se tem um romance uma das partes (ou as duas) tem que ser desesperadamente superprotetora. E aí lá se vai a esquisitice da protagonista – ela não é nem humana, nem robô: é só uma mocinha de Hollywood.

Por coincidência, eu fui ao cinema no mesmo dia em que me apareceu, numa playlist, a música “Love Bites” da banda Def Leppard. Eu demorei uns trinta segundos para me lembrar de onde eu a conhecia, mas o Google ajudou. No Brasil, “Love Bites” virou “Mordida de Amor” do conjunto Yahoo e a moral da história é que adaptações são complicadas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s