O vermelho e o negro

o vermelho e o negro

Durante boa parte dos meses de março e abril eu me dediquei a O vermelho e o negro e, para falar a verdade, sei lá. Se eu não tivesse me obrigando a fazer um texto por livro da meta (a minha meta, os doze obrigatórios que estavam parados aqui em casa) nem tentaria juntar duas palavras sobre o que acabei de ler. O romance de Stendhal estava há muito tempo na prateleira, e desde sempre na minha lista mental de clássicos para ler. Eu achava que a leitura seria densa e tensa, e que os sentimentos aflorariam tão logo eu começasse a percorrer as páginas, mas não foi bem o que aconteceu. Foi uma leitura suave e tranquila, sem qualquer estardalhaço ou sacrifício, mas que me serviu para muito pouco. Acho que o verbo servir é um crime quando se fala de literatura, porque empresta um caráter utilitarista ao ato de ler, mas não posso deixar de usá-lo aqui: não é que o livro não tenha me servido para qualquer coisa posterior à leitura, não – o que me aconteceu é que a leitura não foi proveitosa. E qual é o proveito que se tira de uma leitura? Sei lá, vontade de realizar mais leituras, de pesquisar sobre o autor ou o assunto ou a época – esses seriam proveitos posteriores, mas e aqueles proveitos imediatos como a imersão total em um mundo alheio, o indescritível sentimento de estar dentro de uma sala no século XIX com móveis do século XIX, pensando como alguém do século XIX? O vermelho e o negro deve ser o livro da vida de milhares (centenas?) de pessoas ao redor do mundo, tem quase 200 anos nas costas e eu, do alto da minha falta de familiaridade com o autor, gostei mas não fui pessoalmente tocada, não encontrei o que estava buscando.

O vermelho e o negro é uma crônica dos acontecimentos históricos que se desenrolavam no começo do século XIX. Aquela lembrancinha da escola é muito bem-vinda: tem a Revolução Francesa, tem Napoleão como que sequestrando a revolução e virando imperador, daí tem uma espécie de guerra europeia de todos contra Napoleão, depois disso tem uma tentativa de restaurar a monarquia que havia sido literalmente guilhotinada – tudo isso se dá antes dos acontecimentos de O vermelho e o negro, mas sem essa colinha fica difícil entender os sentimentos que movem os personagens principais porque todos eles se comportam baseados em interesses de classe.

Julien Sorel, o protagonista, é mesquinho, ardiloso e frio. Não tem como simpatizar com um homem que dá toda a pinta de querer ascender socialmente, enquanto despreza os valores aristocráticos. Ele odeia aquela aristocracia, mas ela exerce sobre ele uma estranha atração. Ele é filho de um marceneiro e o que sobrou foi o caminho da batina, na falta de qualquer outro. Por ser muito culto ele consegue a chance de trabalhar como preceptor na casa do prefeito da cidade. Durante o tempo em que vive na casa do prefeito, Julien demonstra desdém pelos ricos e nobres e se apaixona, como não poderia deixar de ser, pela primeira dama. A paixão é recíproca. O prefeito desconfia. Essa é a primeira parte do livro. A jornada de Julien vai continuar em outro pedaço da França. Ele consegue entrar no seminário e é lá que conhece um padre com boas conexões, que o auxilia em um novo emprego: agora vai ser secretário de um marquês com ótimos contatos em Paris. Assim Julien conhece os La Mole e toda a nobreza que visita e venera esta família. Ele se sente rejeitado e ao mesmo tempo seduzido pela vida que nunca teve e nunca admitiu querer. Napoleão Bonaparte é tudo o que Julien desejava ser: alguém que veio de baixo e tomou o mundo de assalto. Mathilde, a filha do marquês, uma jovem entediada com a vida que leva, se apaixona pela frieza e indiferença de Julien – só para a gente perceber que não é de hoje essa atração que os esquisitos despertam. Depois de muito vaivém os dois estão perdidamente apaixonados. Desgraçadamente ela engravida e os planos de Julien parecem ruir. Em um rompante de loucura, ele decide cometer um assassinato e as consequências desse ato são a prisão e a guilhotina, e aí é como se ele fosse um pequeno Napoleão que esteve muito perto da glória e viu tudo descambar num fim melancólico e inevitável.

Para ser bem sincera, eu não tenho do que reclamar. Uma segunda leitura talvez me levasse a uma relação mais complexa com O vermelho e o negro, mas eu não vou tentar soterrar toda a leviandade desse meu texto com a promessa de que vou tentar me importar mais da próxima vez. Sinceramente, acho que Stendhal não precisa de mim.

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