5 filmes estimados na medida exata em que merecem ser estimados (na minha opinião, é claro)

Listas de superestimados e subestimados são superestimadas. A moda agora é namorar pelado. Mentira: a moda agora é listar cinco filmes estimados na medida exata, certinha, em que eles merecem ser estimados. Já me aconteceu de começar a ver um filme e pensar que o mundo inteiro estava sendo injusto com ele, ou que era não é possível que o mundo inteiro tenha visto aquela joia e deixado para lá. Uma hora e meia depois, a revelação: ah, sim, pois é, esse aqui foi ruim mesmo, não me espanta que ninguém dê bola. Também tem o contrário, que é quando eu chego no sofá com aquela birra contra tudo, contra o diretor, contra o mundo, mas aos poucos tenho que dar o braço a torcer porque aquele ali é bom mesmo e merece todos os elogios que já ganhou.

Num dia desses eu estava no litoral, totalmente relaxada curtindo o calor num sofá cujo forro gruda nas costas, e o meu muito digno marido colocou para tocar um álbum da banda Silverchair, aquela. Nos primeiros 6 ou 8 minutos, transportada para o começo dos anos 2000, eu fiquei pensando em como todo o mundo havia injustamente deixado o Silverchair para trás. Dali a pouco, talvez também pelo calor, com a voz sorumbática de Daniel Johns no ouvido, eu me dei conta de que não faz mal que o mundo tenha guardado essa banda num potinho de semi-esquecimento. Nessa hora eu pensei: tem coisa que não é nem subestimada nem superestimada, tem coisa que é estimada na exata medida em que merece ser estimada.

1) QUALQUER FILME DE YASUJIRO OZU SERÁ BOM

bom dia ozu

Eu confesso que resisti. Não é todo dia que eu acordo querendo encarar um filme preto e branco de 1949, por exemplo. Por sorte, ao contrário do que se fazia, na minha época de ensino médio, com a literatura brasileira, ninguém me obrigou a sentar e prestar atenção nos filmes de Yasujiro Ozu. Eu comecei naturalmente e no meu ritmo. E eu comecei bem. O primeiro que vi foi Bom Dia. Tive que dar o braço a torcer. É japonês, é velho, eu não consigo aferir se a legenda está batendo com o que os atores falam, mas não tem nem como começar a dizer que Ozu não é tudo aquilo que dizem que é.

2) THE NEON DEMON É RUIM MESMO

the neon demon

Gostei de Drive, que foi o filme que deixou Nicolas Winding Refn na crista da onda. Defendi Only God Forgives, quando o caldo começou a entornar, porque acho que peguei o espírito da coisa. Quando eu soube que The Neon Demon havia sido bem vaiado em Cannes, já fiquei com a história pronta na minha cabeça: esse também deve ser bom, mas agora o pessoal já pegou implicância. Fui ver sem medo de ser feliz e deu tudo errado. O filme traz uma crítica muito ralinha ao culto à beleza e às celebridades, tão ralinha que às vezes esbarra na bobeira. Tem tomadas lindas, como todo mundo disse. Isso é verdade. Só que a história tem uma solução que só pode ter sido feita no piloto automático, e aí eu fiquei com a sensação de que o filme não tinha nem o direito de querer ser visualmente bonito. Peguei implicância. O tomatômetro no Rotten Tomatoes é de 57%. E é mais ou menos isso que The Neon Demon merece.

3) EU TAMBÉM ACHO QUE BIRDMAN É ESQUECÍVEL

birdman

Eu não tenho como provar esse consenso com números. É só uma sensação de consenso. Será que eu me fiz entender? Eu me lembro de ter achado Birdman razoável na época do lançamento. Acho até que eu nem tinha um favorito no Oscar daquele ano. Boyhood, talvez? Eu acho também que foi o Marcelo Hessel, do Omelete, quem disse que havia uma falsa profundidade na crítica de Birdman aos filmes de super-heróis. Foi o que eu pensei em 2014. De lá para cá, li uma meia dúzia de textos que diziam que os filmes premiados nos últimos anos são esquecíveis. Não dá para discordar disso. Spotlight tem o Oscar de melhor filme de 2015. Ninguém quer saber. Não acho que Birdman ou Spotlight vão ganhar culto nas próximas décadas. O filme de Iñárritu fica aqui como um símbolo desses muitos que geram bafafá e prêmios, mas que acabam morando num fundo de prateleira da Saraiva por toda a eternidade (com cada vez menos seeders no torrent, melancolia pura).

4) O ROBOCOP DO JOSÉ PADILHA NÃO SERVE PRA NADA.

robocop

Mas é bom? Não. No Rotten Tomatoes tem 48%; no Metacritic, 52 de 100; no Filmow, 3,3 de 5. O público não foi à loucura, mas não tem problema. Às vezes parece que é só uma produção fazer 50 dólares de lucro que o estúdio já se dá por satisfeito, mas não é esse o assunto. Às vezes um diretor pega uma tarefa muito ingrata. Eu fico pensando que o J. J. Abrams foi um milagreiro quando fez aquele Star Wars de 2015. Tinha muita coisa em jogo e ele conseguiu levar o barco do ponto A ao ponto B sem quebrar tudo no meio do caminho. Quanto ao José Padilha, o projeto que caiu na mão dele já estava condenado de antemão. Robocop não precisava de um remake, ninguém clamava por um. E talvez a pior qualidade de um remake seja a apatia. Esse Robocop de 2014 foi assim: não queria muita coisa e não se dispôs a ser um filme bizarro como é o de 1987. Desagradou. Eu pensei que não era possível. Olha o Tropa de Elite: Padilha fez um blockbuster de ação americano em português, todo transcrito numa linguagem que o grande público brasileiro entende e reconhece. Eu juro que, quando ele foi anunciado num blockbuster gringo, eu esperava uma obra-prima. Mas não: jamais vou poder resgatar Robocop numa conversa, não vai dar para dizer que ele é subestimado.

5) THE END OF THE TOUR É QUASE BOM

the end of the tour

Deste as pessoas gostam. É um indie sobre o falecido David Foster Wallace. O cinema americano tem uma relação complicada com escritores famosos. Tem muita afetação na hora de interpretar aquelas figuras que ganham alcunha de gênio para cá, de voz de uma geração para lá. De um filme com Jesse Eisenberg e Jason Segel, sobre um autor que intumesce muito homem crescido, eu esperava um sem número de constrangimentos e de clichês sobre mentes atormentadas. Não foi o caso. Até que a atmosfera era de pé no chão. Jason Segel se conteve e seu esforço não parecia o de alguém desesperado para se afirmar como bom ator. O filme é quase bom, tem um clima dos anos 1990 e tudo. Não deixou muita gente eufórica, não deixou muita gente rolando no chão para aplacar a raiva.

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