Meus melhores filmes de 2016 pt. 2

Nos encaminhamos para o fim de dezembro, mas aqui ainda falta bastante para fechar a lojinha. Falta terminar a lista dos melhores filmes, começar a de séries e cumprir a meta de leitura do ano para listar os melhores livros que eu li em 2016. Eu disse que seria um mês de muitas listas.

Um alguém apaixonado – Like someone in love

Não resenhei porque não tinha coisa alguma para falar. Foi um dos últimos trabalhos de Abbas Kiarostami, que morreu em julho. Mas o filme é sobre solidão? Incompatibilidade? Sobre o amor ser um fardo? Não tenho vergonha de dizer que às vezes eu me encanto, acho tudo bonito, mas não saberia juntar as peças do que vi. Um alguém apaixonado é visualmente lindo, uma cena mais deslumbrante que a outra. Nele, uma garota de programa é chamada para passar a noite na casa de um velhinho. Acaba que eles nem dormem juntos, mas meio que cada um era exatamente aquilo de que o outro precisava naquele momento. A cena da garota olhando a noite iluminada pela janela do táxi é de tirar o fôlego.

O lamento – Goksung

No ano passado eu venci minha resistência a filmes sul-coreanos e foi assim que encontrei O Lamento. Magia, xamanismo, possessão e mortes. Pessoas estão morrendo misteriosamente, e um homem precisa descobrir a causa quando percebe que sua filha pode ser a próxima. Às vezes o filme ganha um tom de comédia, e isso só deixa o horror mais horrível toda vez que alguma coisa bizarra acontece. Achei incrível, mas eu percebia que havia perdido muitas referências do folclore coreano, espiritualidade, essas coisas. Tive que ver uma explicação detalhada para esses buracos que a minha ignorância deixou passar, e aí sim: ah tá, agora entendi. Que filme!

Bem-vindo à casa de bonecas – Welcome to the dollhouse

Um filme nem um pouco fofo. Bem-vindo à casa de bonecas fala sobre a vida de uma adolescente hostilizada tanta na escola quanto em sua própria casa. Nada aqui é típico. A protagonista é atacada de todos os lados, mas em muitos momentos parece impossível detectar nela sentimentos negativos ou uma tristeza sem fim. Isso só é acontece por conta do humor negro que dá o tom do filme. Bem vindo à casa de bonecas é de 1995, e de lá para cá duvido que tenham feito uma história de rejeição e juventude mais impactante que essa.

O Açougueiro – Le boucher

Este me dá arrepio. Uma história simples, mas com um tom sombrio desde a primeira cena. Os protagonistas se conhecem em uma festa de casamento: ele é o açougueiro da cidadezinha, ela a professora da escolinha. Cidade pequena, todos se conhecem e logo os dois ensaiam começar um relacionamento. Tudo parece estar indo bem até a notícia de que há um assassino de mulheres na cidade. Para quem está vendo o filme, o assassino não é nenhum segredo. Isso é o que menos importa. O mistério principal não é quem matou as garotas. O segredo está na obscuridade dos protagonistas, tanto de quem mata quanto de quem está em perigo. A sequência final é de arrepiar. Eu nunca senti tanto medo com tão pouco.

Amadeus

Quando comecei a assistir a Amadeus pensei que seria outra bomba. Eu sei da fama do filme, mas ele parecia pretensioso e exagerado como os filmes do Oscar, feito para ganhar prêmios e só. Fato é que eu perseverei no sofá (leia-se: fiquei com preguiça de levantar) e meu esforço foi recompensado. Acho que todo mundo sabe quais são as características de um filme que quer passar o rodo nas estatuetas do Oscar. São histórias grandiosas, orçamentos obscenos, atores até bons mas totalmente acima do tom, gente perdendo mais de vinte quilos em transformações físicas que mascaram a debilidade de roteiros muito esquemáticos, essas coisas. Então, Amadeus não é nada disso. Quer dizer: o orçamento e a história são mesmo gigantescos, mas no mais o filme do diretor Milos Forman é o que todo filmão de Hollywood quer ser: longo, ambicioso, bonito, reflexivo, com atores excelentes. É uma investigação sobre a natureza da arte e sobre a mesquinharia da vida. Tem um Mozart moldado na melancolia pós-punk e um Salieri com pinta de inspetor de colégio interno. Acho que foi o filme mais longo que eu vi em 2016, e que, se eu precisasse escolher só um para ter visto durante todo o ano, seria esse. Talvez. Provavelmente.

Elle

Acho que esse é o único de 2016 na lista inteira. Será? Tem uns três de 2015, mas então. Elle é, segundo dizem, um forte candidato ao Oscar de filme estrangeiro. Foi dirigido pelo Paul Verhoeven e tem a Isabelle Huppert. Já na primeira cena, se eu me lembro bem, Huppert é estuprada por um estranho usando uma máscara de esqui. Ela não vai à polícia, e aos poucos vamos percebendo que ela quer descobrir sozinha a identidade do estuprador, e que ela tem um jeito bem particular de lidar com o que lhe aconteceu. Daí precisamos saber o que foi que moldou essa mulher: na infância, o pai dela foi preso por ser o maior serial killer da França. Na época, muitos diziam que ela, a filha, então criança, tinha sido cúmplice. Quer dizer: a personalidade dela foi moldada pelo mal e pela violência, e agora, depois de ter sido estuprada ela meio que tem que encarar o mal de frente. Só que o mal exerce uma certa atração sobre ela. Elle é fascinante porque trata da ambivalência que todo mundo tem de um jeito que não aparece todo dia no cinema, ainda mais quando a gente pensa em termos absolutos: tipo bem e mal, vítima e perpetrador. Para ajudar, o filme tem uns ecos de Hitchcock na construção do suspense e, especialmente, numa cena num porão. Não vou estragar porque esse é muito recente. Hipnotizante.

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