Channel Zero: Candle Cove – terror e bizarrice no Syfy

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Eu não imaginei que uma das melhores estreias do ano viria do Syfy. E veio. É Channel Zero, uma série de terror, dessas que os resenhistas gostam de chamar de “antologias”, em que uma temporada não tem necessariamente ligação com a outra. A primeira história é Candle Cove.

Há quem torça o nariz para o Syfy por ser um canal bem peculiar. Ou bem louco. Com o conteúdo voltado para ficção científica e o sobrenatural, coisas que todo mundo adora, o Syfy costuma fazer umas produções B com atores de terceira (além de reality-shows em que o conceito de realidade é bem elástico) – coisa que não agrada a todos. Por isso Channel Zero não foi a mais badalada das estreias – este posto ficou para Westworld, da HBO -, mas eu tenho a impressão de que as pretensões modestas do Syfy facilitaram o bom resultado final.

Na série, Candle Cove é o nome de um programa de tevê infantil que foi ao ar por um período muito curto, em 1988. É um seriado bem encapetado, com umas marionetes meio assustadoras, mas nada de muito distante das coisas bizarras a que as crianças eram normalmente expostas nos anos 1980. Até aqui nada de mais. O problema é que Candle Cove foi ao ar bem quando crianças sumiram e apareceram mortas, num crime que nunca foi resolvido. É aí que entra nosso protagonista.

Mike Painter é um psicólogo infantil. Na infância, ele via Candle Cove ao lado do irmão gêmeo, Eddie. Eles nasceram em Iron Hill, a cidade dos assassinatos, Eddie morreu em 1988 na onda de crimes, e Mike só virou um adulto minimamente saudável porque foi embora. Mas não tem muita graça contar uma história de terror com um adulto minimamente saudável, não é? Mike anda meio perturbado. Ele agora tem esposa e filha, mas foi afastado do convívio delas porque tem visto coisas e acordando assustado depois de pesadelos. Sem muita enrolação, Channel Zero faz esse homem voltar para sua cidade natal já no piloto. Ele vai para a casa da mãe, com quem não fala há anos.

Para a surpresa de poucos, coisas estranhas começam a acontecer. Candle Cove, o seriadinho com marionetes, volta a passar na televisão, fazendo as crianças de agora ficarem tão hipnotizadas quanto as de 1988. Tem um detalhe, porém, que é aterrorizante, revelado logo no começo: aparentemente, o seriado nunca foi transmitido por um canal de tevê – tudo se passava dentro da cabeça das crianças, enquanto a televisão mostrava estática por horas.

Essa premissa bem boa Channel Zero foi buscar nas creepypastas. Uma creepypasta é uma história de terror que circula pela internet, sem que a princípio se consiga determinar sua veracidade. É um tipo de lenda urbana que nasceu no mundo da internet em língua inglesa, e que aparece em fóruns e sites desde o tempo em que toda página tinha um gif animado e a internet era discada. Eu fui descobrir na Wikipedia que Candle Cove era uma historinha dessas, criada por um cartunista chamado Kris Straub. A grande sacada de Channel Zero é ser uma antologia de creepypastas, e a segunda temporada já está em produção.

Com isso tudo explicado, eu preciso dizer: premissas boas aparecem o tempo todo. Eu estou participando do Projeto Fall Season do Banco de Séries e posso dizer que, de cada cinco sinopses promissoras, sei lá, 0,25 entregam alguma coisa que não seja um desperdício total de tempo. Esse cálculo não foi muito científico, mas vale o argumento: não é a ideia engenhosa, retirada de uma outra mídia, que faz de Channel Zero: Candle Cove uma das estreias boas dessa temporada. Eu acho que é o fato de que esse é um seriado claramente de gênero. E eu não tenho nenhuma base para dizer isso, a não ser a minha implicância com outra série, aquela que chegou sob tambores e trombetas e anunciada como a salvação da lavoura. Claro que eu estou falando de Westworld.

Tudo bem, Westworld já ganha a garantia de mais atenção só por ser da HBO. No mundo das séries americanas, todo canal erra mais de dez vezes para cada acerto. Acontece que os acertos da HBO são ganhadores de prêmios, inspiram artigos e livros, deixam as redes sociais em estado de alerta – tudo isso é compreensível. Só que – e me segura que eu vou perguntar – vocês chegaram a  ver Westworld,  ou então The Night Of, só pra citar duas das séries mais recentes e aplaudidas da HBO? Vocês repararam que elas estão impregnadas daquele tom de “isso é mais do que tevê, isso é um passo além da tevê, tevê é muito démodé, aqui é era de ouro da tevê, gente, eu acho que isso aqui não é nem pro bico de vocês, hein”?

The Night Of foi uma série bem mais ou menos, que se negou a andar para a frente, apostou muito no magnetismo de seus (ótimos) atores e morreu na praia porque não tinha muito a dizer. O sistema prisional é injusto. As pessoas são racistas. A verdade é, na maioria das vezes, inatingível. A série martelou essas ideias em todos os capítulos, mas não conseguiu fazer um fiapo de reflexão sobre elas. Acontece  coisa parecida com Westworld. Um parque de diversões aonde as pessoas vão para descarregar as frustrações de uma vida neurótica em cima de androides tão tecnologicamente avançados que nem sabem que são androides? Nem a gente sabe quem é ou não é androide? E ainda por cima o parque é temático do velho oeste? E tem metalinguagem a toda hora, a gente ao mesmo tempo tem um seriado no futuro e um no velho oeste? Excelente. O problema é que Westworld não tem metade da perspicácia que acha que tem, não é tão intrigante quanto acha que é. Podia ser uma excelente série de gênero: do gênero ficção científica, pois sua trama esbarra em um monte de questões existenciais despertadas por um fundo tecnológico; em vez disso, é mais um exemplar do “olha pra mim, eu me levo muito a sério, isso aqui é fotografia de cinema, esses atores até ontem estavam concorrendo ao Oscar, meu orçamento dava para cobrir os gastos de uma Olimpíada”.

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Candle Cove é quase o oposto disso. Claro que a série faz uma tentativa de superar as expectativas, e isso quer dizer que o nível de bizarrice fica controlado. Ou melhor: fica controlado até certo ponto. E não dá para negar que os últimos grandes sucessos da tevê deixaram uma marca também no Syfy. Com isso, Candle Cove tem das suas sobras e constrangimentos não intencionais, além de toda aquela cara de 2016. O elenco é bom, nada que lembre Sharknado. Mas acho que o mais legal mesmo é poder sentar diante da tevê e assistir a uma série que quer te entreter e não muito mais que isso. Eu estou um pouco cansada de lições e enrolações que acabam só me frustrando, e de séries que tratam o espectador como refém. Por isso acho que até gostei mais do que deveria de Channel Zero: Candle Cove. A certa altura percebi que num episódio já havia  acontecido muita coisa, que a história tinha andado bastante, que os roteiristas não haviam me deixado presa numa subtrama desnecessária, que eles realmente tinham uma história completa, do ponto A ao ponto B, e que não estavam testando várias coisas para ver o que funciona. Para quem foi até o quinto episódio de Westworld, viu Evan Rachel Wood sentar e levantar 300 vezes da cadeira de interrogatório no laboratório, e foi alimentada apenas de personagens com motivações vagas e incoerentes, Candle Cove é um alento.

Mas para você, que chegou até aqui e que não está com essa raiva que eu estou, Candle Cove também pode ser legal. Quem leu qualquer coisa do Stephen King, ou viu mais do que um dos filmes baseados em obras dele, vai perceber logo no piloto que a série nova do Syfy monta passo a passo um dos esquemas do autor, aquele que tem: adultos que compartilham um segredo desde a infância; crianças envolvidas em problemas muito maiores que os habituais; bullying; pessoas aparentemente boas e inofensivas que se revelam o horror encarnado; um fundo sobrenatural nos vícios e problemas mais humanos. Isso quer dizer que Channel Zero: Candle Cove não é original? Sim. Mas tem lá algum tom nostálgico ou excessivamente derivativo? Acho que não.

Vale a pena para quem gosta de terror, ou do Stephen King, ou de assassinatos irresolvidos, porque quando a gente se dispõe a assistir a um filme ou série de gênero, é isso o que a gente quer. E ah, eu quase ia me esquecendo: não só o Syfy está com uma série de terror que é melhor do que a série de ficção científica da HBO, como também fez Aftermath, uma ficção pós-apocalíptica que é muito mais legal que The Walking Dead. Aftermath é tosca até dizer chega – e isso é ótimo. É preferível a ser só meio tosca.

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