Antes de partir

Antes de partir

Minha prateleira de dramas românticos é muito confusa. Há coisas que beiram a misoginia e me fazem sentir nojo da história, mas também tem coisas meio machistas que ainda assim me fazem querer devorar o livro; às vezes um romance me surpreende ainda que não tenha aquilo que eu estava buscando, e às vezes, mesmo trazendo todos os elementos que eu procuro, o livro não me pega. O último exemplo foi o que ocorreu em Antes de partir, de Colleen Oakley, na edição da Bertrand Brasil, com tradução de Valéria Lamim.

As coisas pareciam promissoras. Admito que quando li a sinopse eu pensei “oba!, vou chorar com este livro, ele vai me emocionar pra caramba, vai ser lindo”. Não foi bem assim. Quem está para partir em Antes de partir é Daisy, uma mulher que sobreviveu ao câncer de mama aos 23 anos. Quatro anos depois ela descobre que o câncer voltou e tomou todo o corpo, e por isso lhe restam talvez poucos meses de vida. Casada com Jack, ela se agarra a uma ideia fixa: antes de morrer, ela precisa arranjar outra mulher para o marido para que ele não passe o resto dos dias sozinho. Jack é super desorganizado, Daisy o vê como um bebezão. Ele é médico-veterinário e passa boa parte do tempo envolvido no trabalho. Então aqui estamos nós, é daqui que começamos.

Acontece que essa vontade de Daisy pode parecer muito altruísta mas é apenas uma aparição de seu mau hábito de querer controlar e decidir tudo. Claro que a tentativa não dá certo, e ela morre de ciúmes. Daisy é rabugenta por boa parte da história, o que é fácil de entender quando você pensa no que ela está passando, mas compreender que a barra deve ser difícil não salva essa protagonista da chatice. Jack, o mocinho alheio às ideias mirabolantes de Daisy, é mais decepcionante ainda. Em alguns momentos ele  acaba apenas egoísta e desinteressado, e eu não tenho a impressão de que essa fosse a ideia de Colleen Oakley. Quando era para eu me importar com a ingenuidade e o desamparo de Jack, acabei achando que ele era mimado e indiferente. Numa história de amor, um protagonista indiferente é a última coisa que eu quero ver.

Colleen Oakley, não quis que o livro fosse recheado de “sentimentalismo barato” (dá pra ler isso na quarta capa). Ela conseguiu. Mas com isso, miguelou o  choro de quem queria ler um bom romance sem medo de ser piegas. Não tem problema mostrar um mocinho que está perdido e não sabe nem metade das coisas que a protagonista pensa, os dramas românticos são repletos disso, o problema é quando essa apatia cria raízes tão profundas no personagem que nada sobra nele. E aí você fica: Ué? Queria um mocinho e não houve mocinho?

Mas por que escrever sobre um livro que, no geral, não me satisfez? Não quero ser a chata que só reclama. Normalmente se eu não gostei eu deixo para lá, mas aqui o caso é diferente: achei pontos bons e ruins. Os ruins não me fizeram abandonar a leitura, e os bons não me deixaram especialmente comovida. Foi um livro que eu li. Acho que todo leitor já sentiu isso, e só por não estar sozinha nessa, resolvi escrever.

A capa de Antes de partir já entrega o grupo em que a obra quer entrar e a quem ela vai agradar. Depois do sucesso de Como eu era antes de você, veio um bom número de romances com capas e histórias similares. Eu não me importo que todos esses livros aparentemente evoquem a mesma coisa se, na hora da verdade, cada um consiga se sustentar em seu próprio universo. Em outras palavras: mesmo que seja a releitura da releitura da colagem da inspiração da cópia da fanfic, o livro terá toda a minha boa vontade contanto que, quando formos só nós dois, o livro e eu, ele converse pessoalmente comigo, naquele contato que só a leitura pode trazer.

Como qualquer pessoa contraditória e indecisa, preciso dizer que Antes de partir me prendeu em pequenos detalhes que a Colleen Oakley conseguiu inserir. Gostei da descrição dos fatos e até de alguns pensamentos das personagens. Mesmo não sendo uma personagem excêntrica como as da Marian Keyes, os pensamentos de Daisy em vários momentos (quando ela não estava sendo apenas rabugenta) me fizeram continuar senão intrigada, pelo menos parcialmente seduzida. Isso pode parecer pouco, mas só de saber que a autora pode fazer isso, ela já me ganha para um próximo livro.

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2 comentários sobre “Antes de partir

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