Um de nós: livro-reportagem sobre o maior atentado terrorista da Noruega

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A figura central de Um de Nós é um homem que buscou a notoriedade como pichador, depois quis ser empresário de sucesso, trambiqueiro de sucesso, liderança partidária, líder de guilda em World of Warcraft e escritor de ensaio político. Fracassou com mais ou menos intensidade em cada uma dessas tentativas e foi dar certo na coisa mais abominável de que se tem notícia, o assassinato em massa.

Em Um de Nós (Editora Record, tradução de Kristin Lie Garrubo) Åsne Seierstad trata do atentado duplo que aconteceu na Noruega, em 2011. Oito pessoas morreram em uma explosão, no prédio em que trabalhava o primeiro ministro norueguês, e sessenta e nove a tiros, numa ilhota em que acontecia a convenção da juventude do partido no poder. Anders Breivik, então com 32 anos, além de ter preparado meticulosamente os crimes, escreveu um manifesto de ultra-direita em que culpava a esquerda norueguesa pela islamização de seu país, condenava o multiculturalismo, denunciava o marxismo cultural e sentenciava suas vítimas à morte por entender que haviam sofrido lavagem cerebral da esquerda e que, mortos, não poderiam entregar a Noruega aos imigrantes e aos não-cristãos. Breivik deve ter procurado a definição de terrorismo num dicionário de norueguês e a seguiu ponto a ponto. Ele infligiu medo através da violência para fins políticos.

Ou pelo menos essa era a história que ele queria contar. O grande mérito de Åsne Seierstad em Um de Nós é nunca comprá-la por inteiro. Não é que ela negue o terror nos atos de Breivik, o que Seierstad faz é questionar duas coisas: (1) a visão que Breivik tem de si, e que tentou transmitir ao mundo e (2) a necessidade de o terrorista aparecer como o protagonista dessa história.

Para isso, Seierstad começa do começo. Ela jamais percorre os caminhos que o assassino programou. Em vez de discutir imigração, ela escolhe a dedo as vítimas que serão personagens principais do livro: Bano, uma menina de origem curda, cuja família se refugiou na Noruega e trabalhou em silêncio para conseguir se integrar e viver uma vida de classe média; Simon, um rapaz de família norueguesa, um dos melhores quadros da juventude trabalhista, professor voluntário, jovem palestrante, admirador de Obama e partidário da integração e do acolhimento de imigrantes. Os dois morrem pelas mãos de Breivik, mas Seierstad vê de perto suas vidas, com a intenção de não despersonalizá-los. Em vez de fixar o quadro geral, o que permitiria a extremistas verem com bons olhos as ações de Breivik, ela se aproxima de personagens para não perder de vista a dimensão humana da tragédia.

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O assassino também é visto em muitos detalhes, desde a infância. O homem que emerge, em vez do terrorista corajoso e heroico cuidadosamente esculpido por Breivik, tem problemas de autoestima e socialização. Extremamente vaidoso, faz cirurgias plásticas, implante no cabelo, musculação, e se declara metrossexual. Não consegue se integrar, os poucos amigos o consideram cada vez mais esquisito. Desesperado por atenção, ele busca sucesso e fama. Para Seierstad, mais do que dar um forte golpe na esquerda norueguesa e impedir a islamização do país, Breivik queria ser visto, admirado e estudado. Seria contraditório perceber essas intenções e ainda assim escrever um livro desse tamanho sobre esse sujeito, mas o Breivik que Seierstad perfila é patético. Atormentado por seu próprio senso de importância, com voz fina, sem talento e sem vocação, o assassino é mais um homenzinho pequeno e assexuado, e enlouqueceu porque jogou videogame demais e ficou frustrado demais por não ter as coisas que achava serem suas por direito. O problema é que isso às vezes resulta bastante unidimensional e acaba não sendo capaz de dar conta da complexidade dos acontecimentos.

Quando a autora consegue expor as verdadeiras razões por trás dos atos do terrorista, o que vem à superfície é a brutalidade e a falta de sentido dos atentados de 2011. A partir desse ponto, Breivik não é mais protagonista. Para que isso pudesse acontecer, Seierstad elaborou uma teia que, aí sim, permite que o leitor tenha uma visão panorâmica da sociedade norueguesa. Um de nós quer sugerir que toda aquela violência não precisou ser gestada fora do país.

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