Um festival e alguns contratempos

panca de valente

Panca de Valente

Eu estava muito empolgada para o Olhar de Cinema, que é o maior festival de cinema de Curitiba. Baixei o .pdf com a programação e marquei no meu caderno os filmes, dias e horários. Eu sabia que conseguiria ver, no máximo, um por dia. Não me interessei muito pela mostra competitiva, tanto é que me dei conta só agora, com o festival terminado, de que não vi o filme vencedor na categoria principal. O que eu queria mesmo era aproveitar para ver ali coisas que geralmente não aparecem nos cinemas de shopping e curtir o clima de ocasião especial que permeia esse tipo de evento.

Estava tudo a meu favor. O festival aconteceu em dois cinemas pertinho de casa, o Itaú e o Novo Batel. A abertura foi no Itaú, as salas estavam cheias, tinha pipoca doce, o filme foi o simpático Operação Avalanche, dirigido pelo canadense Matt Johnson, que mandou um videozinho igualmente simpático para o público curitibano. Na primeira noite correu tudo bem. Dali em diante, tudo deu errado.

Não no festival que, até onde eu vi, não deixou nada a desejar em organização e essas coisas. Deu tudo errado para mim. De reforma surpresa a contratempo pessoal, tudo aconteceu para me tirar do caminho do cinema.  Dadas as circunstâncias, fiquei feliz por ter conseguido ver quatro longas: o Operação Avalanche, que eu já citei, Panca de Valente, Antonia e A Comunidade.

Operação Avalanche é um falso documentário, feito nos EUA e no Canadá, sobre uma conspiração envolvendo o programa Apollo. Eu gostei, mas, como filme de abertura, não acho que ele tenha conseguido falar muito a respeito do espírito do festival. Matt Johnson, além de dirigir, estrela como um agente da CIA que, a princípio querendo desmascarar um possível espião soviético, acaba liderando as filmagens de um falso pouso americano na lua. Temendo que os soviéticos ganhem a corrida espacial, os jovens agentes decidem que o plano B ideal seria encenar o pouso numa conspiração super secreta. Para isso eles se disfarçam de documentaristas e começam a aprender os macetes das filmagens. É um falso documentário sobre um documentário que na verdade é uma desculpa para espionar, enquanto que a espionagem é só uma desculpa para que o agente da CIA e cineasta frustrado vivido por Johnson consiga dirigir um filme ao mesmo tempo em que finge trabalhar para o governo dos Estados Unidos.

operação avalanche

Operação Avalanche

Pela sinopse, o filme pode parecer muito mais confuso do que realmente é. Acho que dá para resumir tudo à história do entusiasmo de um homem que deseja ardentemente ser cineasta. Mais do que vencer a corrida espacial, ele queria montar cenas dignas de Stanley Kubrick – uma aparição de Kubrick, aliás, rende uma das melhores sequências de Operação Avalanche. O filme é bom e divertido mas tem uns excessos, e por isso eu fiquei com a impressão de que ele poderia ter acabado bem mais cedo.

A mostra Olhar Retrospectivo foi a que mais ganhou a minha atenção quando eu montei a minha programação que deu errado. Eu nunca tinha visto filmes do cineasta brasileiro Luiz Sergio Person, e fiquei bem empolgada para conhecê-los na tela grande. Era bem o tipo de coisa que eu queria de um festival, a cineasta Marina Person viria para conversar sobre os filmes do pai, tudo era ocasião especial. Eu havia quebrado a cabeça para encaixar tantos filmes de Person quanto eu conseguisse no meu caderninho, mas acabei indo ver apenas um: Panca de Valente.

Panca de Valente tem seus momentos datados, mas é um documento importante. É uma paródia faroeste brasileira, que cai muito bem para quem curte os filmes do Mazzaropi. A premissa lembra um pouco a de Banzé no Oeste, e o filme de Person é seis anos mais velho que o de Mel Brooks. Espalha Brasa, uma cidade no interior do Brasil, precisa urgentemente de um novo delegado. Já foram cinco em um mês. Tomada por bandidos que matam os novos delegados assim que eles começam a exercer a função, a cidade não tem lei. Jerônimo, um jeca meio pateta, vai assumir o cargo. Detalhe: ele foi escolhido pelos próprios bandidos por ser meio molenga. Quem interpreta Jerônimo é Chico Martins. A parte boa é que ele é bom na comédia física, a parte ruim é que essa comédia física se dá, na maior parte das vezes, em troca do desconforto dos bichos usados nas filmagens. Isso incomoda bastante. Incomoda também que a (nem tão) discreta afeminação de Jerônimo seja vista de um jeito bem pejorativo. Fora isso, há cenas de comédia ingênua, torta na cara, e há também metalinguagem, espontaneidade e um pouco daquela maneira artesanal de fazer as coisas na raça que só os cineastas sul-americanos parecem ter.

antonia

Antonia

Antonia, de Ferdinando Cito Filomarino, conta a história dos últimos dez anos de vida de Antonia Pozzi, poeta italiana que teve fama póstuma. É uma cinebiografia preocupada em retratar os laços entre a poesia e a intimidade da jovem Antonia. Entre escalada de montanhas, flertes com outra mulher e algumas paixões intensas, Pozzi alimentou seus últimos anos de vida com poesia e fez poesia por causa das paixões que viveu. Duas cenas se destacaram para mim, pela beleza. Uma da poeta brincando de maestro na sala de casa enquanto ouvia música, e outra, um plano bem longo de Antonia (a toda lânguida Linda Caridi) nua, em seu quarto, angustiada pela vida. O longa quer contar a história de uma jovem apaixonada pela vida, e a paixão dela acaba se manifestando como entusiasmo por muitas coisas, inclusive pela pele dos outros. Embora o filme tenha sentimentos profundos, seja todo bonito visualmente e tenha atuações bem boas, ele talvez seja um pouco esquemático demais para o meu gosto.

a comunidade

A Comunidade

O último filme que eu vi, o de encerramento, foi também a melhor coisa que me apareceu nesse festival. A Comunidade, de Thomas Vinterberg, é ao mesmo tempo uma investigação política e um filme de personagem. As atuações são cheias de momentos inesperados e o longa se desenrola num nível de intensidade emocional que chega, às vezes, a fazer a gente esquecer que a comunidade do título é um microcosmo político da espécie de desintegração que vem ocorrendo em muitos países da Europa. Sempre que eu pensava que havia entendido ali um recado fixo, A Comunidade tomava uma direção menos segura e mais abrangente. Assim, embora este seja um filme que realiza um tipo de alegoria, ele não se prende a essa fórmula nem se esquece do valor humano que aparece numa história pequena, envolvendo pessoas. Um casal herda uma casa grande e resolve criar ali, com amigos, uma comunidade. Todos vivem juntos, todos opinam sobre o que é melhor para a convivência.  Através dessa premissa que não chega a empolgar ninguém, A Comunidade faz uma análise da diferença entre o que são os ideais e o que é a natureza humana. Mas o filme não tem o pessimismo que a gente poderia imaginar vir de uma investigação desse tipo e, se eu entendi alguma coisa, termina com um recado bem esperançoso sobre o que é possível fazer num mundo que não tem como dar certo.

No fim das contas eu não vi tantos filmes quanto gostaria, e fiquei me sentindo em dívida com um evento tão legal que aconteceu tão perto da minha casa. Pelo lado positivo, eu pelo menos fui ao cinema quatro vezes em uma semana. Cinco em 10 dias, já que eu me entortei toda para pegar Como eu era antes de você no fim de semana de estreia. Fico me lembrando de 2014, quando  fui ao cinema apenas uma vez, e o filme era Godzilla. Para ajudar mais, o Bryan Cranston morreu nos primeiros trinta minutos.

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