Submissão

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Na semana passada eu li um texto em que Luiz Schwarcz dizia: “o livro não reage bem a procedimentos absolutamente padronizados, a estratégias cheias de generalidades e sem espaço para surpresas. Dessa forma, muitos valores têm se perdido num ambiente que caminha para a bestselerização absoluta das estantes das livrarias”. O texto é uma reflexão de muito valor. É bem triste, ao mesmo tempo, porque se Schwarcz – que é fundador de uma das editoras de maior prestígio no Brasil – está naquele nível de desencanto, a situação não pode estar boa. Eu defendo best-sellers. Conheço gente que defende best-sellers sem lê-los, mas não é o meu caso. Aqui no blog eu já comentei uma dezena de livros que fariam Wilson Martins se revirar no túmulo.

O que eu não achava (e agora estou um pouco incerta pois quem o fala é um cara com muita experiência) era que esses livros feitos aos montes tirassem necessariamente o lugar de outros, daqueles que têm ritmo diferente, outro tempo etc. Eu gosto de pensar que circulo bem entre esses mundos, e achava, meio na intuição, que o público para aquilo que a gente entende por literatura séria sempre foi meio mirrado. Já vi (segura agora uma evidência anedótica!) gente fazer aquela famosa transição da maconha para as outras drogas, ou melhor: já vi uma pessoa que começou em Crepúsculo e foi parar em Anna Karenina num período de dois anos. Daí eu tirei a ideia de que toda leitura é capaz de levar uma pessoa de um ponto a outro. Mas isso não é necessariamente verdade. Quando a gente só lê um tipo de livro, o problema é da gente. Agora, quando só se produz um tipo de livro, que é o motivo da lamentação de Schwarcz, a coisa complica. Eu dou total razão ao editor da Companhia das Letras porque acabei de terminar Submissão, de Michel Houellebecq, na tradução brasileira de Rosa Freire d’Aguiar.

Para dificultar o meu argumento, Submissão foi um best-seller. Mas não vale. O livro trata de uma França, no futuro, em que um partido muçulmano chega ao poder e começa, bem distopicamente, a alterar as estruturas políticas e sociais do país. Mulheres perdem seus empregos, homens podem ter múltiplas esposas, a intelectualidade se rende ao dinheiro de bilionários sauditas. O romance já seria naturalmente polêmico e ainda para mais ajuda calhou de ser lançado no dia (no dia!) do atentado ao Charlie Hebdo. Não é desse tipo de best-seller que Luiz Schwarcz falava.

Submissão é um livro ambicioso. É fácil perceber que não foi feito do dia para a noite. Dá para ver que Houellebecq fez pesquisa e que ele vinha acompanhando de perto a situação política na França e na Europa. É um daqueles romances que pretendem refletir ou discutir, a partir de um personagem ínfimo, muitos aspectos da cultura de um lugar no tempo. A França fez vários deles, talvez tenha sido lá que se inventou a figura moderna do intelectual público, aquele escritor (na filosofia, na ficção) que surge para ser a voz de um grupo, ou de um momento ou de uma geração. Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre ocuparam essa posição, Albert Camus era adorado no final dos anos 1940, na internet circulam várias fotos de Michel Foucault com megafone na mão, político, público, célebre.

Michel Houellebecq não tem esse status, pelo jeito não tem uma obra da importância daquelas, mas o livro trata de uma questão complexa que interessa ao povo francês, ao continente europeu e, por vício nosso ou naturalmente mesmo, ao mundo inteiro. Vieram daí a celeuma e o lugar nas listas de mais vendidos. Polêmica vende muito e a gente sabe que a mídia grande geralmente trata as questões complexas de uma maneira bem simplista. Por causa disso, Houellebcq “foi acusado por uns de xenófobo, por outros de dar suporte à forte presença do Islã na França”, como diz a matéria com ele que o programa Milênio, da Globo News, fez no ano passado.

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Eu acho que essas duas afirmações são muito histéricas. Uma é mais. Eu não sei o que o jornalismo da Globo consultou para citá-las, mas não preciso de muito para acreditar que foram feitas. Houellebecq é xenófobo porque ele trata de muçulmanos franceses com origens fora da França e porque a inclinação política dele é à direita. Eu compreendo esta crítica, embora nesses termos ela não signifique nada. Agora, apoiador do Islã é um pouco mais difícil. E é aí que entra a parte do Luiz Schwarcz.

François, o narrador-personagem de Houellebecq, é um professor universitário de relativo sucesso. Ele é um intelectual pouco politizado, solteiro, emocionalmente distante das pessoas com quem se envolve. O detalhe mais gostoso é que ele é muito escroto. Ele é capaz de racionalizar qualquer coisa contanto que possa tirar proveito dela. Desconfia, por exemplo, que talvez não seja mesmo desejável que mulheres trabalhem. Quando lhe é conveniente, chega a pensar que a estrutura familiar da versão do Islã apresentada no livro é melhor e mais capaz de gerar bem estar do que essa versão moderna de família a que nos acostumamos no Ocidente e nos entornos dele. Reflete sobre a comodidade de ter várias esposas: uma mais velha para o serviço doméstico, outra adolescente para o sexo, e por aí vai. François se converte à nova religião oficial só porque a virada ideológica que vem com ela lhe garante uma vida de vantagens que ele não teria de outra maneira. Em Submissão Houellebecq sentou para escrever a história de um homem deslocado.

E a gente sabe que tem acontecido uma coisa estranha com o homem deslocado. Ele é, ao mesmo tempo, o cara que sai da periferia de uma cidade europeia para se juntar ao Estado Islâmico; o comentarista de portal; o cara que faz campanha por Donald Trump naquelas de “make America great again”; o cara que persegue feministas nas redes sociais; o cara que entra atirando numa escola; a lista é longa e talvez infinita. Uns são piores, outros são relativamente inofensivos.

A diferença fundamental é que esses homens surtam quando percebem que o mundo não vai marchar de acordo com suas convicções. Para François, essa fase já passou. Ele não tem tendência à violência nem é jovem. Sabe que é privilegiado, com rendimentos que a maioria da população não tem. Ele não se converte apaixonadamente, nem vai virar homem bomba. Ele vai com a maré porque é cínico, sujo e não consegue se colocar no lugar dos outros. Por habilidade de Houellebecq, porém, esse narrador não coloca as coisas nessas palavras superficiais que a gente usa para provar um argumento. Em Submissão narrador e autor dizem coisas bem diferentes. Houellebecq monta esse narrador-personagem como que pelas omissões e ausências no que ele diz. Quando François defende o indefensável, Houellebecq quer expor a desonestidade de uma classe inteira. Eu tive a impressão, por exemplo, de que ele tem verdadeiro nojo da esquerda contemporânea. Enquanto isso, François é apático e desapaixonado. Só se empolga quando trata de bundinhas e ppks (nessas horas dá para ver que Houellebecq se empolga junto) – o livro tem, aliás, uma das cenas de sexo mais horrorosas e constrangedoras que eu já li.

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Só que, voltando à parte do Luiz Schwarcz, livros não reagem bem a procedimentos absolutamente padronizados. Submissão não é um best-seller que se escreve consultando manuais de storytelling. O romance aponta em várias direções até contraditórias, tem coisas que não ganham explicação suficiente, outras que não se encaixam bem ao quadro geral. Naquela mesma entrevista para a Globo News, Houellebecq disse ter escrito um livro para expressar o pior medo de muita gente, à moda de 1984 ou Admirável Mundo Novo. Acontece que, para a felicidade do leitor que gosta de coisas esquisitas, a criação desse futuro próximo em que a França é dominada pelo Islã é bastante irregular. Tudo se dá num registro realista demais para que seja possível comprar a ideia da distopia à 1984, e isso acaba jogando esse futuro para o território estrito da sátira política, desses livros que querem ser mais comentário social do que literatura de ficção. Mas Submissão não é exatamente isso: o personagem principal não é quadrado o suficiente para representar só uma metáfora. Quando você compra a ideia de um futuro distópico, surge um elemento mundano para fazer lembrar que não é bem por aí; quando você acha que está apenas lendo uma análise política verossímil do cenário eleitoral francês, acontece algo absurdo o suficiente para ser inimaginável na vida real. Seria exagero dizer que o núcleo do romance é indefinível, mas é muito bom lembrar que faz mal demais simplificá-lo ao nível da polarização, tipo: ou ele é xenófobo ou é apoiador do Islã.

Submissão foi um best-seller graças a um banho de sangue e a um imbróglio cultural e político muito difícil de resolver. O livro não trouxe solução para nada, mas levantou questões profundas o bastante para que qualquer resposta rápida fique difícil. De repente, uma absoluta padronização dos livros que produzimos pode acabar criando uma incapacidade de reflexão sobre as coisas que não são exatamente padronizadas. Por enquanto, ainda tem muito livro por aí.

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