The Diary of a Teenage Girl

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Eu tenho que confessar que já vi tudo o que tem a cara da Kristen Wiig e que já tive uma forte queda pelo Alexander Skarsgard, quando ele era o Eric de True Blood. Por causa dos dois eu coloquei The Diary of a Teenage Girl na lista dos filmes que eu mais queria ver em 2016. E esqueci ele lá. Fui assistir agora e fiquei surpresa quando, em vez de prestar atenção só nos atores que eu conhecia e que me despertaram o interesse, eu acabei comprando totalmente a ideia do filme, envolvida pela história e cativada pela atriz principal, que eu não conhecia: Bel Powley.

Em The Diary Powley interpreta Minnie, uma adolescente (oh, que surpresa!) com problemas de autoestima, obcecada por quadrinhos e sexo. Quem estiver interessado no filme não precisa de uma sinopse maior que essa. Por outro lado, também consigo imaginar que muita gente tenha bronca desse tipo de história. O cinema americano tem, além das coisas hollywoodianas, uma tradição de filmes pequenos sobre temas banais. Acho que muita gente cansou deles. A própria Kristen Wiig esteve em vários que não vão a lugar algum e ficam ali num meio termo entre o comercial e o alternativo: eles claramente não vieram ao mundo para ter a bilheteria de um Capitão América, mas também não parecem dispostos a fazer muito para fugir do lugar comum. O resultado é aquela coisa meio chocha, que quando a gente vê no cinema fica pensando que teria sido melhor ficar em casa.

Mas, para quem tem essa ressalva, eu posso dizer: não é esse o caso de The Diary. Aqui temos a já tradicional família disfuncional americana aprontando das suas nos anos 1970: a mãe de Minnie, interpretada por Wiig, é meio bagunceira e um pouco egocêntrica, a casa não funciona às mil maravilhas, para esse pessoal o diálogo não é bem o jeito de resolver as coisas; Minnie se encanta pelo namorado da mãe, interpretado por Skarsgard, e acaba transando com ele. Ela tem  quinze anos e isso poderia ser uma ponte para o filme pegar um caminho sombrio,  reflexivo e sério mas não é o que acontece. O que é excelente.

Mesmo quando Minnie corre o risco de desandar emocionalmente, ou de tomar decisões que podem machucá-la até fisicamente, o filme se recusa a abandonar sua característica mais interessante: nada escapa de uma boa dose de ridículo. Eu acho isso muito bom por dois motivos. Primeiro, porque acho que a vida é um pouco assim. Depois, porque não é sempre que o cinema americano se dispõe a encarar as circunstâncias com esses ares pouco grandiosos. É mais capaz de acontecer o contrário: até quando o problema de que um filme trata é ínfimo, comumente vai aparecer gravidade, tensão e drama mesmo onde não precisava. Nessa hora a gente, no Brasil, fica pensando que americano é meio bocó e muito sensível.

Mas o caso de Minnie não é uma besteira. Um adulto manteve relações sexuais com ela. Um homem feito, muito diferente dos garotos que frequentam a escola. Embora o filme dê pistas de que isso é inaceitável e perigoso, quando Minnie encara e pensa sobre o que vai lhe acontecendo como mulher, o filme quer nos fazer pensar que aí está um sinal de crescimento. Por causa disso, The Diary vira uma dessas histórias de despertar da juventude, de fim da infância e começo da vida adulta. Mesmo quando não sabe exatamente o que quer, Minnie já parece ter um tipo de projeto de autoconhecimento. Apesar das ilusões comuns à idade, e da bizarrice que é a relação com um adulto, em muitas situações a iniciativa é dela: ela é vítima do próprio desejo de experimentar, e quando erra, a lição que este erro traz não a condena a se retrair ou parar de tentar. Assim, The Diary é, entre esses filmes americanos pouco pretensiosos, um dos menos moralistas que eu já vi. Simplesmente não há julgamentos maniqueístas nem de Minnie, nem dos personagens secundários, nem da sociedade americana. Tudo é visto ao mesmo tempo com a complexidade das coisas que são difíceis de resumir e com as limitações que o olhar de uma adolescente traz para qualquer assunto.

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Para transmitir essa confusão de sentimentos, a atuação de Bel Powley é essencial. Eu não a conhecia e agora gostaria de ver a cara dela em tudo.Ela é bonita de um jeito esquisito, e eu acho que ela tinha uma missão difícil pela frente. Como eu disse, Minnie é obcecada por quadrinhos e sexo. Ela tem pretensão como desenhista e quadrinista, e, como ela diz a certa altura, só pensa em homens e sexo. Powley consegue fazer uma personagem ao mesmo tempo perdida e sexy, frágil e predadora, inconsequente e amorosa. Você percebe quando ela está se achando linda e quando a autoestima está lá no buraco. Claro, isso também é mérito de Marielle Heller que adaptou e dirigiu o filme, baseado em livro/graphic novel de mesmo nome, escrito por Phoebe Gloeckner. O texto é inteligente e não peca por fórmulas em excesso. A caracterização, os cenários, as inserções de desenhos dos quadrinhos, as luzes e cores te levam aos anos 1970.

Por fim, eu achei que The Diary of a Teenage Girl é reflexivo, envolvente e é bom entretenimento. Tem uma mensagem de autoestima e independência muito clara, e eu já a tinha comprado quando, lá pelas tantas, o filme decide meio que voltar a se explicar, como se a mensagem tivesse sido fraca e o filme precisasse desenhá-la. Isso também é um vício do cinema americano, mas não chegou a atrapalhar. Espero mais coisas dirigidas por Marielle Heller e espero entrar num relacionamento sério com Bel Powley.

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