A mulher que roubou a minha vida

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Foi no início de 2010 que a Marian Keyes entrou em minha vida. Pode me chamar de curiosa e intrometida, mas eu não consigo ver alguém lendo um livro sem tentar descobrir do que se trata pela capa. No ônibus, tinha uma menina lendo Um bestseller pra chamar de meu. Naquele tempo eu andava lendo devagar-quase-parando, e estava um tanto inconformada por não achar um livro que me empolgasse muito. 2010 acabou sendo o ano em que eu voltei a me empolgar com a leitura. Conheci a Jane Austen e a Charlotte Brontë, mas antes, graças àquela menina do ônibus eu encontrei o que estava procurando. Foi amor à primeira vista. Pela Marian Keyes, no caso: ela me mostrou o mundo da chick-lit.

Comecei por Melancia. Senti logo de cara que ela escrevia de forma bem singular. De lá para cá, li tudo o que ela publicou e me identifiquei com todas as protagonistas,  mesmo as que, a princípio, não têm nada a ver comigo. Eu não sou a leitora típica de nada, e ela também não é a típica escritora de chick-lits. Por trás do humor e da atenção aos relacionamentos amorosos que são típicos dos romances do gênero, a Marian Keyes consegue colocar um tema sério, verdadeiro e atual em cada livro – e é capaz de a gente nem perceber, se não prestar atenção, de tão divertidos e envolventes que eles são. Ela tem um jeito peculiar de contar histórias e, se é possível que alguém diga que isso acaba deixando todos os livros muito parecidos, também dá para dizer que isso não é necessariamente um defeito: uma vez que você embarca naquele universo, é justo isso que você deseja. É como encontrar um lugar muito gostoso que você adora visitar.

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Família Walsh completa!

Para mim, o ponto alto da carreira de Marian Keyes é Férias!. Faça-se um favor: compre este livro e conheça Rachel e Luke. Acho difícil que eu encontre um casal que eu ame tanto quanto amo esses dois, mas esse é o meu objetivo quando fico sabendo de um lançamento dela. Foi por querer encontrar personagens à altura de Rachel e Luke que eu dei um pulo de alegria quando soube que estava para sair, no Brasil, A mulher que roubou a minha vida. O livro foi lançado no fim de 2015, de novo pela Bertrand Brasil, mas eu só consegui ler agora em janeiro. E olha, posso adiantar que as protagonistas de Férias! e do livro novo têm suas semelhanças. Elas são engraçadas, carismáticas e atrapalhadas, mas não posso dizer que não passei momentos de pura angústia com as duas.

A mulher que roubou a minha vida é dividido em três partes, mas dá pra pensar nele em duas. No primeiro momento sabemos da doença rara que paralisa todos os membros de Stella, a narradora, e que a deixa no hospital por um bom tempo; no segundo momento, ela viaja para Nova York para lançar o livro que escreveu depois de se recuperar. Mas estamos falando de Marian Keyes: a hora do perrengue pode ser engraçada, assim como a da glória pode ser… não tão gloriosa.

Eu li o livro sem saber nadica da história, e foi muito bom, porque era surpresa atrás de surpresa – até a metade eu não tinha a menor ideia do que estava por vir. Achei que a doença rara de Stella ia ser o ponto central da trama, mas me enganei feio. Detestei, depois gostei, depois não gostei do mocinho – e não falo da minha opinião final para não influenciar a sua opinião. Acho que os interesses amorosos são os personagens mais diversificados do universo da Marian Keyes. Não digo mais para não estragar.

Sabe aquela personagem que você adora, mas que é de dar nos nervos? Que dá vontade de estapear e gritar “ACORDA!”? Pois é, Stella é assim. Ela não tem uma autoestima muito boa. Eu sei que muita gente foge de personagens assim, mas acho que acaba sendo um mérito da autora quando ela consegue libertar um sentimento desses no leitor. Não me incomoda acompanhar uma protagonista sem pulso, desde que toda a trama dê um significado para o jeito de ela ser. O importante é ter propósito. E aqui em A mulher que roubou a minha vida, o complexo de inferioridade de Stella e as atitudes resultantes disso fazem todo o sentido.

Ela vem de uma família da classe operária de Dublin e sua criação sempre foi a de uma pessoa pragmática e simples, mas isso acabou sendo tão extremo, que de repente aquilo que era humildade virou falta de amor próprio. Em vários momentos vemos alguém dizer que Stella não é tão boa em algo, e ela simplesmente concorda e não se magoa: apenas concorda, como se isso fosse verdade absoluta e não fosse nada de mais. A única pessoa a dizer o contrário, é claro, é o mocinho da história. Mas como convencer uma mulher, que passou a vida inteira sem saber aceitar elogios, de que ela pode ter muito valor? Essa vai ser a jornada desses dois e, claro, no meio disso muitos outros personagens vão aparecer para atrapalhar, como o filho mimado de Stella e uma “amiga” que quer justamente o que Stella está conseguindo.

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Eu adoro os Walsh – a família que aparece em muitos dos romances da Marian Keyes –  e tenho um carinho especial pelos livros em que eles dão as caras (Melancia e Férias!, por exemplo) mas encontrei um amor novo pelos personagens de A mulher que roubou a minha vida. O que Stella passou na UTI, assim como a fase da vida em que ela está – que, não por acaso, coincide com a da autora –, tudo conseguiu ser emocionante e engraçado, despretensioso e ao mesmo tempo profundo. Desde que a conheci em 2010, eu já me sentia unha-e-carne com a Marian Keyes. Agora, eu mal posso esperar para encontrá-la de novo.

 

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